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Leandro Vilar

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Do empirismo de Francis Bacon ao Século das Luzes

Do empirismo de Francis Bacon ao Século das Luzes

Leandro Vilar
Ana Paula Brito

INTRODUÇÃO:

O termo empirismo tem sua origem na palavra empírico, adjetivo do grego, empeirikos ou empeiria, pelo latim, empiricus, que significa observar, experimentar, e em formas mais antigas podia se referir a médico. O empirismo consiste em uma corrente filosófica e um método científico no qual focaliza a utilização dos sentidos em sua metodologia de estudo, visando à observação, a análise e a experimentação como formas de se chegar a conclusões e a verdade acerca dos objetos de estudo. Sua metodologia influenciou em grande parte os pensadores dos séculos XVII, XVIII e XIX, a ponto de ser considerada uma teoria do conhecimento, tendo influência em outras áreas do conhecimento humano, como a filosofia da política, ética, lógica, teologia, direito, química, física e medicina. A ideia de que a experimentação seria o caminho para se encontrar as respostas acerca do mundo, não é uma concepção da Idade Moderna, na Antiguidade Clássica, algumas correntes da filosofia grega, como os sofistas, os epicuristas e os estoicos já haviam elaborado conceitos e explicações acerca desta filosofia.

No decorrer da Idade Média, a fé suplantou o lugar da ciência, a filosofia escolástica visava preservar os costumes cristãos, de modo que nesse caso a experiência não importava mais como meio de se alcançar a verdade, na qual passou a ser encarnada pela imagem de Deus. A única forma de se alcançar a verdade absoluta que era Deus, seria através da fé e da penitência religiosa. Não obstante, o célebre Doutor Angélico, São Tomás de Aquino (1225-1274), dizia que fé e razão não estavam tão distantes um do outro, que para se alcançar a verdade, deveria se passar por um desenvolvimento sensível e intelectual. Ao que se entende, as experiências adquiridas através da vida seriam necessárias para garantir a ascensão da alma ao Céu ou a sua queda ao Inferno. 

No século XIII o clérigo e filósofo inglês Roger Bacon (1214-1294), em seus trabalhos no campo da química, física e alquimia defendia o que se chamava de uma “ciência experimental” em que a experiência era a base para se elaborar o conhecimento. Tais premissas foram retomadas pelos estudiosos renascentistas, como Paracelso (1493-1541), um dos defensores no século XVI dos estudos científicos e empíricos. Com o decorrer da Revolução Científica no século XVII, o empirismo se notabilizou a partir dos trabalhos do filósofo inglês Francis Bacon nos idos deste século.

O empirismo também sofreria ataques de uma corrente de pensamento oposta a sua filosofia, o Racionalismo que defendia a supremacia da razão sobre o sensível, reivindicando que o conhecimento era a priori e não concebido a posteriori como defendido pelos empiristas.

Cabe ainda ressalvar que as ideias empiristas de Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume influenciaram dentre alguns filósofos iluministas como Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Voltarie e Kant, além de contribuir no desenvolvimento da corrente de pensamento do Positivismo, elaborada por Augusto Comte no século XIX.

O MÉTODO EMPÍRICO

A análise do método empírico consiste em uma verdadeira dualidade uma vez que a essência deste método se encontra na observação, na sensação, na indução e na experimentação de fenômenos e fatos ocorridos. E partindo desse pressuposto temos que alguns estudiosos costumam classificar o método empírico hora como sendo algo assistemático e hora constituindo um método científico. De modo que ambas as classificações estão corretas, variando de acordo com o ponto de vista adotado pelo observador em seu juízo.

“O principal mérito do método empírico é o de assinalar com vigor a importância da experiência na origem dos nossos conhecimentos. Os empiristas de um modo geral têm razão ao afirmar que não existem idéias inatas, e de que antes da experiência não há e nem pode haver conhecimento algum sobre o mundo exterior”. (OLIVEIRA, 1997, p. 53).

O fator observação é algo que vivenciamos no dia-a-dia, muitos dos simples atos que realizamos no nosso cotidiano, como acontecimentos que vivenciamos, ou que ficamos conhecendo a respeito, contribuem para o nosso desenvolvimento cognitivo, psicológico, ético, moral, etc. De fato isso seria algo que possamos chamar de empirismo, já que estamos aprendendo mediante as observações e experiências que vivenciamos, e delas retiramos nossas próprias conclusões. No entanto, para o estudo científico o empirismo não poderia ser resumido a uma simples análise de compreensão do senso comum. Neste requere-se uma maior rigorosidade em suas análises.

A essência do empirismo consiste na utilização dos sentidos, isso acaba gerando um grande problema. Primeiro, os sentidos dos homens não são tão aguçados como os de outros animais, e para se compensar esta deficiência nós utilizamos ferramentas, máquinas e outros instrumentos. Segundo, em alguns casos nossos próprios sentidos podem nos enganar, como exemplo, os truques de mágica, onde as mãos são mais rápidas do que os olhos.

“II. Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmo, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm”. (BACON, 1999, p. 33).

Em ambos os casos, apenas a observação não bastaria para ciência chegar a determinar algo a respeito do estudo de algum fenômeno, isso forneceria muitos dados imprecisos. Mas, a forma encontrada para se chegar a conclusões mais exatas consiste na elaboração de experimentos e sua execução em diferentes cenários, que possam intervir nos resultados de uma experiência, sendo assim, falamos de um experimento puramente científico:

“Um método investigativo fundamentado em observação, descrição, classificação, comparação, eliminação e, só então, dedução das possíveis causas de um fenômeno. Em síntese, tratava-se do empirismo”. (SERJEANTSON, 2009, p. 72).

Neste caso, para se realizar o experimento aos moldes do emprego do método empírico o cientista deve seguir algumas etapas necessárias para sua realização. Baseado em Cano [1979] e Marconi; Lakotas [2006] tais etapas seriam as seguintes:
  • Definir o objeto de estudo.
  • Definir o observador.
  • Definir as circunstâncias nas quais serão empregadas as observações.
  • Definir os meios de observação.

Realizada a primeira etapa, ao fim de sua análise os observadores anotam suas conclusões primárias, suas descrições e suas hipóteses. A segunda etapa consiste na elaboração de experiências para se chegar a conclusões mais precisas.
  • O experimento assinalado deve ser repetido várias vezes mantendo as mesmas condições do experimento original, a fim de permitir comparações entre os experimentos.
  • Dependendo do fenômeno a ser analisado, se deve optar por diferentes tipos de testes em diferentes cenários e objetos para se tirar conclusões acerca da interferência de elementos internos e externos.
  • Analisar os experimentos que falharam.

Transposto estas etapas, deve-se analisar os novos dados, compará-los com os anteriores, descartar o que não será necessário, e por fim chegar às conclusões, teorias e novas hipóteses sobre o experimento realizado. Essencialmente as etapas já mencionadas são bem idênticas ao método científico utilizado nos dias de hoje.

“LXX. A melhor demonstração é, de longe, a experiência, desde que se atenha rigorosamente ao experimento. Se procurarmos aplicá-la a outros fatos tidos por semelhantes, a não ser que se proceda de forma correta e metódica, é falaciosa”. (BACON, 1999, p. 55).

Deve-se atentar para que antes de se realizar uma experiência, é indicado partir do pressuposto de que haja teorias ou hipóteses fundamentadas acerca do fenômeno que será estudado a fim de que tais teorias e hipóteses sejam corroboradas ou descartadas. Sendo nesse caso, que alguns dos problemas do método empírico, são suas generalizações precoces, sua falta de relevância a importância do raciocínio abstrato, e uma debilidade na quantificação dos elementos pesquisados.

EMPIRISMO BACONIANO

Francis Bacon
O empirismo desponta como método científico da recém Ciência Moderna, a partir dos trabalhos de Francis Bacon (1561-1626), filósofo natural, político, advogado, escritor, historiador e alquimista inglês. Neste seu vasto repertório erudito Bacon elaborou uma visão de ciência e de filosofia baseada nas experiências vivenciadas ou elaboradas para se desvendar os mistérios do mundo. Uma questão importante para se entender o conceito de filosofia para Bacon é fundamentado em sua crítica a ciência dos antigos, principalmente a realizada por Aristóteles (384-322 a.C). Por mais, que Aristóteles tenha enfatizado em seus estudos a questão da observação dos fenômenos naturais do mundo físico para explicar o conhecimento e a natureza, algo diferente do pensamento de seu mestre, Platão (428-348 a.C), Bacon via nos estudos de Aristóteles e seus seguidores uma lacuna no estudo científico. Tais filósofos e estudiosos não estavam dando o valor merecido ao estudo científico fato este que ele chamava de experiência vaga, em oposição à experiência literata, na qual dizia ser a verdadeira forma de se atuar através do estudo dos fenômenos de forma científica. Por mais, que suas críticas recaíssem sobre os aristotélicos e platonistas, Bacon tinha uma profunda admiração pelos filósofos pré-socráticos, em especial Demócrito de Abdera (c. 460-370 a.C).

Os principais trabalhos de Francis Bacon acerca da filosofia e da ciência foram O progresso do conhecimento (1605) onde ele abordara o desenvolvimento do conhecimento filosófico, científico, histórico e religioso, e onde também expôs sua metodologia para o estudo do método empírico. O segundo trabalho consiste na obra Novum Organum (1620) no qual ele propôs uma reavaliação do conhecimento, contrapondo-o a filosofia aristotélica e escolástica, propondo um novo caminho para o conhecimento embasado no método empírico.

Todavia a filosofia baconiana não se remete apenas em questionar o mundo de forma a encontrar respostas, mas de como classificar o seu conhecimento, algo que pode ser visto nas duas obras citadas anteriormente.

Bacon essencialmente constitui seu método embasado em três preceitos, chamado de tábuas da investigação como demonstra Andrade [1999]. A primeira tábua é a tábua da presença ou afirmação, na qual consiste em se elaborar um quadro a respeito da ocorrência dos fenômenos a serem estudados, nesse caso, se o fenômeno for o calor, deve-se se elaborar um estudo no qual o calor seja estudado em diferentes cenários e casos.

