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Leandro Vilar

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Duque de Caxias o patrono do Exército Brasileiro

Neste dia 19 de abril é celebrado no Brasil, o Dia do Exército, e como referência a esse feriado cívico comentei neste texto a respeito de Luís Alves de Lima e Silva, mais conhecido como Duque de Caxias, o qual tornou-se nos anos de 1960, Patrono do Exército Brasileiro, em homenagem a sua leal dedicação em servir o império brasileiro ao longo de cinco décadas. Devido a sua atuação militar e política ser bem longa, optei em não realizar uma minibiografia sobre o duque, mas comentar alguns aspectos mais relevantes de sua carreira como militar e político e o papel de sua atuação para a história imperial brasileira, já que Duque de Caxias teve uma participação bastante importante em determinadas revoltas, guerras e confrontos na história brasileira. 


Luís Alves da Lima e Silva, o Duque de Caxias aos 75 anos. 
Introdução:

Luís Alves de Lima e Silva nasceu em 25 de agosto de 1803, na Fazenda São Paulo, em terras da Capitania do Rio de Janeiro. Era o segundo filho de Francisco de Lima e Silva e de Maria Cândido de Oliveira Belo. O casal teve ao todo dez filhos. Posteriormente em data incerta, a família deixou a fazenda e mudou-se para a capital colonial, a cidade do Rio de Janeiro. No ano de 1808, os Lima e Silva residiam na então rua das Violas, no centro da cidade, atual rua Teófilo Otoni. Mudando-se para a cidade, Luís Alves ingressou posteriormente numa escola religiosa, comum na época. 

Pelo fato de ter nascido numa família de militares, onde se avô, pai e tios serviram no Exército, Luís Alves desde cedo foi educado para dar continuidade a tradição da família Lima e Silva, de condicionar seus homens a fazer uma carreira nas Forças Armadas. No ano de 1818, época que o Brasil havia deixado de ser colônia para tornar-se parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1816-1822), algo instituído pelo rei D. João VI (1767-1826), Luís Alves ingressava na idade de 15 anos na Escola Militar no Largo do São Francisco. Onde permaneceu até o ano de 1821, deixando a escola com 19 anos, já na patente de tenente, passando a servir no Regimento Sampaio. (BENTO, 2003, p. 46).

A formação de Luís Alves e sua entrada no Regimento Sampaio se deram em momento tumultuado na história brasileira e portuguesa. Devido a uma de golpe de Estado iniciada pela Revolução do Porto em 1820, na qual exigia-se que o rei D. João VI retornasse com a corte para Lisboa, Portugal e o Brasil vivenciavam um impasse. D. João havia acatado as exigências e retornou para Lisboa, deixando seu herdeiro Pedro de Alcântara (1798-1834) como príncipe-regente do Brasil. O futuro imperador do Brasil, D. Pedro influenciado por alguns políticos, nobres e senhores de oligarquias tradicionais, aceitou ingressar no processo para proclamar a Independência do Brasil, tornando-o um Estado independente, vindo D. Pedro a ser coroado em 2 de novembro de 1822, como Imperador do Brasil. (CALMON, 2002, p. 184). 

Não vem aqui o caso de debater o processo de independência brasileira, mas se faz necessário destacá-lo pois foi neste contexto que o tenente Luís Alves de Lima e Silva deu início a guinada em sua carreira militar, sendo convocado para servir na Guerra de Independência (1822-1824). 

A serviço da Independência do Brasil: 

Embora D. Pedro I tenha proclamado a Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, e posteriormente em dezembro daquele ano foi coroado imperador, isso não significou que Portugal estivesse de acordo com o que havia ocorrido entre setembro e dezembro de 1822. Oficialmente D. João VI não reconhecia a independência do Brasil, e havia muita gente do reino português e até mesmo brasileiros fiéis a Coroa Lusa, contrários a independência. E essa oposição não ficou apenas no nível de desaprovação e do não reconhecimento, mas partiu para a luta armada. Autoridades políticas e militares de Portugal e do Brasil se mobilizaram numa iniciativa armada no intuito de derrubar o recém empossado imperador D. Pedro I, e restaurar o Brasil a união de Portugal. 

Tais revoltas ocorreram principalmente nas Províncias da Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Cisplatina (atualmente o Uruguai). Neste caso, o tenente Luís Alves foi destacado para participar do combate a revolta que se manifestava na Bahia, liderada pelo general português Inácio Luís Madeira de Melo (1775-1833), que ficou conhecida também como a Guerra de Independência da BahiaCom o apoio de Portugal e de brasileiros fiéis a coroa lusitana, o general Madeira de Melo dispunha de mais de 2.000 homens para fazer frente a independência proclamada há poucos meses. Neste caso o imperador D. Pedro I enviou o brigadeiro francês Pedro Labatut (1776-189) para comandar a restauração da Bahia. 

Quando Luís Alves chegou a Bahia nos primeiros meses de 1823, duas batalhas já haviam sido travadas anteriormente, e mesmo com a derrota de Madeira de Melo, o general português ainda não havia desistido de abandonar Salvador e sua resistência. Luís Alves seguiu com o restante da tropa participando de outras manobras que visavam encurralar a chegada de reforços e suprimentos para Salvador, algo que se concretizou quando o comandante inglês Conde de Dundonald se apossaram da Baía de Todos os Santos, bloqueando qualquer possível reforço vindo pelo mar para auxiliar o general Madeira de Melo, o que o obrigou a se render no dia 2 de julho de 1823. (FAUSTO, 1995, p. 144). 

"Os baianos se levantam na comarca de São Francisco, à qual aderem as vilas de Santo Amaro, Maragogipe, São Felix, Cachoeira. O Recôncavo todo se ergue em defesa da independência Pátria, escrevendo a 2 de julho, nos cercos de Pirajá, uma epopeia gloriosa, onde tombaram tantos bravos". (AMORA, 1968, p. 13). 

Apesar de a participação de Luís Alves não ter sido marcante nesse primeiro conflito, isso lhe rendeu uma medalha de honra pela Ordem do Imperador, e a patente de capitão, a qual foi conseguida em 1824, quando possuía então seus 21 anos. Entretanto, o ainda jovem capitão Luís Alves seria realmente começado a ser testado nos anos seguintes, quando foi enviado para o sul do país, para participar de novo conflito contra mais revoltosos, dessa vez, a Província da Cisplatina havia se erguido contra o imperador. 

Na primeira metade do século XIX, o Uruguai fazia parte do império brasileiro, conhecido como Província da Cisplatina, território em posse dos portugueses desde 1821, porém, apesar de representantes do governo cisplatino terem participado da Constituinte de 1823 para a elaboração da primeira Constituição Brasileira, a qual acabou sendo rejeitada pelo imperador posteriormente, ainda assim, não significava que a população da cisplatina e os territórios vizinhos estivessem satisfeitos com o fato do Brasil controlar aquela região. Historicamente o atual território do Uruguai devido ao seu valor estratégico na entrada do Rio da Prata era disputado por portugueses e espanhóis desde o século XVII, apesar de que os espanhóis o controlaram por mais tempo.

No entanto, a revolta iniciada na Cisplatina se deu por influência e incetivo externos. As Províncias Unidas do Rio da Prata, territórios que futuramente dariam origem ao Paraguai e a Argentina, não aceitavam que a Cisplatina, que anteriormente fazia parte do domínio espanhol e era uma das províncias unidas, continuasse sob posse dos brasileiro


Mapa das Províncias Unidas do Rio da Prata e outros territórios sul-americanos. Em destaque a posição da Cisplatina (atual Uruguai). 
Com este incentivo, o general Juan Antonio Lavalleja (1784-1853) comandou as tropas de invasão a Cisplatina com o intuito de fazer frente ao Exército brasileiro para emancipar aquele território e retorná-lo para o domínio espanhol. A invasão de Lavalleja ocorreu em 1825, resultando na declaração de guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata. O capitão Luís Alves de Lima e Silva, que a época fazia parte do Batalhão do Imperador, foi enviado para seguir a Guerra da Cisplatina (1825-1828). Luís Alves atuou em algumas batalhas no ano de 1827, vindo a ser feito major em 1828. 

Apesar de ter conquistado o posto de major do 2 Regimento de 2 Linha, em 2 de dezembro de 1828, a situação para o país não era boa. Após quatro anos de conflitos e muitas baixas, D. Pedro I decidiu ceder as pressões inimigas e desistir de lutar pela Cisplatina. As tropas brasileiras foram ordenadas a deixar o território. De retorno ao Rio de Janeiro, o major Lima e Silva foi elevado ao posto de Comandante do Batalhão do Imperador. (BENTO, 2003, p. 47).

A abdicação de D. Pedro I: 

No ano de 1822, Luís Alves havia participado da cerimônia de celebração da Independência do Brasil, ocorrida na Capela Imperial a 10 de novembro. Na ocasião ainda tenente, ele foi escolhido para ser o porta-bandeira do Pavilhão Nacional, recebendo das mãos do próprio D. Pedro I a nova bandeira nacional que deveria ser hasteada. Nove anos depois, agora mais maduro e no cargo de major e comandante, Luís Alves voltaria a participar de nova cerimônia importante, dessa vez, a abdicação de D. Pedro I
D. Pedro I apesar de ser lembrado na História como o proclamador da Independência do Brasil e o Restaurador de Portugal, na prática ele nunca foi um governante íntegro, focado e disciplinado. Quando assumiu o governo do Brasil aos 23 anos, era um jovem indisciplinado, boêmio e mimado. Por mais que o jovem imperador tenha promovido reformas para conceder ao Brasil estatuto de nação independente e livre, com as Constituições de 1823 e 1824, o acordo com a Inglaterra e outros países para reconhecer a independência, algo firmado em 1825, ainda assim, o imperador teve que testemunhar vários problemas durante seu breve reinado.

O historiador Boris Fausto (1995, p. 154-158) destacou alguns pontos que pesaram contra a aceitação do governo de D. Pedro I. Revoltas internas em cinco províncias, em destaque a Confederação do Equador, iniciada em Pernambuco, um dos principais movimentos emancipacionistas; também se teve guerras como a Guerra da Cisplatina (1825-1828) que rendeu altos gastos a Coroa e a perda de território. Despesas geradas pelos vários conflitos ocorridos que prejudicaram a economia, e acabaram por levar até mesmo o imperador a recorrer ao contratamento de mercenários europeus para servir no Exército brasileiro, o qual carecia de soldados. As finanças estatais também não estavam boas, pois D. João VI quase deixou o país em bancarrota quando mandou transferir o tesouro real do Banco do Brasil de volta a Lisboa, ainda em 1821. No ano de 1829, a economia brasileira vivenciava uma profunda crise de desvalorização de sua moeda, isso somado a todos os outros fatores já mencionados, pesava fortemente contra a imagem do imperador.


Pintura representando a abdicação de D. Pedro I, ocorrida em 7 de abril de 1831. Na ocasião o imperador entrega sua carta de abdicação para o Major Miguel de Frias e Vasconcelos. Obra e 1910.  
Com isso entre os anos de 1830 e 1831 começou a ficar cada vez mais visível um sentimento de insatisfação das elites e do povo com o imperador, o qual também era Rei de Portugal desde 1826. Pressionado por parte da elite fluminense, paulista e mineira, o que incluiu o pai e tios do major Luís Alves, D. Pedro I abdicou do trono na madrugada de 7 de abril de 1831. Na ocasião Luís Alves comentou que apesar de seu pai e tios apoiarem a renúncia do imperador, ele se manteve leal ao seu rei. Como na época ainda era Comandante do Batalhão do Imperador, Luís Alves de Lima e Silva participou da cerimônia de abdicação. Posteriormente ele disse o seguinte:

"Marchei com o Batalhão do Imperador para o Campo de Santana, em virtude da ordem competente. Não fui revolucionário. Estimei a abdicação. Julguei que ela era vantagem para o Brasil, mas não concorri diretamente ou indiretamente para ela". (BENTO, 2003, p. 47-48). 

