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Leandro Vilar

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Diabo e a sociedade europeia na Baixa Idade Média (XI-XV)

Embora ainda hoje o senso comum atribua de forma equivocada, estereotipada e preconceituosa a noção de "Idade das Trevas" para o período medieval europeu, e apesar de a historiografia inglesa utilizar o termo Dark Age em referência a Alta Idade Média (V-X), curiosamente, obras teológicas, literárias e laicas que versavam sobre o Diabo, demônios, pecado, heresia, Deus etc., assim como, o surgimento das Cruzadas, das Inquisições, o Milenarismo, a Peste Negra e o início da Caça às Bruxas, somente começaram na Baixa Idade Média, período que de fato passou a se falar de uma "sociedade de Satanás". De fato, muitos aspectos que hoje as igrejas cristãs possuem a respeito do papel do Anjo Caído como a personificação da maldade, tomou forma entre os séculos XI e XV, e a partir de tal recorte temporal, esse texto se propôs a comentar a respeito da visão teológica, social e cultural da Europa Ocidental, acerca da presença do pecado e do Diabo nas sociedades europeias. 


Vitral do século XII, da Igreja do Bom Pastor, França, representando demônios atirando um condenado ao fogo do Inferno. 
O surgimento das "três ordens" e os "estados sociais":

O historiador Jacques Le Goff em alguns de seus livros costumava assinalar que ainda possuíamos uma ideia equivocada e estereotipada de pensar o homem medieval como uma categoria, concebendo-o como alguém a-histórico, ou seja, não passível das mudanças do tempo, da sociedade e da cultura. Essa visão ainda hoje perdura mesmo na universidade. Todavia, Le Goff (1987, p. 9-11) salientava que devemos pensar em homens medievais e mulheres medievais, e neste caso, pensá-los no ponto de vista europeu, pois o africano e asiático já possui suas diferenças. Neste caso, os "homens medievais" que Le Goff referia-se tratava-se de uma forma de procurar conceber a diversidade de ideias, pensamentos, comportamentos, ofícios, condições sociais, habilidades, possibilidades, preconceitos, moralidade, crenças, etc. 

Para entender como as sociedades medievais da Baixa Idade Média estavam suscetíveis as influências demoníacas, é preciso retornar no tempo pelo menos até o século VIII, quando começou a se delinear o conceito das "Três Ordens" que imperaria entre os séculos X ao XII. Nesse ponto Georges Duby (1994) menciona que construiu-se a ideia de que a sociedade medieval estivesse dividida em três ordens: aqueles que oram (oratores), os que lutam/governam (bellatores) e os que trabalham/servem (laboratores). Mas essa concepção já havia sido parcialmente delineada no século VIII, como visto nessa citação do papa Zacarias ao rei franco Pepino, o Breve:


“Aos príncipes, aos homens do século e aos guerreiros (bellatores) cabe o cuidado de vigiar a astúcia dos inimigos e defender o país: aos bispos, aos padres e aos servidores de Deus, cabe agir por meio de conselhos salutares e orações – para que, graças a Deus, nós orando (oratibus), aqueles combatendo (bellantibus), o país permanece livre”. (DUBY, 1994, p. 98).

Nessa fala do papa Zacarias nota-se a concepção de segmentos da sociedade, especialmente o clero e a elite política e militar, os quais representavam as duas potências que regiam a sociedade naquele tempo: o poder temporal (Igreja) e o poder secular (Estado). Posteriormente por volta do século IX viria a se instituir a terceira ordem, a dos trabalhadores (laboratores), a plebe, os serviçais. Nesse ponto o bispo francês Adalberão de Laon (?-1030) defendia a organização em três ordens e não duas. Seria um triângulo, ou mais exatamente uma pirâmide social. Tal condição é importante para entender a problemática religiosa que será desenvolvida na Baixa Idade Média. (DUBY, 1994, p. 102). 

Ilustração francesa do século XIII, representando as três ordens medievais: o clérigo, o nobre guerreiro e o plebeu. 
Le Goff (2005, p. 263-264) assinala que a partir do século XIII a estrutura das três ordens começou a se flexibilizar, e essa flexibilização fazia parte das mudanças sociais vistas nos últimos séculos na Europa. Ao invés de se falar de ordens, passou a se falar de "estados", neste caso, concebendo-os a partir não de um ponto de vista do poder temporal e secular, mas do ponto de vista da condição sócio-profissional. Isso era reflexo do declínio do feudalismo, da da expansão mercantil, da revitalização da urbanidade, de mudanças comportamentais, sociais, culturais, teológicas, econômicas etc. O clero passou a ser visto a partir de sua hierarquia e não mais uma categoria geral. 

A nobreza também era vista pelos seus títulos nobiliárquicos e militares, assim como, os cargos por eles assumidos. No caso da terceira ordem essa foi quem mais sofreu subdivisões, inserindo-se vários "estados": camponeses, servos, artesãos, burgueses, profissionais liberais, mercadores, etc. Essa divisão foi essencial para postulações teológicas que explicavam como a heresia e as influências diabólicas se espalhavam pela sociedade, nas mais diferentes camadas sociais. (LE GOFF, 2005, p. 264). 

A concepção cristã da humanidade: 

Aqui refiro-me a humanidade não no sentido de população e espécie humana, mas na essência do ser humano. No caso do medievo, por volta do século XIII, grande parte da Europa já havia sido cristianizada, e apesar de que nem todos os homens e mulheres fossem plenamente devotos, fanáticos, supersticiosos, libertinos, descompromissados, etc., essencialmente eram pessoas crentes, aqui no sentindo de independente de sua devoção, todos possuíram algum tipo de fé. E quando falo em fé não me refiro apenas ao catolicismo, mas também ao judaísmo, islã, ortodoxia e crenças pagãs que se mantiveram.


“Para a antropologia cristã medieval o que é, então, o homem? É a criatura de Deus. A natureza, a história e o destino do homem conhecem-se, em primeiro lugar, no livro do Gênesis, no início do Velho Testamento. No sexto dia da criação, Deus fez o homem e conferiu-lhe, explicitamente, o poder de dominar a natureza, flora e fauna, que lhe forneceriam o alimento. Por isso, o homem medieval está vocacionado para ser senhor de uma natureza dessacralizada, da terra e dos animais. Mas Adão, instigado por Eva que, por sua vez, tinha sido corrompida pela serpente, isto é, pelo mal, pecou. A partir daí, dois seres habitam nele: o que foi feito «à imagem e semelhança de Deus» e o que, tendo cometido o pecado original, foi expulso do paraíso terrestre e condenado ao sofrimento — que, para os homens, se concretiza no trabalho manual e, para as mulheres, nas dores do parto — à vergonha, simbolizada pelo tabu da nudez dos órgãos sexuais, e à morte”. (LE GOFF, 1987, p. 11). 

“Conforme a época, a cristandade medieval insistia ou na imagem positiva do homem, ser divino, criado por Deus à sua semelhança, associado à sua criação (já que Adão deu nome a todos os animais), chamado a encontrar de novo o paraíso perdido por sua culpa, ou na sua imagem negativa, a do pecador, sempre pronto a sucumbir à tentação, a renegar Deus e, por conseguinte, a perder o paraíso para sempre, a mergulhar na morte eterna. Esta visão pessimista do homem, fraco, vicioso, humilhado perante Deus, está presente em toda a Idade Média, mas é mais acentuada durante a alta Idade Média, desde o século IV ao século X — e ainda nos séculos XI e XII —, ao passo que, a partir dos séculos XII e XIII, tende a dominar a imagem optimista do homem, reflexo da imagem divina, capaz de continuar a criação na terra e de se salvar. A interpretação da condenação ao trabalho, do Gênesis, domina a antropologia da Idade Média”. (LE GOFF, 1987, p. 11). 