A segunda tábua é a das ausências ou da negação. Tomemos novamente o exemplo do calor, pode-se estudá-lo por uma chama, pelos raios solares, pelo calor corporal, pela água fervendo. No entanto, Bacon diz que em alguns casos tais características não são claramente visíveis e parecem estar ausentes ou não existirem, sendo assim, o estudioso deve agir com maior perícia em seu estudo para identificar se estas ausências existem de fato ou não.

A terceira tábua é a das graduações ou comparações, nessa etapa, após se realizar as observações, o levantamento de dados, de hipóteses, passa-se a comparação para se analisar tais dados a fim de se chegar as conclusões. A análise das três tábuas nos permite compreender o método proposto por Bacon, cabe aqui destacar que ele ainda propôs uma série de subdivisões dentro destas três etapas, nas quais em muitos casos, são divisões específicas para determinados experimentos.

Acerca do conhecimento proposto por Francis Bacon, hoje pode parecer algo um tanto contraditório, como um cientista poderia falar sobre religião? Para Bacon, religião e ciência não são questões que estivessem uma distante da outra, mas sim questões que fundamentavam o saber humano. Sua concepção de conhecimento se dividia em duas categorias: o conhecimento divino, formado pela Natureza e por Deus, e o conhecimento humano, construído pelas ações do homem no tempo e no espaço. Partindo destas duas categorias base, ele as subdivide no ramo da filosofia, na qual abriga a ciência, a teologia e a história.
Em Filosofia, pode ocorrer que a contemplação do homem esteja dirigida a Deus, ou se estenda sobre a Natureza, ou se reflita e se volte sobre o próprio Homem. A partir de diversas indagações, emergem três conhecimentos: filosofia Divina, filosofia Natural e filosofia Humana ou Humanidade. Pois todas as coisas estão marcadas e estampadas com este caráter tríplice: o poder de Deus, a diferença da natureza e a utilidade do homem. (BACON, 2007, p. 136).

Nessa tripla divisão, a ciência se encontra dentro da chamada filosofia natural, na qual ele classifica a ciência como ciência natural ou teoria natural. Para Bacon a ciência se dividia em física e metafísica.

“A Física tem três partes, das quais duas se referem à natureza unida ou recolhida e a terceira estuda a natureza difusa ou distribuída. [...]. De modo que a primeira doutrina é relativa à Contextura ou Configuração das coisas: de mundo, de universitate retrum [sobre o mundo, sobre a totalidade das coisas]. A segunda é a doutrina referente aos Princípios ou Origens das coisas. A terceira é a doutrina referente a toda Variedade e Particularidade das coisas, quer se trate de suas diferentes substâncias, ou de suas diferentes qualidades e naturezas [...]. Quanto à Metafísica, lhe atribuímos à indagação das Causas Formal e Final”. (BACON, 2007, p. 147).

A causa formal na qual ele se refere, consiste em compreender as formas dos elementos da natureza, tanto a forma corpórea como o seu significado. Neste caso se partindo para o método empírico, a causa formal seria a etapa da observação, da descrição e da dedução preliminar. Quanto à causa final, esta consiste nas respostas geradas pela causa formal. No método isto compreenderia as etapas de experimentação, comparação, classificação, eliminação e por fim as conclusões. Em si a física para Bacon seria o objeto ou fenômeno de estudo e a metafísica seria o meio para estudá-lo.

O legado metodológico de Francis Bacon influenciou estudiosos como Galileu Galilei, Robert Boyle, John Locke, Isaac Newton, Giambattista Vico, David Hume, Denis Diderot, dentre outros pensadores. 

FILÓSOFOS EMPÍRICOS PÓS-BACON:


Thomas Hobbes
Nos fins do século XVII, dois importantes pensadores britânicos, deixaram importantes trabalhos que serviram de base para o pensamento iluminista sobre a política, religião, direito, sociedade e filosofia, principalmente na França e nos Estados Alemãs. O primeiro destes pensadores empiristas foi o matemático, político e filósofo Thomas Hobbes (1588-1674). A principal obra de Hobbes fora seu tratado político chamado o Leviatã (1651). Por mais, que o foco deste trabalho fosse à política, a legislação e as formas de poder, Hobbes expôs sua visão empírica sobre o desenvolvimento das ideias e das sensações.

“O uso e finalidade da razão não é descobrir a soma, e a verdade de uma, ou várias consequências, afastadas das primeiras definições, e das estabelecidas significações de nomes, mas começar por estas e seguir de uma consequência para outra. Pois não pode haver certeza da última conclusão sem a certeza de todas aquelas afirmações e negações nas quais se baseou e das quais foi inferida. Como quando um chefe de família, ao fazer uma conta, adiciona as somas de todas as notas de despesa numa só soma, e não considerando de que modo cada nota foi feita por aqueles que lhe apresentaram a conta, nem aquilo que está pagando, procede como se aceitasse a conta total, confiando na habilidade e na honestidade dos contadores; do mesmo modo no raciocínio de todas as outras coisas, aquele que tira conclusões confiado em autores, e não as examina desde os primeiros itens em cada cálculo (os quais são as significações de nomes estabelecidas por definições) perde o seu esforço e nada fica sabendo; apenas julga que sabe”. (HOBBES, 1979, p. 28).

Para Hobbes, os homens eram movidos por seus sentimentos, principalmente pelo desejo e pelo temor, e, além disso, estes deveriam se submeter à autoridade do Estado, no qual garantiria a ordem e a paz na sociedade, já que na teoria o Estado, não seria abalado pelos sentimentos individuais. Nesse caso ele visava uma submissão da sociedade perante o Estado. Não obstante, para Hobbes, o conhecimento se adquire principalmente a partir dos sentidos, no entanto ele ressalva que se não houver uma análise sobre o que se estuda você acabará caindo em ilusões. Por mais, que os sentidos nos forneçam as bases para se compreender, esta compreensão estará sujeita a erros, e em sua concepção a razão não aceita erros.

John Locke
O segundo pensador foi o médico, político e filósofo John Locke (1632-1704) o qual deixou um profundo legado abarcando a filosofia da política e a epistemologia, sendo este um fiel defensor do empirismo. As principais contribuições de Locke foram à defesa de um liberalismo político, a tolerância religiosa, o materialismo sensualista e sua aversão às ideias inatas concebidas pelo racionalismo. Mas, dentre estas suas contribuições, a que mais diz respeito ao empirismo é sua defesa do sensualismo (aqui a palavra está relacionada ao uso dos sentidos e não a conotação sexualista de hoje em dia) no qual ele o discutia em uma de suas principais obras, o Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690). Nesta sua obra Locke inicialmente defendia sua crítica que as ideias não poderiam ser inatas, ou seja, que o conhecimento já existe em nossas mentes, e necessita de ser “ativado” através do estudo. Para ele, ninguém nasce com o conhecimento as pessoas são como uma “folha de papel em branco” ou uma “tabula rasa”. O talento seria uma facilidade para o aprendizado, mas não um conhecimento pré-existente em nossas mentes.

“Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem nenhuma idéia; como ela será suprida? De onde lhe provêm este vasto estoque, que a ativa e ilimitada fantasia do homem pintou nela como uma variedade quase infinita? De onde aprende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra: a experiência. Todo nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento”. (LOCKE, 1999, p. 57).

Se as ideias fossem inatas, então todos nós já nasceríamos sabendo de quase tudo, no entanto, a realidade não é essa, sendo assim, Locke defendia que o conhecimento era indutivo, que ele se aprendia vivenciando e exercitando. Nesse caso, ele concebera o conhecimento em duas categorias: a sensação e a reflexão. Para Locke o conhecimento entra em nossa mente basicamente das seguintes formas:

“Para melhor conceber as idéias que recebemos da sensação, não nos parece impróprio considerá-las com referência aos diferentes meios pelos quais elas se aproximam de nossas mentes e tornam-se por nós percebíveis. Primeiro, algumas entram em nossa mente por um único sentido. Segundo, outras transportam-se à mente por mais de um sentido. Terceiro, outras derivam apenas da reflexão. Quarto, algumas abrem caminho, e são sugeridas à mente, por todos os meios da sensação e da reflexão”. (LOCKE, 1999, p. 65).

Sendo assim, o conhecimento é impresso através do contato com que temos com os fenômenos e objetos de nosso estudo e com a vivência de acontecimentos, e seguindo esta primeira etapa vem-se a ação da reflexão, refletir sobre o que aprendemos. No entanto, Locke acrescentara uma terceira etapa na análise do conhecimento, a abstração. Para ele, além de se observar e refletir é dever dos homens poder abstrair o que lhe é posto em questão, dessa forma, os homens podem generalizar, individualizar, comparar e diferenciar determinado objeto, fenômeno ou ideia.

George Berkeley
George Berkeley (1685-1753) bispo anglicano de Cloyne e filósofo irlandês tivera uma grande importância na consolidação e na crítica do empirismo no século XVIII. Seu trabalho abrangia a filosofia, as ciências, a teologia e a psicologia, dessa forma, Berkeley por mais que tenha sido um filósofo empirista, foi um grande crítico dos trabalhos de Hobbes e Locke. No entanto, suas críticas não recaíam apenas sobre os britânicos, ele também atacou a filosofia dos franceses Descartes e Malebranche, filósofos racionalistas, até mesmo criticou a ciência de Isaac Newton. As principais obras de Berkeley foram, Ensaio para uma nova teoria da visão (1709) onde ele aplicara sua psicologia da visão; Tratado sobre os princípios do conhecimento humano (1710), chamado simplesmente de Princípios, onde realizara suas críticas ao materialismo, ao representalismo, ao racionalismo e ao próprio empirismo. Berkeley era profundamente idealista e antiabstracionalista. E sua terceira obra importante foi os Três diálogos entre Hilas e Filonous (1712), também chamado de Diálogos, no qual consiste num complemento de sua obra anterior. 