O Pacificador: 

Durante os anos da Regência (1831-1840), período que marca a época da menoridade do príncipe D. Pedro II, oficial herdeiro do Brasil, foi nesse período que o major Luís Alves ganharia destaque nacional. Seu pai e tios haviam participado das eleições para se formar a primeira regência, o que revela a influência da família Lima e Silva na política imperial daquele tempo, porém, Luís Alves ainda preferia se manter longe da política. Naquele ano de 1831 ele teve que conter revoltas iniciadas pelos próprios militares, como a Revolta do 26o Batalhão do Exército, a Revolta da Guarda Militar de Polícia da Corte, a Revolta do Corpo de Artilharia da Marinha e a tentativa de Golpe de Estado do Major Miguel de Frias, o mesmo que recebeu a carta de abdicação do imperador e meses depois tentou proclamar a república. O ano de 1831 foi bem tumultuado para a capital imperial. (BENTO, 2003, p. 48-49).


“Casa-se com Ana Luísa do Loreto Carneiro Vianna, no dia 2 de fevereiro de 1833, ela com apenas 16 anos, neta da Baronesa de São Salvador de Campos. Em dezembro do mesmo ano, nasce Luísa de Loreto. Em 24 de junho de 1836, nasce a segunda filha Ana de Loreto”. (FONSECA, 2015, p. 3). 


Fotografia da Duquesa de Caxias, Ana Luiza Lima e Silva, por volta de 1860. 
Os anos de paz seriam abalados a partir de 1837, quando um de seus tios o general João Manoel Lima e Silva foi traído por seus correligionários e assassinado em 25 de agosto daquele ano. A morte do general João Manoel fazia parte da Guerra dos Farrapos, um dos conflitos separatistas iniciados durante o período da Regência. (BENTO, 2003, p. 50).

"O período regencial foi um dos mais agitados da história política do país e também um dos mais importantes. Naqueles anos estava em jogo a unidade territorial do Brasil, e o centro de debate político foi dominado pelos temas da centralização ou descentralização do poder, do grau de autonomia das províncias e da organização das Forças Amardas". (FAUSTO, 1995, p. 161).

A partir dessas mudanças isso gerou revoltas no império como a Cabanada (1832-1835) em Pernambuco e Alagoas, o Levante dos Malês (1835) na Bahia, a Cabanagem (1835-1840) no Pará, a Guerra dos Farrapos (1835-1845) no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a Sabinada (1837-1838) na Bahia e a Balaiada (1838-1841) no Maranhão. Dessas várias revoltas ocorridas durante o período regencial, o major Luís Alves esteve presente em duas, na Farroupilha e na Balaiada. 

Apesar do general João Manoel de Lima e Silva ter sido assassinado em 1837, Luís Alves somente foi destacado para atuar na Farroupilha dois anos depois, porém, sua presença no Rio Grande do Sul foi breve, pois havia ido como Ajudante do Ministro da Guerra e não comandante para participar do conflito. No entanto, anos depois ele retornaria a esta guerra. Todavia, na ocasião de sua estada no Rio Grande do Sul, Luís Alves conheceu o General Manuel Luís Osório (1808-1879), outro notável militar da época imperial. 

Porém, a permanência de Luís Alves no conflito dos farrapos foi encurtada sendo este convocado para retornar ao Rio de Janeiro, onde em 2 de dezembro de 1839 tornou-se Tenente-Coronel. A partir de sua boa conduta como Comandante de Polícia da capital imperial e seu seu serviço à pátria, assim como, sua postura conciliadora, o coronel Luís Alves foi destacado a ir para a Província do Maranhão, conter a Revolta da Balaiada

A Balaiada teve início no ano de 1838, partindo da disputa partidária entre o Partido Liberal (apelidado de bem-te-vis devido ao seu jornal) e o Partido Conservador (apelidado de cabanos em referência a Cabanagem). Ambos os partidos não apenas trocavam acusações e ofensas, mas chegaram a cometerem atos criminosos pelo controle do governo maranhense. Um dos líderes da Balaiada foi Manuel Francisco dos Anjos Ferreira (1784-1840), apelidado de Manuel Balaio devido ao fato de fabricar balaios (tipo de cesto de palha). Manuel Balaio não pertencia ao meio político, era um simples artesão, mas que possuía capacidade de organização e determinação, elementos suficientes para reunir uma manifestação contra as disputas partidárias, no que levou a eclosão da Balaiada. Neste caso a Balaiada foi uma manifestação de camponeses, artesãos, escravos e até de fazendeiros contra a desordem política. (FAUSTO, 1995, p. 167). 

O coronel Luís Alves chegou ao Maranhão no começo de 1840, assumindo em fevereiro o cargo interino de Presidente de Província e Comandante das Armas do Maranhão. O coronel fundou a Divisão Pacificadora como estratégia de combater os revoltosos, compondo três frentes de ações. Em seu discurso de apresentação o coronel dizia claramente ao povo maranhense na capital São Luís, que estava ali não como político, mas como militar, pois sua missão era pôr fim a aquela revolta e restaurar a ordem. Neste caso valendo-se da força militar, Luís Alves conseguiu prender e matar alguns dos revoltosos ao longo de 1840, pondo fim a revolta que já durava quase quatro anos. 

Uma das vitórias mais significativas ocorreu na cidade de Caxias, segunda maior cidade do Maranhão na época, na qual concentrou o Corpo de Exército, nome da tropa dos balaios, que havia se apossado ilegalmente do controle da cidade. A vitória em Caxias e a rendição de Manuel Balaio e outros líderes do movimento, marcou o fim da revolta. No dai 19 de janeiro de 1841, o coronel Luís Alves de Lima e Silva comunicava oficialmente que a Balaiada havia sido derrotada e a ordem restabelecida no Maranhão. Em abril o coronel renunciou ao cargo de presidente de província e posteriormente retornou ao Rio de Janeiro, onde foi celebrado pela população e o governo pelo feito de em poucos meses ter contido uma revolta que durou quase quatro anos. Em 18 de julho de 1841 foi promovido a Brigadeiro (atual General de Brigada), e recebeu do imperador D. Pedro II o título de Barão de Caxias, em referência a vitória conquistada em Caxias no ano anterior. (AMORA, 1968, p. 14). 


O Barão de Caxias em retrato datado de cerca de 1841. 
No entanto, o recém formado brigadeiro e intitulado barão de Caxias, não teve muito tempo para poder aproveitar o retorno ao lar, após mais de um ano de ausência. Em 1842 eclodiu nova onda de revoltas, dessa vez mais próximas da capital imperial, na Província de São Paulo e na Província de Minas Gerais. Chamada de Revoltas Liberais, consistiu num movimento promovido por políticos que representavam o Partido Liberal em oposição ao Partido Conservador, que desde 1840, ano que D. Pedro II foi coroado imperador, estavam no poder e haviam contribuído para remover a participação dos liberais do Parlamento e dos ministérios. Considerando-o isso um golpe baixo para a monarquia parlamentarista, os liberais liderados pelo Padre Diogo Antônio Feijó em São Paulo, e por Teófilo Benedito Ottoni, em Minas Gerais, decidiram se impor ao governo. (CALMON, 2002, p. 216). 

Devido ao recente sucesso de pacificação realizado no Maranhão, o Barão de Caxias foi escolhido pelo Ministro da Guerra José Clemente Pereira, recomendou que o barão foi incumbido de conter tais revoltas, especialmente na província de São Paulo. Assim em maio de 1842, o Barão de Caxias foi nomeado Vice-Presidente e Comandante-em-Chefe das Forças da Província de São Paulo, lhe dando autoridade política e militar para agir ao combate dos revoltosos. 

Neste caso os Liberais não possuíam um exército que fizesse frente as tropas comandadas pelo Barão de Caxias. Poucas semanas após ser empossado nos novos cargos, já no final de junho, Caxias adentrava a cidade de Sorocaba, reduto dos liberais liderados pelo Padre Feijó, os quais vieram apresentar rendição. O próximo passo era atacar Ottoni e seus aliados em Minas Gerais. Após doze dias de viagem, o exército do barão chegou a Ouro Preto de onde se mobilizou para confrontar os revoltosos em Sabará (11 de agosto) e Santa Luzia (20 de agosto). 

Em cerca de três meses a revolta dos liberais havia sido abafada pelas ações do Barão de Caxias e seus aliados, os quais atuaram em outros locais das duas províncias, apesar de que foi o barão quem liderou os ataques as cidades onde se concentravam os revoltosos. Graça a sua rápida façanha com pouco derramamento de sangue, pois Caxias priorizou a diplomacia, oferecendo rendição de forma pacífica e a anistia, o brigadeiro foi elevado ao título de Marechal de Campo (atual General de Divisão). 

No entanto, mal terminava suas campanhas em São Paulo e Minas, quando o Ministro da Guerra o incumbiu de viajar para o Rio Grande do Sul, para tentar pôr um fim na Guerra dos Farrapos, que já durava sete anos. O Barão de Caxias chegou em Porto Alegre a 12 de novembro de 1842, assumindo as funções de Presidente de Província e Comandante-em-Chefe do Rio Grande do Sul. Essa era a segunda vez que ele retornava à aquela província, enquanto na primeira havia passado poucas semanas atuando como ajudante do Ministro da Guerra, dessa vez retornava como marechal no intuito de pôr fim a revolução farroupilha que instaurou a República Rio-Grandense (1836-1845), negando-se a retornar a União. 

A situação no Rio Grande do Sul e Santa Catarina era bastante complicada, pois os senhores de terra, chamados de caudilhos, termo esse oriundo da influência espanhola na região, eram ricos, possuíam tropas leais e conseguiam contratar mercenários do Uruguai, Paraguai e Argentina. Além disso, reforços vindos da Europa, principalmente devido a figura do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882), nome bastante importante para o movimento revolucionário farroupilho. Não obstante, quando o Barão de Caxias chegou a Porto Alegre, sua família era vista com certo suspeita, pois seu falecido tio João Manuel de Lima e Silva havia aderido a revolução dos farrapos, e havia acusações de que seu outro tio e até mesmo seu pai, teriam fornecido apoio aos farrapos. Mas como sendo um homem leal aos imperadores, o barão disse o seguinte:

"Riograndenses! S. M. I. Dom Pedro II, confiando-me a presidência desta província e o comando em chefe das forças brasileiras, recomendou-me que restabelecesse a paz nesta parte do Império, como a restabeleci no Maranhão, em São Paulo e em Minas, e a providência divina, que de mim tem feito um instrumento de paz para a terra em que nasci, fará com que eu possa satisfazer os ardentes desejos do magnânimo monarca. Segui-me e ajudai-me, e a paz coroará os vossos esforços!". (AMORA, 1968, p. 17). 

No entanto a Guerra dos Farrapos se mostrou uma empresa mais árdua do que o Barão de Caxias poderia contar. Diferente do que ele realizou no Maranhão ao longo de um ano, ou na vitória rápida em São Paulo e Minas, os farrapos resistiram até o último momento. Caxias permaneceu a frente do governo riograndense por quase três anos, conseguindo com o apoio de outros generais e da diplomacia brasileira com o Uruguai e demais países  da região, finalmente chegar a um acordo de rendição contra os farrapos. (SKIDMORE, 1998, p. 71).

Em retribuição a sua nova façanha, o imperador D. Pedro II lhe concedeu em 2 de abril de 1845, o título de Conde de Caxias. O marechal Luís Alves de Lima e Silva ainda permaneceu mais um ano no Rio Grande do Sul, deixando a presidência em março de 1846, retornando no final daquele mês para o Rio de Janeiro, onde foi recebido em celebração, sendo inclusive referenciado como o "Pacificador"

O político: 

Apesar de ainda ter participado da Guerra do Prata e da Guerra do Paraguai, acontecimentos que comentarei mais adiante, o retorno do Conde de Caxias a capital foi marcado posteriormente pelo seu efetivo ingresso na política, algo que seu pai e tios já compartilhavam anteriormente. Embora o conde tenha assumido a presidência de duas províncias e a vice-presidência de outra província, ele assumiu de forma interina por fator de urgência devido a duas revoltas e uma guerra. 

Contudo, no ano de 1847 devido ao seu bom desempenho como presidente do Rio Grande do Sul entre 1842-1846, foi nomeado para o cargo de Senador por aquela província, sendo que seu pai, o marechal Francisco de Lima e Silva já ocupava a segunda cadeira de senador vitalício daquela província. Com isso a Família Lima e Silva consolidava sua autoridade e representatividade no Rio Grande do Sul, na época. Posteriormente foi eleito para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e no mês de dezembro daquele ano nasceu seu terceiro filho, o primeiro homem, nomeado de Luís Alves de Lima e Silva Filho. (BENTO, 2003, p. 53).

