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Leandro Vilar

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A fonte histórica e suas possibilidades na pesquisa da História

“A história se faz com documentos escritos, quando existem. Mas ela pode e deve ser feita com toda a engenhosidade do historiador... Com palavras e sinais. Paisagens e telhas. Formas de campos e ervas daninhas. Eclipses lunares e cordas de atrelagem. Análises de pedras pelos geólogos e de espadas de metal pelos químicos. Numa palavra, com tudo aquilo que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, significa a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem”. (1989, p. 249).
Combates pela história
Lucien Febvre


A proposta deste texto é explanar de forma breve e objetiva, o sentido de “fonte histórica”, além de falar brevemente o que seria “fato histórico”, para assim exercitar a compreensão sobre as possibilidades de usar distintos tipos de fontes na pesquisa histórica. As fontes históricas são as fontes que o historiador ou outro estudioso que pesquise a História, usa para realizar seu trabalho.

““Fonte Histórica” é tudo aquilo que, produzido pelo homem ou trazendo vestígios de sua interferência, pode nos proporcionar um acesso à compreensão do passado humano. Neste sentido, são fontes históricas tanto os já tradicionais documentos textuais (crônicas, memórias, registros cartoriais, processos criminais, cartas legislativas, obras de literatura, correspondências públicas e privadas e tantos mais) como também quaisquer outros que possam nos fornecer um testemunho ou um discurso proveniente do passado humano, da realidade um dia vivida e que se apresenta como relevante para o Presente do historiador”. (http://escritasdahistoria.blogspot.com.br/2011/01/fonte-historica-1-o-que-e-fonte.html)

“Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construção do conhecimento histórico. O termo mais clássico para conceituar a fonte histórica é documento. Palavra, no entanto, que, devido às concepções da escola metódica, ou positivista, está atrelada a uma gama de ideias preconcebidas, significando não apenas o registro escrito, mas principalmente o registro oficial. Vestígio é a palavra atualmente preferida pelos historiadores que defendem que a fonte histórica é mais do que o documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso, como produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da história”. (SILVA; SILVA, 2009, p. 158).

Basicamente hoje a ideia que temos acerca de fonte histórica está dividida em três categorias: fontes escritas, fontes materiais não-escritas e fontes não-materiais (ou imateriais). Para entender melhor essas três categorias, passamos para conhecê-las brevemente, para assim ao adentrar no campo das abordagens históricas, poderemos aprofundar essa noção de fonte histórica a partir de alguns exemplos dados aqui. Não obstante, é importante ressalvar que essas três categorias foram uma escolha minha, pois existem outras formas de se classificar as fontes, por exemplo: fontes visuais, fontes audiovisuais, fontes sonoras, fontes escritas, fontes impressas, fontes digitais, etc., porém preferi estruturar estas três categorias generalizantes para tornar mais fácil a explicação.

a) Fontes escritas: 

As fontes escritas ainda são as mais comuns no estudo da História, e de certa forma as com mais clareza de entendimento, pois as fontes materiais não-escritas e as fontes imateriais cobram do historiador ou do pesquisador, um nível mais apurado de atenção e abstração, elas são mais subjetivas, pois em alguns casos é preciso ter uma capacidade de raciocínio de se enxergar além do visível, ou seja, ver para além do que esta palpável ou impalpável diante de si. Diferente da ideia dos metódicos de que os documentos “contavam a História” ou seriam os “pedaços da História”, não é o documento que se faz por si só ser uma fonte histórica, mas a validade e importância que o historiador concede a ele. É preciso salientar que nem todos os documentos manuscritos, impressos, talhados, desenhados, rabiscados, etc., possuam um valor histórico significativo.

“Começaremos por lembrar que Seignobos, em um manual escrito no início do século XX, um dia registrou uma frase que terminou por se tornar célebre: “Sem documento não há história” (1901). Com isto buscava situar a fonte histórica como o princípio da operação historiográfica. A frase seria contraposta, algumas décadas depois, por uma outra que seria criticamente pronunciada por Lucien Febvre: “Sem problema não há história”. O historiador dos Annales, com isto, queria mostrar que a operação historiográfica principiava na verdade com a formulação de um problema. Seria um problema construído pelo Historiador o que permitiria que ele mesmo constituísse as suas fontes, agora deslocada para o segundo passo da pesquisa”. (BARROS, 2010, p. 1).

b) Fato histórico:

O próprio conceito de fonte histórica também está relacionado com o conceito de fato histórico. O historiador britânico Edward Hallet Carr [1996] apontou que o fato histórico difere-se do fato, pois nem tudo que é fato necessariamente possua uma importância para a pesquisa histórica. É necessário agir de forma crítica para se analisar aquele fato e encontrar uma cadeia de significância que possa ser contextualizado a outros acontecimentos que demonstrem uma importância de serem lembrados em um lugar, em uma época, entre um povo. A partir dessa importância isso determinará a plausibilidade e validade de determinada fonte como uma fonte histórica, e por sua vez como um fato histórico.

“É comum dizer-se que os fatos falam por si. Naturalmente isto não é verdade. Os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vêm à cena e em que ordem ou contexto”. (CARR, 1996, p. 39).

O historiador francês Antoine Prost [2008] também chama a atenção para a condição de que é o “problema” do historiador que cria o documento e não o documento que cria o “problema”. Às vezes você possui o “problema” (note-se aqui que ele faz referência à história-problema de Febvre), mas lhe falta às fontes, em outros momentos, se possuem as fontes, mas lhe falta o “problema”.

“Com efeito, a história não pode proceder a partir dos fatos: não há fatos sem questões, nem hipóteses prévias. Ocorre que o questionamento é implícito; mas, sem ele, o historiador ficaria desorientado por desconhecer o objeto e o lugar de suas buscas. [...]. A história não é uma pesca com rede; o historiador não lança seu barco na tentativa de apanhar alguns peixes, sejam eles quais forem”. (Prost, 2008).

“O passado só se torna história quando expressamente interpretado como tal; abstraindo-se dessa interpretação ele não passa de material bruto, um fragmento de fatos mortos, que só nasce como história mediante o trabalho interpretativo dos que se debruçam, reflexivamente, sobre ele”. (RÜSEN, 2001, p. 77).

c) Fontes materiais não-escritas: 

As fontes materiais não-escritas referem-se a uma vasta gama de objetos, utensílios, ferramentas, armas, roupas, máquinas, veículos, instrumentos, construções, pinturas, esculturas, espaços artificiais e naturais, fenômenos naturais, o corpo humano, animais, plantas, alimentos, etc. Essas já vinham sendo pesquisadas desde pelo menos o período Renascentista como apontaram Peter Burke [2003; 2008] e Roger Chartier [2009], principalmente em referência ao trabalho dos antiquários em se estudar suas coleções de objetos em seus gabinetes de curiosidade, a fim de descobrir a história por trás deles.

“K. Pomiam [1984] usa uma imagem sugestiva para mostrar a ambiguidade do estatuto epistemológico da história no período moderno. Ele afirma que, a partir do século XVI, foi possível distinguir dois caminhos diferentes na disciplina: o primeiro levou à narração, criando a história-arte, e o segundo levou à pesquisa, e à história-ciência. Raros foram os historiadores que buscaram um outro caminho entre esses dois extremos. A ruptura fundamental entre os adeptos de um ou outro caminho foi causada pela divergência na percepção do tempo. Para os primeiros, a história do passado subordinava-se ao presente: os fatos eram narrados em ordem cronológica. Para os segundos, o passado era descrito como tal, por meio de uma análise das fontes que permitisse uma reconstituição intelectual”. (CADIOU; COULOMB; LEMONDE; SANTAMARIA; 2007, p. 47).

A partir da tendência dos antiquários e de alguns curiosos, pois a profissão de historiador não possuía regulamentação e não possuía cursos universitários para formação do historiador; os historiadores eram empíricos, ou seja, era na prática da pesquisa e da escrita que eles se tornavam historiadores. Contudo, foi a partir dessa preocupação em não apenas guardar-se os objetos nos gabinetes de curiosidade, mas de procurar entender a história por trás deles que começaram a surgir às chamadas “ciências auxiliares”

  • diplomática (estudo dos documentos); 
  • numismática (estudo das moedas); 
  • heráldica (estudo dos brasões e escudos); 
  • genealogia (estudo das linhagens familiares); 
  • codicologia (estudo físico dos livros); 
  • arqueologia (estudo dos vestígios humanos); 
  • história da arte; 
  • história da arquitetura, etc.
Contudo, as chamadas “ciências auxiliares” não ficaram apenas restritas ao estudo das fontes materiais não-escritas, mas também passaram a estudar as fontes escritas. 

  • Paleografia (estudo da escrita); 
  • epigrafia (estudo das inscrições); 
  • filologia (estudo do desenvolvimento da língua escrita e falada); 
  • sigilografia (estudo dos selos); 
  • estatística (estudo de dados estatísticos).
Hoje algumas dessas chamadas “ciências auxiliares” consistem em ciências próprias, não vistas como subordinadas ao estudo da História, mas consistindo também no estudo de seus próprios campos.

Embora essas “ciências auxiliares” tenham levado alguns estudiosos a desenvolverem novas formas de pesquisar a História e a se repensar a ideia de fonte histórica, até meados do século XX, a ideia tradicional de “documento histórico”, no sentido de documento como o texto escrito, ainda era predominante na historiografia, embora que no século XIX, como Burke [2008] apontara em seu livro sobre a história cultural, houve historiadores usando fontes materiais não-escritas para realizar seus trabalhos ainda naquele período.

d) Fontes imateriais: 

Contudo, foi através do desenvolvimento da noção de cultura que a terceira categoria, as fontes históricas não-materiais ou fontes históricas imateriais começaram a ganhar maior significado e importância. Burke [2008] destaca que foi com a antropologia histórica que essa visão adentrou de vez na historiografia, pois até então, a chamada “história das mentalidades” dos franceses, ainda oscilava numa incerteza de definir o que seria fonte para se estudar as mentalidades.

É importante mencionar que a “história das mentalidades” surgiu propriamente na Escola dos Annales, embora alguns creditem sua origem na segunda geração (1946-1968) com os trabalhos de Georges Duby, Robert Mandrou e Michel Vovelle, ainda na primeira geração, Marc Bloch (um dos fundadores da revista dos Annales d’historie économique et sociale (1929) ao lado de Lucien Febvre) já mostrava o estudo de uma fonte histórica inusitada para seu tempo. 

Bloch em seu livro Os reis taumaturgos (1924), procurou estudar um costume vigente na Inglaterra e na França da Idade Média à Idade Moderna, onde havia todo um simbolismo e construção imagética por trás da divinização do monarca, onde ele supostamente deteria poderes de cura. O título da obra de Bloch aborda essa questão, os reis que com seu toque poderiam curar as mazelas de seu povo aflito.  Embora Bloch tenha usado fontes documentais para escrever seu livro, uma das fontes que ele usou foi essa tradição simbólica desse imaginário social acerca dos poderes curativos do rei. Isso consiste numa fonte não-material. Logo, o que seriam fontes não-materiais ou imateriais?

Basicamente define-se fonte não-material aquilo que não é tangível, aquilo que não está registrado num suporte físico (papel, pergaminho, madeira, pedra, argila, meio digital, etc.), mas que se transmite através da cultura de forma oral, corporal e simbólica. Festas, ritos, cultos, celebrações, música (aqui no sentido de melodia), dança, teatro, ofícios, história oral, costumes, hábitos, lendas, saberes, folclore, mitologia, etc., tudo que esteja relacionado a vida cotidiana de uma comunidade, de uma sociedade, que represente aspectos sociais e culturais de um povo.  

Logo, as chamadas “história das ideias”, “história das mentalidades”, “cultura imaterial”, “imaginário social”, termos surgidos ao longo do século XX, que hoje estão inseridos nos estudos de história cultural e história social, representam as tentativas e meios dos historiadores em se estudar a sociedade não do ponto de vista do documento escrito ou da cultura material, mas sim dos seus costumes, representações, práticas, ideias, etc.

