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Leandro Vilar

sexta-feira, 22 de março de 2013

Francisco: O papa latino-americano

No dia 13 de março de 2013 o conclave elegera o 266 papa, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, entrou para a História recente por vários motivos: 
  • Tornou-se o primeiro papa jesuíta assumir o pontificado;
  • Fora o primeiro sul-americano e latino-americano a assumir o papado;
  • Se tornou o primeiro papa argentino;
  • Sendo o primeiro papa não-europeu em 1282 anos, onde o último papa não-europeu a ser eleito, fora o papa São Gregório III, nascido na Síria, o qual governou de 731 a 741;
  • Também fora o primeiro papa a ser eleito após seu antecessor ter renunciado o mandato, algo que não acontecia em 493 anos.
Embora seja um acontecimento recente da História contemporânea, já vale a menção de ser comentado aqui não apenas como uma notícia jornalística, mas como um episódio que já começa fazer história na História da Igreja Apostólica Romana e do Cristianismo. Para isso, procurei apresentar alguns aspectos que marcam a renúncia de Bento XVI e o final de seu pontificado e a eleição do novo papa Francisco, neste breve relato. Todavia os interessados em mais informações, sintam-se a vontade em conferir as referências ou procurar outras fontes. 

Antecedentes: A renúncia de Bento XVI

Em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou no dia da Independência do Vaticano, que iria renunciar ao papado no dia 28 de fevereiro. A notícia surpreendeu o mundo, ninguém imaginava que o papa fosse renunciar ao pontificado após sete anos e alguns meses a frente do governo, e além disso, a renúncia de papas embora seja permitido pelas leis da Igreja, nunca fora algo comum.


Papa Gregório XII
O último papa que havia renunciado fora Gregório XII em 1415, o qual havia sido eleito papa em 1406. Na época, devido há problemas políticos pela Itália e o Grande Cisma do Ocidente, o qual desde 1377 havia dividido o papado entre Roma e Avignon na França, chegando em alguns momentos há haverem três papas (os outros eram chamados de antipapas, e a Igreja não os reconhece como tendo sido oficiais), a solução encontrada para por fim a este cisma, era que o então papa Gregório XII renuncia-se ao mandato. O papa aceitou a exigência e renunciou ao papado, sendo Marinho V eleito seu sucessor. O cisma terminou em 1417 no Concílio de Constança

No caso do papa Bento XVI os motivos ainda não são claros, mas várias hipóteses circulam atualmente. Mas antes de chegarmos nestas, devemos fazer um breve retrospecto para ver alguns aspectos da pessoa do papa emérito (título honorífico agora pelo qual é chamado).


Joseph A. Ratzinger
Joseph Aloisius Ratzinger, o qual se tornou o papa Bento XVI, nasceu em 1927 em Marktl am Inn na Alemanha, sendo o terceiro filho de Joseph Ratzinger, que era comissário de polícia e da cozinheira Maria Ratzinger. Seus pais eram católicos devotos, e quando os nazistas assumiram o poder, sua família se mostrou contrária as ações radicais dos nazistas. Depois de terem mudado para uma cidade maior a fim de melhor educar os filhos, Joseph despertou interesse pela vida eclesiástica e posteriormente entrou no seminário, no entanto no ano de 1939, ano que eclodiu a Segunda Guerra, fora baixado um decreto no qual todos os jovens deveriam ser alistados obrigatoriamente. Entre 1943 e 1944, Joseph e outros seminaristas foram obrigados a servir no exército nazista, Joseph fora designado para trabalhar em cargos auxiliares e não propriamente ir para o campo de batalha, pois não possuía nenhuma experiência militar, dentre os locais que ele trabalhou, estava a base antiaérea da BMW (a BMW antes de começar a fabricar carros, produzia motores de trator, caminhão e até motores de avião) na época nos arredores de Munique. Com o fim da guerra, ele e outros alemãs se renderam e foram presos pelas forças da Aliança, vindo a ser solto depois que completara 18 anos. 

Retornando para casa com seu irmão Georg (o qual também servira no exército), os dois retornaram aos estudos seminaristas e passaram a seguir a carreira sacerdotal. Em 1951, o Arcebispo de Munique o ordenou sacerdote. Entre as décadas de 1950 e 1960, Ratzinger formou-se em teologia, chegando a fazer doutorado, como também atuou como professor, além de atuar como teólogo convidado no Segundo Concílio do Vaticano (1962-1965). Em 1977, o papa Paulo VI o ordenou Bispo de Munique e depois cardeal. Ratzinger também escreveu vários artigos e alguns livros, hoje é considerado um dos mais respeitados nomes da teologia atual, e devido a sua experiência com isso, conseguiu se aproximar e ganhar a admiração do papa João Paulo II, tornando-se conselheiro do mesmo a partir de 2002.  