Nesse período, o Conde de Caxias ainda mantinha suas funções como marechal e comandante das Armas da Corte e Província do Rio de Janeiro, mas devido as atribuições como senador, passou a residir alguns meses no Rio Grande do Sul, intercalando-se entre o Rio e Porto Alegre. Os anos se passaram e em 1851 ele foi nomeado Presidente de Província do Rio Grande do Sul pela segunda vez. Naquele tempo o cargo de presidente de província (equivalente atual de governador de estado) e de senador eram indicações do próprio imperador, o qual consultava uma lista de nomes qualificados para o cargo. 

Entretanto, o Conde de Caxias quando assumiu seu segundo mandato, o fez novamente em período de guerra, dessa vez eclodia na Argentina e no Uruguai uma aliança entre os generais Juan Manuel de Rosas (1793-1877), ditador argentino e o general Manuel Oribe (1792-1857), o qual foi o segundo presidente do Uruguai e na década de 1850 estava refugiado em Buenos Aires, após sofrer perseguição política, pois almejava retomar o poder. Oribe havia se aliado a Rosas no intuito de conseguir um exército para realizar um golpe de Estado no Uruguai. 


Na esquerda o general Juan Manuel de Rosas, ditador da Argentina. Na direita o general Manuel Oribe, o qual na época da gurra, almejava um golpe de Estado no Uruguai.
O ditador Juan Manuel de Rosas não apenas ambicionava restaurar o controle sobre a Confederação Argentina, mas auxiliar Oribe no retorno ao Uruguai, assim como, detinha pretensões expansionistas em direção ao Paraguai e o Brasil. A Coroa brasileira desde 1849 vinha através da diplomacia com o general Rosas evitar uma guerra entre os dois países, porém a negociações não foram frutíferas, com isso a coroa optou em firmar aliança com os paraguaios e fornecer ajuda aos uruguaios para evitar um golpe de Estado pelo general Manuel Oribe, assim eclodiu a Guerra do Prata (1851-1852), também chamada de Guerra contra Oribe e Rosas

Pelo fato do Conde Caxias ser o então governador da Província do Rio Grande do Sul, ele dispunha de quatro divisões do exército alocadas nas fronteiras sulistas do país, dispostas a entrar na guerra para defender o Brasil e seus aliados paraguaios e uruguaios. O Ministério da Guerra incumbiu Caxias de liderar a defesa do sul do país. 

Como o alvo preterivelmente era a tomada do Uruguai, o Conde de Caxias a partir de Pelotas começou a despachar seus exércitos para o país vizinho, a fim de fazer frente a tentativa de Oribe e Rosas de efetuar um golpe de Estado no Uruguai. Não obstante, Caxias chegou até mesmo a cogitar um possível ataque a Buenos Aires, tendo enviado um navio para fazer reconhecimento da costa, mas a ideia foi abandonada, pois as vitórias conquistadas no Uruguai no final de 1851 e começo de 1852, levaram Oribe e Rosas desistirem de novo ataque. A Guerra do Prata (1851-1852) havia terminado em poucos meses, sendo a Batalha de Montes Caseros, ocorrida em 2 de fevereiro de 1852, determinante para a vitória da coalizão Brasil-Uruguai-Paraguai. 

Com essa nova façanha, o imperador D. Pedro II concedeu o título de Marquês de Caxias em 26 de junho de 1852. Porém, nesse tempo o marquês estava doente, padecia de dores e desconforto originados no fígado. Antes de ter começado a guerra ele aguardava autorização para se ausentar de suas atividades a fim de cuidar da saúde, mas como a guerra lhe exigiu sua presença, acabou adiando os planos de tratamento. Após o término dessa Caxias pediu exoneração da presidência da província gaúcha e afastamento para tratar a saúde, passando os meses seguintes em Minas Gerais, para tratar do fígado. (BENTO, 2003, p. 55). 

Dois anos depois, já recuperado de saúde, o Marquês de Caxias foi nomeado para assumir o cargo de Ministro da Guerra (1854-1857), numa época que o Senado e o Parlamento passavam por tumultos políticos. 

"Em 1853 achando-se o país presa de grave crise polícia com os partidos em estéreis competições, o Imperador convoca o Marquês de Paraná - o Caxias civil - para debelá-la. Constitui, pois, nessa data, o preclaro estadista, o histórico gabinete do segundo reinado, o chamado gabinete de Conciliação, o das capacidades, com os nomes de Nabuco de Araújo, Abaeté, Olinda, Rio Branco, Caxias, a que, mais tarde, se juntaria o brilhante João Maurício Wanderley, o futuro Barão de Cotegipe". (AMORA, 1968, p. 19). 

Mas esse problema partidário não dizia apenas a falta de entendimento entre os programas do Partido Conservador e o Partido Liberal, mas também na disputa de interesses oligárquicos. Os Conservadores eram principalmente formados latifundiários e burocratas do governo, por sua vez, os Liberais também contavam como latifundiários, ricos comerciantes e profissionais liberais. Aqui se via um interesse por questões econômicas, sociais e políticas. Muitos dos Conservadores pertenciam a região da corte, estando estes mais familiarizados com a política da capital, assim como, protegidos por suas asas. Já os Liberais se espalhavam por um território mais abrangente e em alguns casos se queixavam desse "protecionismo". (FAUSTO, 1995, p. 182). 

A missão de Honório Hermeto Carneiro Leão (1801-1856), o Marquês de Paraná era chegar a um acordo entre os dois partidos, embora que o próprio marquês foi pertencente a ala conservadora, surpreendentemente no seu mandato de três anos, conseguiu reverter até certo ponto as tensões, apesar de ter ganhado o desafeto dos seus correligionários, tomando medidas contrárias as pretensões do partido. Não obstante, foi nessa época que o Marquês de Caixas atuou em seu primeiro mandato como ministro, por se tratar de um veterano de guerra, homem honrado, respeitado e devoto a nação, Paraná acreditava na capacidade de conciliação de Caxias.


O Marquês de Caxias por volta de 1856. 
Alguma das medidas tomadas por Caxias nesse seu primeiro mandato como Ministro da Guerra foi a proposta da criação de uma Lei de Serviço Militar, inexistente até então naquele momento. Caxias queixava-se de que o recrutamento ainda era feito de forma irregular e severa, obrigando os homens a se alistarem a força, assim como, não lhes fornecia adequado treinamento, como também acabava por macular a imagem do Exército. Com a Lei de Serviço Militar, qualquer homem saudável em idade para servir, estaria disponível a ser convocando em caráter de urgência. Não obstante, a lei também estabelecia uma idade miníma para o alistamento obrigatório e um período de treinamento e o direito de dispensa, após concluir esse período de treinamento e serviço. (BENTO, 2003, p. 55). 

No ano de 1856, o Marquês de Paraná, então Chefe de Gabinete, faleceu de febre mortífera, e para sucedê-lo, o Marquês de Caxias foi nomeado ao cargo, assumindo de forma interina entre 1856 e 1857, até ser nomeado Conselheiro de Guerra (1858-1861). Outro destaque de sua carreira política ocorreu no ano de 1862, época que havia reassumido o Ministério da Guerra (1861-1862) e a Presidência do Conselho de Ministros. Na ocasião, Caxias apresentou sua proposta de reformulação da doutrina militar brasileira, ou melhor, falando, a criação de uma,já que o Brasil ainda usava o modelo português de Ordenanças de Portugal

O Marquês de Caxias com base em sua experiência em batalhas e guerras, argumentava que o modelo português não era adequado as condições militares, geográficas, sociais, etc., do Brasil, fazendo-se necessário a criação de uma doutrina militar própria. Com isso, tomando como base as ordenanças portuguesa, em 1862, baixou o decreto que instituía as Ordenanças do Exército Imperial do Brasil. Ato pioneiro na formação de uma doutrina militar genuinamente brasileira. Após a aprovação desse decreto, o marquês deixou o ministério e a presidência, pois havia sido eleito para assumir de forma interina, entretanto, um acontecimento ocorrido ainda naquele ano o abalou. Seu filho Luís Alves Filho, faleceu aos 14 anos, acontecimento que o abalou. 

A Guerra do Paraguai (1865-1870):

Caxias havia se mantido longe da política desde 1862, nesse tempo, esteve cuidando mais de suas obrigações como Marechal e Comandante das forças policiais do Rio de Janeiro. No entanto, em alguns momentos atuava como conselheiro de guerra, prestando conselhos ao imperador e seu ministério. Entretanto com a eclosão da Guerra do Paraguai, Caxias não foi convocado de imediato, apesar de ter sido chamado para acompanhar o imperador D. Pedro II numa comitiva até Uruguaiana, na Província do Rio Grande do Sul, local onde algumas tropas paraguaias haviam se rendido. 

Na ocasião, o então Ministro da Guerra, Ângelo Moniz da Silva Ferraz (Barão de Uruguaiana) destratou Caxias. Pelo fato de ser do Partido Liberal e considerar a postura de Caxias de um conservador teimoso e cegamente obediente aos seus superiores, o Ministro da Guerra fez questão de não mencionar a presença do marquês na ocasião e nem convidá-lo para outras reuniões em Uruguaiana. Terminado suas obrigações em Uruguaiana, Caxias retornou para a capital imperial, enquanto isso a guerra prosseguia. 

No caso se faz necessário comentar um pouco o que foi a tal Guerra do Paraguai. Naquele tempo o Paraguai era uma nação próspera e poderosa, já há muitos anos vinha negociando com os argentinos, uruguaios e brasileiros, mas a situação começou a se complicar na década de 1860. O complexo fluvial do Prata era uma importante rota de acesso para o interior daquela parte do continente, sendo principalmente importante para o Paraguai, que não dispunha de costa marítima e também para o Brasil, para poder se alcançar a Província do Mato Grosso (neste caso o atual território do Mato Grosso do Sul), através do Rio Paraguai. (SKIDMORE, 1998, p. 83-84).

Essencialmente os argentinos e uruguaios foram os principais a disputarem o controle da foz do Prata, apesar de que os brasileiros e paraguaios também chegaram a lutar pela liberação daquelas águas ao livre comércio em décadas anteriores. No entanto, nos anos de 1860 a situação estava estável. Os quatro países permitiam o tráfego regular de navios, seguindo as devidas regras alfandegárias e de pedágio, porém, um dos fatores que iniciou a guerra teve início na Argentina e no Uruguai, e não propriamente no Paraguai. 

Novamente no Uruguai o país vivenciava uma grave disputa partidária entre os Colorados e os Blancos. Os Colorados era de posição conservadora e tinham como principal líder, o radical general Venancio Flores (1808-1868), que havia sido presidente do Uruguai entre 1854-1855, tendo sido deposto por um golpe de Estado. Anos depois, após exílio em Buenos Aires, tendo conseguido apoio militar do presidente argentino Bartolomé Mitre (1821-1906), Flores planejava retomar o poder, nem que fosse necessário ele próprio executar um golpe de Estado contra o nacionalista Bernardo Prudencio Berro (1803-1868), então presidente do país e líder dos Blancos. (THOMPSON, 1968, p. 31-32).

Todavia em meio a tal conflito de interesses, algumas famílias brasileiras sofreram retaliação por parte dos Blancos, já que naquele tempo, muitos brasileiros viviam na fronteira do Uruguai com o Brasil. O governo brasileiro decidiu enviar representantes para apurar o ocorrido. Entre os motivos da retaliação estava o fato de que o governo brasileiro era contrário a política nacionalista dos Blancos, que ameaçavam a harmonia entre os dois países. No ano de 1864, após nova eleição presidencial, Atanasio Cruz Aguirre (1801-1875) dos Blancos, sucedeu Berro, mantendo sua política fechada, e após recusar as solicitações da diplomacia brasileira, acusando o Império do Brasil a compactuar com o general Flores, foi declarada guerra em agosto de 1864. (THOMPSON, 1968, p. 33-34).

A Guerra do Uruguai (1864-1865), que durou cerca de sete meses foi o estopim para a Guerra do Paraguai (1865-1870). Durante o conflito, os Colorados tomaram partido da causa brasileira, viabilizando derrubar Aguirre e assumir o poder, porém, o presidente Aguirre vendo que estava para perder o conflito, decidiu solicitar ajuda do ditador paraguaio Francisco Solano López (1827-1870). Apesar de López ter de fato apoiado Aguirre, o apoio não lhe garantiu a permanência no poder, porém, os motivos para começar a guerra paraguaia ainda não são conclusivos, mas em parte deveu-se a medidas drásticas tomadas por López quanto ao governo brasileiro. 