A importância dada as fontes imateriais tornou-se mais significante com o movimento da “nova história” (nouvelle historie) surgido na França, na Escola dos Annales nos anos 70, influenciada também pela micro-história dos italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi e os trabalhos do filósofo e historiador Michel Foucualt, e posteriormente nos anos 80, com a “nova história cultural” (movimento sucessor da nouvelle historie, diferenciando-se pelo fato de ter dado foco a história cultural, pois o movimento anterior focava a história social). Houve uma nova repaginada na ideia do que seria fonte material e não-material. Um dos motivos para isso foi a forte influência da antropologia histórica surgida nos anos 60, tendo entre algumas referências, os trabalhos dos antropólogos Claude Lévi-Strauss, Clifford Geertz, Marcel Mauss, Edward Evans-Pritchard e Mary Douglas.

“Muitos historiadores aprenderam a usar o termo ‘cultura’ no sentido amplo. [...]. Alguns deles, especialmente na França, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, frequentaram seminários de antropologia, tomaram de empréstimo alguns conceitos e construíram uma abordagem que veio a ser conhecida como ‘antropologia histórica’, muito embora ‘história antropológica’ talvez fosse mais apropriada. Uma das mudanças mais significativas que se seguiu a esse longo momento de encontro entre história e antropologia – encontro que ainda não chegou ao fim, embora provavelmente esteja menos estreito – foi o uso do termo ‘cultura’ no plural e em um sentido cada vez mais amplo”. (BURKE, 2008, p. 44).

No caso do conceito de cultura, Burke, Chartier e outros historiadores gostam de usar o sentido proposto por Clifford Geertz em seu livro A Interpretação das Culturas (1988) onde ele disse que a cultura seria:

“Um padrão, historicamente transmitido de significados incorporados em símbolos, um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atitudes acerca da vida”.

Com esse conceito amplo de cultura como falou Burke, a ideia de fonte imaterial cresceu vertiginosamente a ponto de como Burke disse: “estamos caminhando para uma história de quase tudo”, e para se estudar “quase tudo”, é necessário ter fontes para isso. Não irei entrar nesse debate, mas algo que ele chamou a atenção é que hoje não temos uma clareza de fronteiras nas possibilidades do estudo da história cultural. 

O grande problema é definir até onde vai à história cultural, e somando-se a isso, quais seriam os limites para a delimitação das fontes históricas? Haveria limites, ou toda a produção material e imaterial humana está passível de algum dia vir a se tornar uma fonte para algum trabalho histórico? Isso são perguntas para outros debates.

Classificação das fontes: 

Também é necessário rapidamente abordar a classificação de fonte primária, secundária e terciária para a história, que na realidade não é algo tão complexo como se supõe.

Fonte primária ou fonte original: consiste na fonte produzida no contexto temporal na qual ela se insere. Neste caso a fonte primária é contemporânea do seu autor, seja um manuscrito, uma pintura, um livro, uma estátua, uma espada, um baú, um barco, uma casa, etc.

Fonte secundária consiste na análise, descrição, estudo, interpretação, apropriação da fonte primária, geralmente usamos essas características para se tratar mais das fontes escritas. As fontes secundárias escritas além de se referirem a outras fontes primárias escritas, também podem se referir a fontes secundárias. 

No caso das fontes materiais não-escritas, as chamadas cópias, transcrições, réplicas, modelos, reconstruções, etc., podem ser consideradas fontes secundárias. Por exemplo, forjar uma espada de bronze no modelo do gládio romano, não é uma fonte primária, embora a arma seja idêntica, mas ela não foi feita na época que normalmente foi usada. Cópias do quadro da Mona Lisa, não são fontes primárias, pois a Mona Lisa é única. Contudo o que define uma fonte primária não é propriamente a unicidade de sua existência, mas a sua produção em seu tempo.

Carr [1996] menciona que muito das informações e dos saberes da cultura clássica (greco-romana) na realidade são cópias dos livros daqueles filósofos e estudiosos, pois os originais e suas cópias de época se perderam.

Por fim, a fonte terciária é usada num contexto mais bibliográfico. Considera-se fonte terciária a obra que tende a abranger uma gama de conteúdos específicos ou variados, mas que atue de forma organizadora. Um almanaque, um manual, uma enciclopédia, um livro de notas, um livro de bibliografias, um dicionário especializado, são considerados obras terciarias. 

A fonte terciária pode fazer referências a fontes primárias, secundárias e até outras fontes terciárias. Na biblioteconomia, a fonte terciária atua como uma espécie de catálogo de orientação, onde apresenta numa forma geral o conteúdo ou conteúdos, ou atua como uma orientação para obras que tratem mais especificamente de tais assuntos.

Abordagens históricas: 

Sendo assim, para caminharmos ao encerramento desse texto, apresentarei algumas fontes que podem ser utilizadas para a pesquisa histórica, dividindo essa explanação em quatro categorias: história política, história econômica, história social e história cultural.

a) História política: 

Ao longo do século XIX e até meados do XX, a história política tradicional ainda estava em alta. Os historiadores daquele tempo visavam muito a “documentação oficial”, nesse caso como Silva & Silva [2009] assinalaram: a ideia de documento passou a se referir no século XIX a fonte escrita, mas não qualquer fonte escrita, mas as fontes produzidas por órgãos, entidades, funcionários e autoridades do governo, isso gerava uma credibilidade a fonte. Relatórios, atas, notas, cartas oficiais, memorandos, declarações, diário oficial, documentos jurídicos, militares e administrativos, etc., tudo que tivesse sido produzido pelo governo ou para o governo, era visto como fonte para esse tipo de história.

“O termo latino documentum, derivado de docere 'ensinar', evoluiu para o significado de 'prova' e é amplamente usado no vocabulário legislativo. É no século XVII que se difunde, na linguagem jurídica francesa, a expressão titres et documents e o sentido moderno de testemunho histórico data apenas do início do século XIX. O significado de "papel justificativo", especialmente no domínio policial, na língua italiana, por exemplo, demonstra a origem e a evolução do termo. O documento que, para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha, de uma decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. A sua objetividade parece opor-se à intencionalidade do monumento. Além do mais, afirma-se essencialmente como um testemunho escrito. (LE GOFF, 1992, p. 536).