João Paulo II faleceu em 2 de abril de 2005 aos 84 anos, tendo realizado um pontificado de 24 anos, sendo o terceiro papa com mais tempo de governo. O conclave fora convocado para o dia 18 de abril, no entanto, naquele primeiro dia não houve resultado. No dia seguinte, o resultado fora anunciado, Ratzinger, um dos favoritos ao papado fora eleito, curiosamente quem ficara em segundo lugar fora o cardeal Jorge Mario Bergolio. Ratzinger que assumira o nome de Bento XVI, na época tinha 78 anos.


Papa Bento XVI
Não irei me reter a comentar passo a passo o pontificado de Bento XVI, porém, embora tenha governado por sete anos e poucos meses, seu pontificado fora regular e em dados momentos marcados por alguns problemas. Chamado de conservador pela mídia internacional e homem de pouco carisma em comparação ao seu antecessor, se envolveu em polêmicas ligadas ao uso de preservativos, casamento homossexual, pesquisas genéticas, omissão de clérigos acusados de crimes de pedofilia e abuso de menores; "indiretas" aos muçulmanos, etc.

No entanto, o papa durante estes anos criticou as ações econômicas mundiais por cada vez mais deixarem "o lado humano" e se importarem apenas com o "capital", criticou a falta de solidariedade aos países pobres, afetados pela fome, seca, doenças e guerras civis. Criticou aqueles que defendem a eutanásia e o aborto; a falta de apoio e consideração aos deficientes, órfãos e idosos, etc. 

Ao ter anunciado sua renúncia, o papa alegara que com seus 85 anos, já não tinha mais forças para se manter a frente do governo e geri-lo de forma adequada. Alguns jornais alegaram que ele estivesse com problemas de saúde, ma o Vaticano negou dizendo que ele está bem de saúde, porém o seu ofício é exaustivo para um homem de sua idade. No entanto, para outros jornais o motivo da renuncia do papa teriam sido os escândalos que vieram a público no ano passado, que ficaram conhecidos como Vatileaks (alusão ao Wikileaks).   

Em 2010, o Vaticano havia sido confrontado por acusações de que padres e bispos na Irlanda e nos Estados Unidos, estavam sendo acusados de pedofilia e abuso de menores, na ocasião, o papa não se pronunciou diretamente a respeito disso, e a oposição considerou uma omissão gravíssima de sua parte. Porém, a grande polêmica veio à tona no final de 2012, com o chamado Vatileaks, documentos ditos oficiais do Vaticano, onde revelam indícios de corrupção interna, lavagem de dinheiro, associação com prostituição, omissões, homossexualismo, ligação com grupos terroristas e mafiosos, etc. 

O ex-mordomo do papa Bento XVI, Paolo Gabriele fora preso por ter furtado documentos pessoais do gabinete do papa, no entanto, fora perdoado pelo mesmo, mas ainda irá responder por seu crime. Além disso, alguns dos documentos do Vatileaks que vazaram pela internet, foram publicados num livro do jornalista Gianluigi Nuzzi, intitulado, Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI. As acusações do Vatileaks ainda estão sendo analisadas pela polícia para averiguar sua veracidade, como as investigações ainda não deram resultados conclusivos, não irei me pronunciar a respeito, mas quem tiver interesse pode procurar pelos documentos. Além do ex-mordomo, alguns cardeais, bispos, funcionários ligados a administração do Estado do Vaticano e ao Banco do Vaticano estão sendo acusados de fazerem parte destas tramoias. 

Logo, devido a tais acusações, alguns jornalistas e cientistas políticos, alegaram que a renuncia do papa na realidade não teria sido por causa de cansaço ou motivos de saúde, mas sim por causa destas polêmicas, no que levaria a sociedade a considerar o papa Bento XVI um mal governante e um homem de pouca credibilidade em sua gestão, então para se evitar piores problemas, ele teria renunciado. Gianluigi Nuzzi em seu livro de 2009, Vaticano SA, diz que anteriormente o próprio papa João Paulo II também teria tido problemas com essa divisão interna no Vaticano e problemas similares. