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Leandro Vilar

domingo, 29 de junho de 2014

Ásia: berço de religiões: as religiões abraâmicas

O continente asiático é conhecido por sua rica diversidade de culturas, e foi neste local próspero culturalmente que algumas das mais importantes religiões da História surgiram. Normalmente costuma-se dizer que os orientais estão mais próximos da vida espiritual, de certa forma isso é verdade, mas teria sido essa aproximação com a fé e a religiosidade que levou algumas religiões a alcançarem patamares globais? Os povos ocidentais possuíam suas religiões, mas ao longo da História eles acabaram sendo influenciados por algumas religiões orientais principalmente o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo. Neste texto a proposta foi apresentar um breve relato acerca de algumas das mais importantes religiões asiáticas.

Devido a extensão que o texto alcançou optei por separar esse estudo em pelo menos quatro partes, consistindo essa primeira parte, em se referir as religiões abraâmicas. Algumas das outras partes desse trabalho já estão disponíveis nos seguinte links: 
Religiões Abraâmicas:

Denomina-se de religiões abraâmicas as religiões surgidas com base na crença e fé do profeta caldeu Abraão o qual recebeu uma revelação de Deus (Javé ou Alá), onde o Senhor disse para Abraão e sua família deixarem Ur, uma cidade da Suméria (atualmente no sul do Iraque) e migrar para o oeste em busca de uma "terra prometida" chamada Canaã (atual Israel), onde nessa terra os seguidores de Deus poderiam prosperar e viver em paz. Abraão aceitou a missão e seguiu viagem. 


Abraão para os judeus:
Olhai para Abraão, vosso pai,
e para Sara, aquela que vos deu à luz.
Ele estava só quando o chamei,
mas eu o abençoei e o multipliquei.
Isaías 51,2

Abraão para os cristãos:
Responderam-lhe: "Nosso pai é Abraão". Disse-lhes Jesus:
"Se sois filhos de Abraão,
praticai as obras de Abraão.
Vós, porém, procurais matar-me,
a mim, que vos falei a verdade
que ouvi de Deus.
Isso, Abraão não fez"
João 8,39-40

Abraão para os muçulmanos:
Eles dizem: "Aceita a fé judaica ou cristã e terás a orientação
correta". Dizei então: "De maneira nenhuma! Nós cremos na fé de
Abraão, o correto. Ele não era idólatra".
Corão, sura 2,129

Judaísmo:

1) Breve história


“A palavra judeu deriva de Judéia, nome de uma parte do antigo reino de Israel. Judaísmo reflete essa ligação. A religião é chamada ainda de "mosaica", já que se considera Moisés um de seus fundadores. O Estado de Israel define o judeu como "alguém cuja mãe é judia e que não pratica nenhuma outra fé". Aos poucos essa definição foi ampliada para incluir o cônjuge. O judaísmo não é apenas uma comunidade religiosa, mas também étnica. Historicamente, o termo judeu tem conotações raciais, porém estas são inexatas. Existem judeus de todas as cores de pele”. (GAARDER, 2000, p. 105).

Os hebreus povo do qual os judeus são descendentes, segundo as Sagradas Escrituras seriam descendentes de Héber, o qual por sua vez era da Linhagem de Sem, um dos filhos de Noé. Abraão era descendente de Héber. Os descendentes de Héber teriam passado a se chamar de hebreus, e viviam na Suméria e regiões vizinhas. Não se sabe ao certo em que época Abraão viveu, embora alguns aleguem que ele talvez não tenha existido. Normalmente se credita que Abraão teria vivido entre os anos de 2000 a.C e 1800 a.C.

O historiador judeu Flávio Josefo no século I d.C escreveu um importante livro sobre a história do povo hebreu, e na sua obra ele relata que Abraão e seu pai Terá passaram a serem maus vistos entre os sumérios e caldeus, pois ambos haviam recusado a idolatria e os demais deuses, e passaram a acreditar num deus chamado Javé (Yahweh). Por causa dessa predileção a tal divindade, somando-se o fato de Arã, outro dos filhos de Terá ter morrido na região, Terá e o restante da sua família foram embora, sendo incentivados por Deus a procurarem uma nova terra onde eles não seriam maltratados. 

"Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção". (Gênesis 12:1-2)

A partida de Abraão. József Molnár, 1849. 
O patriarca e seus familiares, parentes e escravos seguiram por um longo caminho até finalmente chegar a Canaã, que equivale hoje a região central do Estado de Israel. Entretanto, a região já era habitada por outros povos como os cananeus, filisteushititas, assíriosegípcios, etc. Embora Javé tenha dito para Abraão que aquela era a "terra prometida ao povo escolhido", os hebreus tiveram que disputar seu espaço naquela região. Ainda de acordo com a tradição judaica, durante uma grave seca, Abraão e sua comunidade migraram brevemente para o Egito e depois retornaram e se estabeleceram por vários anos. 

Mapa retratando duas possíveis rotas da viagem de Abraão de Ur para Canaã. 
Várias décadas de passariam desde a chegada de Abraão, até que um de seus netos chamado Jacó mudaria a história dos hebreus na região. Jacó era irmão gêmeo de Esaú, e ambos eram filhos de Isaac (segundo filho de Abraão) e Rebeca. Deus havia profetizado que os dois irmãos seriam senhores de duas nações, e isso acabou levando vários anos depois a desavenças entre os gêmeos. Jacó passou a se chamar Israel e tivera doze filhos, os quais cada um originaram as chamadas "Doze Tribos de Israel", e passaram a ser conhecidos como israelitas. Por sua vez, Esaú tivera vários filhos e estes passaram a se chamar edomitas

No Antigo Testamento fala que os hebreus foram feitos escravos no Egito, mas na realidade nem todos o foram. De fato parte dos israelitas como foi o caso de José, o décimo primeiro filho de Israel, já vivia há vários anos no Egito, no entanto, os edomitas não chegaram a migrar para a terra das pirâmides. Moisés quando decidiu aceitar a missão de Deus em se libertar os hebreus, referia-se principalmente aos israelitas, os quais durante o Êxodo puderam deixar o Egito e iniciar a longa jornada de volta a Canaã que durou 40 anos. 

Em data ainda incerta entre 1500 a.C e 1200 a.C teria ocorrido o Êxodo. Todavia no que tange a história religiosa do judaísmo, Moisés é o grande marco nesse sentido, já que segundo a tradição ele recebeu de Deus as duas tábuas contendo os Dez Mandamentos, os quais se tornaram o código base para o povo israelita, que a partir dessas dez leis criaram parte de seu direito e legislação (lembrando que os hebreus também se valeram da legislação de outros povos). Além desse fato, é creditado ao profeta Moisés a autoria dos cinco primeiros livros do Torá, os quais são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Tais cinco livros conhecidos também como Pentateuco, se tornaram o início e a base do Torá, da Bíblia e do Alcorão

Gravura em preto e branco, retratando Moisés erguendo as tábuas dos Dez Mandamentos. 
Após o retorno dos israelitas a Canaã, por volta do ano 1000 a.C surgiu o Reino de Israel formado por descendentes das "Doze Tribos de Israel". Será nesse período que surgiria importantes reis como Salomão e Davi. Foi durante o governo de Salomão foi construído o Templo de Jerusalém dedicado a Deus. Com a morte de Salomão o reino entrou em crise e ocorreu uma divisão, na qual originou o Reino de Judá com capital em Jerusalém, e governado por Roboão, enquanto o Reino de Israel com capital em Samaria, passou a ser governado por Jeroboão. A divisão em dois reinos ocorreu por volta do século X a.C, sendo que Israel foi conquistada no século VIII a.C pelos assírios, e Judá sucumbiu aos babilônios no século VI a.C. 

Mapa mostrando os Reinos de Israel e Judá, e alguns reinos e povos vizinhos. 
“Os profetas advertiam o povo do juízo e da punição de Deus, porque as pessoas não estavam vivendo de acordo com as leis divinas. Muitos profetas viam. o declínio e a destruição do poder do país como um justo castigo para isso. O reino foi então dividido em dois, um reino do Norte (Israel) e um do Sul (Judá), tendo Jerusalém como capital. Em 722 a. C, o reino do Norte foi devastado pelos assírios e a partir daí deixou de ter significado político e religioso. O reino do Sul foi conquistado pelos babilônios em 587 a.C. Grande parte da sua população foi deportada para o exílio na Babilônia. Entretanto, em 539 a.C. os que desejavam voltar para a terra natal obtiveram permissão para isso, e daí em diante se tornaram conhecidos como judeus (palavra derivada de Judá e Judéia)”. (GAARDER, 2000, p. 108). 

“Foi depois do retorno da Babilônia que começou a se desenvolver a religião que costumamos chamar de judaísmo. O núcleo do judaísmo era a vida na sinagoga, local de culto onde os fiéis se reuniam para orar e ler as escrituras. Esse tipo de serviço religioso surgira por necessidade durante o exílio babilônico, uma vez que ali os judeus não tinham um templo onde orar. Ao voltar do exílio, eles continuaram praticando esse serviço nas sinagogas, que foram construídas em diversas cidades. Nestas, uma função relevante era exercida pelos leigos versados nas escrituras, os quais zelavam por elas, e buscavam interpretá-las e explicá-las. Não tardou que a maioria desses homens instruídos passassem a vir das fileiras dos fariseus. Os fariseus davam muita importância à Lei escrita nos cinco primeiros livros de Moisés — o Pentateuco —, e também às normas relativas à limpeza e ao asseio; procuravam interpretar a Lei segundo as novas condições que prevaleciam. Nessa época, o papel do Templo já se tornara secundário. O grande Templo de Jerusalém, destruído durante a conquista babilônica de 587 a.C., foi reerguido em 516 a.C. O sumo sacerdote, os demais sacerdotes e os levitas a eles subordinados eram responsáveis pelo culto, que compreendia o sacrifício diário de um cordeiro em expiação pelos pecados do povo. Após o exílio babilônico, o sumo sacerdote se tornou líder do Sinédrio, o conselho dos anciãos, que mais tarde incluiu ainda representantes dos homens mais instruídos”. (GAARDER, 2000, p. 108-109).

Após os judeus que estavam na Babilônia terem sido libertados pelo imperador persa Ciro, o Grande, eles retornaram para Canaã descobrindo que suas terras estavam ocupadas por outros povos há vários anos. Além desse fato, alguns hebreus pertencentes aos ramos israelita, edomita entre outros haviam migrado para outras terras. No entanto, os judeus se manteriam em Canaã e criaram posteriormente com dificuldade o Reino da Judeia. Todavia é importante mostrar que os judeus consistem num ramo do povo hebreu, pois existem outros ramos do povo hebreu que acabaram adotando outras religiões.

Não obstante, do século I a.C até o século XX d.C os judeus seriam perseguidos principalmente na Europa pelos seus irmão cristãos, e na Ásia pelos seus irmãos muçulmanos. No período medieval e moderno na Europa, judeu se tornou sinônimo de pessoa gananciosa, avarenta, herege, de indivíduo estranho, suspeito e sem pátria. Os judeus foram acusados de serem os responsáveis pela morte de Jesus Cristo (é válido ressalvar que Jesus era judeu), durante o século XIV com o auge da infestação da peste negra no continente europeu, algumas cidades proibiam que judeus ali se estabelecessem ou no caso de haver famílias judias, estas eram expulsas, pois de acordo com o historiador Jean Delumeau [2010] alguns boatos salientavam que os judeus eram os responsáveis por disseminar a peste. 

Nos séculos XV, XVI e XVII em Portugal e Espanha, várias famílias judias tiveram ou que deixar o país, ou foram obrigadas a se converterem ao cristianismo, e assim passaram a ser chamados de cristãos-novos, para poderem escapar das inquisições Portuguesa e Espanhola

No entanto, o maior incidente contra os judeus ocorreu no século XX, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) onde a perseguição do Nazismo matou pelo menos seis milhões de judeus europeus nos campos de concentração. No que ficou conhecido como Holocausto. Para a ideologia nazista os judeus eram um povo de origem inferior, corrompido desde o seu passado remoto, um povo fraco, ganancioso, sem patriotismo, etc. Mas, além desse fato ideológico, havia a questão de que algumas famílias judias eram bem ricas, e o governo alemão aproveitou para lhe confiscar os bens. 

Em 1947 a ONU através de uma assembleia geral procurou resolver alguns problemas envolvendo os judeus na Palestina, os quais estavam conflito com os muçulmanos locais. No ano seguinte foi instituído do Estado de Israel a 14 de maio de 1948. A ideia era que se a desavença entre judeus e muçulmanos era pela questão da posse territorial daquela região, decidiu se criar um Estado judeu para evitar tais desavenças, mas isso gerou outros problemas, entre os quais os fato de Jerusalém embora seja a capital de Israel, ela é considerada uma cidade internacional e laica, logo, judeus, cristãos e muçulmanos vivem nela. Ainda hoje Israel é um país instável devido a ameaça de revoltas e grupos rebeldes de origem judia e muçulmana que disputam o controle de determinados locais. 

2) Aspectos religiosos

O judaísmo é uma das religiões monoteístas mais antigas conhecidas e ainda em vigor, onde Javé é considerado o deus único, onipotente, onipresente e onisciente. O deus protetor do povo de Israel. Para os judeus, Deus formou um pacto com seus antepassados na época de Abraão, e reafirmou esse pacto com Moisés; pacto esse que lhe prometia uma terra chamada de Canaã que hoje consiste na região da Palestina em Israel, local de grande instabilidade política. 


No judaísmo o seu livro sagrado se chama Tanakh, e é bem parecido com o Antigo Testamento da Bíblia por compartilhar alguns dos mesmos livros, embora existam trechos diferentes. A obra é dividida em três partes: 

  • O Torá, o qual corresponde ao Pentateuco;
  • O Neviim (livro dos profetas), formado por oito livros referentes a vários profetas, desde Josué até Malaquias. No Neviim também estão inclusos os livros dos Juízes e dos Reis;
  • O Ketuvim ("Escritos"), os quais consistem em crônicas como os Salmos, Provérbios, Livro de Jó, Cântico dos Cânticos, Livro de Daniel, Livro de Ester, etc. 
Embora o Torá corresponda ao Pentateuco, é também comum utilizar o nome para se referir a todo o ensinamento judaico contido no Tanakh. Embora alguns judeus não gostem dessa generalização. Para os judeus a base de suas crenças religiosas estão contidas no Tanakh e auxiliadas pelo Talmude o qual consiste num conjunto de livros que debatem legislação, ética, comportamento, história, costumes, como também consta numa análise e comentários de algumas das obras contidas no Tanakh


Rolo de papel contendo o Torá
“Além da Torá escrita, os judeus também tinham regras e mandamentos transmitidos oralmente. Segundo a tradição judaica, no monte Sinai, Moisés recebeu não apenas a "Lei escrita" de Deus, mas ainda a "Lei falada". Era proibido escrever a Lei falada, pois esta deveria ser adaptada às condições reais de vida em diferentes lugares e épocas. Porém, depois que os judeus se dispersaram pelo mundo, surgiu o medo de que a Lei falada se perdesse. Assim, decidiu-se registrá-la por escrito, o que foi feito nos séculos que se seguiram à destruição de Jerusalém. Esse material se chama Talmud, palavra hebraica que significa "estudo". O Talmud contém leis, regras, preceitos morais, comentários e opiniões legais, mas também histórias e lendas que discutem esse conteúdo. É bem sabido que o Talmud não é, em si, um livro de ensinamentos, e sim um texto usado pelos rabinos em seus ensinamentos, para orientação dos fiéis em situações concretas”.  (GAARDER, 2000, p. 116).

Diferente do cristianismo, o judaísmo não possui uma instituição religiosa como a Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas, protestantes, coptas, etc. As sinagogas as quais se tornaram os templos judeus após o Cativeiro na Babilônia, são templos para oração, reunião, comunhão e estudo. Algumas sinagogas representam comunidades judaicas locais que necessariamente não se reúnem no templo, mas realizam reuniões na casa de famílias judias, geralmente na casa do rabino. 



“Numa sinagoga não há imagens religiosas nem objetos no altar, pois as imagens são proibidas (é o segundo mandamento). O ponto focal de uma sinagoga judaica é, pois, a Arca, uma espécie de armário que fica na parede oriental, na direção de Jerusalém. Ali se guardam os rolos da Torá, escritos em pergaminho. Como sinal de respeito, esses rolos costumam ser envoltos numa capa de seda, veludo ou outro material nobre, e decorados com sinos, uma coroa e um escudo de metal precioso. Mantém-se sempre uma lâmpada ardente diante da Arca”. (GAARDER, 2000, p. 117-118). 

Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Brasil. Fundada no século XVII por judeus holandeses, consiste na mais antiga sinagoga das Américas. 
O dia sagrado para os judeus é o Sábado (Shabat), e dependendo de cada judeu, eles evitam fazer algumas tarefas diárias durante esse período. O shabat propriamente não começa no sábado, mas no pôr do sol da sexta-feira e vai até o pôr do sol no sábado. Nesse período, o qual é conhecido como o "dia do descanso", pois Deus criou o universo no domingo e no sétimo dia (sábado) ele descansou, logo, em respeito ao Criador, os judeus resguardam o shabat sem trabalhar e sem exercer algumas atividades que sejam consideradas trabalhosas. 

“O Shabat dura desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol de sábado. A base para a observância do Shabat se encontra na história da criação do mundo: no sétimo dia Deus descansou. Por isso, o homem também deve descansar nesse dia. O sábado se tornou uma festa semanal de renovação, a festa do lar e da família. A esposa, que sempre foi um fator decisivo na preservação dos costumes judaicos, abençoa e acende as velas do Shabat na mesa já posta. O marido abençoa o vinho e corta o pão especial do Shabat. A participação no jantar de Shabat é sagrada e tem grande importância para a união da família judaica”. (GAARDER, 2000, p. 118-119).

No dia de sábado os judeus costumam ir a sinagoga participar das orações, embora dependendo do lugar, as orações também ocorram na segunda e quinta-feira, e na ocasião se ler trechos do Tanakh em língua hebraica. Além de ler o Tanakh, os judeus também leem o Sidur um livro de orações e bençãos, específicos de sua religião. As vezes a leitura do Sidur pode ser acompanhada pelo Shemá, uma espécie de coro religioso, onde um cantor profissional ou leigo, realiza o breve cântico do Shemá, sendo acompanhado pelos demais presentes, onde se recitam trechos em agradecimento a Deus, além de pedir suas bençãos. 