O problema é que isso acarretava na rejeição e desvalorização de outras possíveis fontes, como reportagens e matérias de jornais, revistas, folhetins, panfletos, cartazes, etc. A ideia de propaganda política, de opinião pública, praticamente não eram levados em consideração, pois o que importava era a opinião oficial do governo, daí a tendência de se falar de uma história elitista, algo que só começaria a mudar propriamente a partir dos anos 60 na França e Inglaterra, com o crescimento dos estudos sobre a cultura popular, que acabaram por influenciar outras áreas da historiografia. Ao mesmo tempo em que nessa escrita da história também se enfatizava muito o papel dos soberanos, governantes e militares.

Contudo, hoje a história política ou “nova história política” como Falcon [1996] aponta, a qual começou a surgir nos anos 60, influenciada pelo Marxismo, especialmente na Inglaterra e Alemanha, passou a dar maior atenção a outros tipos de fontes: as fontes jornalísticas, fontes qualitativas (pesquisas eleitorais, pesquisas de opinião), a propaganda política, os “espaços do poder” (ágora, senado, tribuna, sala do trono, comício, carreata, etc.), os discursos políticos, as políticas de Estado (políticas para a educação, saúde, desenvolvimento, trabalho, segurança, nacionalismo, guerra, liberdade, democracia, etc.), ideia sobre poder e governo, formas de governo, guerras, revoluções, manifestações antipolíticas, ideologias, etc.

“Inicialmente pelo menos, o marxismo produziu dois efeitos antagônicos: recolocou no primeiro plano da escrita da historia o poder, o político e a política; mas aprofundou a atitude, entre os historiadores marxistas, de franca rejeição da historia politica tradicional com seus chamados fatos, seus conhecidos atores, enfim, sua alienação”. (FALCON, 1996, p. 113-114).

É importante também elucidar que essa nova fase da história política, passou a recolher fontes do campo da história econômica, social, cultural, da filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, etc. Um bom exemplo para mostrar essa mudança ainda ocorrida nos anos 70, são as obras de Michel Foucault que abordaram de maneira nova, o debate político, enfatizando aspectos culturais, sociais, filosóficos e ideológicos, de forma a se ver o poder não como algo concentrado numa única estância, mas dividido em vários locais (micro-poderes), como também entender a atuação das políticas sobre a vida e a organização e estruturação das sociedades modernas e contemporâneas. 

Vigiar e Punir: o nascimento da prisão (1975) mostra a ideia de disciplina, controle, vigilância, punição e espaço; onde o Estado atua no controle da sociedade. A obra Microfísica do Poder (1979) que consiste num conjunto de trabalhos apresentados, abordam o poder e a política em vários aspectos, desde as políticas de saúde no século XVIII, ao debate sobre a “governamentalidade”, ao poder da soberania, ao controle do corpo, a repressão sexual, o poder ideológico, etc.

“Novas possibilidades teóricas se ofereceram aos historiadores do poder e da política a partir dos trabalhos de Geertz (1973), Sahlins (1985), L. Dumont (1966 e 1977), Balandier (1980), Clastres (1974) etc. Poder e política passam assim ao domínio das representações sociais e de suas conexões com as práticas sociais; coloca-se como prioritária a problemática do simbólico — simbolismo, formas simbólicas, mas sobretudo o poder simbólico, como em Bourdieu. O estudo do politico vai compreender a partir dai não mais apenas a política em seu sentido tradicional mas, em nível das representações sociais ou coletivas, os imaginários sociais, a memória ou memorias coletivas, as mentalidades, bem como as diversas praticas discursivas associadas ao poder”. (FALCON, 1996, p. 119).

Aqui se pode ver que houve um desenvolvimento historiográfico no campo dos estudos da história política, e hoje podemos procurar realizar diversas abordagens tomando todos os três tipos de fontes apresentados. Para estudar a história política podemos usar: relatórios administrativos do Estado, relatórios governamentais, relatórios militares, documentação particular dos políticos, reportagens, entrevistas, pesquisas eleitorais e de opinião pública, propaganda eleitoral, propaganda antipolítica, índices econômicos, índices demográficos, espaços do poder, ideia de poder, simbolismo por trás da ideia de governar; idolatria aos líderes, formas de governo, teoria política, ideia de justiça, ordem, disciplina; religião e governo; estrutura burocrática, movimentos sociais, revoltas, guerras, revoluções, políticas sociais, políticas externas, geopolítica, etc.

b) História econômica: 

A partir do estudo da história econômica, desenvolveu-se o estudo da história demográfica, desenvolveu-se os estudos dos métodos quantitativos e seriados, aplicáveis inicialmente a história econômica, mas passaram a ser usados nos estudos demográficos, políticos, sociais, etc. Embora hoje tais metodologias estejam em baixa, em meados do século XX, foram bastante empregadas principalmente na França, um dos polos historiográficos do mundo. A importância destes métodos e da história econômica foi a introdução do uso de números na pesquisa histórica, pois diferente do que normalmente alguns pensam, que o historiador só utiliza números para se referir as datas, nós usamos diferentes valores para esboçar diferentes situações e índices.

A valorização dada à história econômica e social pelos Annales na Primeira geração (1929-1946), foi importante para pouco a pouco romper com a dominação da história política e militar tradicionais na França.

“Com os Annales a história se renovou reformulando suas regras, impondo o tríptico “economia-sociedade-civilização” em detrimento do binômio metódico “história factual-história política”. Esse tríptico manterá juntos sociólogos, geógrafos, psicólogos e historiadores dos Annales, em prol da rejeição comum do historicismo. Assim os Annales propõem o alargamento da história, orientando o interesse dos historiadores para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a população e a demografia, as trocas, os costumes. Ampliam-se as fontes e os métodos, os quais devem incluir a estatística, a demografia, a linguística, a psicologia, a numismática e a arqueologia”. (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p. 124 apud DOSSE, 2003ª, p. 83).

Logo, nesse primeiro momento entre fins do século XIX e até a década de 50 do século XX, a história econômica baseava-se principalmente na fonte documental, especialmente as produzidas pelo Estado e instituições financeiras (casas da moeda, bancos, câmaras de comércio, bolsas de valores, etc.). A partir desses documentos que na maioria eram relatórios, gráficos, tabelas, livros de conta, livros de nota, etc., os historiadores começaram a estudar a transição do feudalismo para o mercantilismo, a escravidão negra na modernidade, a expansão bancária, a Revolução Industrial, a ascensão do sistema capitalista, crises econômicas, etc.

Estudavam o impacto de crises sobre a sociedade, estudavam as estruturas econômicas, tais características são visíveis nas obras do historiador belga, Henri Pirenne (1862-1935) em seus livros, Cidades Medievais: suas origens e do renascimento do comércio (1927) e História econômica e social da Europa Medieval (1936). Na França tivemos os importantes trabalhos do sociólogo e economista François Simiand (1873-1935) o qual foi inspiração para os Annales. Entre alguns de seus livros, destaco seu trabalho sobre a crise de 1929 e suas consequências, Les Fluctuations économiques à longue Période de la crise mondiale (1933).

Nos anos 50 e 60 vimos uma mudança nos estudos econômicos na França, com historiador dos Annales, Ernest Labrousse (1895-1988), o qual foi o responsável por inaugurar a história quantitativa, a qual deu uma sobrevida aos estudos econômicos, demográficos, rurais e sociais. Embora a demografia e a história rural não fossem novidades, pois em 1931, Bloch publicou um importante trabalho sobre a história rural francesa, intitulado Les caractères originaux de l'histoire rurale française, mesmo assim, tais campos de estudo eram pouco explorados.

“Labrousse faz parte de toda uma geração de profissionais em cuja produção se encontram os princípios fundadores daquilo que se conhece por historia serial, que atentava não apenas a preços, produção e consumo, mas também a demografia, estratificações sociais etc. O rompimento com o factual trazia explicita a incessante intenção de dar voz aos grandes contingentes anônimos a partir de uma perspectiva que, embora privilegiando determinados “níveis”, sempre tinha a totalidade como paradigma”. (FRAGOSO; FLORIANO, 1996, p. 60).

A história quantitativa de Labrousse e seu método seriado foi aplicado para unir aos estudos econômicos, fontes antes renegadas pelos historiadores ou consideradas de pouca importância, porém com o advento do interesse pelos estudos demográficos e sociais, passou-se a usar como fontes escritas: certidões de nascimento, óbito, casamento, divórcio, taxas de migração, índices de desemprego e de emprego, índices de criminalidade, mortalidade e natalidade, posteriormente com a melhoria nos censos demográficos novos índices foram incluídos nos estudos demográficos, assim como também se tornaram base para estudos econômicos, sociais, etc.

Nos anos 50 aos 70 podemos destacar Beauvais et le Beauvaisis de 1600 à 1730 (1958) de Pierre Goubert, um estudo social, econômico e demográfico de Beauvais na França; o livro Oro y Moneda en la historia: 1450-1920 (1969) de Pierre Vilar, uma obra de longa duração das mudanças econômicas pelo mundo; Les paysans de Languedoc (1966) de Emmanuel Le Roy Ladurie, o qual além de abordar economia e política, abordou psicologia e história cultural. E, por fim, o volumoso trabalho de Fernand Braudel, Civilização material, Economia e Capitalismo: do século XV-XVIII (1979), onde Braudel se debruçou muito no uso de fontes materiais não-escritas para estudar a economia: mercadorias, os espaços do comércio, os meios de transporte, a repercussão do consumismo na produção material, modismos, etc.

Originalmente a história econômica se preocupava com as crises econômicas, os modelos econômicos e os modos de produção, dando maior importância a fontes escritas. Hoje já usamos fontes materiais não-escritas e até fontes imateriais, onde podemos estudar a cultura material pelo consumismo e a produção; índices de desemprego e emprego; desenvolvimento tecnológico; modo de vida; tributação, inflação, mercados, bancos, bolsas de valores; políticas econômicas, taxas de câmbio, taxas de preço, divisão do trabalho, divisão da renda, história do trabalho, história do dinheiro, produção rural, produção industrial, produção urbana, etc.

c) História social: 

O campo da história social é complexo e bastante abrangente, contudo me limitarei aqui a tentar realizar uma síntese de algumas obras importantes para elucidar a questão das fontes históricas e as possibilidades de estudo. A preocupação com o estudo da sociedade já existia antes do século XX; Michelet como visto neste texto, ainda no século XIX, apresentou atenção para se estudar o povo. 

Se retornarmos a Heródoto no século V a.C, o mesmo mostrou preocupação em se entender a sociedade dos chamados “povos bárbaros”, como os gregos chamavam os outros povos. Em seu trabalho dividido em nove volumes, Heródoto dedica os quatro primeiro volumes a contar a história e costumes de outros povos como os egípcios, persas e citas.  

No século I d.C temos o historiador romano Tácito, com sua famosa obra Germania, na qual ele realizou uma descrição dos povos germânicos. Contudo, para historiadores como Burke, Chartier, Reis, Castro entre outros, o conceito de história social que temos hoje, surgiu propriamente com a Escola dos Annales.

Bloch [1997] chegou a dizer uma famosa frase: “a História é o estudo do homem no Tempo”. A partir dessa frase demasiada óbvia para hoje em dia, podemos pensar que a História só existe por causa do homem, ou melhor, por causa de sociedades que compartilham valores internos e externos, daí Bloch complementar sua frase apontando essa necessidade de que o estudo histórico não analisa o indivíduo a parte de uma sociedade, mas sua relação com a sociedade que está inserido ou que está se comunicando. 

Daí pensar-se que a sociedade seria o grande foco do estudo da história, pois a economia, a política, as leis, os saberes, a cultura, etc., seriam necessidades desenvolvidas pelas pessoas para poderem conviver e sobreviver. A historiadora brasileira Ângela de Castro [1997] apontou que o conceito de história social estava dividido em três fases ao longo do século XX, e em cada fase a história social era interpretada de forma diferente.

A primeira fase ocorreu de 1930 a 1940, época do surgimento dos Annales. Nesse período a história social ainda estava relacionada ao modelo rankiano de se escrever “uma história do Estado-nação”, e entender a sociedade de “cima para baixo”. Embora que os historiadores pretendessem legitimar a história como uma ciência social, aproximando-se da sociologia e da geografia. Ao mesmo tempo, a ideia de cultura estava próxima do estudo do social. O livro O processo civilizador (1939) do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1900), onde embora se trate de uma obra de sociologia, Elias trabalhou com psicologia, cultura material, cultura imaterial e história cultural. 

A questão é que ele procurou explicar a ideia de civilização e de civilizado, analisando os costumes “considerados civilizados”. Um dos costumes estudados foi o comportamento durante as refeições e o uso de talheres. No Brasil podemos citar como exemplo, o livro do sociólogo Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala (1933), no qual para se estudar a sociedade colonial brasileira, Freyre realizou uma análise dos costumes, hábitos e do modo de vida, especialmente no meio rural. Chegou até mesmo a destacar o papel do espaço (casa grande, engenho, senzala, capela) nessas práticas cotidianas. Notamos aqui o uso de fontes materiais não-escritas e até mesmo imateriais.

A segunda fase ocorreu de 1950 a 1960, quando a influência do marxismo volta a crescer em alguns países como o caso da Inglaterra, onde no período pós-guerra um grupo de historiadores militantes como Eric Hobsbawm, Edward Thompson, Christopher Hill, entre outros, começaram a pensar numa “história social do trabalho”, agora dando maior interesse a divisão do trabalho, a divisão social, movimentos sociais, marginalização, “a história vista de baixo”. 

Nessa época Hobsbawm publicou seu livro Primitive Rebels: Studies in Archaic Forms of Social Movement in the 19th and 20th centuries (1959), no caso de Thompson sua coleção sobre A formação da classe operária inglesa (1963), foi um marco na época. Thompson nesse livro estudou as origens da classe operária durante a Revolução Industrial e o seu desenvolvimento, focando questões sociais, econômicas, políticas e culturais.

No caso da França entre os anos 50 e 60 se consolidava a teoria de longa duração de Fernand Braudel, influenciada pela antropologia, surgida com seu livro de história social com um viés econômico e geográfico, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Filipe II (1949). No caso dos franceses, o foco ainda continuou a se estudar a sociedade associada aos estudos econômicos e demográficos da história de longa duração ou quantitativa, ao mesmo tempo em que ressurgia o gênero ou subgênero da “história das civilizações”, defendido por Braudel, como forma de se aplicar sua longa duração, a fim de se estudar o desenvolvimento das sociedades, e da “história das mentalidades” defendido por Georges Duby e Robert Mandrou.

Castro [1997] também assinala que foi a partir dos anos 60 com a história quantitativa aplicada a economia e a demografia, que alguns historiadores como Louis Henry começou a estudar a estrutura familiar e as relações de parentela, de convivência social, o que levou a se originar uma história da família e até mesmo da vida privada.

“As motivações culturais ou econômicas para o casamento tardio, o acesso a métodos anticoncepcionais nas sociedades pré-industriais, as discussões sobre a importância de se considerar o ciclo da vida familiar e as relações de parentesco no entendimento dos significados das unidades domesticas, as relações entre família e sexualidade e os diferentes enfoques teóricos e metodológicos que se desenvolveram a partir destas questões, são indubitavelmente tributários da analise critica daqueles resultados”. (CASTRO, 1997, p. 83).

Além disso, com o desenvolvimento do movimento da “nova história” e a influência da antropologia histórica, já mencionada anteriormente neste texto, nos anos 70 e 80 surgiram novos temas sociais que se mesclariam com os estudos culturais. A abordagem da micro-história e as teorias de Foucault, ambas também já assinaladas, levariam a se enxergar a história sob novas perspectivas, e um dos marcos para o estudo neste tempo, foram os movimentos sociais pela reivindicação de cidadania, direitos civis, mas principalmente pela questão de identidade.

Tivemos um aumento nos trabalhos sobre o feminismo, a sexualidade, a questão do gênero, a questão étnica, a questão religiosa, história da mulher, história das crianças, etc. Nestes exemplos mencionados, o papel de fontes imateriais e da cultura material cresceu consideravelmente nestes campos de estudo, pois esbarra em preceitos culturais, em costumes, em hábitos, em performances, em práticas, em ritos, etc.

d) História cultural: 

Assim como a história social possui um amplo debate, a história cultural também se compara neste ponto. Sobre os estudos culturais, Burke [2008] nos mostrou que a história cultural surgiu no século XIX e até meados do século XX, ela esteve bastante ligada ao estudo de fontes escritas e fontes materiais não-escritas sendo que neste caso, principalmente obras de arte. Burke chamou a atenção para que nesse período o foco era se estudar a pintura, literatura, escultura, música erudita e a arquitetura, privilegiando a produção artística a partir do Renascimento até o presente daquela época.

Foi a partir dos anos 60, na Inglaterra, que passou-se a resgatar o interesse em se estudar a "cultura popular". Agora a preocupação foi sair desse campo artístico, para estudar a cultura da vida material e as chamadas “mentalidades”, que passaram a ser percebidas como um estudo cultural e não apenas social.

"A ideia de 'cultura popular' ou Volkskultur se originou no mesmo lugar e momento que a de 'história cultural': na Alemanha do final do século XVIII. Canções e contos populares, danças, rituais, artes e ofícios foram descobertos pelos intelectuais de classe média nessa época. No entanto, a história da cultura popular foi deixada aos amantes de antiguidades, folcloristas e antropólogos. Só na década de 1960 um grupo de historiadores, sobretudo, mas não exclusivamente anglófonos, passou a estudá-la". (BURKE, 2008, p. 29).

A história da cultura popular meio que surge paralelamente com a história social “vista de baixo”, como salientou Roger Chartier [2009]. Tal abordagem histórica vai começar a se desenvolver na Inglaterra, para depois adentrar a França, Alemanha, Itália e outros países. Um dos primeiros livros dessa fase, foi escrito por Eric Hobsbawm, que na época usou o pseudônimo “Francis Newton” para assinar a obra A História social do jazz (1959), onde ele analisou o movimento social e cultural surgido com o estilo musical do jazz. Ao longo dos anos 60 e 70 tal ideia cresceria, logo veremos livros sobre o cotidiano, as festas populares, a vida privada, movimentos culturais, movimentos de contracultura, etc.

Além disso, é necessário chamar atenção também do papel da “nova história” em difundir na França os estudos da “história das mentalidades” e do “imaginário social”, assim como, o método arqueológico de Michel Foucault, a abordagem da micro-história, tudo isso de acordo com Burke [2008] culminou no surgimento da “nova história cultural” nos anos 80. E atualmente vivenciamos essa “nova história cultural”, a qual a partir do conceito de cultura advindo da antropologia histórica e as mudanças metodológicas e teóricas dos anos 50 aos anos 80, surgiu a Terceira e Quarta gerações da Escola dos Annales. 

Com a micro-história, Ginzburg e Ladurie utilizaram documentos inquisitoriais para escrever respectivamente O queijo e os vermes (1976) e Montaillou: vilarejo occitânico (1975), obras que usam como fontes, as três categorias aqui mencionadas, onde debatem a questão da heresia. Foucualt realizou estudos sobre as doenças em o Nascimento da clínica (1963), estudou a loucura em a História da loucura na idade clássica (1961), a sexualidade em sua coleção de três volumes sobre a História da sexualidade (1976/1984), etc. Temos o caso dos estudos pós-culturais na importante obra O orientalismo – a invenção do Oriente pelo Ocidente (1978), do palestino Edward Said.

Michelle Perrot com Georges Duby organizaram uma coleção sobre a história da mulher, intitulada A história da mulher no Ocidente (1982-1990). No Brasil temos os trabalhos de Mary del Priore que trabalha com a história do amor, das mulheres, das crianças, da cultura popular, etc. O historiador britânico Simon Schama foi um dos que estudou a paisagem como fonte histórica, em Paisagem e Memória (1996), e até mesmo os sentidos, algo visto em seu livro Rembrandt’ Eyes (1999). Paul Ricoeur publicou um importante livro sobre o estudo da memória e história, intitulado A memória, a história e o esquecimento (2000).

Mas quais seriam as fontes para a história cultural? Essa é uma resposta difícil, pois é esse campo de estudo é bastante abrangente, mas citarei alguns exemplos de fontes: artes, ciências, tecnologia, costumes, hábitos, opinião pública, festejos; vestimentas, armas, ferramentas; paisagens naturais, rurais e urbanas; conceitos, ideias, modelos sociais, científicos, religiosos, econômicos, políticos, etc; guerra, paz, forças armadas; religião, memória, esquecimento, oralidade, escrita; sexualidade, feminilidade, machismo; meios de transporte, meios de comunicação; imaginário social, folclore, mitologia, lendas, superstição, crendices, etc. As possibilidades de se estudar a cultura é algo ainda não determinado, dependendo da capacidade do historiador de problematizar as fontes. 

Através destes exemplos, acredito que pude apresentar ao leitor o uso de fontes para a pesquisa histórica, e como a categoria apresentada se comporta nestas abordagens, revelando algumas das possibilidades para o estudo da História, rompendo com a ideia tradicional de apenas usar fontes documentais.

Referências Bibliográficas:
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BARROS, José Costa D' Assunção. Fonte histórica (1): o que é fonte histórica? Disponível em: http://escritasdahistoria.blogspot.com.br/2011/01/fonte-historica-1-o-que-e-fonte.html. Acessado em 29 de outubro de 2013.
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002. 
BURKE, Peter (org). A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo, Editora UNESP, 1992. 
BURKE, Peter. O que é história cultural? Tradução de Sérgio Goes de Paula, 2a ed, Rio de Janeiro, Zahar, 2008.
BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989: A Revolução Francesa da historiografia. Tradução de Nilo Odália, São Paulo, Editora Universidade Estadual Paulista, 1992.
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CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa. Petrópolis, Vozes, 2007.
CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e de metodologia. 5a ed, Rio de Janeiro, Campus, 1997.
CARR, Edward Hallet. Que é história? 4ª ed, São Paulo, Paz e Terra, 1996.
CASTRO, Hebe. História Social. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e de metodologia. 5a ed, Rio de Janeiro, Campus, 1997. 
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1982.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 3ª ed, Petrópolis, Editora Vozes, 1998.  
CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Tradução de Cristina Antunes, Belo Horizonte, Autêntica, 2009. 
COLISTETE, Renato Perim. O que é história econômica? São Paulo, FEA/USP, 2008.
CURY, Cláudia Engler; FLORES, Elio Chaves; CORDEIRO JR, Raimundo Barroso (org.). Cultura histórica e historiografia: legados e contribuições do século 20. João Pessoa, editora universitária/UFPB, 2010.
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VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. 3ª ed, Brasília, 1995.

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10 comentários:

Ivani Medina disse...

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...]Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Se a fé nunca dependeu da história, porque fazem tanta questão desta última? Por que insistem em preservar essa bruma que envolve os primeiros séculos do cristianismo? Não devia ser assim. No entanto, quando fazemos uma aproximação dos fatos com fatos e não com ideias, é possível outra conclusão.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

Leandro Vilar disse...

Sua pergunta é intrigante e complexa, mas posso sugerir um início para a indagação de que a "fé nunca dependeu da história".

De fato por muito tempo, mito e religião andaram de mãos juntas, embora não sejam a mesma coisa. O mito não possui rito, mesmo que ele aborde a história de divindades ou da criação do universo, do mundo, do ser humano, etc., mas o tempo do mito, não é o tempo histórico, as pessoas não se importavam quando o mito teria acontecido, apenas diziam "foi há muito tempo".

Na própria Idade Média e Idade Moderna, períodos que o estudo histórico ainda não havia se formalizado, histórias sobre anjos, demônios, e de santos e santas soavam de forma lendária. De fato há santos e santas que não se sabe quando eles realmente viveram e se realmente fizeram aquilo que foi dito nas hagiografias.

Todavia, o cenário mudou no século XIX e XX, quando alguns historiadores começaram a buscar uma "precisão" no estudo histórico, uma formalização, uma metodologia, uma "cientificação" do saber histórico, e ainda hoje, há historiadores que defendam a história como sendo uma ciência.

Logo, como uma das características do saber científico é poder comprovar os fatos, a história como trabalha com datas, encontrou na cronologia esse caminho.

Hoje em dia, qualquer livro que procure estudar a Bíblia, procura fornecer datas, nomes, lugares, etc.; provas que confirmem tais histórias, pois o homem atual em grande parte do mundo, vive sob a cultura da comprovação "científica". Normalmente os sacerdotes dizem que é preciso ter fé para ver, e não ver para ter fé; na prática não é bem assim.

Se você escrever um livro de história sobre qualquer assunto, mas não fornecer bibliografia, dados, fontes, fatos, provas, etc., sua obra será considerada imprópria, inadequada, não-acadêmica, duvidosa e até mesmo poderá ser apontada como falsa.

Assim, o estudo religioso, principalmente o que envolve o cristianismo, é hoje pautado nessa questão de tentar "comprovar" por evidências históricas, arqueológicas, científicas que tais histórias e personagens foram efetivamente reais, embora sabe-se que algumas das histórias bíblicas sejam mitos, e outras histórias até hoje não foram devidamente comprovadas. Por exemplo, os arqueólogos ainda tentam encontrar provas arqueológicas quanto ao Êxodo. E tem gente que dúvida que Jesus teria feito aquilo que fez, ou teria sido um líder espiritual como descrito nos Evangelhos.

Eu conheço um professo de ciência das religiões, o qual costuma dizer que o cristianismo é uma religião histórica ou historicizada, pois se retirarmos dele a "história", o cristianismo perde suas bases institucionais, sobrando apenas os ensinamentos de Cristo como contado nos Evangelhos. Cristo falava de uma "igreja", mas ele não explicou como seria essa igreja.

Não obstante, um grande problema que se tem para estudar as religiões politeístas de hoje em dia, sejam elas de origem indiana, japonesa, chinesa, coreana, africana, ameríndia, etc., é que tais religiões não tem fundadores, não possuem um "tempo histórico", mas ainda se baseiam num "tempo mítico".

E para os historiadores isso é bastante complicado de se estudar, pois não sabemos quando determinadas crenças, ritos, livros, ideias, costumes, templos, castas sacerdotais, cerimônias, etc., surgiram. Tais tradições são passadas ao longo do tempo, de geração para geração, e muitos de seus seguidores normalmente não se indagam quando começaram.

Assim, para concluir, sua fala não está errada; de fato, a religião não depende da história para ser comprovada, a fé é algo mais profundo e atemporal. No entanto, algumas religiões como o cristianismo, o islamismo, o budismo e outras religiões que se baseiam em fundadores e livros sagrados, que possuem uma organização institucional e clerical, são históricas.



anonimo disse...

gostei muito parabens sucesso gostei d+ ganhei um 10 em cima um 10 embaixo um 10 na esquerda um 10 na direita um 10 no meio ganhei um
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Eduarda Ribeiro Elesbão disse...

Evidências podem ser consideradas fontes históricas

Leandro Vilar disse...

Eduarda a palavra evidência é bem ampla. Mas para ser uma fonte histórica ela deverá estar relacionada a algum acontecimento considerado histórico ou que possua valor e significância para ser estudado e considerado histórico.

Sendo assim, vai depender do tipo da evidência, o contexto e sua correlação com a História, seja ela local, regional, nacional ou mundial.

Por exemplo, há alguns anos estudaram a múmia do faraó Tutancâmon e encontraram evidências de que ele sofreu um ferimento na perna, o qual pode ter sido um dos fatores que levaram a sua morte, pois o ferimento infeccionou.

No entanto, as evidências não podem ser simplórias, elas tem que possuir um respaldo de comprovação e veracidade, caso contrário, estarás caindo no discurso daqueles que defendem a existência concreta de Atlântida, Lemúria, alienígenas do passado, etc. Todos estes trabalham com evidências e até encontram respaldo histórico para encaixar suas evidências, porém, elas não são seguras e nem conferíveis.

felipe emideo disse...

Pergunta porque os históriadores resolveram abranjir mais o conceito de fonte histórica

Leandro Vilar disse...

Felipe Emideo o motivo para os historiadores aumentarem o conceito de fonte histórica advém das mudanças quanto ao estudo da História e o que poderia ser considerado de relevante para a pesquisa dessa. Até o começo do século XX, o documento escrito era a principal fonte para se estudar história, daí haver aquela divisão historiográfica de Pré-história, ou seja, época sem escrita.

No entanto, movimentos historiográficos iniciados na França e Itália, posteriormente na própria Alemanha e Inglaterra, começaram a rever a historiografia tradicional que se pautava basicamente numa história política, militar e econômica. A Escola dos Annales na França foi o principal expoente dessa mudança, principalmente a partir dos anos 70, quando ocorreu de fato a mudança com o advento do movimento da "nova história".

A "nova história" começou a pensar o estudo histórico para além do documento escrito, passando a analisar os costumes, hábitos, artes, construções, tecnologia, ideias, imaginário, ciências, religião, roupas, mercadorias etc. Basicamente a "nova história" tomou emprestado muita coisa da teoria da arqueologia, antropologia e etnografia no que diz respeito a estudar as sociedades humanas a partir da sua cultura material e imaterial.

Adilson Edson Seven disse...

Não estou satisfeito com as resposta da fonte material, escrita e orais.

Leandro Vilar disse...

Adilson você poderia ser mais específico na sua insatisfação quanto ao conteúdo? Pois assim, poderei tentar lhe fornecer uma resposta que atenda seu interesse.

Professora Tatiane disse...

Excelente texto, muito bom !!