Uma das principais concepções elaboradas por Berkeley dizia respeito à ideia de matéria, algo profundamente abordado por Locke. No entanto, diferente de Locke, Berkeley defendia a supremacia do imaterial sobre o material, fato esse devido a sua ligação com a fé. Não obstante, Berkeley fundamentara que a matéria e a sensação são na verdade, ideias concebidas pelos sentidos dos homens, que a ideia material é algo que está ligado à mente humana, nesse caso você não pode ter uma concepção a priori de algo que você nunca viu, sentiu ou estudou, sendo assim, o inatismo não seria possível.

“Eu me satisfaço, Hylas, apelando para o senso comum do mundo em favor da verdade de minha noção. Perante ao jardineiro por que ele pensa que aquela cerejeira existe no jardim, e ele dirá a você que é porque ele a vê e sente: numa palavra, porque ele a percebe por seus sentidos”. (Diálogos, liv. II, p. 234, 1s. 21-5, apud VILLALOBOS, 1978, p. 15).

Partindo desta concepção, Berkeley expõe sua famosa frase: esse est percipi “ser é ser percebido”.

“Assim, embora não exista nenhum mundo material para Berkeley, existe um mundo físico, um mundo de objetos ordinários. Este mundo é dependente da mente, pois é composto de idéias, cuja existência consiste em ser percebida. Pois quanto às idéias, e também quanto ao mundo físico, esse est percipi”. (DOWNING, 2004, p. 11).

No campo da ciência Berkeley vai mais além, para ele o método das ciências não tem o papel de encontrar as causas para justificar a existência dos objetos e dos fenômenos, já que a causa para isso seria Deus. Nesse caso, a ciência não procuraria por causas (algo que Hume aborda), mas, sim em explicar a regularidade do trabalho de Deus, ou seja, Berkeley dizia que mediante ao estudo empírico, você corroboraria a existência de um “espírito” que rege as leis do universo, e tal “espírito” é Deus.

“Se considerarmos, então, a diferença que existe entre os filósofos naturais e os demais homens com relação ao conhecimento que possuem dos fenômenos, descobriremos que esta consiste, não em um conhecimento mais exato das causas eficientes que os produzem – pois não pode haver nenhuma outra a não ser a vontade de um espírito –, mas apenas numa maior extensão da compreensão por meio da qual descobrem analogias, harmonias e concordâncias nas obras da Natureza [...]”. (Princípios, p. 105, apud DOWNING, 2004, p. 14-15).

Para Berkeley o importante não são as causas de origem, já que estas já possuem uma explicação como vista anteriormente, mas, o importante consiste em se encontrar as causas finais, ou em outras palavras, os efeitos gerados ou motivos dados.

“Causa é tomada em dois sentidos diferentes. Uma causa eficiente ativa, propriamente considerada, só concebo como sendo um Espírito; nem concebo que haja ação, estritamente falando, senão onde houver Vontade. Mas isso não impede que concedamos que haja causas ocasionais (que na verdade são signos); e nada mais se requer na melhor física, i. e, na filosofia mecânica. Nem impede que admitamos outras causas além de Deus, como espíritos de diferentes ordens, que podem ser denominadas ativas, que realmente agem, embora por poderes limitados e derivados. Quanto, porém, a um agente não-pensante, nenhum ponto da física se explica por ele, nem é ele concebível”. (Carta de Berkeley a Johnson, 25/11/1729, § 2, apud CHIBENI, 2008, p. 368).

Por mais, que Berkeley conteste a causalidade no estudo científico, ele como um empirista questionara também a própria ideia de hipótese. Um ponto-chave para se compreender a visão empírica de Berkeley sobre o estudo científico é que pelo fato de ele ser um idealista ele leva suas ideias quase ao extremo. Berkeley aceitava três classes de hipóteses, as ideias metafísicas, as generalizações e as sentenças acerca da observação do mundo físico. Tais classes de hipóteses devem ser corroboradas pelo método empírico, se isso não for feito, elas serão contestáveis e inexatas.

David Hume
No século XVIII o principal representante do empirismo fora de fato um filósofo iluminista, este foi o filósofo, historiador e economista escocês David Hume (1711-1776), tido por alguns filósofos e historiadores como um dos mais radicais defensores do empirismo. Tendo seu pensamento empírico principalmente influenciado pelos trabalhos de Locke e Berkeley, além de também ter sido seguidor do utilitarismo (Consistia numa doutrina ética que visava o bem-estar social, desenvolvida na Inglaterra no século XVIII.). Sua grande obra foi o Tratado da Natureza Humana (1739-1740) neste vasto trabalho, Hume debatera acerca da formação do conhecimento, dos sentidos, das sensações, da política, da filosofia e da religião.

“A obra pretendia nada menos do que a total renovação da filosofia da experiência, com a construção de uma “ciência do homem” capaz de emular a ciência newtoniana, com a conclusão da estrada aberta por Bacon, e com a substituição da metafísica racionalista pelo que viria a chamar a “verdadeira metafísica””. (HUME: MONTEIRO, 2001, p. 7).

Sobre o empirismo, Hume dizia o seguinte:

“A certeza que temos de nossos conhecimentos resulta da invariância das operações intelectuais que estão na base. Nossas idéias só nascem das sensações; o resto, por exemplo, a realidade do mundo exterior, e mesmo Deus, são só assunto de crença. Em política não existe nenhuma legitimidade: O Estado nada, mas é que uma convenção social, útil aos homens para viverem juntos”. (Grande Enciclopédia Laurosse Cultural, v. 13, p. 3039).

Em o Tratado da Natureza Humana, Hume dedicara sua primeira parte do livro a falar acerca do entendimento. Sobre o entendimento ele o dividia em duas categorias a impressão e a ideia.

“Todas as percepções do espírito humano reduzem-se a duas espécies distintas que denominarei impressões e ideias. A diferença entre estas reside nos graus de força e vivacidade com que elas afetam a mente e abrem caminho para o nosso pensamento ou consciência. Às percepções que penetram com mais força e violência, podemos chamar-lhes impressões; e nessa designação incluo todas as sensações, paixões e emoções, quando fazem o seu primeiro aparecimento na alma. Por ideias entendo as imagens tênues das impressões nos nossos pensamentos despertadas pelo presente discurso, excetuando apenas as que têm origem na vista e no tato, e o prazer imediato ou o mal-estar que elas podem provocar”. (HUME, 2001, p. 29).

Para Hume a categoria de impressão se subdivide em sensação, a qual explica os fenômenos pelos sentidos, e a reflexão, que enfatiza o desenvolvimento do conhecimento através da faculdade do pensar. Mas, além destas duas divisões, outra questão se mostra importante na filosofia humeana, sua recusa à causalidade.

“Toda certeza provêm da comparação de ideias e da descoberta de relações que permanecem inalteráveis enquanto as ideias permanecem as mesmas. Estas relações são a semelhança, as proporções de quantidade e número, os graus de qualquer qualidade e a contrariedade, nenhum a das quais está implícita na proposição tudo o que tem começo tem também uma causa da sua existência”. (HUME, 2001, p. 113-114).

Sobre tal premissa Hume procurava evidenciar que necessariamente um objeto para existir, tinha que depender de uma causa. Para ele a causa seria uma consequência que elaboramos para dá significado a existência de algo, mas, no entanto ao fazermos esta proposta de causa a algum objeto acabamos caindo no erro de um preconceito, ou seja, acabamos tendo uma ideia primária antes de ao menos avaliar a questão.

“Todo o efeito necessariamente pressupõe uma causa, pois que efeito é um termo relativo, de que causa é o correlativo. Mas isto não prova que todo o ser deva ser precedido de uma causa, da mesma forma que do fato de que todo o marido tem que ter uma mulher não se segue que todo o homem deva ser casado. [...]. Visto que não é do conhecimento, nem de nenhum raciocínio, que tiramos a opinião da necessidade de uma causa para toda a nova produção, esta opinião deve necessariamente originar-se na observação e na experiência”. (HUME, 2001, p. 117).

A concepção preliminar de uma causa supõe algo que vá contra o método empírico, já que nesta ocasião este fato beiraria mais a dedução de uma resposta baseada em suposições, do que uma resposta fundamentada em fatos analisados. Diferente de Berkeley, Hume não via necessariamente Deus como sendo a causa de tudo, mas, procurava descartar a importância de uma causa de origem.

INFLUÊNCIA SOBRE O SÉCULO DAS LUZES

O Século das Luzes, Iluminismo ou Ilustração foi o nome dado a um movimento ideológico e revolucionário que se iniciou em meados do século XVII e perdurou até o fim do século XVIII, abarcando distintos países europeus. O Iluminismo visava à reformulação dos ideários políticos, culturais, sociológicos, artísticos, científicos, além de influenciar a crítica, o deísmo e a laicização da sociedade europeia no final do Antigo Regime. Os iluministas queriam através da razão e das ciências promoverem uma revolução intelectual na sociedade. E tais influências podem ser vistas na Revolução Americana em 1776 e na Revolução Francesa em 1789.

Os trabalhos de Hobbes e Locke no campo da política influenciaram vários autores iluministas, dentre estes os que mais se destacaram foram o Barão de Montesquieu (1689-1755), autor do Espírito das Leis (1748), obra na qual Montesquieu propôs a divisão dos três poderes políticos. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor do Contrato Social (1762) uma das obras políticas de maior impacto no século XVIII, na qual serviu de base para os ideais revolucionários franceses. Outro importante filósofo foi Voltaire (1694-1778), no qual se tornou um dos maiores críticos de seu tempo, atacando a política, a Igreja, a sociedade e a cultura. No entanto a respeito de sua importância para as ciências, Voltaire escreveu alguns artigos sobre ciência e filosofia para a Enciclopédia (Encyclopédie). Na qual consistiu em uma das primeiras enciclopédias a serem publicadas na Europa, tendo como organizadores os filósofos Jean le Ronde d’Alembert (1717-1783) e Denis Diderot (1713-1786). Os enciclopedistas como ficaram conhecidos àqueles que passaram a organizar e escreverem enciclopédias, como forma de universalizar o conhecimento, dividiram nesse caso a Enciclopédia, baseados na definição dada por Francis Bacon acerca da divisão do conhecimento em seu livro O progresso do conhecimento. Bacon dividia o conhecimento em:
  • Memória - História
  • Razão - Filosofia
  • Imaginação – Poesia

A História entraria no campo da memória, a filosofia abarcaria tanto as ciências como a religião, sendo que nesse caso, no campo filosófico, os enciclopedistas seriam profundamente influenciados pelo racionalismo, e quanto no campo cientifico o método empírico seria a base para o seu estudo. Por fim, as artes entrariam no campo da imaginação.
       
Na Prússia (hoje território da Alemanha) um dos principais representantes do iluminismo foi o filósofo Immanuel Kant (1724-1804), o qual fora profundamente influenciado pelo trabalho de Hume e em parte também pelos trabalhos de Berkeley. Kant atuou no campo epistemológico, ético, metafísico e estético, se mostrando como um idealista e cético. Seguindo este seu posicionamento, sua grande obra foi a Crítica da Razão Pura (1781). Nessa sua monumental obra, Kant expôs seu pensamento sobre a formulação da razão, o racionalismo, o empirismo, a ética, a compreensão do entendimento, a metafísica e a estética.

“Já se disse que o empirismo fez parte do Iluminismo. De fato, só a atitude empirista garante a abertura do domínio, à crítica da razão, pois consiste em admitir que toda verdade pode e deve ser colocada à prova, eventualmente modificada, corrigida ou abandonada”. (ABBAGNANO, 1998, p. 536). 

CONCLUSÃO

Vimos alguns dos principais teóricos do método empírico tais como Francis Bacon, Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume. Ao analisar suas mais significativas teorias, pudemos nos familiarizar com o método empírico e sua conotação experimentalista pautada na verificação para efetiva comprovação.

A palavra observação sintetiza bem o método empírico, todavia não o define. Uma vez que a observação não é a única etapa do citado método. A repetição de observações, experiências com diversos testes e cenários, bem como comparações variadas será algo recorrente. Uma forma mais simplória de sintetizar o empirismo, seria colocá-lo a disposição da expressão “contra fatos, não há argumentos”. Pois irá primar pela comprovação das teorias através de fatos, experiências, entre outros.

Existiu todo um contexto histórico-cultural para o desenvolvimento do empirismo, e como pode ser visto no início do texto, seu desenvolvimento atribui-se a busca pelas respostas acerca do mundo, que já não se pautava apenas na fé. Aqui, discutimos entre outros os percalços entre a fé e a razão ao qual o empirismo enfrentou através da análise dos teóricos supracitados.

NOTA: Os trabalhos de Paracelso tiveram grande influência sobre a filosofia e a ciência de Francis Bacon. (Paracelso, pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim foi um médico, físico, astrólogo e alquimista suíço).  
NOTA 2: Demócrito de Abdera foi um filósofo, matemático e astrônomo grego. Conhecido por ter sido um dos elaboradores da teoria atômica ou atomismo, onde dizia-se que a matéria era formada pela junção de pequenas partículas invisíveis aos olhos, chamadas de átomos. 
NOTA 3: Para maiores detalhes acerca das classificações da tábuas de investigação propostas por Francis Bacon consulte os seguintes aforismos do Novum Organumliv. II, aforismos XI, XII, XIII, XVIII, XIX e XX.

NOTA 4: A Enciclopédia foi publicada de 1751-1772 e contou com volumes extras entre 1776-1780, contando com um total de 35 volumes, mais de 3 mil ilustrações, 75 mil artigos escritos por 150 colaboradores.
NOTA 5: A Crítica da Razão Pura perfaz a primeira parte da trilogia escrita por Kant, composta pelas obras Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica do Julgamento (1790).

Referências Bibliográficas:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 2ª ed, São Paulo, Martins Fontes, 1998.
BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza/ Nova Atlântida. Tradução: José Aluysio R. de Andrade. São Paulo, Nova Cultural, 1999. (Coleção – Os Pensadores: Bacon).
BACON, Francis. O progresso do conhecimento. São Paulo, Editora Unesp, 2007.
CANO, José L. L. Método e hipóteses científicos. México, Editorial Trillas S. A. 2ª edição, 1979.
CHIBENI, Sílvio Seno. Berkeley: Uma física sem causas eficientes. Cadernos de História e Filosofia da Ciência (UNICAMP), v. 18, p. 357-390, 2008. Disponível em: http://www.cle.unicamp.br/cadernos/18-2.html. Acessado em: 17 de setembro de 2010.
DOWNING, Lisa. George Berkeley. Stanford Encyclopedia of Philosophy, California, set. 2004. Tradução: Jaimir Conte. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~conte/txt-escritos.html. Acessado em: 17 de setembro de 2010.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 9, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 13, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. 2ª ed, São Paulo, Abril Cultural, 1979. (Coleção – Os Pensadores: Hobbes), (Parte I: Do Homem; Capítulo I e Capítulo V).
HUME, David. Tratado da Natureza Humana. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. (Livro I: Do Entendimento; Parte I e Parte III).
LOCKE, John. Ensaio acerca do Entendimento Humano, São Paulo, Nova Cultural, 1999. (Coleção – Os Pensadores: Locke) (Livro I e Livro II).
MARCONI, Maria de A; LAKATOS, Eva M. Metodologia Científica. 4ª ed. 3ª. reimpressão, São Paulo, Atlas, 2006.
OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Tratado de Metodologia Científica: Projetos de Pesquisas, TGI, TCC, Monografias, Dissertações e Teses. São Paulo, Pioneira, 1997.
REZENDE, Antônio (organizador). Curso de Filosofia: para professores e alunos dos cursos de segundo grau e graduação. Rio de Janeiro, 8ª ed, Jorge Zahar, SEAF, 1998. (Capítulo 6: O empirismo inglês).
SERJEANTSON, Richard. Um novo pensar. BBC Revista História, São Paulo, v. 12, p. 72-74, 2009.
VILLALOBOS, João E. R. Um estudo sobre George Berkeley. v. 13, São Paulo, Editora da USP, 1978. 

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Os banhos públicos na Roma Antiga

Quando hoje falamos em tomar banho remetemos a algo particular de nossa vida, contudo na Roma Antiga tomar banho publicamente não era um escândalo ou uma indecência, mas era algo comum da cultura daquele povo. Embora os romanos não tenham inventado os banhos públicos, pois os caldeus e os gregos já faziam usos dessa prática, mas foram os romanos que popularizaram os banhos públicos. Durante o império (27 a.C - 476 d.C) os banhos públicos se tornaram algo comum do cotidiano do povo romano, havendo banhos públicos em todas as províncias e na maioria das cidades, levando ricos e pobres, homens e mulheres a irem a tais locais não apenas para se lavar, mas para participar da vida social da cidade. 

Os banhos públicos romanos chegaram a um nível de ser comparados ao ato de ir a praia nos dias de hoje, não no sentido de se lavar, mas como um local para se encontrar amigos, conhecer gente, se divertir, passar o tempo, conversar, relaxar, praticar esportes, em geral se socializar. 

Nesse texto procurei mostrar principalmente o papel dos banhos públicos como um espaço social, e não apenas falar da importância do banho para a higiene pessoal. Aqui veremos as principais estruturas destes locais, como o ato de tomar banho se tornou público, como a nudez era encarada nestes locais, como as pessoas deveriam se comportar, como era a vida pública nestes espaços.

Introdução: vida urbana

"A vida na cidade era movimentada, o burburinho das ruas era sentido por todos. Os romanos adotaram o sistema de cidades planejadas em tabuleiro tanto por influência grega como, principalmente, por direta transposição dos esquemas dos acampamentos militares. [...]. A cidade planejada contava com duas avenidas principais, que se cruzavam de norte a sul (cardo) e de leste a oeste (decumanus). A partir delas, seguiam-se ruas paralelas que formavam um traçado regular e ortogonal da cidade, como se fosse um tabuleiro de xadrez. No centro, havia os principais edifícios públicos, que organizavam o espaço urbano: fórum (mercado), basílica (edifício administrativo), um ou mais templos, termas (banhos públicos), latrinas, teatros. As aulas eram, muitas vezes, dadas aos alunos em um dos cômodos do fórum. Por toda a cidade, espalhavam-se lojas, como padarias e bares. Na periferia, localizavam-se o anfiteatro, para as diversões, locais de treinamento físico, hortas e, às vezes, depósitos de lixo. A cidade era cercada por uma muralha e a entrada restringia-se a grandes portas, muitas delas ainda em uso hoje em dia". (FUNARI, 2002, p. 110).

"Os romanos da cidade viviam em casas ou em prédios de apartamentos. Isso mesmo, havia prédios de apartamentos, chamados de insulae, "ilhas", onde viviam as pessoas de menos posses nas cidades grandes. Como não havia elevadores, quanto mais alto o apartamento, menores eram as unidades e mais gente vivia em condições próximas às de nossas favelas. Os prédios podiam ter até seis andares. As casas eram usadas pelas pessoas de posses, embora no campo houvesse também casebres muito humildes". (FUNARI, 2002, p. 110). 

Desenho de uma insula (insulae), os apartamentos da Roma Antiga. Tais apartamentos eram a moradia da plebe, pois os patrícios viviam em suas requintadas casas. Em geral, os apartamentos não eram próprios, mas alugados.
A zona rural era considerada como uma extensão das cidades, as quais eram vistas como o centro político, financeiro, social e cultural da urbes. De fato, embora grande parte da população morasse no campo, o que ocorria de importante nas cidades chegavam até os moradores do campo. Mesmo que a zona rural foi considerada uma extensão da vida citadina, os hábitos eram diferentes para ambos os locais.

“A maioria da população, entretanto, vivia no campo, em fazendas ou em aldeias. Os camponeses que viviam em aldeias trabalhavam a terra e sustentavam-se com a venda ou troca da sua produção agrícola por produtos que necessitavam, como ferramentas.  As casas de fazenda dos grandes proprietários eram suntuosas e algumas eram verdadeiros palácios. No campo, muitas vezes o proprietário deixava a administração da fazenda nas mãos de um escravo-capataz”. (FUNARI, 2002, p. 113).

"Os romanos costumavam; acordar com o raiar do dia. As lojas em Roma abriam cedo e as crianças costumavam comprar pães ou bolinhos na ida para a escola. Às oito horas, abriam-se os bancos e as repartições públicas. Na praça central, ou fórum, localizavam-se as lojas, repartições e outros negócios, o que dava um aspecto movimentado e barulhento ao lugar. O trabalho ia até o meio-dia, quando tudo fechava para o almoço e, no verão, dormia-se um pouco, fazendo-se uma sesta. O almoço era uma refeição leve: pão, azeitonas, queijo, nozes, figos secos e algo para beber. Havia quem levasse uma marmita e comesse seu almoço na rua, ou assistindo a uma luta de gladiadores no anfiteatro". (FUNARI, 2002, p. 108). 


Mosaico romano da cidade de Pompeia, retratando um casal.
É importante apresentar alguns aspectos do cotidiano dos romanos nas cidades, para podermos ver como a introdução aos banhos públicos mudou esse cotidiano, levando as pessoas a modificarem seus horários e hábitos para ir frequentar tais locais.  

A higiene pessoal: 

O ato de banhar-se é bastante antigo, e engana-se aquele em pensar que a preocupação com a higiene seja algo dos tempos modernos. Desde a Antiguidade encontramos em distintos povos, suas maneiras de se entender a preocupação em manter o corpo limpo e até mesmo o lar. No Egito Antigo, em certos períodos, as pessoas tinham o hábito de tomar banho diariamente e três vezes ao dia. Grande parte dos homens mantinham as cabeças raspadas e a barba sempre feita, para se evitar piolhos, além de ser uma questão estética; até mesmo as mulheres chegavam a raspar a cabeça ou manter os cabelos bem curtos, daí o uso de perucas pelos ricos. O banho era visto como algo sagrado, chegando haver até mesmo ritos para se banhar, pois o banho era visto como uma forma de purificar o corpo. De fato, ainda hoje algumas religiões e crenças preservam essa ideia de banhos purificadores. 

Os gregos antigos também já mostravam preocupação em manter os corpos limpos. Eles também tomavam banho diariamente, usavam óleos para passar no corpo a fim de prender a sujeira, e depois usavam um instrumento para raspar o óleo. Usavam também óleos perfumados após o banho. Os homens não tinham o hábito de fazer a barba ou raspar a cabeça, pois era algo estético da cultura deles: a barba era um sinal de masculinidade, virilidade e respeito. No caso das mulheres, elas naquele tempo já esboçavam a preocupação de depilar o corpo. 

Os romanos antes de serem influenciados pela cultura grega já demonstravam o hábito de banhar-se e a preocupação com a higiene. Eles usavam o estrígil ou estrigilo (strigilis), um pequeno raspador de cobre ou bronze em formato curvo ou de foice, usado para raspar a sujeira do corpo. Os gregos já usavam tal instrumento, assim como os etruscos. Normalmente passava-se azeite, para fixar a sujeira do corpo junto com o suor, e na hora do banho isso facilitava a camada de sujeira ser removida, pois estes povos não conheciam o sabão. 

Pintura grega retratando um homem usando o estrígil para se lavar. 
Além do estrígil, havia lâminas usadas para fazer a barba e para a depilação; pinças para arrancar os pelos, lixas para as unhas, um instrumento para limpar as unhas, um instrumento para limpar os ouvidos; cera ou óleo para a depilação, óleos perfumados (o perfume é uma invenção tardia) usados após o banho; sais de banho, etc. 

Além da limpeza corporal, os romanos como outros povos antigos também demonstravam preocupação em se limpar os dentes. A escova de dentes não existia propriamente, mas havia alternativas, como um tubo de madeira usado para ser mastigado, além de pastas que serviam como creme dental, onde a pessoa a esfregava nos dentes, depois fazia bochecho e cuspia. Geralmente os patrícios era que davam mais atenção aos dentes, pois os pobres não tinham esse hábito ou dinheiro para comprar tais produtos de higiene bucal.

Os ricos possuíam em suas casas (domus), banheiras, que eram a peça central de seus balneum ou balineum, ou seja, seus banheiros, embora houvesse outros nomes para designar o banheiro na história romana. A palavra balneum derivada do grego balaneion, deu origem as palavras balneário e banho. Enquanto os ricos tomavam banho em banheiras, sendo lavados pelos seus escravos (algo comum entre outros povos), os pobres quando tomavam banho, usavam baldes para isso, pois banhar-se nas fontes públicas era proibido. 

E outro detalhe a mencionar é que nas insulas não havia abastecimento de água, e quando havia, era restrito apenas ao térreo, obrigando as pessoas desceram para ir buscar água no térreo ou ter que ir até uma fonte pública para pegar água. Já na casa dos ricos poderia ter um poço, mas em geral tinham um reservatório (impluvium) que coletava água da chuva, além de possuir em alguns casos, abastecimento de água e esgoto, pois dependia da localidade da casa.  
Representação genérica de uma domus romana. 
Além do hábito de ter banheiros em casa, e de tomar banho com frequência, o governo romano preocupado com a limpeza da cidade começou a criar banheiros públicos não para tomar banho, mas para poder urinar e defecar. Foi no período republicano (509-27 a.C) que surgiram os banheiros públicos ou latrinae. A latrina pública era um local onde se encontrava uma bancada de pedra com vários buracos, onde as pessoas usavam para urinar ou defecar. Sob essas bancadas corria água que levava os dejetos para o sistema de esgoto. 

Uma latrina pública em uma cidade romana. 
Os banheiros já eram separados naquela época, havendo banheiros para os homens e banheiros para as mulheres. Contudo, não existia privacidade como se pode ver bem na imagem acima. Os homens e as mulheres faziam suas necessidades na frente de outras pessoas e até aproveitavam para ficar conversando. Nestes banheiros havia escravos ou escravas para cuidar da limpeza (embora fossem locais fedorentos e sujos), como também o escravo fornecia aos usuários uma esponja (era uma esponja marinha) em um cabo, a qual era usada para se limpar após ter defecado. O problema é que essa esponja não era descartável; após o seu uso, o escravo a limpava em uma bacia ou pia, e entregava para o próximo usuário. Quando a esponja estivesse desgastada ela era descartada. 

Em alguns bairros pobres onde não havia banheiros públicos, as pessoas ou urinavam e defecavam no mato, ou em terrenos baldios, becos, ou faziam em baldes e jogavam os dejetos na rua, pois as casas não tinham esgoto. Embora os banheiros públicos não fossem tão limpos, foram uma grande inovação para se manter a cidade limpa, pelo menos neste quesito. Nas insula, em geral só havia banheiros no térreo, sendo um banheiro coletivo para todo o prédio, pois nos apartamentos não havia banheiros.

Mas foi apenas na época imperial que os banhos públicos começaram a ser construídos, antes disso, os romanos tomavam banho em casa, ou nos rios e lagos, em alguns casos, o banho era simples. Embora os banhos públicos tenham atraído um número grande de pessoas para seus recintos, isso não significa que as pessoas deixaram de tomar banho em casa, contudo, tornou o banho algo regular e até diário, pois entre alguns não havia o hábito de banhar-se diariamente.

Nudez e sexualidade:


Antes de iniciar a explanação acerca das casas de banho públicas, é preciso falar brevemente sobre como a nudez e a sexualidade eram vistos pelos romanos antigos, lembrando que nas casas de banho, as pessoas ficavam nuas diante de conhecidos e estranhos, no entanto, neste contexto não era algo visto como vergonhoso ou um atentado ao pudor. 


As vezes pensamos que a sociedade romana era libertina, pois ouvimos falar das libertinagens feitas pelos imperadores Nero, Calígula, Heliogábalo, Domiciano, etc; ouvimos falar das orgias e dos bacanais, porém, o povo romano não era tão lascivo assim. Ao longo da história romana o posicionamento acerca da sexualidade e da nudez variou, mas em geral havia posturas a serem seguidas. 



"Se há uma parte da vida greco-romana falseada pela lenda, é essa; acreditamos erroneamente que a Antiguidade foi o paraíso da não-repressão, não tendo ainda o cristianismo colocado o verme do pecado no fruto proibido. Na verdade o paganismo foi paralisado por interdições. A lenda da sensualidade pagã tem como origem contrassensos tradicionais: o famoso relato da devassidão do imperador Heliogábalo não passa de um embuste de letrados, autores de um falso tardio, a Historia Augusta; é uma página cujo humor se situa entre Bouvard e Pécuchet e Alfred Jarry". (VEYNE, 2009, p. 184). 


Estátua romana provavelmente uma cópia de alguma estátua grega, onde se ver retratado as Três Graças (Cárites para os gregos), Tália, Eufrosina e Aglaia. Embora estejam nuas, nota-se que seus órgãos sexuais não estão a mostra, o que revela certa preocupação do escultor com o pudor. 
Em Roma havia uma forte divisão social entre os patrícios (ricos) e os plebeus (pobres), a forma de ambos se comportarem publicamente era algo bem distinto, embora que na vida privada seu comportamento poderiam ser similares, mas além dessa diferença entre um rico se portar diante de um pobre, havia uma terceira categoria: o escravo (servii). Embora houvesse alguns escravos de respeito, exercendo algumas atividades como de tutores, músicos, mestres-artesãos, etc., em geral o trato dado aos escravos era pior do que dado aos plebeus. Porém, havia alguns escravos que gozavam de melhores condições de vida do que pessoas livres. 

No quesito da nudez, essa era tolerada entre a sociedade romana de algumas formas: uma pessoa livre se aparecesse nua nas ruas ou e um lugar público não apropriado, passaria por vexame, seria um atentado ao pudor. Por outro lado, escravos eram vendidos nus em mercados, feiras e em algumas ruas. Ver aqueles homens e mulheres nus não era algo tão ultrajante como ver uma pessoa livre, pois o escravo era uma mercadoria. 


Se por um lado ver um escravo nu não seria algo tão ultrajante publicamente, desde que esse estivesse sendo vendido, pois o escravo que já era propriedade de alguém deveria andar trajado; o escravo pessoal poderia ver seus donos nus. Em geral os patrícios ao tomar banho ou se vestirem usavam escravos para lhes vestir ou lhes dar banho. Para um senhor ou senhora ficar nu diante de seus escravos pessoais (entenda-se pessoal aqui no sentido dos escravos que cuidavam de afazeres íntimos ou eram mais próximos de seus donos) não seria algo vergonhoso. Nesse ponto tanto senhor quanto escravo se veriam nus. Isso acabava levando também ao assédio dos patrões e patroas sobre as escravas e dos escravos, pois a homossexualidade e a pederastia não eram proibidos na Roma Antiga, embora existissem condutas a ser seguidas. 



"Na elite romana, aceitava-se como natural que um homem mantivesse relações com mulheres e com homens, em especial, o patrão com seus escravos e escravas. Por muito tempo, considerou-se que as relações entre pessoas do mesmo sexo em Roma fosse um costume aprendido com os gregos, mas as diferenças entre as práticas gregas e romanas parecem indicar que não é este o caso. Entre os romanos, não havia separação tão radical entre homens e mulheres e a relação entre homens não era "pedagógica" como entre os gregos". (FUNARI, 2002, p. 106). 


Afresco romano de Pompeia, retratando a deusa Vênus saindo do mar. Vênus era a deusa romana do amor, da beleza, da sensualidade e da sexualidade. Segundo o mito, ela nasceu no mar. 
A homossexualidade não era algo explícito publicamente, ou seja, os parceiros não andavam de mãos dadas, se abraçavam, beijavam ou trocavam carícias publicamente; tais gestos eram feitos em particular. Além disso não havia casamentos homossexuais, daí dizer-se que as pessoas fossem mais bissexuais do que homossexuais, pois poderiam ter maridos ou esposas, mas manter homens ou mulheres como amantes.

Já a pederastia era diferente da dos gregos, pois enquanto na Grécia era uma forma de iniciação a vida sexual dos adolescentes através de uma relação homoafetiva (pois a pederastia era mais comum entre os homens do que as mulheres), que ligava o tutor ao discípulo, os romanos não viam esse lado "pedagógico", mas mantinham tais relações assim mesmo. A pederastia era uma relação homossexual mantida entre um homem mais velho com um adolescente. Relações homoafetivas entre dois homens maduros não era bem visto em ambas as sociedades gregas e romanas. 

A sensualidade era algo bastante próximo da cultura romana como na grega. Os gladiadores e gladiadoras lutavam seminus; no teatro, em algumas peças, as atrizes usavam pouca roupa ou se vestiam de forma sedutora; a prostituição era tolerada, e havia em alguns prostíbulos (lupanares) mosaicos mostrando posições sexuais que as prostitutas sabiam fazer; escrever sobre o erotismo era algo comum entre alguns poetas e dramaturgos; esculpir estátuas nuas ou pintar pessoas nuas era algo normal; realizar orgias ou exibir escravos e escravas nuas em sua casa não era proibido, mas não significa que toda sociedade compartilhasse desses gostos luxuriosos. 


Afresco do "Casal do Centenário", encontrado em Pompeia em 1979. Na pintura ver-se um casal numa cena sexual pouco explicita. Detalhe para o fato da mulher usar uma forma de sutiã, pois para os romanos daquela época, as mulheres corretas não deveriam ficar totalmente nuas durante o sexo, diferente das prostitutas que ficavam totalmente desnudas. 
"Para os romanos, ricos ou pobres, a sexualidade também era intimamente ligada à religiosidade e, em particular, ao culto à fertilidade. Em toda a parte, encontravam-se objetos fálicos, nas paredes das casas, nos cruzamentos, como pingentes em colares, em anéis. As casas tinham, no telhado, falos nas extremidades, vestígio dos quais se pode ver nas casas atuais, agora já sem a forma de pênis, mas como uma telha que se alça de forma aparentemente inexplicável. Até mesmo as campainhas das casas romanas podiam ser em forma de um ou mais falos, que o visitante tinha de tocar para fazer o ruído e fazer-se notar. Essa presença generalizada de membros eretos causa, nos modernos, uma certa surpresa, um estranhamento de que os romanos não tivessem vergonha de tão explícita referência sexual. Para os romanos, contudo, o falo era associado à magia da reprodução e, por isso, era considerado um potente amuleto contra o mau-olhado e o azar. Sua presença nos limites, como no telhado, nas soleiras e nas campainhas, tinha essa função protetora contra as más intenções. As próprias relações sexuais, pelo mesmo motivo, eram consideradas abençoadas e propiciatórias e até mesmo a referência verbal ao ato sexual tinha essas conotações". (FUNARI, 2002, p. 107). 

Logo, vendo por essa óptica, de fato havia uma liberdade sexual entre os romanos antigos, mas curiosamente a paixão e o amor apresentados de forma exaltada não eram bem vistos socialmente. Se um homem ou uma mulher estivessem "loucamente" apaixonados ou pretendessem exaltar sua paixão diante de outros, isso era vergonhoso

"Quando um romano se apaixonava loucamente, seus amigos e ele mesmo consideravam ou que perdera a cabeça por uma mulherzinha devido a um excesso de sensualidade, ou que moralmente caíra em escravidão; e, dócil como bom escravo, nosso enamorado oferecia-se a sua senhora para morrer, se ela assim lhe ordenasse. Tais excessos tinham a negra magnificência da vergonha, e nem os poetas eróticos ousavam enaltecê-los abertamente; levavam o leitor a desejá-los cantando-os com uma engraçada inversão da normalidade, um paradoxo humorístico". (VEYNE, 2009, p. 186).


Mosaico romano em Pompeia, retratando um homem apalpando um dos seios de uma mulher. No padrão de beleza daquela época, mulheres com seios grandes não eram belas, mas estavam fora do comum, era anormal, era motivo de deboche. A mulher teria que ter seios pequenos ou medianos. Nas comédias, os homens quando se vestiam de mulheres usavam enchimento para dar volume, para representar a mulher "peituda", e em alguns casos representar a mulher velha com seios caídos, que também era motivo para chacota. Assim como o pênis estava associado a religião romana, os seios também estavam associados a preceitos religiosos. 
Após conhecer um pouco da visão da nudez e da sexualidade que os romanos antigos possuíam, fica mais claro porque os banhos públicos se tornaram algo comum naquela sociedade, e hoje em dia seria algo bastante polêmico; por exemplo, as praias de nudismo, causam polêmica para alguns que enxergam isso como um absurdo: pessoas nuas diante de estranhos e conhecidos. As mulheres fazerem topless na praia também é mal visto pela maioria da população, por considerarem algo vulgar, uma afronta. 

Um banheiro público sem as cabines é algo imoral para nós hoje em dia, pois fere o direito a privacidade, mas para os romanos era algo comum, embora houvesse gente que se sentisse constrangida em ir nestes locais. Os próprios banhos públicos embora bastante frequentados, não significa que todo mundo se sentia bem em frequentá-los, especialmente os ricos, pois como dito, sua postura diante da plebe e dos escravos era bem estratificada. 

O fato dos banheiros públicos e das casas de banho públicas terem sido o que foram na Roma Antiga consiste no reflexo cultural daquela sociedade, da forma de como eles enxergavam a nudez e a sexualidade, como sendo ambas as coisas possuindo um lado particular, mas também um lado público. Mas, como veremos a seguir, nas casas de banho havia certas regras para o seu uso: homens e mulheres não se misturavam, além disso, relações sexuais nas termas não era algo proibido, mas também não era totalmente permitido, havia termas que existia serviço de prostitutas, embora não fosse algo comum.

Os banhos públicos:

Embora que a relação entre os romanos e gregos tenha se estreitado a partir de meados do século II a.C, quando os romanos conquistaram a Macedônia e a Grécia, aumentando assim o contato com a cultura helênica, mesmo assim, o hábito dos banhos públicos ainda demoraria pelo menos dois séculos para se tornar algo comum em Roma e posteriormente nas demais cidades do império. Por exemplo, o teatro só se popularizou no período imperial, embora já existisse em Roma desde o século I a.C, mas não era um espetáculo popular. 

Os banhos públicos eram chamados pelos romanos de termas (thermae) palavra de origem grega, que referia-se a banhos em águas quentes, contudo, os romanos passaram a usar a palavra terma para designar não apenas estes banhos, mas para referir-se aos complexos de banhos públicos. Sendo assim, daqui pela frente usarei a palavra terma. Em locais onde havia fontes de águas termas, foram construídos pequenas termas, inicialmente exclusiva para os patrícios, porém quando os romanos passaram a dominar o aquecimento da água e melhorar o abastecimento nas cidades, começaram a surgir os banhos públicos. 



Marco Vipsanio Agripa
A primeira grande terma mais antiga em Roma conhecida, foi fundada pelo general e político Marco Vipsanio Agripa (63-12 a.C). Agripa além de ter sido um bom estrategista foi um homem preocupado com o desenvolvimento de Roma. Nos mandatos que exerceu propôs reformas de ruas, criação de jardins, construção de pórticos, a limpeza da Cloaca Máxima (complexo de esgotos da cidade), a construção do famoso Panteão; a conclusão do aqueduto Aqua Virgo, o qual possibilitou abastecimento contínuo para que ele criasse a Termas de Agripa (Thermae Agrippa), a primeira grande terma regular da cidade, pois antes disso, não havia termas propriamente, mas pequenos estabelecimentos que ofereciam água quente ou sauna. As Termas de Agripa foram o estopim para os complexos de banho que se multiplicariam na era imperial. Agripa era amigo de Otaviano (63 a.C - 14 d. C) o qual tornou-se o primeiro imperador de Roma, assumindo o nome de César Augusto. Agripa acabou se casando com uma das filhas de Augusto e além de se tornar seu genro se tornou um de seus principais conselheiros. 

O imperador Nero (37-68) construiu uma terma (Termas de Nero) inaugurada nos anos 60. Após Nero, o imperador Tito (39-81) durante seu breve governo de 79 e 81, inaugurou as Termas de Tito. Tito também é lembrado por ter sido em seu governo que o Coliseu foi inaugurado (tendo delegado cem dias de celebração). O imperador Domiciano (51-96), ordenou a construção de sua própria terma, mas com a morte deste o projeto ficou suspenso, sendo concluído no governo do imperador Trajano (53-117) o qual começou a governar a partir do ano 98. As obras da terma foram retornadas no ano 104. Depois de Trajano outros imperadores ordenaram a construção de termas em Roma, sendo as termas mais famosas a do imperador Caracala (188-217) no século III e a do imperador Diocleciano (244-311) no século IV, sendo as Termas de Diocleciano as maiores construídas em Roma. 


Maquete das Termas de Trajano.
No século II as termas já haviam se tornado algo comum da sociedade romana, havendo termas não apenas em Roma mas em todas as grandes e médias cidades do império. A terma se tornou algo tão importante quanto outros prédios públicos como o fórum, a basílica, o anfiteatro, o circo máximo, o teatro, etc. Tais construções representavam a ideia de civilidade concebida pelos romanos. 


“Os homens só são plenamente eles mesmos na cidade, e uma cidade não se compõe de ruas familiares e multidões calorosas ou anônimas, e sim de comodidades materiais (commoda), como os banhos públicos, e edifícios que a enalteçam no espírito de seus moradores e dos viajantes e a tornem bem mais que um vulgar conjunto de habitações. "Pode-se chamar de cidade", pergunta Pausânias, "um lugar que não tem edifícios públicos, nem ginásio, nem teatro, nem praça, nem adução de água a nenhuma fonte e onde as pessoas vivem em cabanas iguais às choças (kalybai) penduradas na borda de um barranco?"”. (VEYNE, 2009, p. 170).

Como visto, as termas inicialmente eram o local de prazer para os patrícios, onde podiam tomar banho em fontes termais, isso levou alguns políticos a pensarem em construir locais destinados para isso, para agradar uma tendência que eles gostavam, ou seja, banhos quentes. Muitas domus passaram a ter seus próprios complexos de aquecimento para este fim. Mas, além do papel das termas inicialmente fosse agradar o gosto da elite, posteriormente passou a ser visto como um local proporcionado para que os plebeus pudessem se higienizar e se divertir. 


Liberati e Bourbon [2005] contam que nas cidades o comércio fechava lá para as três e quatro horas da tarde, assim como, os funcionários públicos também começavam a sair por esse horário, além disso, a questão de se trabalhar oito horas diárias ou mais é algo recente. Naquela época dependendo do seu emprego, você apenas trabalhava a manhã inteira e meio-turno pela tarde, logo, como os plebeus ficavam ociosos ao sair do trabalho e querendo fazer algo antes de retornarem para seus lares, ir as termas era uma forma de ocupar esse tempo livre diário, e ao mesmo tempo manter as massas ocupadas para evitar se irritassem por algo. De certa forma, ir as termas era quase como ir a um happy hour hoje em dia após acabar o expediente de trabalho e antes de retornar para casa; ir passear com os amigos ou conhecer gente, mas de uma forma bem diferente. 



Foto de uma das piscinas da terma em Bath, Inglaterra. Originalmente este local era coberto mais o teto desabou. 
Em tempos de inverno, não havia sistema de aquecimento nas insula, além disso, tais apartamentos incendiavam-se facilmente: há relatos de incêndios recorrentes em insulas em Roma. Isso acabava levando as pessoas a evitarem de acender fogo dentro de seus apartamentos. Assim no inverno as habitações ficavam frias, e nas termas havia banhos quentes, o que levava os plebeus irem buscar o calor destes banhos. 

No cenário contrário, em tempos de muito calor, ir se refrescar nas termas era como hoje em dia, ir nas piscinas de clubes, na praia, rios ou lagos. Em geral os rios e os lagos ficavam longe das cidades, daí os aquedutos terem quilômetros de extensão para conduzir água para as cidades. No caso da praia, naquela época e por longo tempo não era comum tomar banho de mar, as pessoas evitavam o mar, tinham medo ou não gostavam de banhar-se na água salgada. Diferente dos patrícios que possuíam suas banheiras e até piscinas em alguns casos, a solução para os plebeus, libertos e escravos era ir as termas. 

Diferente do que pensamos, não era apenas os homens e mulheres, jovens e adultos que frequentavam as termas, crianças também iam a esses locais. Além da população livre local, escravos e estrangeiros também frequentavam as termas, contudo é preciso fazer algumas ressalvas sobre o uso desse espaço público.


Em geral, havia uma divisão de classe e de sexo nos banhos públicos, homens e mulheres ficavam em locais diferentes nas termas, havendo espaços para cada um. No caso da terma não ser muito grande para haver essa divisão de espaço, a divisão era feita pelo horário, as mulheres usariam o espaço em determinadas horas e depois seria a vez dos homens, mas em geral, era mais os homens que frequentavam esses locais, pois as mulheres ficavam em casa cuidando do lar, da família e dos afazeres domésticos. No entanto, as mulheres patrícias que possuíam escravas para cuidar do lar e dos filhos, possuíam mais tempo para ir as termas. 



A Favorita Custom. Sir Lawrence Alma-Tadema, 1909. Nessa pintura vemos patrícias em uma terma.  
Contudo, houve épocas em que a divisão pelo sexo foi suspensa, isso ocorreu no primeiro século da era cristã, onde nas termas homens e mulheres poderiam tomar banhos juntos, eventualmente respeitando uns aos outros, contudo, alguns imperadores não gostaram dessa mistura e voltaram a proibir a mistura entre os sexos nas termas. Isso também levou alguns cristãos a considerarem as termas locais de luxúria e promiscuidade. 

No caso da divisão social, havia termas exclusivas para os patrícios, algo que Veyne [2009] chamara a atenção que no século IV em algumas cidades romanas na Europa e África aumentou o número de termas menores destinadas apenas aos patrícios. Por outro lado, havia pequenas termas destinadas apenas aos plebeus, e obviamente havia os grandes complexos abertos para todo mundo. Tais locais poderiam ser gratuitos ou pagos, assim como eram alguns espetáculos.  



“Por alguns cêntimos, os pobres passavam horas num ambiente luxuoso que constituía uma homenagem das autoridades — imperador ou notáveis. Além das complicadas instalações de banhos frios e quentes, os pobres encontravam passeios e campos de esporte ou de jogo”. (VEYNE, 2009, p. 179). 


Ilustração hipotética de como seria o natatio (grande piscina ao ar livre) das Termas de Caracala. Na imagem nota-se que apenas homens estão usufruindo do local. 
Nas termas destinadas para toda a população havia uma restrição de horário, pois como visto os patrícios não gostavam de se misturar com os plebeus e os escravos que não fossem os deles. 

"Em geral, primeiro banhavam-se as pessoas de posses, entre as duas e as quatro da tarde. Após o expediente, vinham banhar-se os mais humildes. Esses banhos, não esqueça, não eram como as nossas duchas, eram banhos em água fria e quente, em banheiras coletivas". (FUNARI, 2002, p. 109). 

As termas normalmente abriam de tarde após o almoço. Em algumas cidades os romanos que trabalhavam no comércio, fechavam seus estabelecimentos para a hora do almoço e depois faziam a cesta. Após dormirem um pouco, voltavam a abrir suas lojas (tabernae) e lá para as quatro horas da tarde fechavam a loja e se dirigiam as termas. Algumas vezes as termas abriam de manhã, mas voltado para as mulheres, pois a amanhã era período de estudos e de trabalho para todos os homens em fase de estudar e trabalhar, além de ser o período reservado para a manutenção e limpeza do espaço. 

Sabe-se que em alguns destes banhos públicos quando eles abriam, tocava-se gongos (discus) anunciando que o local estava aberto. Além dos gongos usava-se também outras formas de anunciar a população que havia termas nas proximidades, como o uso de imagens nas paredes ou no chão. As termas só funcionavam de dia para aproveitar a iluminação natural, e além do mais, de noite em geral a população se recolhei-a para suas casas para jantar e depois irem dormir. Naquela época não havia uma vida social noturna propriamente, a noite era o período para ficar em casa com a família e ir dormir. Sair à noite poderia ser perigoso ou suspeito.



Mosaico de uma terma em Sabratha, Líbia. Podemos ver na imagem um par de sandálias, três estígil e as palavras SALVOM LAVISSE, que significa "Um banho é bom para você". 
Partamos para conhecer melhor a estrutura destes locais públicos a fim de ficar mais ciente de como era a organização destas casas de banho e os serviços prestados ali. Lembrando que não havia uma homogeneidade nas plantas das termas, dependendo do local e da época tais estruturas variavam de tamanho e de forma, contudo certos locais eram básicos para tais complexos balneários. 

Apodyterium: Consistia no vestuário, sendo geralmente uma sala longa onde ficava estantes ou nichos nas paredes, onde roupas, calçados e outros pertences dos usuários eram deixados enquanto estes desfrutavam dos banhos. No apodyterium havia os capsarius funcionários que cuidavam do local, mas era também comum os patrícios designarem escravos próprios para vigiar seus pertences, pois há relatos de roubos nestes locais. O apodyterium era dividido, ou seja, havia um para os homens e outro para as mulheres.


Fotografia do apodyterium feminino em uma terma de Pompeia. Neste caso não havia estantes, mas havia nichos na parede, onde se guardavam as roupas e demais pertences.


Quando os patrícios chegavam nas termas eles não levavam apenas um escravo, mas vários escravos, as vezes levavam muitos, apenas para se exibir, mostrando ter bastante dinheiro para comprar tais pessoas. Os escravos seguiam com seu dono, levando objetos que seriam usados nos banhos, por exemplo, eles levavam toalhas, instrumentos de higiene, o traje para os exercícios, roupas extras, etc. Também era responsáveis por vigiar os pertences do dono ou dona, e se fosse o caso até em auxiliar em outras atividades na terma, como fazer massagem, lavar seu dono, ir pegar algo, levar uma mensagem, comprar alguma coisa, etc. 



Palestra: As termas de porte médio e grande possuíam um pátio longo chamado de palestra (na Grécia usavam mais o termo ginásio), o qual poderia ser ao ar livre ou coberto, onde neste lugar as pessoas se exercitavam. O chão da palestra geralmente era de areia ou terra, mas também poderia ser de pedra. Alguns romanos antes de tomarem banho gostavam de se exercitar primeiro, isso valia para homens e mulheres, logo, nas termas havia uma palestra para os homens e outra para as mulheres, lembrando que havia uma divisão entre os sexos, e no caso da ausência de mais de uma palestra, a divisão ocorria pelo horário, ou seja, em determinada hora, apenas mulheres frequentavam o recinto, e depois os homens. 


"As palestras, grandes espaços destinados à atividade física que existiam em quase todos os centros termais, desempenhavam um papel fundamental. Entre as competições mais comuns estavam o jogo de bola. Dependendo da especialidade escolhida, praticada ao ar livre ou em espaços cobertos chamados de sphaeristeria, a bola podia ser recheada de plumas, areia ou inflada com ar. O jogo mais popular era o trigon, praticado por três pessoas; também era conhecido o harpastum, parecido com o rúgbi atual, no qual o jogador tinha de tomar a bola e mantê-la em seu poder suportando os choques e os empurrões de um grupo de adversários". (LIBERATI; BOURBON, 2005, p. 67).


Afresco retratando mulheres praticando esportes. Nota-se na primeira imagem de cima uma das mulheres usa dois halteres, a outra segura um disco, as duas do lado estão correndo, e abaixo no canto direito, há duas jogando bola com as mãos. Outro fato a se destacar é o traje que elas estão usando, o qual lembra o biquíni sem alças. 
Na palestra geralmente os homens realizavam competições de luta, mas poderiam praticar exercícios sozinhos ou participar de jogos coletivos. As mulheres não chegavam a lutar, mas praticavam exercícios e também jogavam. Após se exercitar eles raspavam o suor com o estrígil e seguiam para o banho. 

Caldarium: O caldarium era o local onde se iniciava os banhos, pois nas termas os romanos tinham o hábito de banhar-se passando por três etapas. A primeira referia-se ao banho quente. O caldarium era o local mais quente da terma, sendo abastecido diretamente pelas fornalhas subterrâneas que aqueciam a água e também enviavam vapor para o local ou para a sauna. Escravos localizados no hypocaustum local onde ficava as fornalhas, alimentavam o fogo com lenha para aquecer a água que era canalizada até o caldarium. O vapor produzido também aquecia o piso e a parede do recinto. No recinto do caldarium havia janelas ou aberturas no teto para deixar o vapor sair e iluminar o interior, mesmo assim o local se mantinha quente. 



Desenho retratando o caldarium e o hypocaustum
Em algumas termas aproveitava-se o calor do caldarium para se fazer uma sauna seca (laconicum), um recinto menor, geralmente circular, onde havia bancos de alvenaria, nos quais as pessoas sentavam e aproveitavam o calor que emanava pelas paredes e o piso aquecido. Em outras termas havia o recinto do sudatorium um local vaporizado onde a pessoas ficavam para suar após o banho, similar as saunas a vapor de hoje em dia. A diferença para o laconicum do sudatorium, e que o segundo possuía inserção de vapor no recinto para acelerar a transpiração.   


Foto de um laconicum de uma terma. 
Ao longo das etapas dos banhos, as pessoas iam se limpando: usavam o estrígil, limpavam as orelhas e ouvidos, limpavam as unhas, as vezes os homens faziam a barba e cortavam os cabelos, no caso das mulheres havia a depilação.

Tepidarium: A próxima etapa do banho era o recinto do tepidarium. Neste local não havia piscinas propriamente, mas ele era levemente aquecido. As vezes poderia ter uma banheira com água tépida (água morna). A última etapa era ir tomar banho com água fria, mas para evitar um choque térmico ao sair da água quente e entrar na fria, havia uma etapa do meio, banhar-se em água morna ou permanecer num ambiente relativamente aquecido. 



O Tepidarium. Escola de Fontainbleu, c. 1909. 
No tepidarium as pessoas relaxavam um pouco mais após o banho quente, preparando-se para o banho frio. Lá elas poderiam ficar dentro da água quando havia, ou ficavam conversando ou descansando em alguma espreguiçadeira ou nos bancos. Nas termas mais luxuosas havia serviço de massagem, as vezes os patrícios designavam seus próprios escravos para fazer a massagem. 


O tepidarium das Termas Estabianas em Pompeia. 
Frigidarium: Como mencionado, o frigidarium consistia na última etapa do banho, onde após se lavar e tomar banho de água quente, depois passar pela sauna quando havia, depois de relaxar no trepidarium, vinha-se tomar banho de água fria para concluir o processo, e sair renovado depois de mais um dia de trabalho. No frigidarium havia uma piscina circular ou retangular com água fria até a altura dos ombros. No banho quente os poros da pele se abriam, facilitando a remoção da sujeira, mas agora era necessário fazer os poros se fecharem, e isso é feito com um banho frio. 


Pompeianas no Frigidarium. Pedro Weingarner, 1897. 
A medida que as termas se popularizavam os donos dos locais começaram a oferecer outros atrativos para atrair a população. Belos jardins para passeios, saunas, serviço de massagem, salas de leitura ou bibliotecas, lojas (tabernaes) que vendiam bebidas, comida, roupas, acessórios, etc.; o solário (solarium) local para tomar banho de sol; natatio o qual era uma piscina grande ao ar livre e com temperatura ambiente; salas particulares que poderiam ser alugadas para reuniões e eventos; serviço de prostitutas (houve um caso em Constantinopla que no século V o bispo da cidade proibiu o acesso de prostitutas nas termas), etc. 
Desenho ilustrando os ambientes de uma terma. Em cima pode-se ver a palestra, abaixo no lado esquerdo o apodytarium (vestuário), o caldarium; abaixo deste o hypocaustum; o tepidarium no centro, o frigidarium a direita, e a direita deste uma sala de leitura. 
"As termas eram frequentadas por todas as classes sociais e era o núcleo da vida mundana da cidade. Não apenas tinham as instalações necessárias para a higiene pessoal como também serviam como ponto de encontro, sala de leitura ou conferência ou centro de competições esportivas". (LIBERATI; BOURBON, 2005, p. 66). 

Além desses atrativos de lazer, algumas das termas eram verdadeiras obras de arte da arquitetura. As grandiosas termas de Trajano, Caracala e Diocleciano possuíam riquíssimas estátuas, mosaicos nas paredes e chãos, pisos de granito ou mármore, madeira de lei, tecidos luxuosos. Eram construções imponentes, erguidas para impressionar a todos que ali a vissem de fora e ainda mais por dentro. De fato, a estrutura era um espetáculo aos olhos. Os mais pobres ao visitarem tais locais passavam a ter ideia de como era o luxo.



Maquete das Termas de Caracala. O recinto circular consistia no caldarium com 35 metros de diâmetro; na parte de trás o enorme natatio; as palestras nos lados esquerdo e direito, e o suntuoso jardim. 
Assim, podemos concluir que os banhos públicos romanos que se difundiram por toda a era imperial, vindo a entrar em declínio com o fim do império em 476, pois os povos que passaram a governar os antigos domínios romanos não deram continuidade a essa prática, além disso, a medida que o Cristianismo se espalhava pela Europa, os banhos públicos foram vistos como locais de luxúria como já mencionado, daí passarem a serem evitados. Embora o Cristianismo tenha se tornado a religião oficial do império em 393 por decreto do imperador Teodósio, o Grande, ainda no século V os banhos eram frequentados, embora começaram a entrar em declínio. O próprio Império Bizantino herdeiro dos romanos, devido a sua forte cristianização não mantiveram o legado dos banhos por mais tempo. 


Vista aérea das Termas de Diocleciano. Grande parte da estrutura ainda está de pé, após esses séculos. Hoje parte das termas abriga o Museu Nacional Romano. 
Por mais que os romanos não tenham inventado as termas, sem sombra de dúvida eles foram os responsáveis por popularizar na História os banhos públicos, construindo tais locais em três continentes, unindo beleza arquitetônica com os ideiais de "civilidade" propostos por sua cultura e sociedade.


NOTA: Pelo fato de Roma ter sido uma das maiores cidades da Antiguidade, tendo chegado a pelo menos 1 milhão de habitantes, a cidade era dentre todas a do império, a que possuía a maior quantidade de termas, contando mais de uma dezena de diferentes tamanhos.
NOTA 2: O tepidarium das Termas de Diocleciano foi convertido no século XVI em uma igreja, a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, projetada por Michelangelo em 1562. Além da basílica em um dos prédios circulares da terma, foi fundada a Igreja de São Bernardo da Terma

Referências Bibliográficas:
LIBERATI, Anna Maria; BOURBON, Fabio. A Roma Antiga. Barcelona, Ediciones Folio, S.A, 2005. (Coleção Grandes Civilizações do passado). 
FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. 2a ed, São Paulo, Contexto, 2002. (Coleção Repensando a História). 

VEYNE, Paul (organizador). História da Vida Privada: Do Império Romano ao ano mil - 1. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. (Capítulo 1).