Gravura de um retrato do ditador paraguaio Francisco Solano López.
No dia 11 de novembro de 1864, o navio brasileiro Marquês de Olinda, que seguia viagem pelo Rio Paraguai com destino a Província do Mato Grosso, foi interceptado e sua tripulação aprisionada sem justa causa. Tal acontecimento ocasionou um incidente diplomático entre Paraguai e Brasil, que repercutiu nos dias seguintes, inclusive chegando a tornar-se conhecido em outros países. Não obstante, o presidente López tentava argumentar em sua defesa, alegando que havia sido um mal entendido e qualquer medida mais severa, viria de parte do governo brasileiro, o qual tinha pretensas intenções de iniciar uma guerra. No entanto, a tentativa de López de jogar a opinião pública contra o Brasil, deu errado quando ele ordenou que tropas paraguaias adentrassem território brasileiro, na província do Mato Grosso. Aquilo foi visto pela Corte brasileira como uma ofensa grave. (THOMPSON, 1968, p. 38-40).

O Brasil declarou guerra ao Paraguai, por sua vez, López mobilizou tropas para contra-atacar os brasileiros instalados no Uruguai e tentar depor o golpista general Flores do poder, porém, como Flores havia feito uma aliança com o Brasil, por sua vez, declarou guerra aos paraguaios. Por fim, para complicar a situação, para que López pudesse efetuar o ataque ao Uruguai e a província brasileira do Rio Grande do Sul, era necessário atravessar a província argentina de Corrientes, com isso, ele solicitou autorização do presidente Mitre, que negou o pedido, pois Mitre havia apoiado Flores para reassumir o controle do Uruguai e não iria entregar seu aliado ao inimigo. O ditador paraguaio Francisco López indignado com tal recusa, declarou guerra a Mitre, acusando entre alguns motivos, de acobertar traidores e golpistas. No dia 1 de maio de 1865 foi criada a Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai para combater o Paraguai. (FAUSTO, 1998, p. 213). 

Os exércitos brasileiro, argentino e uruguaio acreditavam que a vitória sobre o Paraguai seria rápida e fácil, pois embora fosse um exportador de algodão e erva-mate, o Paraguai era um país de pequena economia e não dispunha de um exército grande e poderoso, mas para engano de todos, a guerra se estendeu por cinco anos e foi bem difícil e sangrenta. No caso brasileiro após algumas derrotas e problemas de estratégia, o governo decidiu convocar o velho Marquês de Caxias, herói nacional, veterano de guerra, comandante experiente para "salvar" a pátria mais uma vez. 

Ainda assim, mesmo o Marquês de Caxias com sua experiência e o apoio militar dos argentinos e uruguaios, a guerra contra o Paraguai se mostrou uma verdadeira armadilha. Em 1865 acreditava-se que a Tríplice Aliança dentro de poucos meses subjugaria o exército paraguaio estimado em 30 mil homens, porém, Francisco Solano López estava melhor preparado e equipado do que se supunha os aliados. A guerra se estendeu por quase cinco anos, vitimando dezenas de milhares, sendo a maior perde para o lado paraguaio. 

No entanto, a convocação de Caxias para comandar aquela guerra somente ocorreu no ano de 1866. Nesse ano alguns problemas agravavam a manutenção da guerra: a falta de mobilidade das tropas em se deslocarem por via terrestre ao interior do continente, pois não havia estradas de ferro e nem boas estradas para isso, retardando em semanas ou meses a marcha, caso as tropas viessem do norte. Em 1865 o país dispunha de 18 mil soldados aptos para convocatória rápida. Um ano depois teve-se que se apelar aos escravos para que lutassem, com a promessa de alforria, caso vencessem a guerra. A maior parte do exército da Tríplice Aliança era formado por brasileiros, os uruguaios que possuíam um pequeno contingente, pouco contribuíram e os argentinos que possuíam mais homens, também estavam com dificuldades de deslocar tropas, enviar suprimentos e avançar pelas linhas inimigas. (FAUSTO, 1998, p. 214). 

A situação se agravou após a Batalha de Curupaiti, travada em 22 de setembro de 1866, em território paraguaio, rendeu uma desastrosa derrota para os Aliados, com milhares de mortos e feridos. Depois dessa vergonhosa derrota na qual o inimigo estava em menor número e com menos artilharia, o governo brasileiro decidiu convocar urgentemente o Marquês de Caxias, que em novembro assumiu o comando-geral. 


Pintura retratando a Batalha de Curupaiti. Na imagem em vermelho o exército paraguaio alvejando os Aliados. 
Quando Caxias assumiu o comando, ele já contava com seus 63 anos e não estava bem de saúde, ainda assim, permaneceu dois anos e dois meses no cargo, pedindo para se retirar do comando em 1869, quando sua saúde se debilitou. De qualquer forma, apesar de Caxias não ter conseguido pôr fim neste conflito, seu comando foi essencial para uma série de vitórias ocorridas em 1868, sendo a Batalha de Huimatá (19 de novembro) um ponto alto da guerra, pois permitiu abrir rota fluvial para o avanço dos navios de guerra e o desembarque de tropas aliadas. Com isso o mês de dezembro ficou conhecido como Dezembrada, expressão para se referir a uma série de vitórias da Tríplice Aliança, presididas pelo Marechal Caxias, que estava em campo. Naquele mês conquistou-se a vitória em Itororó (09/12), Avaí (11/12) em cuja ocasião o General Osório, amigo de Caxias, quase morreu em combate; e em Lomas Valentinas (24/12). Com tais vitórias, o marechal Francisco Solano López, recuou, permitindo a capitulação de Assunção, em janeiro do ano seguinte. (BENTO, 2003, p. 58).

O conflito chegava na sua etapa final, com isso, Caxias solicitou afastamento para ir tratar da sua saúde. Sendo sucedido pelo inexperiente Gastão de Orléans, o Conde D'Eu (1842-1922), cunhado do imperador D. Pedro II, a quem coube pôr um fim na Guerra do Paraguai. (SKIDMORE, 1998, p. 87). 

Ausentando-se do comando da guerra, Caxias recebeu medalhas de honra e o título de Duque de Caxias, sendo o único na história brasileira a receber tal título. Além dessas honrarias, outras mais foram lhes dadas, pois embora não tenha permanecido até o término do conflito, o qual ainda duraria mais um ano, ainda assim, seu engenho e talento foram essenciais para a vitória. Em Campanha, na Província Minas Gerais, Caxias escreveu o seguinte discurso proferido na câmara da cidade, como parte das homenagens a ele prestadas: 


"O Exército Brasileiro que eu tanto me orgulho de haver comandado e dirigido em combates na Guerra contra o Paraguai, muito merece da pátria por seu valor, por sua intrepidez e abnegação, e eu me regozijo ao ser tão bem apreciado seu heroico comportamento, tanto mais que eu fui testemunha de seus valorosos feitos e compartilhei de seus extraordinários sofrimentos. Como militar eu cumpri o meu dever servindo ao meu soberano e à minha pátria. E apesar de minha avançada idade e de alquebrado pelas fadigas de uma rude campanha, estarei sempre pronto para obedecer ao chamado do Governo Imperial, quando o país carecer de meus serviços militares e civis, até onde chegarem as minhas forças". (BENTO, 2003, p. 59). 

Os últimos anos: 

Nos oitos anos que se seguem após o término da Guerra do Paraguai, Caxias ainda manteria suas atividades político militares. Em 1870 discursou no Senado Imperial, defendendo-se de acusações contrárias as suas ações durante a guerra e outras injúrias proferidas contra ele. Tornou-se membro de algumas instituições, recebeu outras honrarias; sua esposa, a Duquesa de Caxias faleceu em 1874, no mesmo ano redigiu seu testamento. A morte de sua esposa o abalou tão profundamente quanto a perda do filho Luís. Nesse ponto, a correspondência pessoal do duque revela seu grande amor pela famílias. 


“Meu Manoel Carneiro! Recebi sua carta de 29 março, e lhe agradeço o sentimento que mostra pela prematura morte de minha idolatrada mulher. Sem dúvida ainda na minha longa vida havia sentido dor maior! Parece que ainda sinto o aguçado punhal cravado em meu coração!!! Altos destinos da Providência Divina! Ela está no céu, sem dúvida, pois que é o derradeiro dos anjos e não neste mundo infame de enganos e ilusões. Diga a minha pobre filha (Ana de Loreto) que sua mãe não se esquecia dela um só instante e que repetiu o seu nome e o de Aniquita poucos instantes antes de perder a vida. Resta-me a única consolação de que nada lhe faltou. Pois cinco médicos a viram. Dois de um sistema e três de outo, mas o mal era de morte, e seus dias estavam contados... e eu só fiquei para chorá-la... Peço-lhe que agradeça a seus manos, cunhados e Exma. Sra. Viscondessa, os pêsames que me enviaram e me desculpo por não lhes responder agora, pois ainda estou atordoado com o golpe que sofri e nem sei o que escrevo. Logo que Aniquita (Ana de Loreto) esteja desembaraçada, espero que venham, pois não desejo morrer sem abraçar meus filhos e meus netos. Seu sogro que muito o estima. Luiz.” (FONSECA, 2015, p. 4 apud CARVALHO, 1976, p. 245).

Voltou a assumir pela terceira e última vez os cargos de Ministro da Guerra e Presidente do Conselho (1875-1878), cuidando de algumas questões pontuais na época e baixando decretos para melhorias do Exército, como a criação de escolas militares, quartéis, cursos, etc. 

Concluindo seus serviços políticos, solicitou afastamento pleno de suas atividades, devido a idade avançada, indo morar com sua filha Luiza, então Baronesa de Santa Mônica, esposa de Francisco Nicolau Carneiro Nogueira da Costa e Gama, único Barão de Santa Mônica. O casal vivia na Fazenda Santa Mônica, onde hoje é Juparanã, em Valença no estado do Rio. Ali Caxias viveu mais dois anos, falecendo em 8 de maio de 1880, ao 77 anos. Seu corpo foi transladado de volta a capital, sepultado ao lado de sua esposa, no cemitério São Francisco de Paula. (BENTO, 2003, p. 61). 

O herói nacional: 

Apresentando esse histórico de alguns momentos marcantes da carreira militar e política de Duque de Caxias se faz necessário comentar um pouco a respeito da sua personalidade como herói nacional. Diferente de outros militares da nossa história que apenas foram reconhecidos por seus feitos e serviço a pátria, anos depois de suas mortes, o marechal Duque de Caxias ainda em vida alcançou esse status nacional. Foi chamado de O Pacificador, o Filho Querido da Vitória, o General Invicto, o Condestável, a Escora, Esteio e a Espada do Império do Brasil, Duque de Ferro, Duque da Vitória, Nume e Espírito Tutela do Brasil, Símbolo da Nacionalidade do Brasil, o Maior Soldado do Brasil, etc. (BENTO, 2003, p. 40).


O Duque de Caxias em fotografia datada de cerca de 1877. 
Entretanto é preciso alertar o leitor para não cair na vangloria vã, de enaltecer ainda mais a pessoa pelo que ela fez ou merece. O historiador Arno Wehling ( p. 49-51), menciona que a imagem de Caxias como herói nacional foi sendo construída durante a sua vida, mas principalmente efetivada após a sua morte. Caxias recebeu panegíricos (narrativas de enaltecimento) após sua vitória na Balaiada, quando tornou-se Barão de Caxias, depois com o término da Farroupilha e seu governo como Presidente do Rio Grande do Sul. Novos elogios viriam durante a Guerra do Paraguai, mas em companhia de queixas também. 

Esperava que ao assumir o comando-geral do Exército brasileiro durante a guerra paraguaia, Caxias conseguiria em poucos meses conquistar vitória, mas foram dois anos de conflitos com algumas derrotas, antes da Dezembrada, apesar de que suas atitudes quanto a Passagem de Humaitá e a Batalha de Lomas Valentinas sejam controversas, já que o ditador Francisco Solano López conseguiu fugir e na época cogitaram que Caxias o teria deixado escapar. Sem contar que ele solicitou afastamento do cargo em 1869, mas não aguardou autorização, o que foi encarado como abandono de posto e comando. (WEHLING, p. 50).

No âmbito do Parlamento e do Ministério da Guerra não resultou em panegíricos da mesma forma como sua carreira militar, mas nem por isso foi menos insignificante. Histórias da época como Capistrano de Abreu assinalam que apesar de tomar uma posição conservadora e ele procurava ser na prática um moderador entre os dois partidos adversários. O Jornal do Commercio de 6 de julho de 1876 noticiou o seguinte: 


“Igualmente venerado pelos dois lados da Câmara, espírito tolerante e conciliador, a seus próprios adversários inspirando com o mais profundo respeito à confiança que de adversários se pode pretender (...)”. (WEHLING, p. 51).

Nos últimos anos de sua vida, jornais de distintas províncias enalteciam sua carreira militar e política, pois apesar de alguns desafetos que ele teve no Exército e na Política, isso nunca abalou sua imagem de homem íntegro, honesto e pai de família, apesar de que Caxias agiu em determinadas situações com austeridade, pois como ele mesmo disse: foi por necessidade da ocasião. 

Nesse ponto o Arno Wehling ( p. 53-55) menciona que a imagem de herói de Caxias foi construída a partir de três pontos: o civil, no qual ele era retratado como um cidadão honesto, e bom pai e marido, algo visível em suas cartas para sua esposa e filhas. A visão do militar como homem disciplinado, íntegro, destemido, estrategista, brilhante tático, etc. A visão política foi dividida no seguintes aspectos: capacidade administrativa e política, legalismo, respeito aos adversários, conservadorismo, monarquismo, nacionalismo e preocupação com o bem-estar social e da nação. 

Alguns desses aspectos devem ser sublinhados. A postura legalista e monarquista de Caxias provavelmente contribuiu para que sua fama durante as primeira décadas da República, fosse ofuscada por outros generais como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, os quais estiveram envolvidos com a instauração da república, além de terem sido seus primeiros presidentes. Talvez se Caxias tivesse vivido até o ano de 1889, pela sua postura e posição, dificilmente ele teria apoiado o golpe militar que destituiu a monarquia, mesmo que ele não concordasse plenamente com D. Pedro II, teria encarado tal ato uma traição a Coroa. 

Marcus Fonseca (2015, p. 5) assinala que com o advento da República, passou a se construir o panteão de novos heróis nacionais. Tiradentes foi um dos quais ganhou notoriedade na ocasião, porém, o Duque de Caxias por ser um ávido monarquista não detinha uma imagem compatível com a proposta republicana e antimonarquista, com isso, ele nas décadas de 1890 a 1920 foi relegado a obscuridade histórica, retomando apenas na década de 1920. Até então um dos principais generais louvados era o General Osório, que apesar de monarquista, não se envolveu tanto na política como Caxias, e era principalmente lembrado por suas façanhas na Guerra do Paraguai que quase lhe tirou a vida. 

No ano de 1923, o biógrafo do duque, Eugênio Vilhena de Moraes, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), iniciou um movimento para restituir a figura de Caxias como herói nacional. A ideia foi acolhida pelo então Ministro da Guerra, o general Setembrino de Carvalho que em 1925, instituiu a data de 25 de agosto (dia do nascimento de Caxias), como sendo o Dia do Soldado

A restauração da figura de Caxias veio em momentos problemáticos da política brasileira, a qual envolvia a época do Tenentismo (1922-1930), o qual mobilizou segmentos do Exército, especialmente soldados, cabos, sargentos, tenentes e alguns capitães a se oporem ao comando e a política brasileira. Como o duque era conhecido por ser um pacificador e moderador, além de sempre respeitar a farda que vestia, era interessante usar tal inspiração na tentativa de combater o radicalismo nas Forças Armadas naquele tempo. (FONSECA, 2015, p. 6-7). 

Nos anos 40 e 50, Duque de Caxias estava revitalizado e passou a constar mais regularmente nos livros de história, e nas apostilas dos cursos militares como um ideal de soldado e cidadão. Normalmente exaltava-se seu aspecto como "Pacificador" e o de "Maior Soldado". 


“Todavia, devemos ter cuidado ao analisar o emprego dessas palavras, pois quando heroificamos uma figura humana, estamos exaltando suas qualidades e esquecendo os seus defeitos. Nas palavras do historiador Francisco Doratioto, “no Paraguai Caxias teve dúvidas, foi orgulhoso, teve ressentimento e cometeu erros. Em suma, foi uma personagem real”. E, além disso, sufocou com brutalidade, diversas revoltas na época regencial do império”. (FONSECA, 2015, p. 1057). 

Arno Wehling ( p. 47) comenta que a imagem de Caxias foi tornando-se cada vez mais focada na sua carreira como militar, deixando de lado sua carreira política, na qual ele enfrentou oposição, era conservador, monarquista (imagem contraditória hoje para Forças Armadas republicanas) e possuiu desafetos. Para Wehling isso faz parte da ideia de retirar de Caxias qualquer conotação que gere dúvida e pudesse abalar sua "imagem ideal" de herói sem máculas. 

A imagem de Caxias alcançou posto final no panteão de heróis nacionais em 1962, a partir do Decreto 51.929 de 13 de março, que instituía o Marechal de Exército Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias como Patrono do Exército brasileiro

NOTA: Duque de Caxias é o nome de um município do estado do Rio de Janeiro. Anteriormente chamado de Meriti, parte do território daquele município tornou-se o Distrito de Caxias, anos depois na década de 1940, o distrito tornou-se comarca e posteriormente englobou Meriti, virando o atual município de Duque de Caxias. A fazenda São Paulo onde nasceu Luís Alves de Lima e Silva ficava situada no território desse município. 
NOTA 2: A posição de Caxias com a escravidão ainda é controversa. Ele chegou a defender a alforria para os escravos que lutaram na Guerra do Paraguai e até apoio a Lei do Ventre Livre (1871), porém, nunca apresentou uma postura efetivamente abolicionista. 
NOTA 3: Quando acusado de ser conservador de fato ele o foi. Caxias chegou a se opor ao seu pai e tios acerca da Farroupilha, da abdicação de D. Pedro I, e de outros acontecimentos, sempre procurando ficar a favor do governo. 
NOTA 4: Estudos mais profundos acerca da sua atuação na Guerra do Paraguai, revelam erros táticos e precipitações, questões geralmente que são abafadas para não macular sua imagem de comandante invicto e certeiro. 
NOTA 5: No ano de 1875 durante a Questão Religiosa, conflito entre os bispos brasileiros e o governo, pois neste caso alguns bispos queixavam-se e cobravam do governo aceitar alguns decretos papais que não haviam sido aceitos. Não obstante, havia também alegações de que a não aceitação se devia pela influência da Maçonaria entre os políticos e a corte, a qual supostamente se mostrava contrária a Igreja Católica. O Duque de Caxias apesar de ser maçom, votou a favor da anistia dos bispos Dom Vital e Dom Macedo, que a contra-gosto do imperador D. Pedro II, foi atendida. Isso deixou a relação de ambos razoavelmente tensa, assim como, a liderança maçônica também não gostou de tal ato. Inclusive Caxias foi expulso da Irmandade da Cruz dos Militares por ter se negado a deixar a Maçonaria. 
NOTA 5: Caxias era um católico devoto, algo visível em suas cartas e declarações. Ele era devoto de Nossa Senhora da Conceição. O duque costumava levar consigo uma medalhinha de Nossa Senhora, para lhe conceder boa sorte no campo de batalha. Nossa Senhora da Conceição também era a padroeira do Exército Imperial
NOTA 6: Caxias chegou a adotar duas crianças órfãs. Um menino indígena do Maranhão, o qual foi nomeado Luís Alves. Apesar de que por vários anos o garoto atuou como seu empregado pessoal, somente após a morte do filho do duque, o menino passou a ser seu herdeiro oficial, tendo recebido a quantia de 400 mil réis e todo seu vestuário. Por sua vez, ele adotou uma menina órfã que encontrou no Paraguai, durante a guerra. A garota foi nomeada de Ana
NOTA 7: Para cada soldado que carregou o caixão do duque foram dados 30 mil réis. Na ocasião isso não foi informado. Caxias esperava que soldados justos e de bom coração decidissem por conta própria carregar seu caixão. 
NOTA 8: O primeiro panegírico que recebeu foi do escritor, poeta, médico e diplomata Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882), que compôs a Ode ao Pacificador (1841) publicada no Maranhão. 
NOTA 9: O número de homenagens recebidas por Caxias é difícil de quantificar. Apenas em vida ele recebeu alguns panegíricos e foi parabenizado em diversas reportagens jornalisticas. Sem contar que teve vários biógrafos e contou com a admiração de dois historiadores da época do império como Capistrano de Abreu e o Visconde de Taunay

Referências Bibliográficas: 
AMORA, Paulo. Vultos de dois regimes. Rio de Janeiro, Reper Editora, 1968. (Coleção Civismo Brasileiro). 
BENTO, Cláudio Moreira. Caxias e a Unidade Nacional. Porto Alegre, Gênesis, 2003. 
CALMON, Pedro. História da Civilização Brasileira. Brasília, Senado Federal, 2002. 
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2a ed. São Paulo, Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1995. 
FONSECA, Marcus Vinícius Gomes da. Símbolos, tradições e rituais: as representações do Duque de Caxias pelo Exército Brasileiro. Revista Militar, n. 2567, 2015, p. 1049-1061. 
SKIDMORE, Thomas. Uma história do Brasil. São Paulo, Editora Paz & Terra, 2003. 
THOMPSON, George. Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro, Conquista, 1968. 
WEHLING, Arno. Caxias e o imaginário nacional. A visão de seus contemporâneos. DaCultura, ano 3, n. 5, 20??, p. 46-56. 



quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Holanda: do início da Guerra dos Oitenta anos à Guerra do Brasil

Esse texto consiste numa adaptação de parte da introdução da minha dissertação e alguns parágrafos do capítulo 1. Neste caso, a proposta foi apresentar de forma simples, sem adentrar profundamente os fatores que levaram ao surgimento dos Países Baixos ou Holanda, como comumente é mais conhecida; o início da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), e as condições políticas e econômicas que levaram a República Holandesa do XVII, a desafiar o Império Espanhol pelo controle da produção açucareira brasileira. 

Introdução:

O historiador francês Fernand Braudel (1996, p. 160-162) salientou que foi ainda no século XVI, que os Países Baixos começaram sua guinada para o desenvolvimento da nação. Mesmo que alguns viajantes alegassem em suas cartas que os Países Baixos eram terras exíguas e naturalmente pobres, nas quais a população padecia de fome, ele discordou da opinião desses viajantes que visitaram essas províncias entre os séculos XVI e XVIII.

Dado o pouco espaço disponível, pecuária e agricultura estão condenadas a apostar na produtividade. Os animais são mais bem alimentados do que nos outros lugares. As vacas chegam a dar três baldes de leite por dia. A agricultura transforma-se em horticultura, inventa modos científicos de rotação de culturas, obtém, graças aos adubos, que incluem lixos utilizáveis das cidades, rendimentos melhores do que os habituais. Já em 1570 o progresso é suficientemente nítido para desempenhar o seu papel nos primeiros impulsos da economia da região, o que leva Jan de Vries a dizer que o capitalismo, na Holanda, nasce da terra. (BRAUDEL, 1996, p. 161).

A região dos Países Baixos ou Dezessete Províncias no ano de 1477. Não se deve confundir a região com o atual território dos Países Baixos, são territórios distintos. 
Simon Schama (1992, p. 157, 171-172) também discordou de que a região dos Países Baixos vivenciou uma contínua escassez de alimentos. Ele salienta que no século XVII há relatos de pomposos banquetes, como também relatos sobre a gula dos ricos. No entanto, ele diz que houve algumas pequenas revoltas em protesto a escassez de alguns gêneros alimentícios e o aumento dos preços, algo que ocorria normalmente em qualquer outra nação europeia daquela época.

Por sua vez, Martin van Gelderen (1992, p. 14) ressalva que, os anos de 1495 a 1565, a região vivenciou um grande crescimento econômico, social e urbano a ponto de surgirem mecenas que passaram a patrocinar as artes e ciências, que contribuíram para o desenvolvimento cultural, social e tecnológico dessas províncias. Daí Gelderen considerar esse período auspicioso, o “belo século XVI”.

Além da produção agrícola e pecuária, o desenvolvimento da pesca e do mercado manufatureiro, como a tinturaria de tecidos, a fabricação de ferramentas, equipamentos náuticos, armas, etc., complementaram o crescimento econômico do país.

“Ao longo de Quinhentos, a Holanda e sua principal cidade comercial, Amsterdã, dominavam basicamente o que eles chamavam de moeder negotie, o negócio-mãe, vale dizer, o comércio do Báltico com a Europa do Norte, inclusive o litoral da Península Ibérica. A esta Europa atlântica, os holandeses traziam o trigo e as madeiras do Báltico e o pescado do Mar do Norte, adquirindo em troca o vinho, o sal e, ademais em Lisboa, as especiarias do Oriente”. (MELLO, 2002, p. 103).

Por outro lado, os holandeses também desenvolveram a construção naval, tornando-se uma potência nessa área. A frota neerlandesa no século XVII era uma das maiores do mundo, além dos Países Baixos serem o “estaleiro” da Europa, onde se construía mais navios mercantis e de guerra, além de possuir a maior frota de navios de segunda mão para aluguel ou venda. (BRAUDEL, 1996, p. 161, 172-174). Com essa imensa frota, a Holanda lançou-se aos mares do mundo.

“Dutch life was tied to the sea and was a constant battle with it. The Dutch invented windmills to pump water out of the fields and reclaim land from the sea, and dikes, walls to hold back the sea. The Dutch fleet of 10,000 ships brought salt, oil, and wine from southern France, Spain, and Portugal to northern Europe and carried grain back. They also carried gold and silver from the Americas. Much of Dutch food and industry centered around the sea. Twenty-five percent of the Dutch population was connected to the herring industry, from fishing to selling, and preserving by smoking, salting, and pickling”. (CIVITELLO, 2008, p. 158).

Amsterdã era a rota de chegada e de partida de mercadorias vindas de Portugal, Espanha, Inglaterra, França, do Sacro Império e da Escandinávia, sem contar as mercadorias advindas das Américas, África e Ásia. Por outro lado, havia a facilidade de se conseguir dinheiro na cidade: havia o Banco, a Bolsa de Valores, loterias, casas de câmbio, casas de leilões, além de haver grande disponibilidade de crédito e os juros serem mais baixos do que em outros países, como também havia a disponibilidade de se comprar imóveis, ações e títulos. (BURKE, 1991, p. 81). Completando tais aspectos, o florim holandês tornou-se uma “moeda internacional”, assim como o dólar americano hoje em dia. (CIVITELLO, 2008, p. 158).

No entanto, havia meios menos burocráticos e lícitos de conseguir dinheiro. Schama (1992, p. 344-345) fala da grande existência de agiotas, de apostadores e dos musicos, locais que atuavam como casas de jogos, tavernas e bordéis, onde se poderia fazer dinheiro ou perder tudo. Braudel (1996, p. 166, 172-174) também diz que além de ser um centro financeiro, Amsterdã era um lugar fácil para se conseguir navios, tripulação, mão de obra e informações

Neste caso a região dos Países Baixos era um local peculiar no oeste europeu, por um lado era um lugar ainda bastante agrícola, por outro, estava formando núcleos manufatureiros, um “pré-industrialismo”. (GELDEREN, 1992, p. 14). Mas além de tais características, a região também se tornava uma das áreas mais urbanizadas, pois embora houvesse uma grande quantidade de propriedades rurais de médio e pequeno porte. (ISRAEL, 1995, p. 106), a população urbana era bastante considerável, e no século XVII, estaria entre as mais populosas da Europa, e cidades como Amsterdã e Roterdã se tornariam os novos centros econômicos do continente.

Gravura do século XVII, retratando o tumultuado porto de Amsterdam. 
Em 1500 a população dos Países Baixos era de entorno de 950 mil habitantes. Em 1650, eram quase 2 milhões de habitantes. (STOLS, 2004, p. 273). Em 150 anos a população dobrou, e para valores da época considerando as muitas guerras, epidemias e surtos de fome, foi um crescimento bastante alto.

“Comparadas com o resto da Europa, as pequenas Províncias Unidas revelam-se superurbanizadas, superorganizadas, precisamente por causa da densidade da sua população, “proporcionalmente a maior da Europa”, como diz Isaac de Pinto. Um viajante que, em 1627, vai de Bruxelas para Amsterdam, “acha todas as cidades holandesas tão cheias e de povo como as que têm os espanhóis [Países Baixos do Sul] são vazias...; entre uma e outra dessas cidades, a uma distância de duas ou três horas”, encontra “tal multidão de gente que não há tantas carruagens [e Deus sabe quantas que há] nas ruas de Roma como aqui carroças cheias de viajantes, ao mesmo tempo em que os canais que correm no país em todas as direções estão cobertos de inúmeros barcos””. (BRAUDEL, 1996, p. 162-163).

Embora o cenário econômico holandês fosse promissor no início da segunda metade do século XVI, os Países Baixos só se tornariam algumas décadas depois a potência que viria a invadir o Brasil, porque antes disso, entre as décadas de 1560 e 1570 tais províncias vivenciaram sua primeira grande crise econômica e política.

O rápido crescimento econômico saturou o mercado interno com excesso de mercadorias, o que resultou na baixa de preços, prejuízo e demissões; houve crises nas colheitas, como a do ano de 1565, que elevou o preço dos gêneros alimentícios básicos como a farinha de trigo; disputas comerciais com a Inglaterra, e a guerra entre Polônia, Dinamarca e Noruega afetaram o comércio holandês no Báltico, abalando a exportação e importação de mercadorias (GELDEREN, 1992, p. 15). Mas isso tudo se complicou ainda mais com as desavenças entre os súditos das Dezessete Províncias e seu soberano, o rei Filipe II de Espanha.

As Dezessete Províncias sob domínios espanhol: 

No ano de 1556, o então soberano do Sacro Império Romano-Germânico (império que variou sua extensão ao longo da história, mas sua maior parte compreendia o atual território da Alemanha), Carlos V, abdicou do trono em favor de seu irmão mais novo, Fernando; por sua vez, como também era rei da Espanha, governando com o nome de Carlos I, ele também escolheu abdicar do trono em favor de seu filho, Filipe.

Na época que Filipe II assumiu o governo espanhol (consequentemente a região dos Países Baixos), tais províncias vinham prosperando, mas passados alguns anos, a postura do monarca quanto ao governo das Dezessete Províncias começou a mudar, principalmente em quesitos políticos, culturais, sociais e religiosos.

Retrato do rei Felipe II de Espanha. No século XVI, herdou de seu pai o domínio sobre as Dezessete Províncias. 
No âmbito político, a descentralização política legada do Sacro Império, foi um incômodo para o governo espanhol centralizador e absolutista de Filipe II, que procurou formas de aumentar a autoridade sobre essas províncias e isso causou desaprovação nos governantes locais que viram sua “autonomia” limitada, além de considerarem que as tributações feitas pelo soberano eram de caráter abusivo. (GELDEREN, 1992, p. 32-33).

No contexto religioso, as medidas de Filipe II foram mais rígidas, pois, defendendo seu posicionamento antirreformista ele ameaçou impor o catolicismo a toda região dos Países Baixos, como no caso do ano de 1559, quando o papa Paulo IV lançou a bula Super Universas, a qual decretava a reorganização arquidiocesana nos Países Baixos, com a criação de três novas arquidioceses e dezoito bispados. (GELDEREN, 1992, p. 33).

Isso levou a uma perseguição ao protestantismo encabeçada pelo monarca, a fim de tornar os Países Baixos uma região católica. Neste mesmo ano de 1559, o rei Filipe II deixou Amsterdã, retornando para a Espanha, “para nunca mais regressar aos Países Baixos. Estava decidido erradicar a Igreja Cristã Reformada dos seus domínios, declarando que preferia perder a coroa e a vida, a governar sobre hereges”. (SCHALKWIJK, 2004, p. 33).

O rei tentou impor essas mudanças decretadas pelo papa, mas se deparou com uma forte resistência da população, a qual era predominantemente protestante, além de haver um número considerável de judeus. Em 1566, ocorreu uma forte retaliação dos holandeses, no que resultou na perseguição de padres, na invasão e destruição de igrejas e de imagens, operando um movimento iconoclasta chamado de “tempestade das imagens” (beeldenstorm). (SCHALKWIJK, 2004, p. 34).

3º Duque de Alba
Em resposta a essa afronta, o rei Filipe II, nomeou um fervoroso católico o 3º Duque de Alba, Fernando Álvares de Toledo para governar os Países Baixos (1567-1573), no intuito de tomar medidas eficazes contra a proliferação do protestantismo. O Duque de Alba convocou o Tribunal dos Tumultos, a fim de punir os responsáveis pelos ataques ao clero católico e às igrejas. No entanto, essa medida foi vista como autoritária pelos holandeses, os quais passaram a se referir a tal tribunal o chamando de “Tribunal de Sangue” (Bloed-raad), devido às medidas severas tomadas pelo duque, as quais resultaram na perseguição e execução de milhares de pessoas (ARBLASTER, 2005, p. 120-121). Além dessas imposições que obrigavam as Dezessete Províncias a adotarem o catolicismo, os confrontos de ambos os lados, a revolta de 1566, o tribunal em 1567, o rei Filipe II também ameaçou enviar a Inquisição Espanhola, assim como seu pai havia feito vários anos antes. O imperador Carlos I da Espanha ordenou que a inquisição espanhola atuasse nas Dezessete Províncias. Em 1523, dois monges agostinianos, Hendrick Voes e Johannes Esch foram queimados na fogueira em Bruxelas. (SCHALKWIJK, 2004, p. 31). E isso se tornou uma ameaça bastante séria, pois as lembranças da passagem da inquisição eram sombrias, a ponto que alguns nobres decidiram fazer algo a respeito.

O início da Guerra dos Oitenta Anos:

“Nove fidalgos, moços, saídos quase todos da escola de Genebra, reúnem-se no dia 5 de abril de 1566 no castelo do Príncipe de Orange, em Breda, para o fim de acordar na declaração dos direitos que deveriam ser impostos como condição à monarquia espanhola. Eis as conclusões dessa declaração redigida por Marnix e destinada a ser o prospecto da guerra: “Tendo bem devidamente considerado todas as coisas, entendemos que é de nosso dever obstar, a fim de não sermos presa daqueles que, sob a cor da religião ou de inquisição, querem enriquecer à custa do nosso sangue e da nossa fazenda. Pelo que, deliberamos fazer uma boa, firme e estável aliança e confederação, obrigando-nos e prometendo uns aos outros, por juramento solene, impedir que a dita inquisição se recebe e sustente, sob qualquer pretexto que seja...”. (ORTIGÃO, 1988, p. 10).

O rei não atendeu às solicitações desse manifesto e dois anos depois algumas províncias se uniram e declararam guerra, no que originou a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648). Nos próximos dez anos os flamengos, holandeses, zelandeses, frísios, entre outros habitantes das províncias vizinhas mobilizaram-se para criar exércitos não no sentido de milícias, mas forças armadas especializadas, sendo bem treinadas e equipadas, assim como desenvolveram sua marinha e a arquitetura militar. (PARKER, 1972, p. 5-6).

“Os holandeses conseguiram sustentar a resistência por tanto tempo por dois motivos: graças ao acesso ao mar e ao controle das rotas fluviais que subiam para a Europa central, já estavam se tornando uma nação mercantil que logo se igualaria em riqueza a Veneza; e essa riqueza permitiu-lhes construir as fortalezas que lhes asseguraram sua independência”. (KEEGAN, 1995, p. 336).

Exércitos foram mobilizados para se confrontar o poderio espanhol, o qual era mais influente no sul, pois enquanto no centro e no norte das Dezessete Províncias, predominavam as propriedades rurais de pequeno e médio porte, sendo a maioria proveniente do arrendamento, o que marcava a perda da antiga influência feudal germânica naquelas terras; no sul, havia uma vasta quantidade de grandes propriedades rurais pertencentes à nobreza e os burgueses que enriqueciam com o comércio.

E no caso das famílias mais antigas como a Casa de Orange, essa influência senhorial ainda era bem presente. “The Orange family, which held the hereditary title of stadholder, became even more closely affiliated with the Dutch through this struggle; as stadholders they were empowered with military leadership and the power of certain appointments and various other forms of influence. Contrary to the rather advanced maritime and commercial institutions of the Republic, this governmental edifice was essentially a modified relic of medieval balance of power”. (POSTMA, 2008, p. 8).

Não obstante, algumas famílias espanholas possuíam propriedades no sul, daí a intervenção nessa região ter sido mais massiva, como o fato de que as províncias mais rebeldes se encontravam no norte. (ISRAEL, 1995, p. 107).

Em 1579, as Províncias Rebeldes: Frísia, Gronigen, Güeldres, Holanda, Overijssel, Utrecht e Zelândia, passaram a serem chamadas pela Coroa espanhola, realizaram a União de Utrecht, na qual se decidiu declarar independência do governo espanhol, que se efetivou em 1581, com o surgimento da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. No entanto, Filipe II não reconheceu essa independência, opinião que manteve até o fim da vida. Então as sanções às províncias rebeldes se iniciaram, e o estado de guerra se postergaria.

Em azul as sete províncias que se rebelaram na União de Utrecht, vindo a formar a República dos Países Baixos. Em azul claro os territórios que permaneceram leais ao governo espanhol. 
De 1585 a 1595 a Holanda vivenciou uma fase bastante tensa, pois o sul havia sido retomado pelos espanhóis, após intervenção militar pesada, como o caso da invasão e tomada da Antuérpia (1585). Nos anos seguintes, Filipe II manteve tropas nas fronteiras da república holandesa, embora não obteve êxito devido ao crescimento das forças armadas holandesas. O exército holandês em 1588 era de 20 mil homens, em 1595 era de 32 mil homens, em 1607 contava com 51 mil. O que revela a massiva militarização dos Países Baixos. (ISRAEL, 1995, p. 234-235, 242, 260).

Diante desse impasse bélico, do crescimento econômico holandês e da independência não reconhecida (a Espanha só reconheceu oficialmente a independência da Holanda em 1648, no acordo da Paz de Münster, o qual colocou fim a Guerra dos Oitenta Anos), uma das medidas que Filipe II tomou no intuito de forçar a rendição das Províncias Rebeldes, foi proibir que todos os portos espanhóis comercializassem com os holandeses, o que incluiu os portos dos Países Baixos do Sul (equivaleria, grosso modo, ao que hoje é a Bélgica), assim como Portugal e suas colônias, pois em 1580, havia se iniciado a União Ibérica.

O embargo econômico espanhol naquele momento afetou a economia holandesa, pois cidades como Amsterdã, Roterdã, Leiden e Haia ficaram no lado dos separatistas, e na década de 1580 essas cidades já estavam despontando economicamente, e parte desse sucesso financeiro advinha do comércio com Portugal, principalmente referente ao açúcar brasileiro, pois se antes os flamengos eram os principais responsáveis pelo refino do açúcar e sua distribuição no continente, as cidades holandesas passaram a substitui-los nessa indústria. Algo curioso, pois embora estivessem em estado de embargo, os holandeses ainda assim, conseguiam contornar o embargo e ter acesso ao açúcar brasileiro.

“The first refinery in Amsterdam was reported in 1597. From three refineries in 1605, the number increased to twenty-five in 1622, forty in 1650, and fifty or sixty in 1661. Each refinery could process nearly 1,500 chests per year, and could have stocks in reserve that were worth two tons of gold. At the time of the fire at the Nuyts refinery in 1660, the sugar burned was worth three tons of gold”. (STOLS, 2004, p. 273).

Mesmo contornando o embargo decretado pelo governo espanhol, à economia holandesa ainda assim sofreu um revés. Ebert (2003, p. 57-59) escreve que o embargo feito pela Espanha aos Países Baixos não foi contínuo, pois o governo holandês acabou encontrando formas de contorná-lo ou os espanhóis propuseram acordos para atenuá-lo.

José Antônio Gonsalves de Mello (1996, p. 21-22) assinalou que entre os anos de 1590 a 1620, carregamentos de açúcar ainda continuaram a serem enviados para Amsterdã, e neste caso, usava-se um sistema de escalas para que a carga fosse relocada para outros navios até chegar ao seu destino. Neste caso como os holandeses estavam proibidos de comercializar com os espanhóis e portugueses, logo, não poderiam usar seus navios para isso, os próprios portugueses é quem faziam todo o transporte em suas embarcações, burlando o embargo. As cidades de Porto e Viana foram os principais portos para esse esquema.

Filipe II decretou o embargo que vigorou entre 1585 e 1590, mas veio a suspendê-lo na tentativa de negociar com a república holandesa, a qual estava cada vez mais interessada no comércio açucareiro. Em 1598 o rei Filipe III promulgou um novo embargo, indo este até 1603, quando no ano seguinte ele alterou os termos do embargo, oferecendo amenizá-lo em troca de receber 30% sobre o preço das mercadorias comercializadas pelos holandeses. Posteriormente a partir de 1609 com o início da Trégua dos Doze Anos, o estado de embargo ainda se manteve, mas não foi tão severo quanto nos anos de 1598 a 1603. (EBERT, 2003, p. 60-63).

A Trégua dos Doze Anos e a criação das Companhias das Índias: 

“Sugar was one of the catalysts that directed Dutch expansion across the Atlantic Ocean. For this reason, access to Brazil became a primary objective for the Dutch in South America. Around 1585, in exchange for ammunition and food, Spain’s King Philip II (1527–1598) gave the Dutch rebels permission to sail to Brazil and conduct business for Spanish merchants. At least three Dutch ships sailed to Brazil in 1587. Only three years later, in 1590, about fourteen ships sailed from Dutch ports to Brazil, carrying cargoes for Spanish merchants. The specifics concerning these initial shipments are largely unknown, but we know that skipper Pieter Jansz. carried a cargo of sugar from Brazil to the Netherlands for the merchant Jan Pietersz. in 1594. The following year, skipper Pauwels Gerritsz. sailed from Zeeland to Brazil on board the Sampson, and this ship had earlier journeyed to the West Indies and also made two voyages to Brazil to fetch sugar and Brazilwood”. (ENTHOVEN, 2003, p. 24).

O embargo não afetou apenas os negócios com Portugal e Espanha, mas com outros compradores dos holandeses, como a França, o Sacro Império e a Inglaterra, ainda assim, esse revés não foi sempre grave, havendo momentos de crescimento. “Malgrado a devastação causada pela “Fúria espanhola” no sul e as amargas lembranças das ocupações e dos cercos da década de 1570, era verdade que entre 1590 e 1612 a guerra coincidira com o mais espetacular florescimento da economia holandesa”. (SCHAMA, 1992, p. 251).

Esse problema político-econômico motivado pelos embargos realizados pela Coroa espanhola acabou se tornando um dos fatores que acirrou a disputa entre a República Holandesa e a Monarquia Dual-ibérica, o que viria a iniciar ainda em 1598 e 1599, ataques ao arquipélago de São Tomé e Príncipe, iniciando segundo Charles Boxer (2002, p. 123), uma “guerra global”, que se estenderia até o ano de 1663, quando os portugueses perderiam parte do controle da costa do Malabar na Índia, e outros entrepostos nas “Ilhas das Especiarias” na Indonésia.

Jonathan Israel (1995, p. 325) assinala que ainda em 1598, navios holandeses passaram a viajar para o Caribe e a América do Sul a fim de conseguirem sal, madeira, tabaco, açúcar, prata e outros produtos, indo comprá-los nos próprios domínios espanhóis, mas longe dos grandes centros para não chamar a atenção. Tais expedições também aproveitavam para sondar as terras do Novo Mundo, a fim de conhecer a dinâmica de tais mercados. Israel também chama a atenção para o ingresso dos holandeses no comércio escravocrata na África Ocidental, tornando-se concorrente dos portugueses, embora Portugal detivesse a supremacia no tráfico transatlântico.

O início do século XVII para a Holanda, Portugal e Espanha foi problemático, pois acirraram os confrontos entre as três nações (embora Portugal estivesse reunido ao governo espanhol, do ponto de vista administrativo os portugueses mantiveram sua autonomia).

Segundo Maravall (2009, p. 65) o Seiscentos foi marcado por crises em âmbito econômico, político, social e religioso. Cenário conturbado esse que refletiu em guerras pelo continente europeu, as quais acabaram motivando conflitos nas colônias espalhadas pelo mundo, principalmente por fatores de ordem política e econômica devido à emergência dos grandes Estados europeus de ampliarem seu desenvolvimento econômico e social. Assim antigos centros financeiros do continente como a Itália, Espanha e Portugal, no século XVII, perdem o posto para a França, mas principalmente para a Inglaterra e os Países Baixos. (STEENSGARD, 1997, p. 40).

Estando a república holandesa vivenciando um novo crescimento econômico iniciado desde a década de 1590, nos idos do século XVII, o governo decidiu se arriscar mais e ingressar no mercado internacional. Expedições ao Oceano Ártico em busca de uma rota alternativa às Índias foram tentadas, no entanto, acabaram optando pela rota portuguesa descoberta por Vasco da Gama (1497-1499). Em 1596, foram enviados navios para a Indonésia e em 1598 para o Japão. (ARBLASTER, 2005, p. 134).

O Império Holandês entre os séculos XVII e XVIII. 
Após essas viagens de reconhecimento à Ásia, mercadores, banqueiros e os Estados Gerais estavam cada vez mais convencidos de investirem no comércio ultramarino de especiarias orientais, o qual ainda era frutífero e seria menos arriscado do que confrontar o poderio espanhol no Novo Mundo e seus embargos econômicos. Assim, em 1602 foi criada a Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie), encabeçada por iniciativas e capitais públicos e privados, os quais se reuniram para por o país na rota dos grandes negócios, o que resultou na disputa, principalmente com Portugal, pelo controle dos mercados na Índia, Malaca, Indonésia e Japão. (ISRAEL, 1995, p. 322-323).

Bandeira da Companhia das Índias Orientais.
Em holandês Vereenigde Oost-Indische Compagnie.
Em 1609 os holandeses estabeleceram acordos regulares com os japoneses permanecendo no país até 1641. Em 1619 a cidade de Jacarta na Indonésia, tornou-se capital da colônia da VOC, sendo rebatizada com o nome de Batavia. Em 1624, fundou-se em Taiwan o Forte Zelândia, importante entreposto entre a Indonésia e o Japão. (ARBLASTER, 2005, p. 136).

“Tratada pela bibliografia como uma companhia majestática, a VOC era regida por um estatuto construído pelos Estados Gerais. Também era a República que assegurava seu formato inovador: a VOC era uma sociedade de ações, sendo seu capital dividido em quotas iguais e transferíveis. Desmembrada em câmaras que mantinham seu capital próprio separado do das demais, a VOC possuía um quadro de diretores, os Heeren XVII – literalmente, os Dezessete Senhores – que estipulavam diretrizes gerais e políticas para todas as câmaras. As vagas de direção eram ocupadas pelos govenadores das câmaras, com a ressalva de que, das dezessete vagas disponíveis, oito deveriam ser ocupadas pelos governadores de Amsterdã, como contrapartida pelo maior investimento feito”. (NAVARRO, 2015, p. 64).

Enquanto os negócios no Oriente progrediam, no Ocidente a situação entre Holanda e Espanha ainda se mantinha tensa. Em abril de 1607, o arquiduque Alberto VII da Áustria e sua esposa a infanta Isabela Clara (filha mais velha de Filipe II, nomeada por este como governante dos Países Baixos), promulgaram um cessar-fogo com os holandeses, proposta essa mediada pela França e a Inglaterra.

Naquele momento, os holandeses cobravam dos espanhóis o reconhecimento por sua independência, e por sua vez, os espanhóis exigiam que os holandeses respeitassem a proibição dos embargos econômicos e permitissem o culto católico no país. (ARBLASTER, 2005, p. 130). Tais propostas evoluíram para a Trégua dos Doze Anos (1609-1621), assinada a 9 de abril de 1609, na Antuérpia.