Observar-se nessas citações de Jacques Le Goff algumas concepções mentais que a população medieval cristã possuía: a ideia de que o homem e a mulher eram criaturas de Deus, abençoadas no início com Adão e Eva, mas depois condenados pelo Pecado Original. Essa concepção de pecado original, da mundanidade e impureza do corpo, da sacralidade da alma, do trabalho como uma virtude, mas também como uma obrigação e até punição, continuam regularmente rondando o imaginário das sociedades medievais cristãs na Europa. 

Mas além dessas características apontadas por Le Goff, o historiador Marc Bloch (1998, p. 104) também assinalava outras características: a sociedade cristã medieval era de pensamento teleológico religioso, pois acreditava que determinados acontecimentos da vida, fossem bons ou ruins, estariam relacionados com Jesus, Deus e o Diabo. Alguns acreditavam em destino, outros chegaram a se tornarem fanáticos e histéricos pelo medo do Apocalipse, algo que ficou bastante em evidência na transição do século X para o século XI, conhecido como a época dos movimentos milenaristas, os quais pregavam que o Juízo Final ocorreria por volta do ano 1000. 

Não obstante, a crença que coisas boas e ruins pudessem ser resultado de desígnios divinos era mais comum do que se imaginava. Tratava-se de uma sociedade maniqueísta. No caso de acontecimentos ruins, durante o XIV, no qual ocorreu os grandes surtos da Peste Negra e depois no século XV, quando teve início a Caça às Bruxas, nesses dois acontecimentos, acreditava-se que fatores divinos estivessem em atuação. Satanás foi acusado de ter gerado a maldita peste e de está corrompendo as mulheres para se tornarem bruxas.


“Na verdade, abaixo do Deus único, e subordinadas à sua Omnipotência - sem que, aliás, o alcance exato desta sujeição fosse representado - o comum dos homens imaginava, em estado de luta perpétua, as vontades opostas de uma multidão de seres bons ou maus: santos, anjos, especialmente demônios. «Quem sabe - escrevia o padre Helmold - se as guerras, os furacões, as pestes, todos os males, na verdade, que se abatem sobre o gênero humano, não são obra do ministério dos demônios?» As guerras, note-se, são citadas à mistura com as tempestades; os acidentes sociais, portanto, estão no mesmo plano daqueles que hoje classificaríamos como naturais”. (BLOCH, 1998, p. 105). 

Além dessas características existem outras, mas uma que merece aqui destaque, e que estará diretamente relacionada com esse estudo, diz respeito a concepção cristã daquela época quanto a natureza do corpo. Para a teologia medieval o corpo era o invólucro corrupto da alma, apesar de ser a "casa" pela qual o espírito imortal habitaria neste mundo, o corpo era frágil de distintas maneiras, e algumas dessas fragilidades diziam respeito as "tentações da carne". 

O corpo foi visto de distintas formas ao longo do medievo, algo que Jacques Le Goff e Nicolas Truong no livro Uma história do corpo na Idade Média (2003) deixaram explicado de forma abrangente tais concepções. Aqui sublinhando algumas, os autores comentam como a questão do trato com o corpo, com a beleza, a fisiologia humana, as doenças físicas e mentais, etc., era complexa. 

O sexo deveria ser apenas para procriação, não para satisfação, pois seria luxúria. Logo tivemos uma forte influência moral da Igreja em procurar conter o impulso sexual no clero que era obrigado a fazer voto de celibato (embora que nem todos obedecessem de fato tal voto), mas de impor aos que não eram clérigos, manter a castidade até o casamento, não fornicar, não adulterar, não ser promíscuo, não ser bígamo, não ser poligâmico, não ser homossexual e nem luxurioso. No caso da beleza feminina essa foi concebida para personificar uma "beleza casta", não uma beleza sensual ou erótica. Somente com o Renascimento tal visão começou a mudar. 

Por outro lado, havia alegações que as doenças eram punições, inclusive por muito tempo vigorou a ideia de que os leprosos eram pessoas tão pecadoras, que Deus os puniu a carregar na carne as chagas da lepra. Entretanto, havia quem demonstrasse grande piedade e solidariedade aos doentes, alegando que estes haviam sido vítimas de Satã ou de magia negra. 

No caso da mulher essa foi quem mais sofreu com a visão teológica acerca do corpo. Para o clero que escreveu a respeito, a mulher tornou-se naturalmente inferior biologicamente, intelectualmente e emocionalmente frágil. Tais características tornavam as mulheres mais propensas a serem pecadoras, a serem tentadas, a serem influenciadas por pessoas más e no século XV, tornou-se uma das características fundamentais para explicar por que as mulheres aderiam a bruxaria. 

Dessa forma, os cristãos do medievo europeu se viam num mundo dicotômico, conservador, moralista, mas também hipócrita, ignorante, contraditório e flexível. Ainda assim a ideia de que todos guardavam a herança do Pecado Original de Adão e Eva, o qual havia lhes maculado o corpo (criado perfeito por Deus), tinham que conviver com as durezas da vida, os perigos e as tentações. 

O pecado:

O tema do pecado para a Igreja Medieval é bastante amplo ao ponto de haver livros específicos para abordá-lo, aqui eu trouxe algumas conceituações simples para poder abordá-lo. Por mais que muita coisa que a doutrina cristã possua acerca de pecado esteja contida na Bíblia, se fez necessário os teólogos dissertarem a respeito, debater, analisar, reformular, conceituar e até mesmo procurar definir com clareza o que seria ou não pecado. Pois determinadas posturas criticadas no Antigo Testamento tinham validade para a cultura judaica, mas os cristãos não eram mais judeus, era uma outra religião. Logo não havia necessidade de determinadas proibições impostas aos judeus terem que ser adotadas pelos cristãos, daí a necessidade de repensar para o ponto de vista da teologia cristã como o pecado se manifestaria. 

No caso dos conhecidos Sete Pecados Capitais: gula, avareza, preguiça, ira, inveja, luxúria e soberba, estes inicialmente eram em número de oito e foram listados pelo monge Evágrio do Ponto (c. 346-399/400) em seu livro Origens Sagradas de Coisas Profundas. No século VI o papa São Gregório Magno (540-604) revisou os pecados capitais e os definiu em número de sete como hoje conhecemos. Apesar de o papa Gregório ter postulado essa lista de supostos pecados que mais comumente incidiriam sobre a humanidade, não significa que eles fossem os únicos ou que as pessoas se guiassem por tal lista. 

Ao longo da história surgiram trabalhos abordando a ideia do mal, do pecado, da heresia, etc. Nos séculos XIII e XIII, período do recorte desse estudo, encontra-se outro trabalho interessante falando sobre os pecados que comumente incidiriam sobre as pessoas, mas partindo de um ponto de vista da condição sócio-profissional. Jacques Le Goff (2005, p. 265) menciona um fólio florentino do século XIII que listava os pecados mais comuns associados a determinados "estados sociais". Tais pecados as vezes eram referidos como "Filhas do Diabo"
  • A simonia - clérigos seculares
  • A hipocrisia - clérigos regulares (monges)
  • A rapina - cavaleiros
  • O sacrilégio - camponeses
  • A simulação - guardas
  • A fraude - mercadores
  • A usura - burgueses
  • A ostentação - matronas (mulheres ricas)
  • A luxúria - qualquer um
Se faz necessário comentar um pouco a respeito dessa lista de pecados para entender porque a associam dessas "Filha de Satã" com estes "estados" em particular. Primeiro, no que diz respeito a simonia, tratava-se de um crime regular na história da Igreja, que inclusive foi detratado por Martinho Lutero em suas 95 teses em 1517. A simonia sofreu perseguição entre o clero católico, mas nunca foi abolida. Tratava-se da venda, negociação e troca de favores, cargos eclesiásticos, indulgências, sacramentos, relíquias, etc. Dante Alighieri na Divina Comédia (1321) já condenava a simonia como o "comércio da fé". Aqui empregando claramente comércio num sentido ruim. Neste caso, normalmente a simonia era mais praticada pelo clero secular (padres, bispos, arcebispos, cardeais, papas, etc.), os quais poderiam negociar favores e vantagens pelos mais distintos interesses, em geral fatores de ordem política, econômica e pessoal. 

No caso da hipocrisia essa incidia principalmente sobre o clero regular, ou seja, os clérigos que adotavam vida monástica, pois alegavam que estes não observavam seus votos, agindo de forma hipócrita. 

A rapina que aqui se refere a roubo, assalto, pilhagem, saque, etc., que eram comum nas ações de guerra. Inclusive houve várias denúncias de cavaleiros que não se importavam de cometer atrocidades quando invadiam uma vila, feudo ou cidade. 

O sacrilégio era mais comum aos camponeses por estes serem considerados ignorantes e supersticiosos. Ao longo da história da Igreja, encontram-se documentos de bispos, cardeais e papas reclamando da falta de pudores dos camponeses os quais blasfemavam contra Deus, a Virgem Maria, Jesus, os santos, o papa e os clero em sim. Reclamavam também da falta de assiduidade destes as missas, as confissões, além de respeitar as liturgias como a Quaresma. Não obstante, também havia casos de reclamações da Igreja pelo fato dos camponeses ainda manterem práticas pagãs, algo que causou muito problema nos séculos XIV e XV, quando distintos papas começaram a demonizar o uso da magia e incentivar as inquisições a combater tais heresias. 

No que se refere a simulação dos guardas essa estaria relacionada ao pecado capital da preguiça (indolência). Os guardas, os noturnos, recebiam reclamações de não estarem realizando seu serviço. Ao invés de manterem-se de prontidão, de vigia, eles procrastinavam, dormiam, eram relapsos com o trabalho, passando o tempo a conversar, jogar e as vezes a beber escondido. 

A fraude tornou-se bastante comum na Baixa Idade Média, pois com a revitalização da economia continental, produtos de distintos locais da Europa e até mesmo advindos da África e da Ásia passaram a circular mais regularmente por determinadas rotas comerciais, apesar de que as mercadorias importadas eram apenas compradas pelos ricos, ainda assim, houve em certos casos a criação de um "mercado pirata". 

A usura tornou-se um dos crimes acusados por Lutero em suas teses, porém, desde o século XII, pelo menos, já era condenada por segmentos da sociedade. Na Bíblia o trato da usura é ambíguo. Em Êxodo 22.25, Levítico 22.35-37 recomenda-se não praticar a usura, ou seja, emprestar dinheiro e depois cobrar juros excessivos, de forma a comprometer a renda de quem está em dívida, mas ao mesmo tempo agindo de má fé para enriquecimento próprio. Porém, em Deuteronômio 23.20 recomenda-se não cobrar usura dos compatriotas, mas apenas dos estrangeiros. Ainda assim, as várias citações bíblicas a respeito da usura, não recomendavam essa prática, no entanto, na Idade Média a usura tornou-se um pecado relacionado principalmente aos burgueses, por estes serem um "estado" em ascensão entre os séculos XII ao XVI. 

No caso, a burguesia diferente da nobreza que detinha sua riqueza advinda das propriedades rurais, algo legado de geração em geração, os burgueses construíram suas riquezas com base nas atividades liberais e no comércio. Alguns inclusive criaram posteriormente bancos, casas de câmbio, casas de penhor, casas de agiotagem, etc. A respeito disso existe um sermão inglês do século XIV bem curioso que aborda essa visão negativa sobre a burguesia e a usura: "Deus fez os clérigos, os cavaleiros e os lavradores, mas o demônio fez os burgueses e os usurários". (LE GOFF, 2005, p. 263). 

A ostentação está relacionada com a vaidade e a soberba, entretanto, o curioso é que tal pecado era normalmente cometido pelos nobres, burgueses e até mesmo pelo alto clero, porém, devido a misoginia daquele tempo, acabou por associar a ostentação as mulheres ricas, as matronas, por se alegar que as mulheres estariam mais facilmente tentadas pelo materialismo como roupas, móveis, joias, etc. 

Por fim, quanto a luxúria essa foi um problemática geral, rico ou pobre, nobre ou plebeu, leigo ou clérigo, todos estavam suscetíveis ao pecado da luxúria, ainda mais se pensarmos que se tratava de sociedades moralmente condicionadas por preceitos religiosos a conceber a nudez como imoralidade e a sexualidade como um pecado. 

Diferentes autores clérigos do período medieval escreveram acerca desse embate diário do ser humano entre resistir a tentação e ceder ao pecado. 

“O homem é o local da batalha em que se empenham, para a sua salvação ou para a sua condenação, os dois exércitos sobrenaturais, prontos, a cada’ momento, para o agredir ou socorrer: os demônios e os anjos. O local da batalha é a sua alma, que certos autores medievais descrevem como o palco de um renhido jogo de futebol entre uma equipa diabólica e uma equipa angélica. O homem medieval é também a imagem da sua alma sob a forma de um pequeno homem que S. Miguel pesa na sua balança, sob o olhar atento de Satanás, sempre pronto a fazer inclinar o prato para o lado desfavorável, e de um S. Pedro, sempre pronto a fazer inclinar o prato favorável”. (LE GOFF, 1987, p. 12).

Pintura representando São Miguel Arcanjo segurando uma balança com duas pessoas. A imagem simbolizava a ideia de que o ser humano poderia ser apoiado por um anjo ou um demônio, e dependendo de quem ele decidisse dar ouvidos, isso influenciaria em sua vida. 
Tais características levaram ao surgimento da penitência, como forma de tentar abrandar seus pecados. De fato grande parte da população medieval não praticavam nenhuma penitência, alguns mesmos não tinham o hábito de ir se confessar, daí que o IV Concílio de Latrão (1215) instituiu que todo o cristão deveria pelo menos uma vez no ano, ir se confessar. A confissão com o padre era uma forma do cristão medieval apresentar suas culpas, conversar a respeito, ser repreendido, ser instruído a não voltar a pecar, assim como de também ser absolvido. (LE GOFF, 1987, p. 13). 

Por outro lado havia outras formas pelas quais as pessoas procuravam cumprir penitência: realizar peregrinações a lugares santos como Roma (Itália), Santiago de Compostela (Espanha), Jerusalém (Israel), etc., pois essas longas viagens seriam uma provação para determinar o quanto o fiel estava disposto a chegar até o fim. 

Servidão as ordens monásticas. O caso de São Francisco de Assis (1182-1226) é clássico. Oriundo de uma família burguesa de comerciantes, levou uma vida boêmia por vários anos até que se alistou no exército a fim de conquistar glória e riqueza através das armas. Após alguns anos servindo como soldado retornou para casa, sem conseguir o que ambicionava, nesse tempo lhe ocorreu alguns momentos que o levaram a repensar sua ações e sua vida até que finalmente ele decidiu se tornar monge, no intuito, de se redimir de seus pecados. 

Por outro lado a penitência também poderia advir das armas. É clássico o pronunciamento do papa Urbano II incentivando a Primeira Cruzada (1096-1099) e seu pronunciamento oficial em 1095, no qual convocava os reis e senhores da Europa a unirem seus exércitos e marcharem para Terra Santa, no intuito de restituir a cristandade aquela região em posse dos muçulmanos. O papa chegou a dizer que todo aquele que lutasse na Cruzada, que se empenhasse a dedicar sua força, suor e vida nesse nobre ideal cristão, estaria perdoado de todos os seus pecados e caso ali viesse a morrer no campo de batalha, iria direto ao Paraíso. 

Outra forma de expiar o pecado era através da negação de algo: fazer jejuns, abster-se sexualmente, adotar uma vida humilde, dar esmolas e comida aos pobres, doar dinheiro ou propriedades a Igreja, etc. Porém, havia meios mais severos para isso, os quais recorriam a autoflagelação. Nesse sentido tanto clérigos como leigos defendiam a ideia de que caso se ferissem, normalmente açoitando as costas com uma chibata, aquela dor e sofrimento expiariam seus pecados, pois criam que se sofressem como Cristo sofreu, isso lhes concederia o perdão. 

Logo diante dessa breve relação acerca da ideia de pecado, passamos para comentar alguns aspectos acerca do pensamento teológico e cultural a respeito de como as pessoas concebiam Deus e o Diabo. 