Na comunidade judaica não há hierarquia clériga como na Igreja Católica e Ortodoxa, o rabino não é um sacerdote, mas um professor, o qual consiste num homem culto, versado no estudo do Tanakh e do Talmude. Cabe o rabino orientar e ensinar a comunidade judaica a qual está vinculado. O rabino diferente do padre e do pastor, não precisa ser o responsável pela direção e realização das orações, e tão pouco cuida de aspectos religiosos como o batismo, casamento, sepultamento e o bar-mitzvá (cerimônia de passagem para a vida adulta, realizada apenas com os homens a partir dos 13 anos). O rabino não precisa fazer votos como outros clérigos, embora deva manter sua decência como um bom judeu. 

“Os judeus têm regras detalhadas para a alimentação, normas cujas origens se encontram na Bíblia. Os alimentos que podem ser comidos são chamados kosher, palavra que originalmente significava "adequado" ou "permitido". A carne só pode provir de animais que ruminam e têm o casco partido, o que exclui o porco, o camelo, a lebre, o coelho e outros. Das aves, podem-se comer as não-predatórias. Dos peixes, são kosher apenas os que possuem escamas e barbatanas; logo, estão eliminados polvos, lagostas, mariscos, caranguejos, camarões etc. Os animais e as aves que não podem ser comidos são denominados impuros; tampouco se podem comer seus ovos ou beber seu leite”. (GAARDER, 2000, p. 119).

Os judeus também procuram não comer carnes ensaguentadas, logo, procura-se durante o preparo extrair-se o máximo possível de sangue. Os vegetais são todos tolerados, assim como diversos tipos de bebida alcoólicas e não-alcoólicas, todavia, algumas bebidas como o vinho, só podem ser consumidas de acordo com a tradição judaica, onde existem vinhos específicos para a comunidade judaica. Outro costume é o não de se misturar carne com leite ou derivados do leite, ou seja, se a refeição conter qualquer tipo de carne, não se deve comer queijo, ou tomar leite, ou beber café com leite, e nem consumir, manteiga e sobremesas feitas com leite em conjunto a refeição ou logo após a essa. Normalmente são os judeus mais conservadores que seguem tal especificidade. 

Tal hábito alimentar procura-se ser seguido diariamente, mas durante a Páscoa (Pêssach) ele é respeitado a arrisca, além de fazer parte do cerimonial desse feriado no qual os judeus comemoraram a saída do Egito, conduzida por Moisés. 

“Os judeus não fazem distinção nítida entre a parte ética e a parte religiosa de sua doutrina. Tudo pertence à Lei de Deus. Existem 248 ordens afirmativas e 365 proibições, totalizando 613 mandamentos. Além desses mandamentos, a vida do judeu é regulada por muitos costumes e práticas que surgiram ao longo da história. Diz-se que um costume judaico é tão obrigatório quanto uma lei. O judaísmo dá destaque a uma série de qualidades eticamente boas: generosidade, hospitalidade, boa vontade para ajudar, honestidade e respeito pelos pais. Um princípio fundamental é não fazer mal aos outros, ou, de maneira afirmativa: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19,18)”. (GAARDER, 2000, p. 120).

“As festas judaicas são associadas ao calendário judaico e em geral têm uma base histórica. Os judeus contam o tempo em relação à criação do mundo, a qual, segundo nosso calendário, ocorreu em 3761 a.C. O calendário se apoia no ano lunar e tem doze meses de 29 ou trinta dias, com 354 dias ao todo. Acrescenta-se um mês extra sete vezes durante cada ciclo de dezenove anos, para alinhar o ano lunar pelo ano solar; com esse arranjo, as datas festivas mudam de ano em ano, do mesmo modo que a Páscoa cristã. Três delas são festas de peregrinação, com raízes no antigo Israel. Eram ocasiões em que todos os homens deviam fazer uma peregrinação ao Templo de Jerusalém, levando seus sacrifícios. Algumas outras festas se fundamentam em acontecimentos históricos”. (GAARDER, 2000, p. 124).

Os principais festejos judaicos são:
  • Rosh ha-Shaná (Ano-Novo): o qual é celebrado em setembro ou outubro.
  • Iom Kipur (Dia do Perdão): É celebrado dez dias depois do Ano-Novo judaico, no qual antigamente os judeus se reuniam e sacrificavam um bode, e outro bode era largado no deserto (o bode expiatório), no qual carregava os pecados daquela comunidade, a qual pedia o perdão do Senhor. Atualmente o sacrifício não é mais realizado, e os judeus se reúnem para orar por perdão a Deus. 
  • Sukot (Festa dos Tabernáculos): Ocorre após o Iom Kipur, onde tendas de folhas são erguidas nos quintais de casa e próximo a sinagoga, conotando uma referência ao período do Êxodo, no qual os israelitas guiados por Moisés vagaram pelos desertos. No feriado também se comemora uma espécie de "ação de graças" e se realiza uma procissão carregando os rolos do Torá, celebrando o fim do ciclo de orações e o começo de um novo ciclo.
  • Chanuká (Festa da Inauguração): Celebrada durante oito dias no mês de novembro ou dezembro, é uma comemoração em memória de uma vitória que os judeus tiveram no ano de 165 a.C ao derrotarem os sírios e assim os expulsarem de Jerusalém. Na ocasião o Templo de Jerusalém que estava fechado, foi reaberto. 
  • Pêssach (Páscoa): Celebrada em março ou abril, comemora-se a saída dos israelitas do Egito sob o comando de Moisés. 
  • Shavuot (Festa das Semanas): Comemorada em maio ou junho, celebra o momento no qual Moisés apresentou os Dez Mandamentos no Monte Sinai. No dia, se ler os mandamentos e trechos do Livro de Rute, então se realiza um almoço a base de peixe, frutas e alimentos derivados do leite. 
Em geral as comunidades judaicas são bastante fechadas, centradas entre seus membros. Os judeus costumam se casar apenas com outros judeus, em caso do namorado ou namorada não for judeu, mas se quiserem casar-se, deve ocorrer a conversão do pretendente. Os judeus que vivem em Israel são os mais conservadores, procurando manter seus costumes e hábitos parecido com os de seus ancestrais, daí é comum ver os homens barbudos, usando tranças nos cabelos, usando trajes pretos, chapéus, etc. 

O chapéu, quipá, turbante, cartola, etc., são trajes específicos de alguns judeus, especialmente os homens (as mulheres usam véus) para cobrir a cabeça no intuito de se mostrarem em respeito a grandiosidade de Deus. É uma prática antiga, na qual andar com a cabeça coberta era forma de se respeitar a divindade. Os judeus e judias mais tradicionais cobrem a cabeça diariamente.

No que refere-se a religiosidade judaica, o principal ramo é o Judaísmo Rabínico ou Judaísmo Tradicional, a partir desse surgiu as ramificações do judaísmo ortodoxo, conservador, reconstrucionista e libertador. O Judaísmo Caraíta é de vertente mais conservadora principalmente no que diz respeito ao Tanakh; os judeus caraítas consideram apenas a importância do Tanakh como livro sagrado absoluto, e desconsideram a intervenção do Talmud no estudo religioso. Os judeus samaritanos por sua vez consideram apenas o Torá como único conjunto de livros inspirados por Deus, e desconsideram o restante do Tanakh e o Talmude

De vertente esotérica há o judaísmo Chassidismo o qual além de utilizar os livros tradicionais já mencionados, utilizam outras obras de teor esotérico e espiritualista como a Cabala. Os judeus chassidistas também acreditam na possibilidade de pessoas receberem dons de Deus e realizarem milagres (algo que lembra os santos cristãos). Existem outras pequenas ramificações que são vistas mais como seitas e em alguns casos são vistas como heréticas. 

Cristianismo


1) Breve história


A religião cristã ou Cristianismo surgiu no século I d.C estando centrada na pessoa religiosa e divina do carpinteiro judeu Jesus de Nazaré, chamado de o Cristo ("O Messias"). Jesus Cristo é a figura religiosa mais conhecida em grande parte do mundo, embora existam muitos que desconheçam a sua história. Sua pessoa consiste a base da religião cristã a qual por sua vez surgiu a partir do judaísmo. 


O Velho Testamento e o Tanakh anunciam em alguns livros a vinda de um escolhido, de um enviado de Deus para salvar o povo judeu. Os judeus aguardavam e ainda aguardam a vinda do Messias, pois para eles se trataria de um homem santo e poderoso, como se fosse um rei, no entanto, Jesus foi um humilde carpinteiro nascido em Belém na província romana da Judeia. Embora ele tem realizado seus milagres e dito que era o Filho de Deus, o enviado pelo Pai, ele acabou sendo crucificado e mesmo sua ressurreição não foi considerada pelos judeus como prova dele ter sido o Messias, todavia, para alguns judeus no século I, os ensinamentos e milagres de Jesus foram motivos suficientes para que se crê-se em sua palavra e de que ele era o Cristo. 



Painel retratando Cristo Pantocrator. Mosteiro de Santa Catarina, Egito, século VI. 
Jesus surge como uma benção para uma jovem mulher que estava para casar, ela se chamava Maria, e pelo que as fontes informam, era a única filha de São Joaquim e Santa Ana, os quais já eram idosos na época. Pela tradição judaica naquele tempo, as mulheres se iniciavam a vida matrimonial a partir dos 12 anos, quando até então já iniciava o ciclo da menstruação (tal aspecto biológico é bastante importante entre vários povos ao longo da História, pois determinava a entrada da mulher na fase adulta. A ideia de adolescência é uma concepção mais recente). Maria foi prometida a um homem bem mais velho, como de costume na época; ele era um carpinteiro que vivia em Nazaré, chamado José


Ícone russo representando a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus. 
De acordo com a Bíblia, o anjo Gabriel enviado por Deus anuncia a Maria que ela foi escolhida para ser a mãe do Filho de Deus. Maria fica surpresa com aquilo, e nove meses depois enquanto ela e São José seguiam viagem por Belém, eles pararam numa caverna já de noite, e ela deu a luz ao Menino Jesus. Dias depois os Três Reis Magos (Baltazar, Gaspar e Melquior) os quais teriam vindo da Mesopotâmia, Arábia e Pérsia, guiados por uma estrela ou cometa, encontraram a caverna e ofereceram presentes a criança que seria o Messias. 


Pintura representando a Adoração dos Magos, que consistiu na visita dos Três Reis Magos a Jesus e sua família.
A história de Jesus é tão marcante que dois feriados religiosos foram estabelecidos para ele: o Natal (25 de dezembro) onde se comemora seu nascimento, embora ele não tenha nascido neste dia, pois na Bíblia não há indicações da sua data de nascimento e nem se sabe em que ano ele realmente nasceu. Alguns historiadores sugerem que Jesus teria nascido entre 7 a.C e 3 d.C. Por sua vez, a Páscoa é celebrada pelos cristãos como a data da morte e da ressurreição de Cristo. De acordo com os Evangelhos no Novo Testamento, Jesus foi crucificado na sexta-feira de Páscoa, chamada pelos cristãos também de "sexta-feira da Paixão" ou "sexta-feira Santa". Então no domingo ele ressuscitou. Ambos os feriados, Páscoa e Natal marcam as principais datas religiosas do Cristianismo.

Todavia, Jesus Cristo não foi o responsável por difundir o Cristianismo, mas sim os seus discípulos, os Doze Apóstolos. Na época que Jesus realizou suas pregações entre seus 27 e 33 anos, ele falava sobre o amor de Deus, sobre os mandamentos de Moisés, sobre os ensinamentos no Tanakh, no Talmude, afinal ele era um judeu, mas a diferença estava na forma de como ele instruía a fé para as pessoas, nos seus sermões e ações. Jesus assim como Buda foram homens que realizaram muitos milagres, e os milagres são uma marca de seus feitos, de mostrarem sua comunhão com o divino. 


Nos Evangelhos há o relato de vários milagres realizados por Jesus como andar sobre as águas do Mar da Galileia, transformar água em vinho, multiplicar uma pequena quantidade de pão e peixe, de forma a alimentar centenas de pessoas, ressuscitar Lázaro, curar cegos, paraplégicos, leprosos, etc. Alguns historiadores consideram o cristianismo como sendo originalmente uma seita judaica que havia poucos integrantes, pois o posicionamento de Jesus em se dizer que era Filho de Deus, Filho do Homem e o Messias era algo muito radical na época, e tal fato levou a condenação dele a crucificação.


No entanto, coube aos seus apóstolos e seguidores difundir sua palavra pelo Oriente Médio, e depois pela Europa e a África. O Cristianismo sofreria nos primeiros quase 300 anos uma forte perseguição pelos romanos, já que a época que Jesus viveu, Roma governava o Mediterrâneo e as terras que lhe faziam costa. E os romanos passaram a reconhecer nos cristãos uma gente um tanto rebelde como os judeus. No passado os romanos chegaram a punir os judeus, invadindo algumas vezes a Judeia para conter rebeliões naquela província, mas no caso dos cristãos, boa parte destes inicialmente foram mau vistos por seus compatriotas, pois os demais judeus reconheciam Jesus como um impostor, um falso Messias. 


De fato, quando lemos sobre os Doze Apóstolos (Pedro, Mateus, João,  André, Tomé, Filipe, Bartolomeu, Tiago Maior, Tiago Menor, SimãoJudas Tadeu e Judas Escariote) os Evangelhos nos falam que eles acabaram tendo que deixar a Judeia, pois por um lado iniciaram a missão de espalhar a palavra do Salvador para outros lugares, mas por outro lado, o motivo de não terem permanecido tanto tempo na Judeia foi devido a retaliação do próprio povo judeu. Além destes doze são mencionados como discípulos Paulo de Tarso, Matias e Tiago, meio-irmão de Jesus. A Virgem Maria e Maria Madalena, assim como outras mulheres da família de Jesus, eram consideradas como seguidoras, mas não encaradas como discípulas, pois na religião judaica a mulher não possuía espaço para exercer determinadas atividades.  



Pintura retratando Jesus e os Doze Apóstolos durante a Última Ceia.
São Paulo em suas Epístolas menciona viagens suas a Chipre, Síria, Galácia e Cilícia (ambas na atual Turquia), posteriormente ele volta a viajar pela Galácia e se dirige a Grécia. Numa terceira viagem ele visita a Jônia (atualmente costa oeste da Turquia) e novamente a Grécia. Quanto a sua visita a Roma e suposta morte por crucificação, alguns historiadores que estudam o assunto, questionam se realmente São Paulo teria visitado e morrido em Roma.

São Pedro o qual teria sido incumbido por Jesus de fundar a Igreja de Deus (Mateus 16:18), viajou pela Judeia, Síria, Galícia e Itália, no entanto, teria morrido em Roma entre os anos de 64 e 67, sendo crucificado de cabeça para baixo. De acordo com a história da Igreja Católica, São Pedro teria sido o primeiro Bispo de Roma e o primeiro Papa. Todavia, existem questionamentos se realmente ele teria vivido e morrido em Roma. 


Édito que Santo André pregou na Ásia Menor e na Grécia, que São Tomé teria viajado para a Índia, que São Filipe teria ido para Cartago (hoje cidade na Tunísia). São Mateus teria pregado na Pérsia e na Etiópia, São Judas Tadeu teria pregado na Mesopotâmia, Síria e Pérsia, São João realizou pregações na Ásia Menor e na Grécia. São Marcos o qual não foi um dos Apóstolos, mas discípulo de S. Pedro e S. Paulo, teria sido o responsável por iniciar a pregação do cristianismo em Alexandria no Egito. A Igreja Ortodoxa e a Igreja Copta consideram ele como o primeiro Patriarca de Alexandria


Embora o Cristianismo tenha surgido na Ásia, seu desenvolvimento em aspectos eclesiásticos, dogmáticos, históricos, legais, litúrgicos, literários, culturais, simbólicos, etc., se deu propriamente na Europa. O Catolicismo, a Ortodoxia, o Protestantismo e o Espiritismo surgiram na Europa, no entanto, foram necessários séculos para que correntes cristãs se instituíssem no continente europeu. 


Pelo fato do cristianismo ter surgido na época do Império Romano (27 a.C - 476 d.C) ele sofreu perseguição por parte dos romanos, judeus e outros povos por várias décadas, até que em 313 com o Édito de Milão decretado pelos imperadores romanos Constantino, o Grande e Licínio decretou que o Estado estava proibido de perseguir outras religiões e seus seguidores, logo, as perseguições religiosas haviam sido suspensas, e isso não apenas serviu para outras religiões marginalizadas no império, mas como foi o primeiro passo para que a Igreja Romana começasse seu longo percurso para se estabilizar no coração da Itália. 


No ano de 325, Constantino na cidade de Niceia (hoje na Turquia) convocou o Primeiro Concílio de Niceia, onde ele reuniu os principais bispos da época para participar desse que foi um dos mais importantes concílios da história da Igreja Romana. A ideia por trás do concílio era se debater alguns assuntos importantes e polêmicos em voga na época. 

  • A controvérsia ariana: Concebido pelo presbítero Ário de Alexandria (256-336), o Arianismo como ficou conhecido suas ideias alegava que Jesus Cristo não era Deus encarnado em forma humana, punha em dúvida a existência da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), alegava que houve uma época que o Filho não existiria. Mesmo após o Concílio decretar que tais ideias estavam erradas, o arianismo ainda continuou a possuir seguidores pelos anos seguintes;
  • A data da Páscoa: Embora os romanos adotassem o Calendário Juliano o qual possuía alguns dias a mais que o Calendário Judaico, foi determinado que a Páscoa continuasse a seguir a resolução do Calendário Judaico com base no ciclo lunar, logo, daí até hoje a Páscoa não ter data fixa. Todavia, também foi decidido que os cristãos não deveriam realizar a Páscoa da mesma forma que os judeus. 
  • Questão sobre o batismo dos heréticos: São João Batista ficou conhecido na época de Jesus por batizar as pessoas, as banhando em rios. Embora tal prática não seja singular ao cristianismo, pois outra religiões também realizam outras formas de batismo, um problema que surgiu por volta do século II foi o fato de que heréticos estavam batizando cristãos, e a Igreja não gostou disso, então ocorreu vários concílios e sínodos para propor que os cristãos batizados por hereges, fossem rebatizados. 
  • Questão sobre o Melecianismo: No século III ainda na fase de perseguições aos cristãos, o patriarca Pedro I de Alexandria abandou a cidade e fugiu, no entanto, Melécio de Licópolis aproveitou e assumiu o episcopado de Alexandria. Posteriormente, Pedro I retornou e ordenou que Melécio deixasse o episcopado o qual havia assumido de forma ilegal, Melécio recusou a sair e foi tirado a força. Mas além desse fato, Melécio criticava a Igreja acerca de seu posicionamento sobre os apóstatas (lapsis) aqueles que haviam negado a fé cristã, mas depois voltavam a ser cristãos. 
  • A sentença dada aos prisioneiros feitos por Licínio: Antes do Édito de Milão, o imperador Licínio perseguiu alguns cristãos. No concílio foi decidido o que seria feito a respeito disso. 
Além desses temas, o Concílio de Niceia também deliberou sobre outros assuntos de caráter normativo e legal no que dizia respeito a organização da Igreja, ao todo foram escritos vinte cânones que diziam respeito a regras de nomeação para alguns cargos, das funções que alguns cargos deveriam exercer, as punições dadas aos apóstatas, aos que perseguiram cristãos, aos que cometeram usura, restrições aos clérigos como em não se poder ter a esposa em casa, embora o casamento ainda não fosse proibido aos clérigos. Decretado o domingo como o dia santo para os cristãos, diferente do sábado para os judeus. 

Pintura representando o Primeiro Concílio de Niceia. 
Embora não constasse nos cânones, foi também sugerido pelo imperador que o dia 25 de dezembro seria a data para se celebrar o nascimento de Jesus Cristo, a qual passaria a ser chamada de Natal. Nas atas do concílio também foi proposto o Credo de Niceia que dizia o seguinte:

“Cremos em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial do Pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra, o qual por causa de nós homens e por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fez homem, padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas quantos àqueles que dizem: 'existiu quando não era' e 'antes que nascesse não era' e 'foi feito do nada', ou àqueles que afirmam que o Filho de Deus é uma hipóstase ou substância diferente, ou foi criado, ou é sujeito à alteração e mudança, a estes a Igreja anatematiza”. (Credo de Niceia, 325). 

Antes do Concílio de Niceia já havia ocorrido alguns concílios e sínodos, e após esse vários outros ocorreram até o século XX. Todavia, devido a ser um assunto vasto terei que omiti-lo aqui embora seja bastante interessante, pois mostra que nos três primeiros séculos após a morte e ressurreição de Cristo, sua palavra desandou gerando desavenças e conflitos entre os cristãos. 

No ano de 393, o imperador romano Teodósio, o Grande decretou que o Cristianismo se tornava a religião oficial do Estado e a única que passaria a ser permitida no império. Nos anos seguintes houve uma inversão no que diz respeito as perseguições religiosas, se antes os cristãos eram as vítimas, eles se tornaram os algozes. Teodósio ordenou que templos pagãos fossem fechados e que ritos pagãos fossem abolidos. Com tal iniciativa o Cristianismo se firmava como religião de um império de cerca de 4 milhões de habitantes, embora nem todos se converteram na época.

Com a Queda do Império Romano em 476, o cristianismo já havia se espalhado pela costa do Mediterrâneo tanto na Europa, África e Ásia, no entanto, em alguns lugares, outras religiões voltaram a prevalecer com o fim do governo romano, no entanto, no que diz respeito a Ásia Menor, Grécia, Síria, Israel e Egito, os quais ficaram sob o governo do Império Bizantino o qual surgiu do rompimento com os romanos, os bizantinos mantiveram a fé cristã como religião oficial da nação, embora permitissem a presença de judeus e outras religiões. 


Ao adentrar da Idade Média a Igreja Romana consolidaria sua autoridade e expandiria seu controle principalmente sobre a Europa e parte do Oriente Médio que estava sob a tutela dos bizantinos, no entanto, a Igreja Romana acabaria por sofre uma profunda cisão. No ano de 1054 ocorreu o Cisma do Oriente ou Grande Cisma no qual em Constantinopla (atual Istambul) foi criada a Igreja Ortodoxa


Após vários anos de mau entendidos e disputas entre as igrejas latinas e igrejas gregas (grego refere-se aqui a língua e não a naturalidade, pois a língua oficial dos bizantinos era o grego, diferente do latim para os romanos) o cisma ocorreu, isso foi um grande abalo para a cristandade europeia. Não obstante, surgiu na África, especificamente no Egito e na Etiópia a Igreja Copta, a qual também se distanciava do controle da Igreja Católica. 

Entre os séculos XI ao XIII ocorreram as Cruzadas, campanhas militares nas quais procuraram recuperar a Terra Santa, assim como confrontar os muçulmanos e judeus pela disputa do controle da cidade de Jerusalém e das regiões vizinhas. O problema que tais terras chamadas de "santas", não eram apenas sagradas aos cristãos, mas também aos judeus e muçulmanos e isso se tornou um motivo e justificativa a longo prazo para o enfrentamento entre cristãos europeus e asiáticos contra principalmente os muçulmanos árabes que controlavam aquelas terras. 


Ainda no século XII a Igreja Católica criou a inquisição episcopal para combater a heresia praticada pelos cátaros e albigenses, povos que viviam no sul da França. Nos séculos seguintes, outras inquisições episcopais foram solicitadas por bispos ao papa para serem realizadas. Santa Joana d'Arc foi condenada por uma dessas inquisições em 1431. As inquisições foram criadas como um tribunal religioso no intuito de investigar, averiguar e punir os hereges, os quais disseminavam ideias ou realizam práticas consideradas contrárias aos preceitos cristãos católicos. 


Já na Idade Moderna mesmo com o advento do Renascimento Cultural, a Revolução Científica e o Iluminismo, as inquisições, um dos grandes legados sombrios da história da Igreja Católica ainda se manteve operante até o século XIX. Foi na Idade Moderna que surgiu as inquisições estatais: Inquisição Espanhola (1478-1834), Inquisição Portuguesa (1536-1821) e Inquisição Romana (1542-1800). Normalmente se pensa que as inquisições foram mais operantes durante o período medieval, a verdade é que não foi bem assim; nos tempos modernos, morreram mais gente queimada na fogueira e nos instrumentos de tortura, no que nas inquisições medievais. 


No entanto, é importante dizer que as cruzadas e inquisições foram práticas propostas pela Igreja e não práticas defendidas pelo Cristianismo primitivo (termo que se usa para se referir a fase que vai do século I até mais ou menos o século IV). 


Não obstante, também foi na Idade Moderna que o Cristianismo voltou a se espalhar pelo mundo, seguindo a bordo das Grandes Navegações as quais levaram missionários jesuítas, franciscanos, dominicanos, beneditinos, carmelitas, etc., para os quatro cantos do mundo. As Américas foram "descobertas" por Cristóvão Colombo em 1492, um século depois já estavam divididas em colônias europeias onde os missionários convertiam os povos indígenas. Os portugueses foram os responsáveis por levar o cristianismo a algumas regiões da costa ocidental da África em seus contatos com os reinos locais. No caso da Ásia, o cristianismo o qual foi bastante reduzido pela expansão do Islã, voltou a seguir mais para o Extremo Oriente, retornando com os portugueses a Índia, e indo também com eles para a Malásia, Indonésia, China e Japão. Posteriormente os espanhóis passariam a pregar na Indonésia e nas Filipinas, e os ingleses, franceses e holandeses chegariam bem depois nestes países. 


Foi ainda no século XVI que se iniciou a Reforma Protestante, tendo como marco de início as 95 teses propostas pelo monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546), o qual em 31 de outubro de 1517 pregou suas 95 teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg no Sacro Império Romano-Germânico (hoje Alemanha). Lutero criticou vários aspectos da estrutura secular da Igreja Católica, e defendeu cinco aspectos centrais, as chamadas Cinco Solas:

  • Sola fide (Somente a fé): Na concepção proposta por Lutero, a fé seria o único caminho de salvação. Fazer boas obras não seria prerrogativa para ser salvo;
  • Sola scriptura (Somente as Escrituras): Os livros que formam a Bíblia são os únicos escritos que representam os ensinamentos de Deus, e seus autores foram inspirados pelo Senhor para escrever. Além disso, Lutero defendia que qualquer cristão deveria ter o direito de ler e interpretar a Bíblia, isso rompia com o monopólio do Catolicismo o qual defendia que apenas os clérigos católicos detinham o direito de ler e instruir a Palavra de Deus. 
  • Sola Christus (Somente Cristo): Nessa prerrogativa, Jesus Cristo era o único mediador entre a humanidade e Deus, e nenhuma outra pessoa (os santos e os papas) seriam mediadores entre os homens e o Senhor. Neste caso, ao privilegiar apenas Cristo como o caminho para Deus, o Vaticano perdia sua autoridade como representante direto de Deus. Por sua vez, os santos, santas e Nossa Senhora não seriam vistos como mediadores entre a humanidade e Deus, logo os festejos ligados aos santos é visto pelos protestantes como uma invenção católica, mas não algo contido na Bíblia.
  • Sola gratia (Somente a graça): A salvação é entendida como uma graça divina concedida apenas por Deus aos justos. Nesse caso ia de encontro a ideia de que o homem teria influência em conquistar as graças de Deus através de bons atos, meritocracia, etc. Para Lutero a graça divina era responsabilidade de Deus, que ele pretende salvar todos os seus filhos e filhas, mas se não houver fé destes para ele, Deus pôde condená-los.
  • Soli Deo gloria (Glória somente a Deus): Nessa concepção Deus é o único que deve receber glória pelos bons atos, sendo os homens indignos de receberem glória, pois seus bons atos seriam reflexos da glória que Deus lhes concederia. Tal ideia punha em questão a autoridade do papa e dos santos e santas como pessoas que deveriam receber graças por seus feitos. Nesse sentido tais pessoas foram apenas instrumentos de Deus, e não a verdadeira fonte de glória. 
Lutero acabou sendo excomungado pelo Vaticano, no entanto, seu pensamento ganhou apoio de nobres e outras autoridades alemãs. Em menos de um século a Reforma Protestante levou ao surgimento do Protestantismo e suas igrejas que se espalharam pelo Sacro Império, Holanda, Bélgica, Reino Unido, Irlanda, etc. Assim surgiram as igrejas luteranas, calvinistas (baseada em João Calvino, amigo de Lutero, mas que acabou rompendo por ele após alguns desentendimentos), batistas, presbiterianascongregacionistas, anglicana (fundada pelo rei Henrique VIII da Inglaterra após decretar rompimento com o Vaticano), etc. Também surgiram alguns movimentos e seitas protestantes pelos séculos XVII e XVIII. Todavia, no século XX houve uma proliferação no surgimento de novas igrejas protestantes, sendo algumas contraditórias entre si.

Por mais que a Igreja Católica promoveu através do Concílio de Trento (1545-1563) procurou reunificar a cristandade católica europeia a qual foi dividida pelo Protestantismo, o que levou a criação da Contrarreforma para esse intuito de derrubar as igrejas protestantes e resgatar os cristãos católicos que passaram para o outro lado. A Contrarreforma acabou falhando e a cisão se mantém até hoje. 

No século XIX surgiu a Doutrina Espírita ou Espiritismo, codificada pelo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1865), mais conhecido como Allan Kardec. Kardec através de sua mediunidade escreveu cinco importantes livros que embasam a Doutrina Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Tais obras são de caráter teórico para explicar o Cristianismo do ponto de vista espírita, todavia, a Bíblia ainda constituiu o livro sagrado para os cristãos espíritas como para os demais cristãos das outras igrejas, embora que normalmente se use o Evangelho segundo o Espiritismo, o qual consiste no Novo Testamento com notas e comentários com base no posicionamento espírita. 

O espiritismo procura associar a religião cristã com a ciência e algumas filosofias. De certa forma em comparação as demais igrejas cristãs, a Doutrina Espírita é a que mais procura aproximar ciência e fé. Não obstante, a grande diferença do cristianismo espírita para as demais igrejas é o fato de que o espiritismo considera a existência da reencarnação e do carma, algo visto no budismo e outras religiões orientais. 

2) Aspectos religiosos:

Falar sobre os aspectos religiosos do cristianismo é mais complicado do que no judaísmo e no islamismo, pois devido as várias Igrejas cristãs, cada uma possuí características próprias que marcam diferenças na forma de como interpretam as Sagradas Escrituras. Logo preferi abordar alguns aspectos centrais que todas as igrejas compartilham entre si: monoteísmo, aspectos de Deus, Jesus como o messias profetizado no Antigo Testamento, os ensinamentos de Jesus, a ideia de vida eterna, pecado e salvação. 

Assim como o judaísmo, o cristianismo é uma religião monoteísta na qual considera Deus o único "deus verdadeiro" e criador do universo e de todos. 

Aparição de nosso Senhor Jesus Cristo
que mostrará nos tempos estabelecidos
o Bendito e único Soberano,
o Rei dos reis e Senhor dos senhores,
o único que possui a imortalidade,
que habita uma luz inacessível,
que nenhum homem viu, nem pode ver.
A ele, honra e poder eterno! Amém!
Primeira Epístola de Paulo a Timóteo, 6,15-16


No entanto, Deus para os cristãos possui algumas diferenças de atitude, pois Javé no Antigo Testamento e no Tanakh em determinados momentos ele age de forma autoritária e punitiva para punir a humanidade por seus pecados, como o envio do Dilúvio, as Dez Pragas do Egito, a confusão das línguas na Torre de Babel e a destruição de Sodoma e Gomorra. Se bem que Deus agiu dessa forma no intuito de educar os homens, mostrando que eles não estavam isentos de sua vontade, logo se a graça divina é dada por Deus, é dele também o direito de retirá-la. Assim como um pai pune o filho quando este faz algo errado, não significa que o pai deixa de amar seu filho, mas procura lhe dá uma lição. No entanto, no Novo Testamento, Deus é representado de forma sempre benevolente, um deus protetor, um deus do amor. 


“O principal comentário da Bíblia acerca de Deus é que ele é "amor". Essa não é uma descrição de uma entre outras características de Deus, mas uma sua qualificação geral. Tudo o que a fé cristã pode dizer a respeito de Deus são variações em torno desse grande tema. A Bíblia também destaca que é impossível para o ser humano conhecer a Deus ou amar a Deus se não nos amamos uns aos outros. Pois Deus é amor. Todos nós sabemos que a palavra amor tem conotações distintas. Para compreender o que a Bíblia está afirmando quando diz que Deus é amor, pode ser útil saber qual o uso dessa expressão na língua original do Novo Testamento, o grego. Em grego há duas palavras que podem ser traduzidas pela palavra amor: eros e agape. Eros pode ser traduzido como "querer" ou "desejar". O filósofo grego Platão (c. 400 a. C.) usa a palavra eros ao falar do desejo que o homem tem da beleza, da excelência, do conhecimento e da eternidade. Para Platão, eros era um anseio inerente à humanidade. Ele expressa a origem elevada da alma, manifestando-se nos seres humanos como uma necessidade irresistível de partir em jornada rumo à pátria celestial. Eros é o anseio que sente o homem, esse ser transitório, pela eternidade. Podemos dizer que essa palavra descreve o amor que o homem tem pelas coisas que vale a pena amar, ou seja, pelas coisas valiosas. (Hoje em dia as palavras eros e erótico são usadas com um sentido mais restrito do que na filosofia platônica, isto é, no sentido do amor sexual.) De certa forma, a palavra agape significa quase o oposto de eros. No Novo Testamento, a palavra é usada para designar o amor misericordioso e devotado de Deus pelo ser humano. Pois o amor de Deus é espontâneo e se auto sacrifica sem pensar se a humanidade o "merece". Ele não emana da carência, mas da abundância, e também é dado em abundância àqueles que não merecem amor nem são dignos de amor. Nesse contexto, o amor de Deus é um modelo para a caridade cristã. Os primeiros cristãos usavam a palavra agape para designar suas refeições comunitárias, que terminavam numa comunhão”. (GAARDER, 2000, p. 155-156).

Diferente dos judeus que ainda aguardam a vinda do Messias, o qual foi profetizado por alguns profetas no Antigo Testamento, para os cristãos, Jesus de Nazaré de fato foi o Messias prenunciando em tais profecias. Enquanto para os judeus o Messias seria um homem majestoso abençoado por Deus, para os cristãos, Cristo foi é o Filho de Deus e o Filho do Homem ("E o Verbo se fez carne". João 1,14).


Não obstante, para os cristãos Jesus se tornou e é o caminho para a salvação e a vida eterna. É através dele que os cristãos buscam alcançar o Pai, alcançar o Paraíso e escapar do Inferno. Tal fato é tão significante que Jesus morreu na cruz para expiar a humanidade de seus pecados, e depois ressuscitou trazendo a palavra da esperança, que embora todos os homens sejam pecadores ainda há esperança, ainda há tempo de mudarem. 



Pois Deus amou tanto o mundo,
que entregou o seu Filho único,
para que todo o que nele crê não pereça,
mas tenha vida eterna.
João 3,16


Na Bíblia, mais especificamente no Novo Testamento o Diabo ou Satanás, ou outro de seus nomes pelo qual é conhecido, é o grande responsável por disseminar e cultivar o Mal na Terra e corromper a humanidade os levando a pecar. Embora Lúcifer como era originalmente chamado enquanto ainda era um anjo, seja mencionado no Antigo Testamento, sendo o responsável por ter instigado o Pecado Original que levou Adão e Eva a serem expulsos do Éden, Satã é mencionado com mais frequência nos Evangelhos.

“Uma explicação sobre o pecado deve começar pela vontade do Criador. Esta afirma que o homem deve estar com Deus — senhor da vida — e moldar sua existência de acordo com os objetivos de Deus. O pecado é, portanto, o desejo humano da auto-suficiência, seu desejo de conseguir viver sem Deus. Romper essa comunhão com Deus leva àquilo que a Bíblia chama de quebrar a lei, quebrar a santidade, de iniquidade e apostasia. Podemos dizer que o pecado é aquilo que separa o homem de Deus. Se Deus é amor, o pecado é a falta de benevolência. Quer se dirija a Deus quer a nossos próximos, os seres humanos, o pecado é aquilo que leva ao egoísmo e ao egocentrismo. Martinho Lutero o definiu sucintamente com a expressão latina incurvatus in se — ou seja, "encurvado em si mesmo". O pecado, porém, não implica apenas as quebras individuais da lei de Deus — ou da ética cristã. É pior que isso. O pecado é mais profundo. Ele fica "no coração" — ou na vontade maligna do homem. É essa tendência da vontade — ou toda essa condição — que engendra aquilo que podemos chamar de pecado real. Assim, do ponto de vista teológico é importante distinguir entre "pecado" e "pecados". O pecado é tanto um estado como uma atividade. (GAARDER, 2000, p. 161-162).

Quando Mateus e João dizem em seus evangelhos que Jesus veio libertar os homens do pecado, significa que ele veio reconciliar a humanidade que se afastara de Deus, que estava ou depravada, incrédula ou ausente com o Senhor. O Inferno é a punição para os pecadores, pois embora Javé queira que todos os seus filhos e filhas sejam salvos e vivam bem, ele não faz isso de forma deliberada, pois é preciso primeiro crer nele e aceitar suas condições, pois aquele que não segue ou vive sob os preceitos cristãos, está fadado ao sofrimento interno. Tal aspecto também é visto no judaísmo, no islamismo e em outras religiões. O fato do ser humano ser punido é porque este desobedeceu os mandamentos e exigências divinas.

“A esperança cristã anseia por uma época em que tudo o que tiver permanecido imperfeito será substituído pela soberania absoluta e inconteste do amor de Deus. O cristianismo ensina que uma nova época surgiu com a vitória de Jesus sobre as forças destrutivas ainda a vitória final. Esta pertencerá a Jesus, quando ele retornar no final da história. Os ensinamentos de Jesus deixam claro que sua referência ao reino de Deus significa mais que a mera salvação individual. A esperança cristã não tem apenas um aspecto pessoal. Tem também o aspecto social ou coletivo; em outras palavras, seu objetivo é uma nova fraternidade humana, uma nova ordem social ou um novo mundo. A esperança cristã abrange ainda um aspecto cósmico: haverá "um novo céu e uma nova terra"”. (GAARDER, 2000, p. 182).

Pintura retratando a crucificação de Jesus Cristo.
Nos anos que antecede a crucificação e a ressurreição, Jesus passou a realizar peregrinações pela Judeia instruindo as pessoas sobre a importância de terem fé e de cultivarem determinados valores como o amor, caridade, humildade, tolerância, sabedoria, complacência, respeito, amizade, retidão, bondade, paz, compromisso, determinação, etc. Além dessa pregação, ele também procurou reunir um grupo particular de seguidores que ficaram conhecidos como os Doze Apóstolos, e também realizou alguns milagres.

Jesus era chamado rabi — "mestre" ou "professor" —, e muitas pessoas do mundo inteiro, cristãs e não cristãs, se impressionaram com ele como pregador. Seus ensinamentos podem ser divididos em quatro categorias diferentes:
  • Alguns estão sob a forma de pequenas máximas. Muitas destas são paradoxos (isto é, afirmações em aparente contradição), como: "Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la" (Mateus 16,25).
  • Uma parte importante dos ensinamentos de Jesus eram suas muitas conversas com os discípulos, com homens instruídos ou com outras pessoas que ele encontrava. Já vimos o exemplo da conversa de Jesus com o jovem rico. (Veja Mateus 19,16-26.)
  • Um terceiro método de instrução eram os freqüentes discursos ou sermões feitos por Jesus a seus discípulos ou a grupos mais numerosos. Um dos sermões mais longos e mais significativos foi o que Jesus fez a seus discípulos pouco antes de ser preso em Jerusalém. O tema desse sermão foi "a era final" — antes que o Filho do Homem apareça no Dia do Juízo Final. (Veja Mateus 24 e 25.)
  • O que mais caracterizava os ensinamentos de Jesus era o uso das parábolas. Estas geralmente estão inseridas em conversas ou pregações mais longas. Uma parábola é uma comparação ou imagem que serve para exemplificar uma verdade mais profunda. (GAARDER, 2000, p. 170-171).
Pintura representando o Sermão da Montanha proferido por Jesus. 
“São características do Sermão da Montanha suas rigorosas exigências éticas e a insistência básica na caridade. Em oposição a todos os mandamentos e todas as interdições tão típicos do judaísmo daquela época, Jesus insistia num amor incondicional a Deus e ao próximo. Isso não significa que ele "rescindiu" os velhos mandamentos. Bem ao contrário: ele os enfatizou e ampliou sua validade. Por exemplo, não é suficiente amar "o próximo". Você deve amar até mesmo seu inimigo”. (GAARDER, 2000, p. 171-172).

Retornando ao contexto da salvação e da danação, assim como no judaísmo e no islão, no cristianismo existe a concepção do Paraíso para os justos e bem-aventurados e o Inferno para os pecadores, no entanto, foi no cristianismo que surgiu o Purgatório um meio termo entre o Céu e o Inferno. O Purgatório foi uma invenção medieval a qual o historiador francês Jacques Le Goff mostrou muito bem em seu livro O nascimento do Purgatório (1981). Mas independente do Purgatório não existir, os judeus, cristãos e muçulmanos acreditam no Céu e no Inferno. 


No caso do cristianismo, Jesus diz que o "Reino de Deus" está para chegar, e que esse reino não fica na Terra, logo, interpretou-se que se trataria do Paraíso, local de paz, amor, felicidade e vida eterna, e para se chegar a esse local, a salvação, Jesus se mostrou com o caminho para isso, como aquele que intercede pela humanidade diante do Pai, como aquele que é o representante direto de Deus. “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. (João 14:6). 


Diferente do judaísmo e do islão onde ao morrer a alma é julgada e vai direto para o Céu ou o Inferno, no cristianismo ocorre dois julgamentos: Ao morrer se é julgado a primeira vez, indo para o Céu ou para o Inferno, no entanto, o Livro das Revelações ou Livro do Apocalipse escrito por São João informa sobre o fim da Era do Homem e o início da Era do Anticristo e a chegada do Armagedom e do Juízo Final

É dito que o Anticristo será um líder poderoso, inteligente e carismático que com sua oratória convencerá milhões a acreditar em seus falsos ensinamentos que são contrários a verdade e amor pregados por Jesus. O mundo viverá uma ilusão durante o governo do Anticristo até que alguns se rebelaram contra ele e se iniciará o fim dos tempos, com catástrofes e ataque de monstros, até culminar no Armagedom. 


O Armagedom será a última grande batalha travada entre os homens, divididos naqueles que creem em Jesus e Deus e naqueles que não creem neles, e tal batalha estaria por ocorrer em um tempo não determinado diante do Monte Megido, hoje em Israel. Antes dessa batalha ocorrer catástrofes e monstros assolariam o mundo, deixando o em colapso e em caos, até que chegaria o dia do Juízo Final.


No dia do Julgamento Final todos os mortos serão revividos, e aqueles que já haviam sido julgados serão julgados novamente, e os que ainda não foram julgados serão julgados definitivamente. Diz-se também que nesse dia Jesus retornará a Terra para presidir o julgamento o qual decretará a salvação eterna ou a danação eterna. Então os justos viveram plenamente no Reino de Deus e os maus agonizaram nas trevas ardentes de Satanás. Os islamismo também compartilha com o cristianismo a ideia de Juízo Final, mas com algumas diferenças.



O Juízo Final. Fra Angelico, 1431. 
“A palavra usada no Novo Testamento para "salvo" é um verbo grego que significa "redimido", "preservado" ou "curado". Um conceito básico do cristianismo é que o homem não pode salvar a si mesmo. A salvação é dada livremente ao homem se ele acreditar em Cristo e em sua expiação. "Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus", diz Paulo à Igreja de Éfeso (Efésios 2,8). É apenas por meio da em Jesus que o homem pode ser salvo”. (GAARDER, 2000, p. 180).

No que refere-se a estrutura da religião cristã como já foi dito, cada igreja possui normas, dogmas e estruturas próprias. A Igreja Católica Apostólica Romana se considera a igreja cristã mais antiga tendo sido fundada por São Pedro, o qual teria sido o primeiro papa. No que se refere as igrejas católicas, ortodoxas e coptas, estas são embasadas numa estrutura secular bastante organizada e estratificada, do noviço ao papa (cada uma dessas igrejas possuem papas) cada um destes postos possuem seus objetivos delineados. 

Não obstante, nestas igrejas as mulheres não tem espaço no trabalho religioso propriamente, excetuando-se as noviças, freiras, monjas e abadessas (chefe de uma abadia), as mulheres não realizam missas, não chefiam ritos litúrgicos ou participam da administração e da burocracia secular. As mulheres estão restritas ao clero regular, a vida nos conventos e mosteiros, que as excluem do contato com o restante do mundo. No que tange as igrejas protestantes e o espiritismo, as mulheres tem maior participação, havendo pastoras e bispas, e no espiritismo, as mulheres podem chefiar as casas espíritas e realizar as palestras, cultos, orações, etc. 


Ainda no que se refere a Igreja Católica existe as ordens monásticas, embora o catolicismo não foi o responsável por criar o monasticismo, prática que já existia em outras religiões, foi no período medieval que o monasticismo começou a se difundir, embora tenha surgido no Egito com Santo Antão (251-356). Será no período medieval e moderno que as ordens monásticas católicas as principais responsáveis por disseminar a religião cristã pelo mundo, pois se inicialmente alguns frei, padres, bispos e santos se comprometeram com a tarefa missionária, com a criação das ordens, tal tarefa será incumbida aos membros de tais ordens que passaram a ser chamados de missionários.

Nas igrejas católicas, ortodoxa e copta os clérigos estão proibidos de casar pelo voto de celibato, além de fazerem outros votos (algo mais comum aos clérigos que pertencem as ordens monásticas), mas no protestantismo e espiritismo os pregadores não consideram o voto de celibato e outros votos próprios dessas igrejas e ordens. 


No que refere-se a leitura sagrada, a Bíblia o livro mais impresso e lido na História, é o pilar literário da fé cristã. A Bíblia se divide em duas grandes partes: o Antigo Testamento que compreende basicamente o Tanakh dos judeus, mas com algumas variações e acréscimos de outros livros. O Antigo Testamento bíblico por sua vez não é igual para todas as igrejas, por exemplo, a igreja católica, ortodoxa e copta aceitam alguns livros a mais os quais são desconsiderados pelos protestantes, logo, a Bíblia Sagrada dessas igrejas possuí 48 livros no Antigo Testamento, já a Bíblia Sagrada protestante possui 42 livros. Os protestantes alegam que os livros de Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria e Eclesiástico não foram inspirados por Deus como foram os outros livros. 



Um exemplar da Bíblia de Gutenberg, impressa na segunda metade do século XV, tendo sido o primeiro livro a ser impresso por Johannes de Gutenberg o inventor dos tipos móveis ou prensa móvel. 
Por sua vez o Novo Testamento é formado por 27 livros, sendo os Evangelhos as obras principais: Mateus, Marcos, Lucas e João, os quais focam a vida e ensinamentos de Jesus Cristo. Os demais livros como os Atos dos Apóstolos e as Epístolas trazem também alguns ensinamentos de Jesus, mas focam a peregrinação d alguns dos apóstolos e como a palavra de Jesus passou a ser disseminada em outras terras. Por fim o Apocalipse é uma obra de tom profético como já mencionado. O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego, língua predominante nas províncias orientais do Império Romano. Já o Antigo Testamento foi escrito em língua hebraica.

Assim como em outras religiões no cristianismo existem cerimônias religiosas para determinados aspectos como o batismo, casamento e o sepultamento (em cada Igreja tais cerimônias possuem ritos diferentes). Diferente do judaísmo e do islamismo, no cristianismo a circuncisão não é obrigatória e nem é uma prática comum. A circuncisão consiste numa cirurgia genital feita apenas nos homens, onde se retira o prepúcio (pele que cobre o glande "cabeça" do pênis). Outra diferença é que no judaísmo enquanto se realiza as cerimônias do Bar Mitzvá (homens) e o Bat Mitzvá (mulheres) ritos que marcam o início dos jovens a fase adulta da comunidade judaica algo em torno dos 12 ou 13 anos, no cristianismo esse rito de passagem deixou de ser praticado. 


No que refere-se ao catolicismo esse talvez seja a igreja cristã com o maior número de ritos litúrgicos e cerimônias. Pelo fato de se realizar celebrações aos santos, a Nossa Senhora, a Trindade, etc., existem uma gama de ritos e festejos. Não obstante graças a essa riqueza cerimonial e ritualística isso levou ao desenvolvimento artístico da chamada arte sacra cristã. A Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas e coptas são conhecidas por suas artes sacras que vem se desenvolvendo desde pelo menos o século II ou III, tendo o auge entre os séculos XI e XVIII. 


Fotografia do teto da Capela Sistina, Vaticano, Itália. Os vários afrescos feitos por Michelangelo no século XVI para ornamentar o teto da Capela Sistina, são um dos maiores exemplos de arte sacra cristã do mundo. 
Logo, as igrejas os quais são os templos cristãos (dependendo da Igreja há outras nomenclaturas para se referir aos templos: por exemplo, o espiritismo chama de centros espíritas; no catolicismo e na ortodoxia há as capelas, paróquias, catedrais e basílicas; o protestantismo utiliza igreja e catedral) se tornaram os principais locais onde a arte sacra cristã pode ser encontrada, embora que as igrejas protestantes, os centros espíritas e algumas igrejas ortodoxas não fazem uso de imagens como pinturas, afrescos, estátuas, etc., que representem Jesus, Nossa Senhora, santos, profetas, personagens bíblicos, etc. Todavia, a presença de uma cruz é quase que obrigatório, pois a cruz é o símbolo central do Cristianismo. 

No que refere-se aos feriados religiosos, como já foi dito o Natal e a Páscoa são os principais, no entanto, existem outras datas importantes, e ao mesmo tempo, as Igrejas que adotam os santos possuem para cada um deles um dia litúrgico e comemorações especificas. 


Os principais festejos cristãos são:

  • Dia de Reis ou Epifania do Senhor: Refere-se a data no qual o recém-nascido Jesus e seus pais receberam a visita dos Três Reis Magos. É celebrado no dia 6 de janeiro. Simboliza o primeiro reconhecimento de que Jesus seria o Messias. Os ortodoxos celebram tal data alguns dias depois.
  • Festa do Batismo do Senhor: Celebrado pelas igrejas orientais inicialmente em 6 de janeiro, mas comemorado pela Igreja Católica e Igreja Anglicana no dia 7 de janeiro, celebra-se o batismo de Jesus feito por São João Batista. 
  • Quaresma: Marca os quarenta dias que antecede a Semana Santa, simbolizando os quarenta dias que Jesus vagou no deserto e foi tentado por Satã. A quaresma é principalmente praticada pelos católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos, embora nem todos hoje em dia sigam arrisca suas recomendações nas quais constam: jejum diário, não comer carne vermelha, não tomar bebidas alcoólicas, praticar caridade, fazer orações várias vezes ao dia, etc. 
  • Páscoa: Comemorado em dias não fixos entre os meses de março e abril, celebra-se a paixão de Cristo ao ser crucificado na sexta e sua ressurreição no domingo. No catolicismo a Páscoa é celebrada durante uma semana, chamada de Semana Santa: Domingo de Ramos, Segunda-feira Santa, Terça-feira Santa, Quarta-feira Santa, Quinta-feira Santa ou Quinta-feira da Última Ceia, Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão, Sábado Santo ou Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa. 
  • Dia de Pentecostes: Celebrado cinquenta dias após o Domingo de Páscoa, refere-se a influência do Espírito Santo sobre os apóstolos de Cristo, os incentivando a viajar e semear as palavras de Jesus, como também consistia numa festa rural (influência judaica), onde se agradecia a Deus pelas colheitas. 
  • Domingo da Santíssima Trindade: Comemorado no primeiro domingo após o dia de Pentecostes, celebra-se a Trindade, representada pelo Pai, Filho e Espírito Santo.
  • Dia de Corpus Christi: Comemorado na primeira quinta-feira após o Domingo da Trindade, refere-se a uma festa católica (em geral praticada apenas pelos católicos) criada no século XIII, onde se sai em procissão até uma igreja, catedral ou basílica para se assistir a missa e receber a Eucaristia, onde o cristão rememora a Última Ceia e o simbolismo do pão e vinho como o corpo e sangue de Cristo. Além de também ser uma recordação a Páscoa. 
  • Dia de Todos os Santos: Celebrado em 1 de novembro pelos católicos, e no dia seguinte ao Pentecostes pelos ortodoxos, consiste numa homenagem a todos os santos e santas conhecidos e desconhecidos. 
  • Dia de Finados ou dos Fiéis Defuntos: Celebrado em 2 de novembro principalmente pelos católicos, consiste em orações e honrarias aos mortos, principalmente parentes e amigos, onde se costuma ir aos cemitérios e lhe prestar orações. Orações ao mortos ou antepassados é algo visto também em outras religiões.
  • Natal: Comemorado no dia 25 de dezembro, simboliza o nascimento de Jesus Cristo. As Igrejas ortodoxas celebram essa data no dia 7 de janeiro, pois adotam o Calendário Juliano o qual possui 13 dias a menos. 
Islamismo:

1) Breve história


O Islamismo, Islã ou Islão é a última das três religiões abraâmicas e considerado por alguns como sendo a religião atualmente com o maior número de seguidores. O Islã surgiu na Arábia do século VII d.C tendo na pessoa do comerciante Muhammed ibn Abdallah ou Maomé (ca. 570-632) o seu idealizador. Em alguns aspectos o islamismo possui várias similaridades com o judaísmo e o cristianismo, todavia, em outros aspectos ele difere totalmente. 

Muhammed como sendo um árabe era até então um politeísta na época, embora houvesse alguns árabes que fossem cristãos, judeus ou de outras religiões. Ao longo de grande parte da sua vida ele rezava para os deuses árabes, assim como participava dos ritos dessa religião, no entanto, por volta dos seus 40 anos ele tivera a primeira revelação de Deus, mais conhecido como Alá para os muçulmanos. 



“Os judeus se estabeleceram em toda a Arábia depois da queda de Jerusalém e da destruição do Templo, no ano 70 d.C, e aos poucos passaram a adotar a língua e o estilo de vida árabes, ao mesmo tempo que mantinham sua própria crença e seu culto mosaico. Também o cristianismo se espalhou rapidamente por todo o Oriente Médio durante os primeiros séculos da nossa era. Havia Estados cristãos como a Abissínia (atual Etiópia). Muitas tribos beduínas se converteram ao cristianismo, e era possível encontrar cristãos entre os escravos e as camadas inferiores em Meca. Provavelmente foram os monges e eremitas cristãos, os quais viviam isolados do mundo no deserto da Arábia, que exerceram a maior influência sobre Maomé. A atitude do Corão para com esses cristãos, que estimavam mais a comunhão com Deus do que o comércio, é uma atitude positiva. Devotos e generosos, eles ajudavam os viajantes no deserto”. (GAARDER, 2000, p. 129).

Entre os meses de setembro e outubro enquanto Muhammed estava rezando numa caverna do Monte Hira ele teria sido interrompido de suas preces por um homem que se disse ser o anjo Gabriel (Jibreel). Num primeiro momento Muhammed teria se espantando com aquele ser e fugiu. Posteriormente um primo de sua esposa, chamado Waraqa que era cristão dissera que aquele suposto gênio (consistia numa entidade sobrenatural) era o anjo Gabriel o qual tentava se comunicar com ele.


Gravura otomana do século XIV retratando o anjo Gabriel e o profeta Muhammed. 
Outras revelações se seguiram e Maomé decidiu aceitar a missão de Alá e se tornar seu novo profeta, assim ele começou a redigir um novo livro sagrado que foi chamado de Alcorão ou Corão. Posteriormente Maomé passou a pregar para seus familiares e amigos e dois ou três anos depois da primeira revelação ele já pregava publicamente em Meca, no entanto, não demorou para que algumas pessoas não gostassem disso e se sentissem incomodadas. A comunidade religiosa local viu aquilo como ultrajante, um comerciante falando sobre um deus único.

"O islamismo concebe Deus como aquela realidade da qual emanam todas as coisas. O termo para designar Deus no Alcorão é Alá (Allah), que significa, simplesmente, "o [único] deus" (al-ilah): "Deus atesta que não há deus senão ele, como atestam os anjos e os que possuem conhecimento. Ele só age com justiça. Não há deus senão ele, o Todo-poderoso, o Todo-sábio" (Sura, 3, 18)". (GORDON, 2009, p. 22).


Nos anos seguintes a situação começou a complicar para Muhammed e seus familiares e amigos, pois eram vistos com maus olhares, além de ter havido algumas ameaças de morte para a pessoa do profeta. Em 620 após a morte de sua esposa Khadidja e novas ameaças contra sua família, Muhammed fugiu para a Vila de Tafy nas proximidades de Meca, mas os habitantes temendo que a vila fosse invadida pelas autoridades, expulsaram Maomé. Ele retornou para Meca e no retorno recebeu uma mensagem que havia gente em Yatrib (atual Medina) que estavam interessados em lhe conceder asilo e proteção. Após dois anos relutando em partir, pois Maomé temia que fosse uma emboscada de seus adversários, acabou decidindo partir para Medina.



Ilustração retratando Maomé realizando uma pregação em Meca. Cópia do século XVII da ilustração original datada do século XIV, feita por Abu Rayhan al-Biruni. 
A fuga de Maomé de Meca para Medina conhecida como Hégira (Hijira) marca o início de seu ministério avançado e o rompimento com sua comunidade. Pelos anos seguintes ele não retornaria a sua cidade natal, mas quando voltasse, viria para conquistá-la. Nos anos que passou em Medina, casou-se novamente, e passou a ter várias esposas (a poligamia era uma prática comum da sociedade árabe e de outros povos na época), como também passou a fomentar alianças políticas e militares com várias tribos árabes, ao mesmo tempo que espalhava as palavras da religião revelada para si, o islã.


Em verde, a possível rota que Maomé fizera em 622 em sua fuga de Meca para Medina. 
Nos anos que passou em Medina, o profeta se tornou um homem influente politicamente e religiosamente, passou a ser chamado de profeta. Maomé estipulou a jihad (esforço) termo pelo o qual ele se referia para que os muçulmanos se empenhassem na missão de difundir a palavra do Senhor. Posteriormente o termo ganhou a conotação de guerra santa. Em 631 Muhammed e seus aliados subjugaram Meca e essa se tornou capital do nascente Estado árabe unificado, já que até então as Arábias como eram chamadas, estavam repartidas em várias tribos, sendo algumas nômades. 

Com a conquista de Meca, o profeta ordenou que os ídolos dos deuses árabes fossem destruídos e a Caaba que já existia, fosse convertida num centro de peregrinação a Alá. 



“A fim de criar um fundamento histórico para sua nova religião, Maomé se reportou a Abraão e seu filho Ismael, antepassado dos árabes. Ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstruído a sagrada Caaba, que fora erigida por Adão mas destruída pelo dilúvio na época de Noé. Segundo Maomé, os judeus, os cristãos e os politeístas haviam corrompido o monoteísmo original de Abraão”. (GAARDER, 2000, p. 135).

A Caaba em período de peregrinação (hadj). 
Após a sua morte em 632 o islã vivenciou o começo de sua expansão para além das fronteiras das Arábias. Os sucessores do profeta passara a se chamar de califa (sucessor). Os quatro primeiros califas foram chamados de inspirados (rashadun) pois eram parentes de Maomé. Abu Becre o qual foi o primeiro califa era um dos sogros do profeta, Omar foi o segundo e também era sogro, o terceiro fora Otman que foi genro, tendo casado com duas filhas de Muhammed, e o quarto foi Ali, primo do profeta e posteriormente um de seus genros. 

De 632 a 661 período que compreende o governo dos quatro califas inspirados, o islamismo e os domínios árabes se expandiram juntos, Omar foi o responsável pelas principais conquistas que o levaram até a Síria e até mesmo a entrar em conflito com os bizantinos, os quais eram cristãos. Todavia, durante o governo de Ali o califado começou a se desestruturar e em 661 ele foi assassinado, após sua morte iniciou-se rixas internas que começaram a abalar o Estado muçulmano árabe.

“O cisma no mundo islâmico começou na época de Ali. Sua liderança foi repleta de controvérsias, e ele acabou assassinado pelos adversários. Desde a morte de Maomé, seus seguidores acreditavam que Ali, por ser o parente mais próximo do profeta, era o sucessor natural. O partido de Ali, ou Shiat Ali, formou a base para o ramo do islã que hoje é conhecido como Shia, adotado como a religião oficial do Irã. Assim, a principal dissidência no islã não foi causada por uma divisão ideológica, mas por um desacordo sobre quem devia ser o líder. A facção xiita (Shiat Ali) acreditava que o líder devia ser um descendente direto do profeta, ao passo que a facção maior, a sunita, julgava que a liderança cabia ao indivíduo que de fato controlava o poder”. (GAARDER, 2000, p. 132).

Nota-se que o califa além de ser o sucessor imediato do profeta Maomé, o fundador do islamismo, logo, isso tornava o califa um líder religioso e político, pois o califa passava a ser chefe de Estado, algo comparável a figura dos papas. Com a morte de Ali o califa Muawiya assumiu o governo e transferiu a capital de Meca para Damasco na Síria, inaugurando a Dinastia Omíada e o Califado de Damasco (661-750). Durante o governo dos Omíadas o islamismo se expandiria pela Ásia central, o norte da África e a península Ibérica. Sendo o resultado de campanhas militares e diplomáticas, um aspecto próprio do islã, pois diferente do judaísmo e cristianismo que nesse momento se espalhavam por um viés missionário sem o uso de armas, o islã o fazia através da força. Todavia, vale lembrar que a expansão cristã na Europa medieval foi através em parte pela força, e na Idade Moderna, foi através da conquista e da imposição aos conquistados a nova religião. 

 O império islâmico: Em marrom os domínios na época de Mohammed (622-632); Em laranja, os domínios durante o Califado Rashdun (632-661); Em amarelo os domínios durante o Califado Omíada de Damasco (661-750).
Em 750 a capital do califado foi transferida para Bagdá no Iraque, inaugurando a Dinastia Abássida e o Califado de Bagdá (750-1299). Durante o governo dos Abássidas o império não cresceria tanto como antes, embora houve um aumento no número de convertidos pela África saariana, o leste africano, alguns nas Índia, oeste da China e na Indonésia. Ao mesmo tempo desavenças em algumas províncias levaram a revoltas, e para completar havia a ameça do Império Mongol dos descendentes de Genghis Khan. Com a queda dos Abássidas os Otomanos assumiram o poder. Todavia o islamismo continuou ainda a se expandir pela África, mas sofrer um retrocesso na Europa e no Extremo Oriente. 

Ao mesmo tempo que as fronteiras do Império Otomano se estabilizam no Oriente Médio, Ásia Menor e Egito, outros Estados muçulmanos se formaram e dissidências religiosas se fomentaram, os sunitas e xiitas se separaram de vez, consistindo os xiitas uma ala mais conservadora do islã. Outras seitas menores também surgiram, mas de expressão pequena e local nas regiões de origem, no entanto, o que mantinha os vários povos de diferentes regiões em três continentes unidos, era a língua árabe, os costumes árabes e a religião islâmica.

2) Aspectos religiosos

O islão em comparação ao judaísmo e ao cristianismo se difere em vários aspectos, todavia, em alguns aspectos básicos eles são iguais. Todos consideram que de Deus (Javé ou Alá) seja o "único deus verdadeiro", o Todo-poderoso, Criador do universo e de tudo e todos. O único responsável pela salvação eterna é Alá, assim como também é o único que realiza milagres e concede dádivas aos homens ou os pune severamente. No cristianismo católico, ortodoxo e copta, se considera que os santos e santas realizaram milagres com a intervenção divina. 

A relação entre os muçulmanos e Alá, parte de três princípios:

  • Tawhid (Unidade de Deus ou Unicidade divina): No qual reconhece a ligação una e direta entre o homem e o seu Criador. Uma ligação de fé (iman) e de prática (islam). O muçulmano reconhece que a vida é uma consagração divina e através dessa consagração ele está ligado diretamente com o Senhor em vida e também na morte. Logo, é seu dever apenas adorar seu Senhor e jamais ter como outro deus alguma ligação de fé. 
  • Nubuuwa (Profecia): Alá se revelou a humanidade através de milagres, mas principalmente de profecias dentre as quais foram escritas por alguns profetas. Neste caso o Torá dos judeus e os Evangelhos dos cristãos são considerados livros proféticos inspirados por Deus. De fato parte do conteúdo destes livros se encontra no Alcorão o livro específico do islamismo. Para os muçulmanos os livros proféticos contidos no Corão são a revelação de Deus, sua palavra transmitida a humanidade através dos profetas (homens inspirados pelo Senhor), sendo Maomé o mais importante destes. 
  • Maad (Últimos Dias ou Retorno): Refere-se a ideia de Juízo Final vista na Bíblia. Assim como para os cristãos, os muçulmanos acreditam que chegará um dia onde todos os seres humanos serão derradeiramente julgados por seus atos e assim receberão a salvação eterna ou o sofrimento eterno. Neste ponto, o Maad também representa o retorno dos filhos a Casa do Pai, embora seja um retorno para prestação de contas. 
Além dessa relação com Alá, os muçulmanos acreditam que anjos e gênios (jinn) sejam seres divinos enviados por Deus como seus mensageiros, algo também visto no judaísmo e no cristianismo. Em contrapartida se considera que os demônios sejam os servos e seguidores de Iblis (Satanás). Sendo Iblis o responsável por tentar os homens a cometerem pecados e crimes, e dessa forma distanciá-los de Deus. 

No que se refere aos profetas, o islão reconhece muitos dos profetas que aparecem no Tanakh e na Bíblia, no entanto, ele considera pelo menos cinco destes como sendo os profetas maiores: Nuh (Noé), Ibrahim (Abraão), Musa (Moisés), Isa (Jesus) e Mohammed (Maomé). Sendo Maomé chamado de o "Último Profeta de Alá" ou "Selo dos Profetas". Neste caso Jesus Cristo não é considerado como sendo o Filho de Deus, mas tendo sido realmente filho de Maria e São José. 

O Islamismo, Islão, Islã ou Islame, vem da palavra árabe aslama "submissão", nesse caso, submissão a Deus (Alá). Os adeptos dessa fé são chamados de muçulmanos, que vem da palavra árabe muslim "aquele que se submete". Os muçulmanos se reconhecem como súditos de Alá, aqueles se que submetem perante o Criador. Tal condição é tão significante que os muçulmanos ainda hoje oram de joelhos e se curvam até encostar a testa no chão, como sinal de sua completa submissão a Alá. 

Allah escrito em árabe. A palavra allah significa deus, e não é um nome próprio como Javé. Além disso a palavra era utilizada para se referir a outros deuses árabes, algo também visto no cristianismo.
“Como religião, o islã não compreende apenas a esfera espiritual, mas todos os aspectos da vida humana e social. A interpretação da lei, o direito, sempre ocupou um lugar relevante na história do islã. Na maioria dos países islâmicos, os que têm conhecimentos jurídicos costumam atuar como líderes religiosos. Não existe um sacerdócio organizado”. (GAARDER, 2000, p. 127).

O islão se fundamenta e cinco pilares (arkan) que atestam sua doutrina religiosa:
  1. A profissão de fé (chahada ou sahada): na qual diz que Alá é o único deus verdadeiro e que Mohammed é seu legítimo profeta, servo e mensageiro de sua palavra.
  2. Oração (çalat ou salat): Oração obrigatória que se faz cinco vezes ao dia para Alá, no amanhecer, ao meio-dia, à tarde, ao pôr-do-sol e de noite, voltado para Meca. Nas sextas-feiras, o devoto deve ir a mesquita orar e assistir o sermão dado pelo iman. Além do salat que consiste nessas cinco orações diárias, existem outras orações as quais não são obrigatórias. Além disso, dependendo da condição física, mental e ambiental na qual o muçulmano se encontra, ele não precisa cumprir todas as cinco orações do salat.
  3. Esmola (çadaqa ou zakat): todo o muçulmano é obrigado a pagar uma vez por ano o zakat, o qual consiste num tributo dado a comunidade islâmica como forma de ajudar na organização dessa e na caridade. Considera-se o tributo como um ato de boa fé, onde você doa sua riqueza para ajudar os outros. O zakat diferente do dízimo, cobra uma valor menor do que 3% o qual é calculado a partir da renda do contribuinte
  4. Jejum (çawm): deve ser feito no mês do Ramadã (o mês da revelação). Ao longo dos trinta dias do mês deve-se jejuar durante o dia e alimentar-se apenas de forma frugal durante a noite. Durante este período, também se deve manter a abstinência sexual durante os trinta dias. 
  5. Peregrinação a Meca (hajj): os muçulmanos que vivem próximo a Meca devem ir até a Caaba durante o período de peregrinação. Já os que vivem longe, devem pelo menos uma vez na vida realizarem a peregrinação. 
Acerca da peregrinação a Meca isso não é uma tradição exclusiva do islamismo, os antigos judeus e cristãos até o fim da Idade Média faziam peregrinações a Jerusalém. De fato, os muçulmanos também faziam peregrinação a Jerusalém, mas devido a problemas políticos e a ameaça a segurança dos peregrinos, Maomé mudou a rota de viagem para Meca. Não obstante, no caso dos cristãos católicos havia peregrinações para Roma e para outros locais considerados santos onde se encontravam igrejas, catedrais e basílicas. 

Não obstante, o islamismo permite a poligamia, prática essa antigamente permitida pelos judeus, mas já abolida há bastante tempo. No caso do cristianismo a poligamia foi abolida ainda nos primórdios de sua formação. Todavia, a poligamia muçulmana só é permitida quando o homem dispõe de condições financeiras para manter de forma digna suas esposas e seus filhos, logo, a maioria dos muçulmanos são monogâmicos. 

No islão nota-se um maior conservadorismo no que refere ao tratamento as mulheres. De fato no Alcorão diz que o homem tem direito sobre a mulher e até mesmo o direito de bater nela em caso desta desobedecê-lo. As mulheres infiéis devem ser punidas publicamente com chibatadas ou apedrejadas (tais práticas também eram feitas pelos judeus e outros povos) embora tais atos necessariamente não provém do livro sagrado. O divórcio diferente do cristianismo que por muito tempo proibiu, era permitido no islão há vários séculos, desde que a iniciativa fosse do homem. Hoje em alguns países a iniciativa pode vir da mulher. 

Todavia, alguns direitos restritivos a liberdade feminina advêm das leis civis e não das leis religiosas, como é o exemplo do uso da burca. No Corão não existe referências a obrigação do uso da burca, embora exista referências ao uso do véu para cobrir os cabelos, algo que os homens antes faziam com o uso de turbantes. O conservadorismo com as mulheres advêm de uma questão mais político-social do que religiosa. 

Os muçulmanos como os judeus não comem carne de porco. Por outro lado, para eles o consumo de bebidas alcoólicas ou é proibido ou é restrito, daí os muçulmanos serem grandes consumidores de chá e de café. 

Os muçulmanos não são obrigados a fazer a circuncisão como os judeus, embora muitos muçulmanos adotem tal prática. Por outro lado, alguns países islâmicos obrigam que as mulheres tenham o clitóris retirado, prática essa não contida no livro sagrado. A ONU vem combatendo principalmente na África a prática cruel de cortar o clitóris, pois tal prática mutila a genitália feminina, lhe priva do gozo sexual, e a forma que é feita em geral sem nenhum cuidado médico, acaba vitimando várias garotas todos os anos. 

No que se refere ao livro do Alcorão esse representa a Palavra de Deus revelada diretamente ou indiretamente através do anjo Gabriel a Maomé. De fato, a tradição árabe conta que o profeta escreveu o livro a partir das revelações que ele tivera com Alá de 610 até o fim de sua vida, no entanto, a tradição aponta que alguns dos califas inspirados também escreveram partes do livro sagrado, tendo sido o califa Utman o responsável por organizar a versão final do livro. No entanto alguns historiadores assinalam que o livro teria sido escrito por mais tempo. 

Um exemplar do Alcorão. Depois da Bíblia, é o livro mais lido no mundo. O Alcorão também é chamado de Al-Karim (O Nobre) e Al-Azim (O Magnífico).
O Corão é dividido em 114 capítulos (suras), os quais são divididos em livros, seções e versículos (ayat). De fato o livro foi escrito de forma que facilitasse sua leitura e recitação (a palavra corão (quram) significa recitação), pois os versículos (ayat) soam quase de forma poética e são bastante eficazes para a memorização de seu conteúdo, diferente do Tanakh e da Bíblia

“O Corão islâmico é, literalmente, a Palavra de Deus. Pode-se ilustrar melhor essa idéia fazendo uma comparação com o cristianismo. O cristianismo ensina: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós" (João 1,14). Jesus é a revelação. No islamismo, Maomé é apenas um intermediário, pois a verdadeira revelação ocorre no próprio Corão. No cristianismo a Palavra de Deus se tornou uma pessoa; no islamismo, um livro. Portanto, não é correto comparar Jesus com Maomé e a Bíblia com o Corão. Seria mais apropriado dizer que existe um paralelo entre Jesus e o Corão. Outra diferença importante entre a Bíblia e o Corão é que a Bíblia é um texto histórico, ao passo que o Corão é "inchado" e existe para sempre”. (GAARDER, 2000, p. 134-135).

Assim como o Tanakh e a Bíblia, o Alcorão possui passagens que abordam acontecimentos históricos da época de Maomé, acontecimentos históricos que remontam a época de Jesus Cristo e antes dele, remontando as histórias vistas no Torá e no Antigo Testamento. Além desse lado histórico, há o lado religioso, mitológico, literário, jurídico, ético, social, cultural, etc. Pois o livro serviu e ainda serve como modelo para organizar e fundamentar a política e as leis de alguns países muçulmanos.

Ao lado do Alcorão existe um outro importante livro chamado Hadith o qual consiste numa coletânea de vários autores que trazem aspectos sobre a vida do profeta, embora algumas dessas histórias sejam de caráter lendário. Nestas histórias escritas no primeiro século após a morte de Maomé, embora algumas datem de datas posteriores, tinham como proposta mostrar a vida e obra do último profeta de Alá, mostrando Mohammed como um modelo a ser seguido e imitado. 


Assim os estudiosos e sacerdotes islâmicos tomaram alguns destes livros que trazem descrições das peregrinações, ideias, decisões e hábitos de Maomé como forma de complementar o estudo do Alcorão. O Hadith em alguns aspectos se assemelha ao Talmud dos judeus, por consistir numa obra de estudo de interpretação do livro sagrado. 

O Alcorão e o Hadith formam a chamada xariá, que se refere a lei muçulmana ou doutrina muçulmana. Sendo o Corão o livro revelado por Alá e o Hadith a representação do suna ou sunnah ("caminho do profeta" ou "ensinamentos do profeta). Todavia os livros que compõem o Hadith geraram debates e desentendimentos entre a comunidade muçulmana, por exemplo, os sunitas reconhecem alguns livros os quais por sua vez os xiitas não os reconhecem como obras "verdadeiras", e vice-versa. Por outro lado, há livros do Hadith que foram considerados apócrifos tanto por sunitas como pelos xiitas.



“Tanto o Corão como as narrativas hadith se referem a um tipo de sociedade que hoje em dia praticamente não existe mais. Portanto, interpretar e adaptar as regras da escritura e da tradição é uma tarefa considerável. Ela pode ser realizada segundo dois princípios diferentes, o da similaridade e o do consenso. Princípio da similaridade ou analogia. Para solucionar um problema totalmente novo, encontra-se um exemplo semelhante (ou análogo) no Corão, ou um precedente, e se estuda a base para uma decisão. Princípio do consenso. Diz-se que Maomé afirmou que os fiéis nunca poderiam concordar coletivamente acerca de algo que estivesse errado. Assim, uma decisão que os fiéis tomam em comum pode ser vista como lei por seus representantes, os especialistas legais. Um exemplo ocorreu quando os líderes religiosos resolveram proibir o café. A decisão foi recebida com protestos tão veementes pelas pessoas comuns que os líderes concordaram em anular a proibição”. (GAARDER, 2000, p. 141).

No que se refere a organização eclesiástica do islamismo esse como o judaísmo não são bem estruturados como as Igrejas cristãs. Além disso, os clérigos islâmicos também atuam no campo jurídico, executivo e legislativo, algo que a Igreja Católica e Ortodoxa fizera no passado, mas deixou de fazer a partir do século XVIII em alguns países e até mesmo antes ou depois em outros países. No campo do ensino por séculos os ulemás foram os principais responsáveis pelo ensino, fosse na alfabetização, instrução, pesquisa e escrita, algo visto no judaísmo e no cristianismo.

  • Ulemá: são homens versados no estudo teológico, filosófico, jurídico e em outras ciências e artes, os quais são responsáveis pelo ensino religioso ou laico. De certa forma eles se assemelham aos rabinos. Os ulemás também atuam como sacerdotes.
  • Mufit: estudiosos versados no xariá. 
  • Cádi: é um juiz que com base no xariá, julga questões ligadas ao matrimônio, divórcio, infidelidade, herança, adoção, tutelação, etc. Podem também atuar em outras questões jurídicas que não estejam ligadas a esfera familiar.
  • Alfaqui: especialista no estudo da jurisprudência islâmica (fiqh). Os alfaqui diferente dos mufit e cádi que possuem um papel mais ligado a advocacia, eles atuam no meio burocrático e acadêmico. São os responsáveis por atualizar as leis.
  • Mulá: título dado a um homem educado na teologia islâmica e no xariá. O termo é usado em alguns países para se referir ao sacerdote islâmico.
  • Imã, imam, imame: título também dado aos califas o qual concedia a estes o direito sobre a religião. Após o fim do título de califa, os imã passaram a designar qualquer líder religioso importante. O imã em alguns casos possui algumas funções comparáveis aos bispos e cardeais, pois cuida de assuntos burocráticos. 
"A ética muçulmana combina no mesmo espírito, para o indivíduo e a colectividade, um conjunto de práticas em que surge, na unidade de uma fé que deve inspirar todas as atitudes, uma dupla preocupação de ascese espiritual e de esforços para a felicidade de todos. Ilustram as primeiras proibições, sobretudo alimentares, seja a carne de porco ou de animais não sangrados, sejam as bebidas fermentadas, de que o Corão condena pelo menos o abuso, se não o uso. Quanto à preocupação do bem da maioria, aparece numa moral ao mesmo tempo optimista e comunitária, cuja ideia geral é que Deus quer, cá em baixo, o bem-estar material do seu povo, implicando este bem-estar a manutenção da felicidade individual aquém do egoísmo e do excesso: princípios, por conseguinte, de justiça, se não de equidade social". (MIQUEL, 1971, p. 59).

Os templos muçulmanos são as mesquitas, as quais geralmente possuem uma cúpula e suas quatro torres (minaretes) ao redor. As mesquitas não possuem imagem de Maomé ou de outros profetas, familiares destes e de personagens corânicos, pois a religião islâmica é bastante iconoclasta. Logo é comum encontrar pinturas abstratas, geométricas como os arabescos, e a grafia dos nomes de Maomé e de Alá. Até mesmo o Alcorão não possui figuras, embora alguns exemplares do Hadith, assim como outros livros e pinturas retratem o profeta e personagens religiosos. 


A Mesquita Azul, Istambul, Turquia. 
No que diz respeito aos feriados islâmicos o calendário islâmico é diferente do calendário judeu e cristão. O calendário islâmico é um calendário lunar como o calendário judaico, possuindo doze meses que variam de 29 a 30 dias, com um total de 354 ou 355 dias. O calendário se iniciou no ano de 622 com a Hégira, acontecimento que marca a fuga de Maomé de Meca para Medina, logo, os muçulmanos contam o tempo a partir do ano de 622 como sendo o ano 1 para eles. 

Na religião islâmica basicamente só há dois feriados importantes, o Eid ul-Fitr (Celebração do fim do Jejum) que marca o fim do jejum ritual iniciado no mês do Ramadã (equivale a setembro) e concluído no mês Shawwal (equivale a outubro). O Eid ul-Fitr é comemorado no primeiro dia de Shawwal no qual os muçulmanos celebram o fim dos 30 dias de jejum com uma pequena comemoração, que alguns lugares dura até três dias. Tal jejum remonta a vitória na Batalha de Badr ocorrida em 624, onde os exércitos de Maomé triunfaram, e em retribuição a Alá, o profeta pediu que todos jejuassem por um mês. 


A segunda data importante é o Eid al-Adha (Celebração do sacrifício), a qual é comemorada com o final do período de peregrinação (hadj) a Meca. A peregrinação anual ocorre no mês de Dhu al-Hijjah (equivale a dezembro), sendo celebrada durante quatro dias após o décimo dia do mês. Pelo fato de coincidir com a peregrinação a celebração se mistura com esse importante evento e dever de cada muçulmano. No Eid al-Adha relembra-se a tentativa de Abraão de tentar sacrificar seu filho Ismael a Deus, mas o Senhor o fez mudar de ideia. 


A Festa do Sacrifício como também é chamada é comemorada com a realização de sacrifícios cordeiros, onde a carne é repartida com os familiares, amigos, vizinhos e os pobres, e depois a carne é preparada para o almoço ou jantar. Nessa ocasião as pessoas usam suas melhores roupas, realizam a comunhão com outras famílias. Em países onde o sacrifício é proibido, mantém-se as orações e a comunhão, embora em alguns casos haja trocas de presentes e doações aos pobres.


O islão não possui tantas divisões internas como o judaísmo e o cristianismo, basicamente o islão se divide nas seguintes vertentes:
  • Sunismo: Corresponde a maior vertente islâmica contendo o maior número de integrantes. Surgiu no século VIII após o assassinato do califa Ali, no que resultou numa guerra civil pelo controle do califado. Os sunitas se representam como herdeiros da suna ("caminho trilhado pelo profeta"), alegando seguirem os ensinamentos de Maomé e dos quatro Califas Inspirados. Além disso, o sunismo também se divide em quatro escolas de direito (vale lembrar que o islã está bastante ligado ao direito) chamadas: maliquita, shafita, hanbalita e hanefita
  • Xiismo: Também oriundo a partir do episódio da morte do califa Ali, o xiismo se desenvolveu de forma mais clara entre os séculos IX e X, surgindo inicialmente como uma ruptura de caráter político, pois os xiitas defendiam que os califas deveriam ser descendentes de Ali o qual teria sido o "herdeiro legal de Maomé". No entanto, entre o xiismo surgiram novas dissidências acerca de quem seriam os imãs (termo pelo qual eles se referem ao califa) legítimos. Tais desentendimentos levou ao surgimento do xiismo dos Doze Imãs, do ismailismo e dos zaiditas. Nos aspectos religiosos e jurisprudentes, os xiitas são mais conservadores do que os sunitas. 
  • Carijitas: Foi a terceira vertente que surgiu após a morte de Ali. Os carijitas na época da guerra civil defendiam que qualquer homem de bem e instruído de uma moral e fé teria direito para se tornar califa. Os carijitas formaram um grupo pequeno se comparado aos sunitas e xiitas, e dentro dos próprios carijitas surgiram grupos menores. Hoje os principais carijitas vivem em Omã e pertencem ao subgrupo dos ibaditas
  • Sufismo islâmico: Perfaz o movimento místico e esotérico no islamismo. Ainda hoje é considerado em alguns países islâmicos como sendo uma seita herética. O sufismo procura através de práticas de canto, meditação, dança, transe, etc., formas de alcançar um estado de "iluminação" o qual os deixaria mais próximos de Alá. Tais práticas rompem com os Cinco Pilares da Fé, pois necessariamente os sufis não seguem arrisca o jejum, a salat (cinco orações), a peregrinação (hajj), etc. Não obstante, alguns sufis acabaram se desligando do islã, de fato, existem ordens ou seitas sufistas que não estão ligadas ao credo muçulmano, mas a outras religiões, ou até mesmo são ascéticas. Logo, dizer que todo sufista é um muçulmano, consiste numa afirmação errônea. 
Fé Baha'í


Embora seja uma religião surgida na Pérsia (atual Irã) no século XIX, o que convém alguns historiadores das religiões a classifica-la como pertencendo ao grupo das religiões iranianas, no entanto, preferi incluí-la no grupo das religiões abraâmicas pelo fato que a Fé Bahái ou Bahismo (termo menos utilizado pelos seus adeptos), formou-se a partir do Islamismo, além do fato de reconhecer a tradição judaica-cristã também como inspiração e herança, e reconhecer o Deus dessas três religiões, como sendo também o deus a quem os baha'ís adoram. Logo, tratarei dessa religião persa dos Oitocentos aqui nesta categoria, como sendo a quarta religião abraâmica. 

1) Breve história


A história da Fé Baha’í se inicia no começo do século XIX com a seita ou movimento do Babismo, a qual se revelou nos dizeres de seu próprio líder o Bab, como uma precursora da renovação mundial que estava por vir. Sendo assim, é necessário conhecer um pouco sobre quem foi o Bab e seu movimento ou seita, embora alguns historiadores prefiram classificar o Babismo como uma “religião” independente da Fé Baha’í, mas optei em não fazer isso, pois ambas estão ligadas em história, doutrina, missão e objetivo.

O Babismo se originou a partir da doutrina islâmica na qual o próprio profeta Mohammed no Alcorão, havia profetizado a vinda de um novo profeta, um novo escolhido de Alá. Nos séculos que se seguem a sua morte, muitos homens se apresentaram como sendo esse “escolhido” que o profeta havia mencionado, mas no século XIX na Pérsia, um homem chamado Mirzá Ali Muhammad (1819-1850), passou em 1844 a pregar que a vinda do escolhido como o Alcorão mencionava, estava próxima de chegar. Mirzá passou a adotar o título de Bab (“porta”). Pois alegava ser o portador da notícia que um novo “Manifestante de Deus” estava para surgir no mundo.

Mirzá segundo a tradição seria um Siyyid, um descendente de Maomé. Seu pai era um comerciante, mas morreu ainda cedo, logo, Mirzá e sua mãe se mudaram para a casa de um tio materno, ainda na mesma cidade de Xiraz, onde ele nasceu. Nessa época grande parte da população persa eram de muçulmanos xiitas (mais conservadores), e foi em meio a essa sociedade islâmica que Mirzá cresceu.

Aos 15 anos passou a trabalhar com o tio no comércio, posteriormente se mudou para Bushire, onde foi trabalhar com outro tio seu. Aos 22 anos Mirzá se casou com Khadija-Bagum, com quem teve um filho chamado Ahamad, o qual faleceu com um ano.

Aos 25 anos Mirzá conta em seus livros que recebeu definitivamente a revelação de Deus, o qual lhe revelara que ele seria o arauto de boas novas sobre a vinda do Prometido.

Nessa época desde 1790, Shaykh Ahmad criou uma seita xiita onde compartilhava com seus adeptos que no século seguinte o Qá’im, Mihdi, ou seja, o Prometido do qual Mohammed havia mencionado, estaria por aparecer no mundo. Vários anos se passaram desde que Shaykh Ahmad havia dito isso, e mesmo após a sua morte, seus discípulos ainda continuaram a viajar pelos países árabes procurando sinais da vinda do Escolhido.

E no ano de 1844, um dos discípulos de Shaykh, chamado Mullá Husayn (1813-1849) ao chegar em Xiraz, foi abordado por Mirzá o qual lhe ofereceu abrigo e água, pois notara que o homem e seu cavalo estavam muito cansados. Durante a conversa, Mullá contou sobre sua missão de procurar o Qá’im, então Mirzá que já havia assumido o título de Bab, disse que ele era esse escolhido. O mestre de Mullá havia dito que o Prometido se manifestaria a partir de alguns sinais específicos, e segundo Mullá, todos esses sinais foram vistos no Bab.

Sala na qual o Bab relatou sua revelação a Mullá Hussayn, em 23 de maio de 1844. 
Após confirmar que todos os sinais realmente indicavam a santa missão que recaía sobre aquele homem, Mullá decidiu cooperar com o Bab, e assim eles formaram um pequeno grupo de seguidores, dos quais alguns teriam notado sinais que indicavam no Bab o aguardado prometido. Ao todo foram 18 seguidores os quais eram chamados de “Letras do Vivente”, onde o Bab se considerava o décimo nono.

Após formar um grupo de seguidores e instruí-los sobre as mudanças que estavam por vir, o Bab instruiu seus discípulos a viajarem pela Pérsia e espalhar a notícia de sua revelação.

“O Báb foi Precursor de Bahá’u’lláh, o Mensageiro de Deus para esta época, como João Batista foi precursor de Jesus, o Mensageiro de Deus para o seu dia. Um precursor é o que prepara as pessoas para um outro que virá depois dele. O Báb, diferente de João, foi também um Profeta de Deus, como Jesus, Maomé e mais tarde Bahá’u’lláh”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 10).

Posteriormente o próprio Bab viajou a Meca, o centro de peregrinação dos muçulmanos, onde declarou publicamente que era um enviado de Alá. Algumas pessoas lhe deram ouvido, outras o zombaram e xingaram. Ele também viajou para Medina, outra importante cidade para o islamismo.

A divulgação da revelação do Bab continuou pelos anos seguintes até a sua morte em 1850. Mas antes disso acontecer, o Bab viajou para espalhar sua missão, escreveu alguns livros, ganhou novos adeptos, admiradores e inimigos, pois as autoridades religiosas, políticas e parte da população o viam como um charlatão, um impostor, um falso profeta.