A prefeitura de Antuérpia (Bélgica), durante a assinatura da Trégua dos Doze Anos. Gravura de Michiel Collijn, c. 1613 e 1615. 
O rei Filipe III decidiu apoiar a proposta de sua irmã e de seu cunhado, propondo uma trégua que durariam doze anos, na qual as duas nações suspenderiam suas desavenças, e não voltariam a entrar em conflito, desde que ambos respeitassem os territórios de cada um. Na prática as propostas debatidas na trégua nunca foram respeitadas totalmente: por exemplo, os holandeses continuaram a fazer incursões aos territórios espanhóis e portugueses, indo visitar a América do Norte e do Sul, Caribe, e a costa ocidental da África. (ENTHOVEN, 2003, p. 36).

Em 1618, eclodiu a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), motivada principalmente por conflitos religiosos entre os protestantes e católicos no Sacro Império. Filipe III optou por apoiar seu primo que era o então sacro imperador, e, por sua vez, os holandeses aderiram à Liga Protestante que surgiu para se opor à Liga Católica. Isso reacendeu os conflitos entre holandeses e espanhóis, mesmo havendo oficialmente uma trégua entre as duas nações.

Willem Ussenlincx
Em 1621, com o término da Trégua dos Doze Anos (1609-1621), a Companhia das Índias Ocidentais foi criada, seguindo o mesmo modelo da VOC, embora foi concebida por Willem Usselincx (1567-1647). O qual foi um comerciante de origem flamenga, que trabalhou e viveu algum tempo na Espanha, em Portugal e nos Açores, tendo contato direto com o comércio ultramarino destes países com suas colônias. Ussenlincx concebeu a nova Companhia das Índias, para ser uma companhia de colonização e não de exploração como a VOC. Na sua proposta original a WIC seria fundada para se tornar uma colônia agrícola, criando-se assentamentos em territórios não ocupados pelos portugueses e nem espanhóis, assim evitando-se o conflito com a Monarquia Ibérica dos Filipe. Além disso, Ussenlincx concebeu que as colônias deveriam empregar trabalho livre, não se valendo do uso de escravos indígenas e nem africanos. (SCHALKWIJK, 2004, p. 51-52). Todavia, não foi isso que ocorreu. A WIC tomou um caminho bem diferente proposto por Willem Ussenlincx, além do fato de que após a companhia ser criada, nenhum cargo lhe foi oferecido, então se sentido “traído”, ele deixou o país e se mudou para a Suécia, retornando a Holanda após 1632.

Logo, a WIC passava a dispor do direito de possuir uma administração autônoma, formar marinha de guerra e exército; fundar colônias, negociar com outras nações e povos, sem necessidade de autorização dos Estados Gerais; nomear governadores e diretores para suas possessões ultramarinas, fomentar acordos econômicos, políticos ou alianças militares. (LAET, 1912, p. 8-15).

“The idea of one company for all of the Atlantic went back as far as the trade itself. Most merchants realized that only an organization with adequate ships and military power could challenge the Iberian powers in the Atlantic. The first person to advocate the establishment of a Dutch West India Company (WIC – West-Indische Compagnie) was Willem Usselincx, an Antwerp-born merchant who had moved to Middelburg in 1591. Usselincx maintained good contacts with influential citizens throughout the United Provinces, including François Francken, the pensionaris (executive administrator) of Gouda, and the Flemish born preacher-geographer Petrus Plancius in Amsterdam. All were devout Calvinists and enthusiastic about the West India Company, which doubled as trading firm and weapon in the battle against the king of Spain. Usselincx claimed that he had advocated organizing such a company as early as 1592, but he had to wait till 1606 before the States of Holland approved such a plan”. (HEIJER, 2003, p. 78).

Embora navegações e negócios nas Índias Ocidentais já fossem feitos desde o século XVI pelos holandeses, um dos entraves para a criação da WIC se deu por causa da Trégua dos Doze Anos, pois os Estados Gerais consideraram que a criação desta companhia poderia ser entendida como uma quebra de acordo, e isso seria usado como pretexto pelo governo espanhol para retomar as hostilidades e ataques, lembrando que os exércitos espanhóis mesmo durante a trégua ainda se mantinham a postos nas fronteiras. (ALBUQUERQUE, 2010, p. 26).

Planos para atacar o Brasil: 

Enquanto a Espanha permaneceu ocupada com os conflitos referentes aos holandeses (agora na Guerra dos Trinta Anos), nesse mesmo tempo, a WIC planejava atacar as possessões portuguesas nas Índias Ocidentais. Se antes foram promovidas expedições mercantis às Índias Ocidentais, com o advento da WIC a missão era conquistar territórios e fundar colônias. Em 1614, foi criada a Colônia dos Países Baixos (Nieuw Nederland). Neste mesmo ano também se fundou a cidade de Nova Amsterdã (atual cidade de Nova York), a qual se tornou capital da colônia holandesa na América do Norte. (SCHALKWIJK, 2004, p. 38).

Território da colônia dos Novos Países Baixos na América do Norte. 
Enquanto a WIC não se deparou com muitos problemas para fundar uma cidade e construir outros fortes na América do Norte, na América do Sul, em 1624, a missão era atacar a capital do Brasil, Salvador. Nos três anos após a criação da WIC, reuniu-se o capital para planejar a primeira invasão ao Brasil. Em 1623 o capital da WIC era de 7.108.161 florins, sendo que 2.846.582 florins foram fornecidos apenas por Amsterdã. (HEIJER, 2003, p. 81). A frota neerlandesa adentrou as águas da baía de Todos os Santos em 10 de maio, sem encontrar pela frente nenhum percalço, e, em dois dias, a capital, fracamente munida de defesa, foi tomada.

“Para os habitantes de Salvador, a visão da armada que adentrava a baía causou pânico e correria. Apesar de terem sido avisados pelo rei da possibilidade de um ataque holandês, a defesa da cidade não contava com nenhuma estratégia especial. Mesmo sabendo da presença de uma nau holandesa na região de Boipeba desde o dia 13 de abril de 1624, o governador Diogo de Mendonça Furtado, a despeito dos seus esforços, não conseguiu organizar uma defesa satisfatória da cidade”. (BEHRENS, 2013, p. 11).

Após os holandeses permanecerem quase um ano de posse de Salvador, a poderosa Jornada dos Vassalos enviada pelo rei Filipe III, composta por 56 navios e 12.463 homens, os expulsou. (SCHWARTZ, 1991, p. 735). No entanto, a WIC não desistiria facilmente.

Planta da Restituição da Bahia do atlas do Estado do Brasil. João Teixeira Albernaz, o Velho, 1631. 
O açúcar ainda era mercadoria bastante valiosa, embora que curiosamente no período de 1624-1654, o ano de 1624 teve a menor cotação no preço do açúcar branco em Amsterdã, custando 0,43 florins. Entretanto, em 1630, ano da segunda invasão holandesa ao Brasil, o valor do açúcar branco custava 0,67 florins, o que mostra uma valorização de 0,24 florins em cinco anos, o que levou os neerlandeses a investir em um novo ataque ao Brasil, pois o preço do açúcar de 1631 a 1636 permaneceu na casa dos 0,60 florins. (MELLO, 2004, p. 245).

Passados cinco anos, eles retornaram, dessa vez o alvo era Pernambuco, então maior produtora de açúcar do Brasil. Assim como Salvador estava fracamente defendida, na mesma situação se encontrava Olinda, que também sucumbiu facilmente ao vasto poderio do invasor.

“A decisão de atacar Pernambuco foi das mais fáceis, por isso que os holandeses estavam singularmente bem informados sobre as condições em que se encontrava aquela capitania. Pelas cartas do governador, Matias de Albuquerque, interceptadas durante a campanha da Bahia, ficaram eles conhecedores de que as fortificações de Olinda e Recife estavam desaparelhadas. Albuquerque dava também conhecimento de que a milícia local não excedia a 400 homens pouco experimentados, na sua maioria cristãos-novos, em que se não podia depositar confiança. Os holandeses ficaram também sabendo que as três capitanias do Nordeste possuíam 137 engenhos de açúcar, cuja produção montava a cerca de 700 000 arrobas em média, nos anos bons”. (BOXER, 1961, p. 45).

A afirmativa de Charles Boxer se torna ainda mais significativa quando notamos que na década de 1620, foram produzidos relatórios descritivos da costa brasileira, o que revela que a WIC já estava a alguns anos planejando sua incursão ao Brasil. A Companhia possuía conhecimento sobre os melhores locais onde se conseguir açúcar, pau-brasil e outras mercadorias.

Entre esses relatórios podemos destacar a Tocha da Navegação (1623) e o Roteiro para o Rico Brasil (1624), ambos produzidos por experientes navegadores holandeses, os quais esboçaram um trabalho detalhado sobre os pontos geográficos da costa brasileira e seus principais portos, inclusive dando instruções de como melhor aportar nestes. Mas além dessas referências geográficas, tais relatórios também trazem informações sobre cidades, vilas e mercadorias produzidas.

Há também o relatório de Jan Andries Moerbeeck, intitulado Motivos por que a Companhia das Índias Ocidentais deve tentar tirar ao Rei da Espanha a terra do Brasil e isto quanto antes (1624), cujo título já apresentava de forma demasiadamente óbvia o interesse de se apossar do Brasil devido a sua rica produção açucareira.

De acordo com o relatório da Lista do que o Brasil pode fornecer anualmente (1623), naquele ano a produção conjunta de açúcar de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba era de 700 mil arrobas (ca. 1050 toneladas), o que renderia a WIC um lucro estimado de 4.795.000 florins. (MELLO, 2004, p. 17). Em seu relatório Moerbeeck que viveu algum tempo na colônia brasileira, enfatizou ainda mais o que já era planejado pela Companhia. (MELLO, 2004, p. 42).

Além desses relatórios existem outros, no entanto, um que merece destaque por não se tratar de um relatório, mas sim de uma carta com ordens, diz respeito a uma carta expedida pelo Conselho dos XIX no ano de 1629. O Conselho dos XIX era responsável pela administração da WIC, e nesta carta foram estabelecidas as instruções que o tenente-coronel Hendrik Cornelissen Lonck deveria seguir.

Tenente-coronel Hendrik Cornelissen Lonck. 
Nessa carta diz que, em caso não se obtivesse êxito em se tomar Olinda, e se os ventos fossem favoráveis, a armada neerlandesa deveria seguir para a baía de Guanabara, a fim de conquistar (“por todos os meios” - dizeres da carta) a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas caso os ventos não fossem favoráveis para essa viagem ao sul, à armada deveria tentar atacar novamente Salvador. Não obstante a carta também instruía para que a Paraíba e Buenos Aires fossem atacadas e ocupadas. (MELLO, 2004, p. 49).

Por tal carta de ordens dada ao tenente-coronel Lonck, já se deixa evidenciado o planejamento da WIC e o próprio fato de que a companhia estava preparada para se arriscar, pois se planejava atacar novamente Salvador, como também o Rio de Janeiro e Buenos Aires. No entanto, como a capitulação de Olinda e Recife acabou logrando êxito, e os ventos não foram favoráveis para uma viajem ao sul, os comandantes da invasão de 1630, decidiram fixar base na vila conquistada.

“Acreditava o Conselho dos XIX, órgão diretor da W.I.C, que, assenhoreadas as praças-fortes, a região cairia automaticamente em seu poder, de vez que, na falta de ligações com Portugal, os colonos se veriam na contingência de aceitar o domínio estrangeiro”. (MELLO, 2002, p. 51).

A perspectiva da WIC acabou sendo adiada, pois os territórios livres acabaram optando pela resistência. Tal longa permanência se deu a um custo enorme, pois em 1633, cogitou-se abandonar a ocupação de Olinda, Recife e Itamaracá, e em 1636, a Companhia já se encontrava em crise financeira, devendo 18 milhões de florins, devido aos enormes gastos em se manter a guerra e a ocupação das terras conquistadas nestes últimos anos. (MIRANDA, 2014, p. 29).

Período esse chamado por Evaldo Cabral (2007, p. 13) de a guerra lenta de resistência. Mesmo que tal cronologia aluda às dificuldades dos holandeses em se adaptar a terra e ao estilo de guerra praticado pelos colonos “brasileiros”, ainda assim, os exércitos holandeses estiveram em vantagem mesmo diante de várias adversidades, no que resultou na ocupação do nordeste do Brasil ao longo de duas décadas, até terminar o privilégio de 24 anos de monopólio sobre as Índias Ocidentais. (LAET, 1912, p. 8).

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