As interpretações de Deus:

Embora se trate de um assunto bem complexo de ser debatido, pois requer a ter que recorrer a obras de teologia para poder entender como os clérigos pensavam Deus, todavia, Jacques Le Goff em seu livro O Deus da Idade Média (2003) nos concede uma forma bem mais simples para entender como Deus era concebido entre os cristãos medievais. No entanto, alguns devem se questionar do porque falar em "interpretações"? Afinal Deus é um só, o Onipotente, o Onisciente, o Onipresente, o Alfa e o Ômega, o Criador, o Salvador entre outros adjetivos. 

Mas apesar de que para nós hoje tais concepções em alguns casos sejam bem claras, mesmo para que não seja cristão, no entanto, na Idade Média, numa época que grande parte da população era analfabeta e não recebia nem uma instrução escolar básica, a ideia que as pessoas possuíam sobre Deus variava, ao ponto de levar a formação de heresias, polêmicas, dissidências, conflitos, revoltas, perseguições, etc. 

"A imagem de Deus numa sociedade depende sem dúvida da natureza  e do lugar de quem imagina. Existe um Deus dos clérigos e um Deus dos leigos; um Deus dos monges e um Deus dos seculares; um Deus dos poderosos e um Deus dos humildes; um Deus dos pobres e um Deus dos ricos". (LE GOFF, 2003, p. 11). 

Le Goff nessa sua breve citação quis mostrar que a forma como se concebe Deus apesar de estar explicada e apresentada na Bíblia, ainda assim, variava, ainda mais naquele contexto de que 90% da população cristã não lia a Bíblia, o que dava uma enorme margem para interpretações equivocadas. Por mais que alguns possam alegar que naquele tempo as pessoas aprendiam principalmente a respeito de Deus e Cristo indo a missa, ouvindo o padre falar, os próprios padres poderiam estar também errados ou até mesmo passar opiniões pessoais quanto a sua interpretação das Sagradas Escrituras. Não obstante as pessoas também conversavam sobre religião e possuíam suas opiniões. 

De fato essa diferença quanto a percepção da pessoa de Deus não surgiu na Baixa Idade Média, mas remonta desde o século I, isso no contexto cristão. Nos primeiros séculos da Igreja Primitiva houve intensos debates para definir se Jesus seria Deus, se a Trindade era real ou um erro de interpretação; se Jesus teria apenas uma característica humana ou divina, ou ambas; se os relatos no Antigo Testamento e no Novo Testamento se referiam ao mesmo deus, ou seriam divindades diferentes? Como o Deus dos Evangelhos é um ser benigno, amoroso, atencioso, mas no Gênesis, Êxodo, Deuteronômios ele aparece de forma severa, punindo, matando, condenando a morte aqueles que não se submetem as suas ordens? (ARMSTRONG, 1994, p. 51-53, 116-117).

Jean-Claude Schmitt (2006, p. 303-304) comenta que por muito tempo a ideia que os cristãos medievais possuíam de Deus estava associada a imagem dele como soberano. Alguns podem dizer que isso é normal hoje em dia, sim, mas naquele tempo ainda não o era. A imagem de Deus como rei, monarca, soberano estava associada ao fundamento político da figura do rei e do papa. O rei era o soberano secular e o papa era o soberano temporal. Nos séculos XIII e XIV isso gerou algumas obras que condenavam o fato de papas agirem como reis e não como pontífices da Igreja de Deus. 

Não obstante, Schmitt comenta que uma ideia inversa também era visível: se Deus era o Rei dos Reis, logo, os reis eram homens divinamente escolhidos para reinar, pois eles "receberiam" esse direito do maior dos soberanos. Para completar, essa associação de Deus como sendo o "Grande Soberano", acabava por influenciar a forma como as pessoas imaginavam o Criador. Aqui Schmitt comenta que normalmente no medievo até mesmo entre os clérigos, Deus não era visto como o Pai, mas como o Senhor (Dominus) e o Rei (Rex), aqui numa perspectiva de hierarquia e distanciamento, não de proximidade. 

Com isso, Deus por ser um monarca ele não estaria próximo de seus servos. Não haveria uma relação afetiva de pai e filho, mas uma relação de submissão entre senhor e servo, daí as pessoas recorrerem a Nossa Senhora e aos Santos e Santas para intervirem por estas perante a Cristo e Deus, por considerarem eles dignos de maior proximidade e afetividade com o Senhor. Mas isso não significava que Deus fosse ruim ou mal, ele inclusive passou a ser cada vez mais visto como bom. (RAPP, 1973, p. 105-106). 


Fresco representando São Francisco diante da Virgem Maria e o Menino Jesus, rodeados por anjos. Cimabue, 1280. Para o pensamento cristão medieval, Nossa Senhora e os santos eram intermediários entre as pessoas e Cristo e Deus.
"Foi a Idade Média que criou o Bom Deus. E o Bom Deus suscitou heróis, homens e mulheres, cristãos muito especiais que vieram substituir os antigos heróis pagãos: os santos, intermediários entre Deus e os simples fiéis. [...]. Como consequência, a multiplicação dos santos dará a Deus auxiliares, em primeiro lugar materiais e carnais, mas que, principalmente, com suas relíquias, com seus túmulos, marcam os lugares em que Deus se manifesta de maneira marcante, em que é possível rezar de maneira mais eficiente". (LE GOFF, 2003, p. 30-31). 

Todavia, no século XI a imagem de Deus voltou a mudar em sua concepção geral, lembrando que diferentes "estados" e pessoas possuíam suas concepções particulares quanto a divindade, ainda assim, a Igreja procurou impor um "modelo" para todos. Deus em sua forma como Filho, ou seja, Jesus Cristo passou entre os séculos X e XIII a estar mais próximo das pessoas principalmente simbolizando a misericórdia, a esperança, o julgamento, a punição e a salvação. 

Na Baixa Idade Média cresceu o número de imagens representando a Via Crucis ou Via Sacra, momento que diz respeito ao translado de Jesus do local onde foi torturado até chegar ao Monte Gólgota e ali ser crucificado. Com o desenvolvimento da pintura gótica, frescos e pinturas começaram a se difundir por mosteiros, igrejas e catedrais, e tornou-se comum nas catedrais representar todas as etapas da via dolorosa, como forma de mostrar aos cristãos que Cristo morreu na cruz para salvar o mundo do pecado, concedendo uma segunda chance a humanidade. Nesse sentido, Rapp (1974, p. 102-103) comenta que as celebrações da Semana Santa se intensificaram bastante, pois Deus começou a não ser visto apenas como o soberano que se senta em seu trono dourado, mas o Filho do Homem encarnado para se sacrificar em prol da humanidade. 


A crucificação de Cristo. Mosaico bizantino do final do século XIII. 
No século XI e XIII teremos os movimentos milenaristas, as Cruzadas, o surgimento de grandes seitas heréticas, a criação das inquisições, o acentuamento do antissemitismo e do xenofobismo, isso apenas para citar alguns acontecimentos que estavam diretamente associados a motivos religiosos, apesar de que não se limitavam apenas a religião. De qualquer forma nestes exemplos vemos as várias faces de Cristo e Deus atuantes. Aqui o Senhor não será visto exclusivamente como o rei que está longe de seus servos, mas será o monarca que está próximo deles, que lhes ouve, que lhes oferece ajuda, que lhes inspira, mas que também lhes julga e os pune. 

Adentrando aos exemplos isso fica mais fácil de entender. As Cruzadas (XI-XII) que foram ao todo de oito, aqui seguindo a listagem clássica, alegavam ter sido inspiradas por Deus como um dever imprescindível aos cristãos, mostrando ao Senhor que eles eram dignos de serem seus súditos. Nota-se a presença de Deus como soberano ainda aqui, de forma bem mais clara, o qual "supostamente" estaria instigando seus exércitos, pois, afinal, no Antigo Testamento Deus é conhecido entre alguns epítetos de o "Senhor dos Exércitos"

Porém, no que diz respeito as ideias milenaristas as quais alegavam que o Apocalipse estava por acontecer, que o Anticristo poderia aparecer a qualquer momento para pronunciar o "fim do mundo", Jesus era encarado como aquele que portava a salvação, pois ele taria o Livro da Vida. Em contrapartida, Deus era o juiz. Juiz este que poderia inclusive perdoar, mas que estava apto a condenar sem nenhum remorso, pelo menos para a crença da época. De fato por alguns anos boatos de que o mundo estava por acabar gerou alarde em algumas localidades da Europa Ocidental. (TÖPER, 2006, p. 353). 

"No mundo carolíngio e depois no mundo feudal, Cristo é o chefe de armas vitorioso, que triunfa sobre o mal e as milícias do demônio. Por outro lado, sendo o imperador do mundo, assume todas as funções reais, a começar pela justiça, que exercerá no fim dos tempos, no Juízo Final, sobre todos os homens, incluindo os reis terrestres e os chefes de sua Igreja". (SCHMITT, 2006, p. 304). 


Dessa forma brevemente aqui explicada, Deus na Baixa Idade Média continuará a ser visto como o salvador e o misericordioso, principalmente na figura de Jesus, mas também o soberano, o juiz e até mesmo o punidor, pois houve alegações não apenas relacionadas ao suposto Apocalipse  que ocorreria por volta do ano 1000, mas acontecimentos posteriores envolvendo guerras, fome e pragas foram associados como sendo punição divina contra a iniquidade dos cristãos. (DELUMEAU, 1989, p. 110-113). 

Todavia, nem tudo de ruim era culpa de Deus, mas muita coisa de errado e ruim que ocorria era obra de Satanás e seus demônios. Por mais que os cristãos medievais temessem Deus (embora não com a mesma intensidade), muitos temiam o Diabo, e esse temor foi tão grande que excedeu as barreiras do medievo. 

A face de Satanás:

Enquanto ainda hoje as representações visuais de Deus são poucas, pois normalmente os cristãos e judeus não o retratam, e no caso dos muçulmanos isso seria um sacrilégio, de qualquer forma, Deus é mais apresentado em sua forma humana, na figura de Jesus Cristo. Entretanto e quanto ao Diabo? Esse que se tornou a "encarnação do mal", responsável por todos os problemas que acometem a humanidade desde o princípio. Por mais que Satã seja mencionado ainda no Gênesis como sendo o Anjo Caído chamado Lúcifer, como seria a aparência de um anjo caído? Além disso, no Antigo Testamento, Satã é pouco mencionado, ganhando destaque apenas no Novo Testamento, mas ainda assim, sua aparência não é revelada. 

A iconografia medieval construiu a imagem dos anjos como seres com asas e auréola, usando túnicas brancas ou coloridas, tocando harpas, trombetas entre outros instrumentos. Alguns também são representados como guerreiros, portando espadas, lanças, escudos e armaduras. Todavia, fosse o caráter pacífico ou marcial, os anjos ainda são vistos como criaturas benignas, belos e imponentes. Entretanto a representação do mal não é tão antiga assim. Por séculos a imagem do Diabo e seus demônios não existiu, e somente começou a se tornar mais comum a partir do século XI, com a reformulação da arte gótica. 

Entretanto, algo preocupava os cristãos do passado, como identificar Satanás, o maior dos inimigos da humanidade? Como seria o seu rosto? Como seria sua aparência? Como saber se você estava diante do Diabo ou não? 


"Sob seus diversos nomes e com aparências multiformes, o Diabo - Satã e seus demônios é seguramente uma das figuras mais importantes do Ocidente medieval: encarnação do mal, oponente das forças celestes, tentador do justo, inspirador dos ímpios e dos pecadores, verdugo dos condenados, ele é onipresente e o seu terrível poder se faz sentir em todos os aspectos da vida humana e das representações mentais medievais. É o "Príncipe deste mundo" (João 12, 31), aqui "ele faz a festa" (J. Le Goff)". (BASCHET, 2006, p. 319).

Se perguntarmos para alguém como o Diabo se parece, talvez ouviremos respostas que digam que ele é um ser vermelho, chifrudo, com cauda em ponta de triângulo, e usa um tridente. Mas essa visão do Diabo vermelho é um tanto recente em termos históricos. Para o homem do medievo, Satanás começou a se parecer com algo que estivesse mais familiarizado com as culturas herdeiras do legado greco-romano, pensando que a própria igreja cristã se valeu da organização administrativa, política e burocrática do Império Romano para se expandir pela Europa. Logo, os clérigos decidiram escolher um monstro pagão para se tornar a base da representação iconográfica de Satã. 

Entre a gama de monstros existentes nas mitologias grega e romana, um em particular chamou a atenção dos cristãos, a criatura meio homem e meio bode, chamada de sátiro pelos gregos e de fauno pelos romanos. Entre os gregos havia um sátiro em especial que era chamado de , o deus das florestas, rebanhos, pastores, etc., conhecido por tocar flauta e as vezes assediava as ninfas. No entanto, Pã não era uma divindade perversa, embora que em alguns casos os sátiros e os faunos fossem conhecidos por serem promíscuos, agressivos, rudes e luxuriosos. 


Representação de um sátiro para o Bestiário de Aberdeen, c. 1200. 
De acordo com Umberto Eco (2007, p. 92), a imagem do sátiro somente passou a ser regularmente associada com a imagem de Satã por volta do século XI, antes disso, temos algumas imagens dele como um "anjo sombrio" ou um "homem negro", porém, foi na Baixa Idade Média que o Diabo tornou-se um monstro efetivamente. 

Sobre isso Eco (2007) diz que a percepção estética do ser humano levou a gerar um dualismo entre o que é belo e o que é feio. Neste caso, o dualismo se encontra na ideia de que o que é bom seja belo, e o que é ruim seja feio. De fato, a maioria dos monstros são feios e geralmente maléficos. Pois a feiura gera repulsa, gera aversão, gera desconfiança e descriminação. E o mal nos proporciona repúdio, desconfiança, reprovação. Sendo assim a melhor forma de representar a encarnação do mal, era tornando-o repulsivo, aterrorizador, ou seja, transformando-o num monstro. 

No entanto, como se cria um monstro? Uma das melhores formas para criar um monstro é basear-se em elementos que já existam, no caso os animais foram e ainda são uma fonte inesgotável de inspiração. A partir do século XI Satanás começou a ser representado com chifres, patas de bode, presas, garrafas, asas de morcego, língua de cobra, cauda de dragão, pelos, penas, etc. Inclusive há representações dele com três cabeças, como no caso da Divina Comédia (1321), onde Satã aparece devorando no Nono Ciclo, os pecadores que cometeram traição contra seus mestres. 


Lúcifer segundo uma gravura do Codex Altonensis, século XIV. 
No entanto, o Diabo não aparece apenas na forma de monstro. No medievo desenvolveu-se a crença que ele poderia assumir o mais variado tipos de formas, inclusive passando-se por bicho e homem, e até mesmo assumindo uma forma bela, no intuito de seduzir e enganar suas vítimas. 

Mas além da iconografia, o Príncipe das Trevas é figura regular na literatura religiosa medieval. Nas hagiografias (vida dos santos) foi comum em algumas histórias como a vida de Santo Antônio, Santo Antão, etc., encontrar relatos de que estes santos foram tentados por Satanás. Ora se até homens santos sofriam tentação o que dizer dos reles mortais? 

Porém, isso não gerou um medo generalizante, de fato, entre os séculos V ao XI, o Cristianismo ainda estava se firmando na Europa Ocidental e na Escandinávia. A Europa Oriental ainda demoraria mais uns dois séculos para se cristianizar, logo, devido a essa falta de uma hegemonia doutrinária no continente, as pessoas não sabiam exatamente diferenciar o que seria permitido ou não, ou o que poderia ser tomado como manifestação diabólica. Tal ponto é importante, pois na literatura surgiram poemas, contos e canções de pessoas que fizeram pacto com o Diabo. 

Duas histórias medievais populares sobre pactos diabólicos envolvem Cipriano e Teófilo. No caso de Cipriano ele ambicionava casar-se com Justina, mas essa não lhe cedia a corte, então indignado porque Deus não o ajudava, Cipriano decidiu fazer um pacto com Satanás, e assim conquistou sua amada, porém isso traria consequências. A outra história, a de Teófilo é mais significativa, pois na narrativa ele é um diácono que acaba sendo humilhado por um bispo, então ele decide vender sua alma ao Diabo para assumir o local do bispo que o ofendeu. Satã o faz assinar um juramento, e por sete anos Teófilo age como um apostata até se arrepender e buscar o perdão. (ECO, 2007, p. 92).

Em geral histórias de pessoas que fizeram pactos diabólicos vão circular pelo medievo, mas geralmente possuem uma lição de moral embutida: aqueles que cedem a tentação demoníaca sofrerão consequências e talvez não consigam o perdão. Mas essencialmente as hagiografias ainda consistiam nas melhores narrativas para inspirar os cristãos a resistirem e combaterem o pecado e a tentação. 

A onipresença de Satanás: 

Vimos no ponto anterior um pouco a respeito de como o Diabo ganhou sua aparência monstruosa e como ele aparecia na iconografia e até na literatura. Agora veremos como ele era temido e como as pessoas achavam que ele poderia agir. Por mais que a concepção de salvação tenha gradativamente crescido no medievo, que a percepção de Cristo crucificado para destruir as obras do Diabo e salvar a humanidade tenha tornado-se dogma, ainda assim, ele não havia desaparecido, estava a solta, escondido no Inferno, mas conseguia vir à Terra para causar o terror. 

"Inumeráveis relatos detalham os atos maléficos do inimigo. É responsabilizado por todas as catástrofes: provoca tempestades e tormentas, corrompe os frutos da terra, suscita as doenças dos homens e do gado, afunda os navios e faz desabar os edifícios. Ele obstrui a ação dos justos, como fez ao se opor a construção da catedral de York, no século XII, tornando impossível erguer as pedras. Suas duas armas favoritas são a tentação e a trapaça. Tenta insinuar no coração dos homens desejos culpáveis, seja por meio de aparição, de sonho (suspeito na Idade Média, por ser frequentemente considerado de origem diabólica), ou somente suscitando maus pensamentos. As tentações da carne, do dinheiro, do poder e das honras são as mais terríveis". (BASCHET, 2006, p. 323). 


O Diabo representado numa ilustração do Codex Gigas, popularmente chamado de a "Bíblia do Diabo", início do século XIII. Apesar de ser chamado de "Bíblia do Diabo", tal denominação é equivocada e preconceituosa. A obra em si é o maior manuscrito medieval conhecido, aqui em termos de proporção, o qual reúne vários livros, o que inclui a Bíblia, a Etimologia de São Isidoro, livros do historiador Flávio Josefo, livros de medicina, calendários, livros de oração, etc. 
Neste caso comentarei brevemente três exemplos. O primeiro diz respeito as seitas heréticas que voltaram a se proliferar na onda do milenarismo. Entre os séculos XII e XIV algumas seitas surgidas principalmente no norte da Itália e sul da França, que depois vieram a se espalhar por territórios vizinhos, levou a Igreja Católica criar a Inquisição em 1184 para combater estas heresias, as quais pregavam ideias destoantes do dogma católico e o cânon por ele estabelecido. A seita dos Cátaros ou Albigenses, surgida no sul da França, foi a mais numerosa e poderosa dessas heresias, tendo causado problemas pra a Igreja ao longo de décadas. (FALBEL, 1999, p. 13-14). 

Não vem aqui o caso de detalhar tais práticas, mas o importante a saber para o contexto desse estudo é que alguns clérigos chegaram a escrever que as pessoas que aderiam a tais heresias, o que incluiu mesmo freis, padres e bispos, estariam sendo influenciadas por demônios. Pois era uma das características de Satanás levar os cristãos a se oporem a Santa Madre Igreja de Deus. 

"Os heréticos também sofreram, por seu turno, esse processo de diabolização. Começado no século III, o fenômeno se acentua com as heresias do ano 1000 para se ampliar ainda mais nos séculos seguintes, na luta contra os cátaros. Não somente os heréticos passam por ser inspirados pelo Diabo, como são descritos, seguindo o tratado de Adson sobre o Anticristo (século X), como membros de um corpo cuja a cabeça seria Satã, réplica negativa do corpo da Igreja cuja cabeça é Cristo. O parentesco, o corpo: tais são os dois grandes modelos que permitem pensar não somente a Igreja como também sua antítese maléfica e o confronto que as opõem". (BASCHET, 2006, p. 329). 

O segundo exemplo advém da calamidade que foi a Peste Negra. Apesar de que essa praga tenha testemunhado surtos ao longo dos séculos XIV ao XIX, no caso europeu, os anos de 1347-1352 foram o auge do primeiro grande surto do período pelo continente. Naquela época como estamos acompanhando nesse texto, o pensamento cristão acreditava que tais calamidades fossem obra de Deus ou do Diabo, as vezes até dos dois mesmo. Joseph Byrne (2012, p. 115) comenta que alguns acreditavam que Deus usaria ou permitiria Satanás e seus demônios causarem medo, morte, dor e sofrimento como forma de punir a humanidade por sua desobediência. Outros alegavam que a peste não seria um ato de Deus, pois criam em sua benevolência, logo, acusavam Satã por tal monstruosidade. O próprio Peste, um dos Cavaleiros do Apocalipse também foi acusado de ser o responsável. 


Representação em um tapete de um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. C. 1373-1382.  
De fato encontram-se relatos de algumas práticas usadas para se tentar manter afastado os demônios que supostamente traziam a doença. Entre as práticas estavam acender fogueiras nas encruzilhadas, durante a à noite, fazer correntes de orações, usar o terço, usar medalhinhas de santos que exorcizavam ou que estavam relacionados com a cura de doenças; usar breve (medalhinhas que continham trechos bíblicos), açoitar-se para expiar os pecados a fim de não contrair a peste; utilizar máscaras com ervas aromáticas, etc. (DELUMEAU, 1989). 

No que diz respeito ao terceiro exemplo, esse esteve relacionado com o uso da magia. Na Bíblia, em Levítico e Deuteronômio, considera-se a magia como superstição, crenças nefastas, heréticas e mentirosas, posteriormente Santo Agostinho no século V, será um dos quais a associar a magia com o diabo, algo retomado por outros autores e até por São Tomás de Aquino na sua importante Suma Teológica (1275). Porém, apesar de a magia ser condenada biblicamente, tais práticas nunca foram proibidas ou abolidas, as populações cristãs e cristianizadas faziam uso regular da magia sem problemas até o século XIII, quando a situação começou a se inverter. (BAILEY, 2015, p. 365-368). 

Em 1232 o papa Gregório IX emitiu o decreto do Vox in Rama, decretando a investigação de rituais de magia negra. Décadas depois São Tomás voltaria a comentar a respeito da magia negra como algo perigoso e nefasto que deveria ser combatido. Porém, a situação só começou a se tornar pior para os praticantes de magia ao longo do século XIV, quando algumas pessoas vão ser acusadas por usarem magia, fosse magia branca ou negra. Entretanto foi no século XV que a magia negra finalmente tornou-se reconhecida como sendo obra diabólica, e foi também nessa época que surgiu o conceito de bruxa, como sendo uma mulher que fazia um pacto diabólico para usufruir de poderes mágicos e servir a Satanás. (LE GOFF, 2007, p. 19-22; GINZBURG, 1991, p. 83-85).

Três documentos são imprescindíveis para a formalização da caça às bruxas e a conceitualização da bruxaria como uma nova forma que o Diabo havia encontrado para espalhar seu terror. O primeiro é o Formicarius (1475) do padre Johannes Nider, obra escrita vários anos antes, mas publicada tardiamente, destacava-se por abordar e descrever o sabá, terrível ritual diabólico realizado pelas bruxas. Em seguida veio a bula Summis Desiderants Affectibus (1484) do papa Inocêncio VIII, que decretava a existência da bruxaria e sua condenação. Por fim, temos o Martelo das Bruxas (Malleus Maleficarum), publicado em 1487 pelos padres Heinrich Kramer e Jacob Sprenger, o qual se tornou o primeiro manual de caça às bruxas. (GINZBURG, 1991, p. 68-69; OBICI; SKALINSKI, 2003, p. 25). 