Em 1845 o governo da cidade de Busher (no Irã) declarou voz de prisão ao Bab, mas devido a uma epidemia de cólera na cidade, ele foi solto e partiu para Isfahan em 1846. Na cidade ele começou a ganhar nodos admiradores, chegando até mesmo a participar de interrogatórios pelos ulemás (estudiosos do Alcorão), mostrando grande conhecimento das escrituras, das leis, e uma astúcia para responder as perguntas de seus interrogadores. Isso não agradou as autoridades religiosas as quais intercederam ao xá (rei) Mohammad Shah Qajar para tomar uma providência. O rei ordenou a prisão do Bab e o enviou para os arredores de Teerã (atual capital do país).

Depois de passar meses num acampamento militar em Teerã, o Bab foi enviado em 1847 para uma prisão em Tabriz no noroeste do país. Mas embora estivesse preso, ele ainda continuava a pregar mesmo para os guardas. Porém a situação piorou para as autoridades, pois nestes últimos anos, o número de babis, seus seguidores cresciam pelo país, ao mesmo tempo, que os xiitas e sunitas começaram a perseguir os babis, utilizando mesmo a força, no que resultou em violência e morte. Os muçulmanos consideravam os babis como hereges.

Com esse crescimento no número de adeptos, algumas pessoas passaram a tentar ver o Bab, mesmo estando preso, logo, isso gerou peregrinações de pequenos grupos a Tabriz, o que levou o rei a ordenar que o Bab fosse transferido para outra prisão, indo ser aprisionado na Fortaleza de Máh-ku no Azerbaijão, na época ainda parte da Pérsia, mas hoje um país independente. Lá ele começou a escrever seu mais importante livro, o Bayan Persa, obra que ficou inacabada.

Em 1848, como a denúncia de que os guardas estavam amenizando o tratamento ao Bab, e além de que pessoas nas redondezas iam à fortaleza para ver e falar com ele, o primeiro-ministro ordenou que o Bab fosse transferido para Ch iriq, outra fortaleza. No entanto, as visitas ainda continuaram, além do fato que alguns guardas começaram a passar a crer no prisioneiro.

Sendo assim, o primeiro-ministro ordenou que ele fosse enviado de volta a Tabriz, onde permaneceu o ano de 1849, e em 1850 foi finalmente julgado e sentenciado a morte. Sendo acusado de apostasia, blasfêmia e outras heresias e crimes. Em 9 de julho de 1850, em companhia de um de seus discípulos, chamado Muhammad Ali, o qual pediu que fosse morto ao lado de seu mestre, os dois naquele dia foram fuzilados na praça de Tabriz, onde milhares de pessoas testemunharam a sua execução.

Local na Praça de Tabriz, onde o Bab e seu discípulo Muhammad Ali foram executados em 1850. 
No entanto, a mensagem de renovação que o Bab pregava não se perdeu. Anos antes, Mirzá Husayn Ali (1817-1892) havia aderido ao babismo, embora nunca conheceu o Bab, no entanto, ele recebeu uma carta deste, dizendo que ele estava destinado a ser o seu sucessor, pois ele seria um Manifestante de Deus.

“Um Manifestante de Deus é um Ser divino na forma de um homem perfeito, escolhido por Deus para revelar a Palavra Divina à humanidade. Sua vida é um reflexo perfeito das qualidades de Deus. Isso torna-o totalmente diferente até mesmo do melhor e mais sábio dos homens. Jesus, o Cristo, foi um Manifestante de Deus. Moisés e Maomé foram também Manifestantes de Deus. O Báb e Bahá’u’lláh são Manifestantes de Deus enviados para a humanidade de hoje”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 17).

“Durante os primeiros trinta anos de sua vida, Bahá’u’llah foi conhecido por Mirzá Hussayn-Ali. Nasceu a 12 de novembro de 1817, em Teerã, capital da Pérsia (Irã). “BAHÁ’Ú’LLAH” é um título espiritual dado a ele pelo Báb. Significa A GLÓRIA DE DEUS”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 20).

Bahá’ú’llah nasceu numa família muçulmana xiita e rica, no entanto, ele nunca deu atenção à riqueza e ao poder, pois seu pai era político, inclusive sendo um dos ministros do xá. Todavia, Bahá’ú’llah utiliza a sua riqueza para ajudar os pobres e necessitados. Era descrito como um homem honesto, bondoso, virtuoso e sábio. Quando soube do babismo aderiu à causa do Bab, pois via naquele homem a esperança de novos tempos.

Fotografia de Bahá'ú'llah. 
Após a morte do Bab, seus discípulos passaram a serem perseguidos, sendo presos e até mesmo assassinados. Bahá’ú’llah foi preso em Teerã com outros babis. No ano de 1852, enquanto se encontrava preso, ele tivera uma revelação de Deus. Não sabemos o que realmente se sucedeu na prisão em Teerã, mas ainda naquele ano, após quatro meses de prisão, Bahá’ú’llah foi solto, mais foi banido da Pérsia, deixando o país com sua família, amigos e alguns babis.

Segundo o próprio, sua vida foi poupada e sua prisão em Teerã foi abreviada, pois Deus decidiu que assim fosse, pois a ele foi designado ser o sucessor do Bab, ser o Prometido de que ele falava. Após deixar a Pérsia, Bahá’ú’llah se mudou para Bagdá, capital do Iraque, onde viveu por 10 anos, tempo que aproveitou para escrever seus próprios livros, assim como, também difundir os ensinamentos do Bab, e seus próprios ensinamentos. Ele se via como herdeiro legítimo da reforma iniciada pelo Bab, o qual alegara que o novo Manifestante de Deus viria reformar o islamismo, assim como, Cristo havia feito com o judaísmo, e Maomé fizera com o cristianismo.

No entanto, se passado esses dez anos de tranquilidade, o então sultão otomano Abdülaziz I ordenou em 1863 que Bahá’ú’llah deixasse Bagdá e se mudasse para Istambul (antiga Constantinopla) na Turquia. Na época o Iraque ainda fazia parte do Império Otomano, cuja capital era Istambul.

O sultão tendo recebido notícias que crescia o número de seguidores do babismo (Bahá’ú’llah ainda não havia criado a fé Baha’í até aquele ano), sendo ele contrário a aquela seita herética, ordenou que seu principal representante fosse para a capital, para que ficasse mais próximo de sua autoridade, e de fato isso aconteceu.

O Símbolo de Pedra, um dos símbolos baha'í, o qual representa a união de Deus com a humanidade.
Bahá’ú’llah antes de deixar o Iraque se proclamou aos seus discípulos e fiéis que ele era o Manifestante de Deus, o proclamado pelo Bab, e o prometido nas escrituras corânicas. Assim, ele inaugurou uma nova religião, chamando-a de Fé Baha’í.

“Baha’í significa um seguidor de Bahá, que é o diminutivo para Bahá’ú’llah. Bahá’ú’llah significa “A GLÓRIA DE DEUS”. Um seguidor de Bahá’ú’llah é uma pessoa que acredita ser Bahá’ú’llah um outro Mensageiro Divino. Ele trouxe um plano e ensinamentos para todos o povos que vivem no mundo de hoje e para milhares de anos no futuro. Um Bahá’i, portanto, esforça-se para seguir os ensinamentos de Bahá’ú’llah”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 7).

“A viagem a Constantinopla durou de três a quatro meses, e o grupo, composto por Bahá’ú’llah com doze membros de sua família e setenta e dois discípulos, sofreu horrivelmente devido aos rigores da estação. Chegados a Constantinopla, ficaram prisioneiros numa pequena casa que muito mal os comportava. Mais tarde conseguiram alojamentos um pouco melhores, mas, decorridos quatro meses, foram transferidos novamente, desta vez para Adrianópolis”. (MONT, 1962, p. 34).

Mapa do trajeto que Bahá'ú'llah, sua família, amigos e alguns seguidores, percorreram de 1853 a 1868. 
A viagem para Adrianópolis foi penosa devido ao inverno. Mas chegando à cidade, Bahá’ú’llah passou a morar com sua família numa pequena casa, enquanto seus discípulos arranjaram outras moradias. Eles viveram no local por quase cinco anos. Dois fatos importantes devem ser ditos quanto à estada em Adrianópolis.

Primeiro, que diferente do que ocorreu com o Bab, o qual ficou preso em fortalezas e áreas distantes, Bahá’ú’llah não vivenciou o mesmo tipo de cativeiro. Nesse ponto, parece que o sultão foi mais brando com a prisão do que foi o xá da Pérsia com o Bab. Embora Bahá’ú’llah tenha passado quase toda a sua vida preso, consistiu numa prisão domiciliar.

O segundo aspecto importante, diz respeito a uma dissidência que começou a se formar a partir de um dos irmãos do profeta, chamado Mirzá Yahyá. Ele possuía inveja de seu irmão, e passou a discordar de alguns de seus ensinamentos, então começou a recrutar seus próprios seguidores, e a defender-se como sendo o verdadeiro herdeiro do Babismo. As autoridade otomanas para evitar que essa dissidência gera-se problemas mais graves, decidiu separar os dois grupos. Os bahaís foram enviados para Acre (Akka em árabe) na Palestina, e os babis que seguiam Mirzá Yahyá, foram enviados para a ilha de Chipre.

“Nesse período, Bahá’ú’llah escreveu sua famosa série de cartas às principais cabeças coroadas da Europa, ao Papa, ao Xá do Irã, e ao governo dos Estados Unidos, anunciando a sua missão e exortando-os a dedicar as suas energias ao estabelecimento da verdadeira religião, de um governo justo e da paz internacional”. (MONT, 1962, p. 35).

A prisão em Acre foi a mais severa das quais os bahaís passaram. Se antes as moradias eram pequenas e sujas, tais aspectos se mantiveram na prisão militar em Acre. Os prisioneiros não possuíam camas, dormiam em colchões no chão quando possuíam um. As celas eram escuras e fétidas. A água não era totalmente limpa, o que gerou surtos de cólera e desinteira. Até mesmo casos de malária foram relatados. A comida era de má qualidade e escassa. Foi decidido que quatro homens iriam diariamente ao mercado na cidade sob vigilância dos soldados, para ir comprar comida suficiente para todos. A ideia não era matar os prisioneiros de fome, mas prolongar seu sofrimento na prisão.

Prisão em Acre, Israel, na qual Bahá'ú'llah, sua família, amigos e seguidores ficaram presos. 
Alguns baha'ís que souberam que Bahá’ú’llah estava preso em Acre, passaram a fazer peregrinações ao lugar, mas eram proibidos de entrar na cidade. Além disso, as autoridades os reprimiam e os ameaçava de continuarem a ir para a região, pois houve casos de que acampamentos se formavam em torno da cidade. Por dois anos e meios Bahá’ú’llah e seus familiares, amigos e seguidores viveram nas péssimas condições da prisão de Acre.

Mas passado esse tempo de sofrimento, foi concedido pelas autoridades à prisão domiciliar. Bahá’ú’llah e sua família agora podiam deixar a cidade, embora estavam proibidos de deixar a região. Nesses primeiros meses de liberdade vigiada, o profeta passou a morar com sua família em tendas ao sopé do Monte Carmelo, local no qual São Elias confrontou os profetas de Baal (antigo deus fenício). Posteriormente no século XIII, o local originou um mosteiro, o que originou a Ordem do Carmo ou Ordem dos Carmelitas.

O Monte Carmelo, Israel. Também conhecido em Portugal e no Brasil, como Monte do Carmo. 
Posteriormente seu filho mais velho Abdu’l-Bahá comprou uma casa para a família, localizada a nove quilômetros de Acre. Para lá sua família se mudou, mas moraram apenas dois anos.

Então eles retornaram para mais perto de Acre, onde passaram a morar numa casa maior, a qual foi chamada de Bahjí, a qual consistiu na morada final do profeta. Pelos anos seguintes ele se dedicou em Bahjí a escrever vários livros e a difundir sua fé, pois o local se tornou bastante frequentando.

Mansão Bahjí nos dias atuais. 
O governo otomano não proibiu a pregação de Bahá’ú’llah, logo, Bahjí, e a cidade de Haifa que fica nas proximidades, se tornaram o centro religioso da Fé Baha’í. Nas décadas que ali viveu o profeta baha'í foi visitado por milhares de pessoas, algumas foram vê-lo por curiosidade, e retornaram para seus lares, já convertidos a nova fé.

“Bahá’ú’llah faleceu em Bahjí, oito horas após o pôr-do-sol do dia 28 de maio de 1892, aos 75 anos de idade. Foi sepultado no mesmo dia em pequeno túmulo próximo à sua casa”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 27).

Como a Fé Baha’í não possuía sacerdotes ou outro representante clerical, Bahá’ú’llah deixou em seu testamento, o Livro do Convênio, designando seu filho primogênito Abdul’l-Bahá como seu sucessor imediato, e o único responsável por transmitir a doutrina. Diferente do Bab e do Bahá’ú’llah os quais foram “Manifestantes de Deus”, os Abdu’l-Bahá e seus sucessores não são considerados “Manifestantes de Deus”.

Abbás Effendi (1844-1921) era o primogênito de Bahá’ú’llah, tendo nascido no ano e no mesmo dia que o Bab havia feito sua revelação. Abbás acompanhou o drama de sua família desde cedo, pois quando tinha oito anos, seguiu para a prisão junto com seu pai, mãe, irmãos e demais familiares. Não frequentou a escola, sendo ensinado pelo seu pai, e assim se tornou seu principal discípulo.

Fotografia de Abdu'l-Bahá.
Embora não tenha tido uma educação convencional, Abbás era descrito como um homem complacente, gentil, sábio, educado e justo. Ficou conhecido por ajudar os pobres e os doentes em Acre, algo, que lhe rendeu respeito e admiração mesmo pelos não bahaís. As pessoas o chamavam de “Mestre”, e Abbas recebeu o título de Abdu’l-Baha (“Servo de Baha”), o que designava ser ele o herdeiro de seu pai.

De 1892 a 1908, Abdu’l-Baha ainda permaneceu em prisão domiciliar em Bahjí, mas isso não impediu que não pudesse difundir a sua fé ou receber visitas. Muitos bahaís ainda continuaram a ir visitá-lo, ao mesmo tempo, que nesse período ele ordenou a construção do Santuário do Bab no Monte Carmelo. Local para o qual foram levados os restos mortais do Bab e de Muhammd Ali. Pois seus corpos embora tenha sido fuzilados, foram jogados fora de Tabriz, então os babis os recolheram e guardaram os ossos, até que finalmente fosse construído um túmulo digno para eles.

Santuário do Bab, Haifa, Israel.
Em 1909 foi dado o direito de liberdade. Abdu’l-Baha contava com 65 anos na época, tendo vivido mais de cinco décadas em exílio e prisões. Recebendo a liberdade ele decidiu viajar para o Ocidente, a fim de difundir sua palavra.

“Fez longas viagens de ensino para o Egito, Inglaterra, França, Alemanha e em 1912 esteve durante nove meses nos Estados Unidos da América e Canadá. Viajou de costa a costa dos Estados Unidos, visitando os Bahá’ís e falando em todas as espécies de reuniões. Falou em diversas igrejas, universidades, sociedades de diferentes classes e em casas particulares. Falou sempre de Bahá’ú’llah, de sua vida e sofrimento, de sua solução para os problemas de nossa sociedade atual. Em virtude de existir grande preconceito racial na América, Abdu’l-Bahá tratou por inúmeras vezes da questão da unidade do gênero humano e da necessidade de serem superados os preconceitos de qualquer espécie. Pela primeira vez na história da América, reuniões com grande público foram realizadas com o propósito exclusivo de reunir pretos e brancos em espírito de verdadeira amizade e compreensão”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 37).

Abdu'l-Bahá em Paris. 21 de agosto de 1911. 
Em 1914, Abdu’l-Bahá havia retornado para Haifa, Israel. Então naquele ano eclodiu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O Mestre havia previsto que a guerra iria ser longa, então decidiu armazenar alimentos, e assim evitou que o povo de Haifa passasse-se fome.

“Quando o General Allemby, das forças britânicas, entrou finalmente em Haifa, uma das primeiras coisas que fez foi ver se Abdu’l-Bahá estava protegido. Mais tarde Abdu’l-Bahá foi agraciado com um título de nobreza inglesa por seus grandes serviços prestados ao povo de Haifa”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 38).

Abdu’l-Bahá faleceu em 28 de novembro de 1921. Tendo sido sepultado no Santuário do Bab. Como sucessor ele nomeou o seu neto, filho de sua filha mais velha, Bahíyyih Khánum. Embora tenha tido filhos, o Mestre preferiu nomear um de seus netos, chamado Shoghi Effendi (1897-1951), o nomeando como Guardião da Fé. Para Abdu'l-Bahá seu neto mais velho, expressava todas as qualidades de que um homem devoto a causa baha'í deveria ter. 

Retrato de Shoghi Effendi.

Durante o ministério de Shoghi Effendi, a Fé Baha’í ganhou sua estrutura administrativa e eclesiástica, pois com a morte do Guardião, não houve mais sucessores diretos, e até hoje um conselho eleito na Casa Universal de Justiça, são os representantes da Fé Baha’í.

1)  Aspectos religiosos:

Pelo fato de o Bab, Bahú’ú’llah e Abdu’l-Bahá terem escrito muitos livros, logo, a doutrina Baha’í possui uma literatura religiosa bastante vasta para ser analisada, no entanto, focarei nos preceitos básicos dessa fé, os quais esses três mestres compartilharam e desenvolveram.

A Fé Baha’í se sustenta em três pilares:
  • Só há um Deus: Para os baha’ís, Deus é onipotente, onisciente e onipresente. É o mesmo deus revelado ao profeta Abraão, e também seria o mesmo deus em outras religiões, pois para a Fé Baha’í, as grandes religiões provêm do mesmo deus, sendo os deuses personificações de seu ser. Deus é infinito, é o Criador do Universo. A pessoa de Deus está para além da compreensão humana. A forma de Deus é desconhecida. As leis da Natureza são as leis de Deus. O Senhor revela diretamente seus ensinamentos através de pessoas escolhidas, chamadas Manifestantes ou Profetas, os quais têm a missão de deixar registrado e divulgar esses ensinamentos.
  • A revelação progressiva: Para a Fé Baha’í as grandes religiões do mundo, são reflexos da vontade de um mesmo deus, sendo cada uma tendo surgido de acordo com as necessidades da época. Os baha’ís entendem as grandes religiões como uma “evolução da fé”. Logo, o que Deus manifestou a Abraão, lhe foi útil para sua época, mas no tempo de Moisés, Deus expressou novos ensinamentos, e assim por diante. A doutrina baha’í diz que cada Manifestante de Deus surge para transmitir novos ensinamentos ao mundo, moldando-se de acordo com as necessidades daquele tempo. Os ensinamentos de Cristo não são iguais ao de Maomé, todavia, a base do que eles ensinaram, permanece igual. Por essa perspectiva, nas próximas décadas ou séculos, um novo Manifestante de Deus surgirá para trazer novos ensinamentos, pois a sociedade e a cultura estão em constante transformação.
  • Unidade humana: A doutrina baha’í defende que todos os homens e mulheres são iguais perante a Deus, mas as leis dos homens, e o ego nos faz procurar sermos diferentes. Todavia, os baha’í defendem que a humanidade seja uma grande família, pois independente de que país, etnia e religião você pertença, a humanidade é uma mesma espécie. Logo, a Fé Baha’í defende uma fraternidade mundial, combatendo a descriminação, o preconceito e a desigualdade. Para essa religião independente de suas crenças, o ser humano possui um espírito, e deve zelar por ele, mas, além disso, ele deve procurar fazer o bem ao próximo, para que assim se encerrem muitos problemas no mundo.
A partir desses três pilares, o Bab, Bahá’ú’llah e Abdu’l-Bahá desenvolveram os ensinamentos e preceitos da doutrina Baha’í as quais seus fiéis e até mesmo não fiéis devam seguir, para que assim, possam se tornar boas pessoas, e compartilhar o amor e a fraternidade pelo mundo.

Os profetas e suas religiões reveladas por Deus, segundo a doutrina baha'í. 
“Tendo alguém lhe perguntado, certa ocasião: “Que é um Baha’í?”, Abdu’l-Bahá respondeu: “Ser Baha’í significa simplesmente ter amor a todos: amar à humanidade e esforçar-se por servi-la, trabalhar pela paz e fraternidade universais””. (ESSLEMONT, 1962, p. 64).

Preceitos que os baha’ís devem seguir e obedecer:
  • Oração: A oração é a forma de se comunicar com Deus, ela deve ser feita diariamente, sem precisar seguir um horário rígido para isso. A oração deve ser feita por si e para os outros. A oração também é uma forma de louvar e agradecer a Deus.
  • Jejum: Um baha’í deve obedecer estritamente o período de jejum, o qual vai dos dias 2 de março até 20 de março. Do amanhecer ao pôr-do-sol, nenhum alimento e outros tipos de bebidas devem ser consumidos.
  • Não consumir bebidas alcoólicas, não fumar e não usar narcóticos: As drogas causam doenças e levam ao vício. Os vícios corrompem e destroem as pessoas.
  • Não maltratar os animais.
  • Casamento: Todo baha’í deve procurar se casar e constituir família. No entanto, não basta apenas pôr filhos no mundo, é preciso zelar pela educação e desenvolvimento deles. Além disso, marido e mulher devem viver um casamento bom e verdadeiro, e não de fachada. O divórcio não é proibido, mas deve ser desaconselhado.
  • Não participar de jogos de azar.
  • Não escravizar pessoas.
  • Mendicância: Um baha’í não deve viver como um pedinte. O trabalho faz parte da vida. Aquele que vive por esmolas, acaba se acomodando.
  • Indolência: A indolência e a ociosidade devem ser evitadas, pois, viver em preguiça é algo ruim. A pessoa deve procurar fazer algo na vida, se manter ocupada, se tornar produtiva para si, para sua família e sua sociedade. Estudar e trabalhar, devem se tornar o caminho para qualquer um, pois a ociosidade e a indolência levam a vadiagem, a falta de compromisso e a exploração dos outros.
  • Não participar da política: Um baha’í deve evitar engajamento político, mas se for o caso, ele não deve pôr de lado sua família, seu povo e nem sua fé. Ao se tornar um político, um baha’í deve procurar utilizar sua posição em prol da população, e não em usufruto próprio.
  • Não compactuar com o errado e o criminoso: Um baha’í deve levar uma vida intriga, honesta, solidária e pacífica. Participar de trapaças, roubos, corrupção, contrabando, tráfico, entre outros crimes, significa compactuar com esses males. Não denunciá-los, também significa compactuar de forma indireta.
  • Ser verdadeiro: Deve-se evitar a mentira, a fofoca e a calúnia.
  • Fidelidade: Um baha’í deve ser fiel a sua fé, ser fiel ao seu cônjuge, a sua família e ao seu país. Todavia, ele não pode por em questão sua fidelidade nacional, social, étnica, etc., quando outras pessoas estiverem em perigo.
  • Solidariedade e caridade: Não basta apenas viver por si e para si, é preciso ser uma pessoa altruísta, ajudar e amar o próximo. Independente de que religião e país for a outra pessoa que passa por necessidades, problemas e perigos, um baha’í não deve negar ajuda.
  • Amor ao próximo: Um baha’í deve combater o preconceito, a desigualdade e a descriminação. Deve lutar pela justiça, a honestidade, o bem-estar e a paz. Um baha’í deve evitar o uso da violência para alcançar determinados fins.
  • Devoção à fé: Ser devoto não significa se tornar cego pela fé, e assim virar um fanático. Deve-se seguir os preceitos da fé, e discordar daqueles que lhe dão mal uso, e distorcem as palavras e ensinamentos.
  • Sepultamento: Um baha’í deve ser enterrado. Cremação e outras formas de sepultamento não devem ser realizadas. Além disso, deve-se orar pelo morto. De preferência os baha’í devam deixar um testamento.
  • Resguardar o sábado: Os baha’ís são instruídos em resguardarem os sábados de atividades de trabalho, contudo, eles não precisam fazer isso para todos os sábados do ano.
  • Os Nove Dias Sagrados: Durante esses nove dias, os baha’ís não devem trabalhar, e realizam festejos em homenagem a tais datas. O primeiro dia do Ridván (21 de abril), o nono dia do Ridván (30 de abril), o décimo-segundo dia do Ridván (3 de maio), o aniversário da declaração do Bab (23 de maio, o aniversário do nascimento de Bahá’ú’llah (12 de novembro), o aniversário do nascimento do Bab (20 de outubro), o aniversário da ascensão de Bahá’ú’llah (29 de maio), o aniversário do martírio do Bab (9 de julho) e a festa de Naw-Rúz (21 de março).
A doutrina baha’í desenvolvida nesse caso por Bahá’ú’llah e Abdu’l-Bahá também preconizavam princípios para todos os povos, onde tais princípios deveriam levar a uma reflexão entre as nações, sociedades e culturas.
  • Igualdade entre homens e mulheres: “Um dos mais importantes ensinamentos de Bahá’ú’llah é a igualdade entre o homem e a mulher. A humanidade é como um pássaro cujas duas asas representam o homem e a mulher. A não ser que as asas sejam igualmente fortes, o pássaro da humanidade não poderá voar bem. Bahá’ú’llah diz que todos no mundo devem receber educação. Mas se for impossível para ambos, meninos e meninas, frequentarem a escola, é mais importante que as moças recebam educação. A razão disso é que a mãe é a primeira e mais importante mestra da criança. Os filhos de mãe ignorante têm um mau começo de vida”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 72).
  • Combate mundial ao preconceito e a descriminação: Muitas guerras surgiram devido à intolerância religiosa, racial, social, etc. Combatendo essa intolerância e tornando as pessoas mais cientes das diferenças, guerras poderão ser terminadas e evitadas.
  • Educação compulsória e universal: Através da educação se pode formar uma sociedade de pessoas inteligentes, conscientes, críticas e sábias. Educai os homens e mulheres na fé, nas ciências, nas artes, nas leis, etc., para que se tornem cidadãos de bem.
  • Aprender outros idiomas: Bahá’ú’llah e Abdu’l-Bahá chamavam a atenção para a necessidade de se aprender outras línguas, pois embora haja muitos países e idiomas pelo mundo, a humanidade é uma grande família, e para se viver em harmonia é necessário compreender o outro. Daí os dois mostrarem atenção para que nas escolas as crianças logo cedo aprendessem outras línguas, para que assim possam se comunicar com gente de outros países.
  • Fim dos extremos entre pobreza e riqueza: Deus não criou a pobreza e nem a riqueza, foi à humanidade quem criou essas noções. Enquanto o abismo que separa os miseráveis dos muitos ricos, for gigantesco, os problemas sociais como a pobreza, miséria, fome, desemprego, exploração do trabalho, desigualdade social, etc., continuaram a crescer.
  • Conciliação entre ciência e religião: A ciência não deve ser a oposição à religião. Ambas devem conviver em harmonia, pois ambas mostram a verdade das leis de Deus. A ciência explica a criação de Deus, e a religião explica seus ensinamentos.
No que diz respeito aos livros sagrados, como foi dito, eles são muitos, no entanto, podemos mencionar alguns aqui. Lembrando que muitos dos livros escritos pelo Bab foram destruídos durante a sua perseguição e a perseguição dos babis, logo, dispomos de algumas obras, e o título de outras de suas obras. São conhecidos pelo menos 15 livros escritos pelo Bab, no entanto, mencionarei apenas alguns.

Alguns livros escritos pelo Bab:
  • Qayyúmu'l-Asma ("Comentário sobre a Sura de José") (1844): consistiu em seu primeiro livro, e um dos mais longos que escreveu. Nessa obra revelou aos seus discípulos e futuros discípulos sua revelação e missão como Manifestante de Deus. A obra consiste numa forma de instruir os babis sobre o início de uma nova religião.
  • Sahífih-yi-makhzúnih (1844): consiste em sua primeira coletânea de orações. Ele voltaria a escrever outras.
  • Sahífih-yi-Ja`fariyyih (1845): livro no qual o Bab resume sua doutrina.
  • Khásish Nubuvvih: escrito entre 1846 e 1847, enquanto residia em Isfahan, tal livro consistiu na resposta do Bab quanto aos debates que diziam respeito a vinda de um novo profeta, como Maomé havia dito.  
  • Tafsir-i-Súrih-i-Va'l-`asr: Também escrito na mesma época em Isfahan, foi concebido em resposta aos interrogatórios que o Bab vivenciou. Nessa obra ele comenta uma das passagens de um de seus livros, no qual ele se revela como o Prometido mencionado no Alcorão.
  • Bayán Persa (1847-1848): a obra mais famosa do Bab. Reúne seus ensinamentos mais importantes, além de trazer comentários e explicações sobre eles e sua doutrina e profecia. Dividido em 19 unidades, cada uma tendo 19 capítulos. Trata-se de uma das obras mais extensas escritas por ele.
Bahú’ú’llah foi o mais prolífico dos três, tendo escrito dezenas de livros, os quais abordaram assuntos religiosos, morais, filosóficos e sociais. Também consistiu em estudos do Alcorão e da Bíblia, comentários sobre o mundo, a sociedade e a vida em seu tempo; orações, cartas a chefes de Estado, autoridades, amigos, admiradores, curiosos, etc. Alguns livros escritos por Bahú’ú-llah:
  • Livro do Convênio: uma espécie de testamento de seu legado religioso, no qual definiu que seu filho Abdu’l-Bahá seria seu sucessor, e também reforçou a missão de sua família com a Fé Baha’í.
  • Kitab-í-qan (O Livro da Certeza)
  • Kitab-í-Aqdas (“O Livro das Leis”): uma das suas mais importantes obras, nas quais ele abordou os ensinamentos religiosos, morais e sociais da Fé Baha’í.
  • As Palavras Ocultas
  • Os Quatro Vales
  • Os Sete Vales
  •  Epístolas de Bahá’ú’llah
  • O Tabernáculo da Unidade
  • Orações Baha’ís
  • A Revelação Baha’í
Depois de seu pai, Abdu’l-Bahá foi quem escreveu mais. Entre algumas de suas obras estão:
  • Repostas a Algumas Perguntas: livro para responder perguntas de preceitos religiosos e espirituais. Foi escrito com base nas dúvidas dos fiéis e de pessoas de outras religiões.
  • Epístolas do Plano Divino: um de seus últimos livros, no qual apresentou a sua opinião acerca dos planos que Deus possui para a humanidade na Era Baha’í.
  • Tributos aos Fiéis
  • Segredos da Civilização Divina
  • Palestras de Abdu’l-Bahá: consiste numa coletânea das suas palestras dadas em outros países como Inglaterra, França, Estados Unidos e Canadá, entre os anos de 1910 e 1912.
  • A Última Vontade e Testemunho de Abdu’l-Bahá: Uma de suas obras mais importantes instituiu os modelos e regras pelo qual a Igreja Baha’í se formalizou. Diz respeito à administração e organização eclesiástica da Fé Baha’í. 
No que diz respeito à parte administrativa e litúrgica da Fé Baha’í, comentarei um pouco, pois se trata de um assunto amplo, que demandaria um estudo mais específico, porém, apresentarei um panorama geral, mostrando algumas peculiaridades da administração Baha’í, que não se nota em outras religiões que possuam um corpo eclesiástico estruturado.

“A Fé Baha’í não tem ordem eclesiástica (sacerdotes). Seus assuntos são tratados através da administração. A administração é um sistema que organiza o trabalho da Fé em três graus: local, nacional e internacional. É também chamada a “Ordem Administrativa”. (Leis, história, administração da Fé Bahaí, 1978, p. 88-89).

A partir desses três graus, possuímos a Assembleia Espiritual Local, a Casa Universal da Justiça e a Casa Nacional da Justiça. Cada um destas instituições expressa a administração Baha’í nos três níveis propostos por Abdu’l-Bahá. A Casa Universal da Justiça é apenas uma, e fica localizada em Haifa, Israel.

A Casa Universal da Justiça, Haifa, Israel. 
As Assembleias Espirituais são responsáveis por realizar os festejos religiosos, os batismos, casamentos, divórcios e funerais. Também possui comitês, e convoca reuniões para se debater assuntos pertinentes àquela comunidade, inclusive julgar ações, pedidos, crimes contra a fé, denúncias, etc. Também realiza as eleições para se nomear os cargos. Se comparando ao catolicismo, equivaleria a paróquia ou a igreja, lembrando que tais locais não possuem o caráter litúrgico de se realizar a pregação.

As Casas Nacionais de Justiça organizam e administram as convenções, assembleias, comitês, as editoras, etc. Atuariam como os bispados e dioceses no catolicismo. Possuem quase a mesma função das assembleias, mas operando em nível nacional, sem tratar de assuntos menores, os quais são pertinentes as Assembleias Espirituais.

Em âmbito internacional, a Casa Universal da Justiça, seria o Vaticano, mas sem possuir seu poder secular e temporal. A Casa Universal da Justiça coordena a atuação dos serviços e das assembleias e casas por todo o mundo onde houver comunidades baha’ís. Lá também se encontra a sede das Mãos da Causa (instituição missionária que difunde a religião baha’í pelo mundo), os Corpos Continentais de Conselheiros (administra os “corpos auxiliares” que atuam nos países em nível nacional e local, tendo como função o missionaríssimo e a defesa das comunidades baha’ís), o Centro Internacional de Ensino (coordena as escolas baha’ís pelo mundo), etc.

Os funcionários dessas organizações não atuam como clérigos, mas como funcionários a serviço da estrutura burocrática da Fé Baha’í. Pelo fato de não haver sacerdotes, as pessoas se instruem na Fé através das escolas, da família, amigos etc. Em caso das crianças não poderem frequentar escolas baha’í, a educação religiosa continua ainda de responsabilidade da família.

Embora não haja sacerdotes, existem templos, chamados de Casas de Adoração, locais nos quais baha’ís e pessoas de outras religiões podem ir para prestar suas homenagens a Deus, assim como, participar dos eventos religiosos ali realizados. Além da função religiosa, a administração baha’í também procura construir próximo aos templos, locais de prestação de serviços como: asilos, orfanatos, creches, hospitais, escolas, universidades, prédios administrativos, etc.

Casa de Adoração Baha'í em Nova Déli, Índia. 
Foi com o Bab que se instituiu o calendário baha’í, o qual é utilizado pela sua estrutura administrativa. O calendário possui 19 meses de 19 dias, havendo 4 ou 5 dias a mais, chamados “dias intercalares” que vão de 26 de fevereiro a 29 de fevereiro ou 1 de março. O dia se inicia no pôr-do-sol e não no amanhecer, como visto em outros calendários, isso deve ao fato que a revelação do Bab foi dada ao anoitecer. O ano se inicia no dia 21 de março. Cada um dos meses possui seu nome, referente aos atributos de Deus.
  1. Bahá (Esplendor) – 21 de março
  2. Jalál (Glória) – 9 de abril
  3. Jamál (Beleza) – 28 de abril
  4. Azamat (Grandeza) – 17 de maio
  5. Núr (Luz) – 5 de junho
  6. Rahmat (Mercê) – 24 de junho
  7. Kalimát (Palavras) – 13 de julho
  8. Kamál (Perfeição) – 1 agosto
  9. Asmá (Nomes) – 20 de agosto
  10. Izzat (Força) – 8 de setembro
  11. Mashíyyat (Vontade) – 27 de setembro
  12. Ilm (Sabedoria) – 16 de outubro
  13. Qudrat (Poder) – 4 de novembro
  14. Qawl (Discurso) – 23 de novembro
  15. Masá’íl (Perguntas) – 12 de dezembro
  16. Sharaf (Honra) – 31 de dezembro
  17. Sultán (Soberania) – 19 de janeiro
  18. Mulk (Domínio) – 7 de fevereiro
  19. Alá (Sublimidade) – 2 de março
No mês de Alá, se celebra o jejum anual. Todavia a chamada Festa dos 19 dias é celebrada todos os meses, ocorrendo no primeiro dia de cada mês, onde os baha’ís celebram a comunhão entre seus iguais. Pessoas de outras religiões não são proibidas de participar, pois tal festa tem o caráter de aproximar as pessoas, de difundir o carinho, amizade e o amor.

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Referências da Internet:
BÍBLIA Sagrada. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/
ALCORÃO. Disponível em: http://www.falsafa.com.br/alcorao_53.html.
TANACH. Disponível em: http://tanach.kol-hatorah.org/

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