Gravura representando bruxas adorando um demônio. Agnes Sampson, 1591. 
Por outro lado Satanás não precisava causar grandes acontecimentos, para demonstrar seus poderes, ele poderia agir em nível bem mais modesto e singular. As vezes ele se insinuava a pessoa através de vozes, algo bem comum na iconografia medieval, onde podemos ver quadros nos quais um demônio aparece sussurrando ao ouvido de alguém. Ele também poderia agir através de sonhos e pesadelos e até por outros meios. No entanto, o Satã também em alguns casos poderia pessoalmente ou em geral, enviava seus demônios para acometer os seres humanos, a possessão. 

A ideia de possessão demoníaca está presente na Bíblia. Possuímos relatos nos Evangelhos de Jesus exorcizando pessoas endemoniadas. Há também referências nos Atos, nas Cartas de Paulo, etc., de diferentes casos de possessão demoníaca, que em geral levavam a vítima a desenvolver feridas, automutilação, proferir blasfêmias e cometer heresias, assumir postura agressiva, louca ou sádica, etc. 

Na Idade Média casos de possessão foram relatados, apesar que se desconhece a maioria deles, por não terem sido registrados. Porém, existem histórias conhecidas de alguns santos como São Francisco e São Bento, os quais realizaram exorcismos, tendo expulsado mais de um demônio em alguns casos. Por exemplo, São Francisco teria expulsado uma legião demoníaca que estava infestando a cidade de Arezzo, entre os anos de 1297 e 1299. São Bento era conhecido por agir de forma radical nos exorcismos, utilizando-se de bofetadas e até pauladas para expulsar os demônios, os quais diziam sair em forma de fumaça ou morcego da boca do possesso.  


Detalhe de uma pintura de Spinello Aretino, do século XIV, retratando São Bento exorcizando um monge possuído. O demônio aparece escapando, logo acima da cabeça do monge. 
Não obstante, Santo Agostinho lá no século V, falava em seu livro A Cidade de Deus (De Civitate Dei), no livro 15, capítulo 23, a respeito da ameaça dos demônios. Agostinho como um dos grandes Doutores da Igreja, tornou-se referência ao longo dos séculos. Neste capítulo mencionado, ele comenta a respeito de que os faunos e silvanos eram também chamados de íncubos, demônios da carne, aqui no sentido da luxúria. Seres que depravados que assediavam e estupravam as mulheres. Agostinho também menciona o caso de demônios que faziam o mesmo e eram chamados pelos gauleses de dúsios. (AGOSTINHO, 1996, p. 1401-1402).

Tais demônios geralmente acometiam as vítimas durante à noite, mais especificamente durante o sono. As vítimas relatavam que mantinham relação sexual com tais criaturas, mas que sentiam que suas energias eram sugadas, lhes levando até a beira da morte. Posteriormente a história dos íncubos originou a sua versão feminina, a súcubo. Demônios que costumavam assumir a forma de uma bela ou voluptuosa mulher para seduzir os homens. A ideia de íncubos e súcubos estuprando pessoas se manteria até a Idade Moderna, inclusive durante  a Caça às Bruxas, houve acusações de que as bruxas haviam mantido relações com íncubos, e algumas havia se tornado súcubos. 

Mas aproveitando o ensejo da menção de que tais demônios sexuais geralmente agiam à noite, vamos falar um pouco da noite e da escuridão, características associadas com o mal.

"A Bíblia já expressara essa desconfiança em relação às trevas comum a tantas civilizações e definira simbolicamente o destino de cada um de nós em termos de luz e de escuridão, isto é, da vida e da morte. [...]. O próprio Cristo precisa atravessar a noite de sua paixão. Chegada a hora, entrega-se às ciladas da escuridão (João 11: 10), na qual se entranha Judas (13, 30) e se dispersam os discípulos". (DELUMEAU, 1989, p. 97).

O homem do medievo em geral era supersticioso, para além de demônios, acreditava que fantasmas, mortos, vampiros, lobisomens, bruxas e outras criaturas noturnas vagassem durante a escuridão, no intuito de assombrar os vivos, lhes ferir ou até mesmo matar. Não obstante, a noite também era o período do dia no qual os criminosos agiam livremente, pois estavam ocultos pela escuridão. Logo, ladrões, salteadores e assassinos costumavam praticar seus crimes nessa hora. (DELUMEAU, 1989, p. 100-102).

Porém, isso significa que as pessoas da Idade Média não saíam de casa à noite? Isso não é assim. As pessoas costumavam a manter atividades noturnas, apesar de saberem que corriam riscos. Dependendo do lugar a noção da insegurança noturna variava. 

"As cerimônias de Natal e as fogueiras de São João, as "noitadas" dos camponeses bretões, as algazarras que marcavam as noites de bodas, os tumultos, as reuniões de peregrinos vindos de muito longe e que, chegado o fim da jornada, esperavam a aurora na - ou nas proximidades da - igreja que era o objetivo de sua viagem: todas essas manifestações coletivas constituíam uns tantos exorcismos dos terrores da noite. Além disso, a Renascença viu aumentar, na camada social mais elevada, o número de festas que se desenrolavam após o fim do dia". (DELUMEAU, 1989, p. 103).

Jérome Baschet (2006, p. 327-328) comenta que na Baixa Idade Média desenvolveu-se ao lado da crença do anjo da guarda, a crença do diabo pessoal. A ideia que imperava entre alguns cristãos, fossem eles clérigos ou não é que da mesma forma que Deus enviava um anjo para nos resguardar e auxiliar, Satã enviava um de seus demônios para fazer o contrário: a criatura incentivaria o indivíduo a tomar decisões erradas e a pecar. Nesse ponto ele não se manifesta mais fisicamente ou em sonhos, mas encontra-se alojado na consciência. 

"Percebe-se nestes relatos sinais de uma consciência atormentada, perseguida por forças hostis. O Diabo exprime tudo que a consciência não pode reconhecer como emanado dela própria (e nem de Deus), tudo que ela julga negativo, hostil, e que deve ser rejeitado, colocado para fora de si. Sabe-se que segundo Freud, os demônios são formas personificadas de maus desejos, recalcados". (BASCHET, 2006, p. 328). 


Mulher sendo tentada por um demônio. Gravura para a obra Le Livre des bonnes moeurs. Jacques Le Grant, séc. XV. 
Mas outro aspecto associado a Satã, foi torná-lo o senhor do Inferno. Na Bíblia não há menções a Lúcifer como governante do Inferno. Em 2 Pedro 2:4 e Mateus 25:41 diz que Deus baniu os anjos caídos para o Inferno. Como Lúcifer era o líder desses anjos que se rebelaram contra o Criador, presume-se que ele também foi junto. No entanto, não significa que ele governasse tal local, pois no relato bíblico o Inferno não somente é pouco mencionado, mas pouco descrito, além de aparecer como uma prisão, não como um reino de trevas. A ideia de que ele seria o príncipe do Inferno foi construída ao longo do medievo, assim como, as próprias características mais detalhas sobre o Inferno e a invenção do Purgatório. 

Umberto Eco (2007, p. 82) comenta que os autores cristãos do medievo se pautaram bastante em relatos de origem greco-romana como a Odisseia de Homero e a Eneida de Virgílio, duas obras que se sabe que influenciaram o inferno de Dante, foram alguns dos relatos que influenciaram distintos autores antes de Dante. Apesar de que a Divina Comédia (1321) provavelmente tenha sido o auge de uma descrição literária do Inferno. Todavia, ao mesmo tempo que este lugar sombrio, cheio de fogo e enxofre foi tomando forma, Satanás passou a não ser um dos prisioneiros que ali residiam, mas tornou-se o Flagelador dos pecadores, o Soberano do Inferno. 


Detalhe do quadro O Juízo Final. Fra Angelico, 1435. Neste caso, o detalhe mostra o Inferno, onde se ver os pecadores sendo flagelados por demônios e Satanás a devorar alguns deles. 
O Purgatório: uma resposta a expansão do pecado?

A Baixa Idade Média foi realmente um tempo de mudanças sociais, culturais, econômicas, políticas, jurídicas, religiosas, etc. E entre essas várias mudanças, mas aqui falando especificamente de mudanças no âmbito da religião, encontra-se o surgimento do Purgatório. A respeito da origem desse local de expiação, ou melhor dizendo, de purgação, a obra de Jacques Le Goff ainda é uma das melhores no assunto. 

Em seu O Nascimento do Purgatório (1981), Le Goff após uma extensa e profunda pesquisa constatou as origens desse mundo da morte que representava um meio termo para os cristãos do medievo, e até recentemente para os católicos, pois apenas em 2008 o então papa Bento XVI declarou diferente de seu antecessor, João Paulo II, que de fato o Purgatório não era real. A Igreja após estes séculos reconheceu tal condição, embora que no século XVI, líderes da Reforma Protestante como Lutero e Calvino já haviam se apresentado contrários a tal concepção, inclusive cleros católicos também se manifestaram contrários a essa doutrina.  

De qualquer forma, Le Goff (1995, p. 60) comenta que a ideia do Purgatório é bem antiga. No capítulo 2 de seu livro ele comentou que antigos doutores da Igreja, entre os séculos III e VI já haviam concebidos ideias similares a noção posterior de Purgatório. Santo Agostinho e São Gregório, o Grande foram alguns que alegavam com base numa passagem questionável de II Macabeus, XII, 41-46, que a oração que Judas Macabeu pediu aos seus companheiros mortos, poderia salvá-los do Inferno. 

Todavia, a ideia do Purgatório somente começou a ganhar forma a partir do século XII, formalizando-se oficialmente no XVI, embora que desde o XIII, a crença já estava sendo difundida. Na Divina Comédia (1321), Dante Alighieri fez uma das melhores descrições do Purgatório que se tem no medievo, apesar de que sua descrição referir-se a um assunto religioso, ela era uma visão mais romântica e idílica do que a doutrina do Purgatório alegava. Mas o que essa doutrina dizia?

A doutrina do Purgatório antes do século XVI não era unânime, havia divergências quanto a sua aplicação, mas em geral ela estava associada a questão do que ocorria com a alma após a morte e com a sua conduta em vida. Como vimos neste texto, na Baixa Idade Média as concepções sobre pecado, heresia, blasfêmia e a maldade do Diabo proliferaram e se expandiram teologicamente e culturalmente. 

A Igreja percebeu que já não detinha mais controle sobre seu rebanho, o Cisma do Oriente (1054) havia gerado as Igrejas Ortodoxas, as quais não se reportavam ao papa e não o reconheciam como líder temporal do cristianismo. Não obstante, entre os séculos XII e XIII proliferaram seitas heréticas que também questionavam a autoridade da Igreja Católica, para completar havia problemas de ordem menor como o fato dos fiéis não estarem indo se confessar, cumprir com o pagamento do dízimo, ir as missas, participar das liturgias, etc. Isso como vimos, era considerado por alguns como maquinações de Satã para corromper e destruir a humanidade. 


Os condenados ressuscitando. Afresco de Luca Signorelli, capela de São Brício, Itália, século XV. 
Tais características tornavam-se um problema, pois para a visão conservadora do Clero Secular e de algumas Ordens Monásticas, isso significava que a cristandade estava desgarrada de seus pastores, a vida mundana chegava a um ponto de normalidade, que levava leigos e até clérigos a se questionarem se eles ainda seriam perdoados por Cristo, pois acreditavam que antes do Juízo Final chegar, eles iriam direto ao Inferno. Parecia que o Diabo estava vencendo essa guerra. Nesse ponto a concepção do Purgatório passou a ser resgatada. Ele seria um meio-termo e uma esperança. (LE GOFF, 1995, p. 163). 

A crença no Purgatório começou a ser desenvolvida na segunda metade do século XII, pautada na ideia de que as pessoas que não fossem totalmente boas ao ponto de ir ao Paraíso, e nem totalmente más, ao ponto de ir ao Inferno, iriam para um meio termo, o Purgatório. Ali eles seriam purificados pelo fogo de Deus, por algum tempo, e assim conquistariam o direito de ascender ao Paraíso. Não obstante, somava-se a tal doutrina a necessidade dos vivos de fazer orações aos mortos para ajudar na expiação deles. Dessa forma, a Igreja esperava combater o crescimento das heresias e responder as dúvidas e ânsias de seus fiéis, os quais se reconheciam como pecadores recorrentes, mas temiam que Deus não os perdoassem. (LE GOFF, 1995, p. 207). 

O Diabo avança para a Idade Moderna: 

Nessa última parte do texto, comentarei acerca de como a Idade Moderna apesar de ser lembrada pelo Renascimento, a Revolução Científica, a Reforma Protestante e o Iluminismo, ainda assim vivenciou problemas com Satanás. Essa parte será de caráter introdutório, pois seria necessário um texto específico para abordar esse tema no período moderno. 

Acredito que pelo título desse tópico os leitores devem estar cientes de que as concepções surgidas na segunda metade do medievo não acabaram totalmente. Claro que houve uma redução em vários sentidos. Essa preocupação com o fim do mundo foi deixada de lado, embora uma vez ou outra aparecesse alguém tocando no assunto, mas não voltou a gerar grandes alardes. A Peste Negra ainda continuava a voltar a cada tantos anos, mas acometendo localidades específicas, diferente da grande pandemia que foi na década de 1340 e 1350, que atacou de vez grande parte do continente. 

As seitas heréticas foram vencidas, porém, o combate a heresia se intensificou. As inquisições se fortaleceram na Itália, Espanha e Portugal, perdurando até o século XIX. A Caça às Bruxas perdurou até o século XVIII, mas vivenciou seu auge entre os séculos XVI e XVII, ceifando dezenas de milhares de vidas e acarretando a perseguição e acusação de outras dezenas de milhares. Mesmo as igrejas protestantes aderiram a tal causa. Martinho Lutero pregou contra a bruxaria e alegava que de fato o Diabo estava tentando destruir a cristandade com suas agentes do mal. Não obstante, a Reforma e a Contrarreforma levaram ao surgimento de guerras no período de 1560 a 1660 entre católicos e protestantes, que para alguns foi considerado obra demoníaca. Satanás havia encontrado nova forma de dividir a cristandade. 

Nos séculos XVI também se acentuou o desenvolvimento da Demonologia, estudo praticado pelo clero católico, protestante e por leigos que visava identificar os demônios, criando verdadeiras listas para nomeá-los, identificá-los, posicioná-los numa hierarquia infernal, além de fornecer informações de como saber que tais atos era de determinado demônio, como combatê-los, aqui se incluía o exorcismo e forma de combater a bruxaria também. Todavia a demonologia não era algo ruim como alguns pensam, mas era uma algo criado para se combater o mal, pois se fazia necessário conhecer o inimigo que se combatia. 

Apenas por estes exemplos nota-se que apesar das mudanças teológicas, sociais, morais, culturais, políticas, econômicas, etc., vivenciadas na Idade Moderna, o temor ao Diabo ainda continuava forte em vários lugares, assim como, a sua culpabilização. Em termos finais podemos observar que muitas concepções que ainda hoje carregamos associadas ao Diabo, apesar de vivermos numa sociedade cada vez mais laica e científica, ainda assim, existem pessoas que acreditam piamente que qualquer coisa de ruim seja obra dele e de seus agentes. 

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Links relacionados: 
A Caça às Bruxas: XV-XVIII
Magia, feitiçaria e bruxaria na Europa medieval e moderna
O medo da Peste Negra
Medo do Escuro

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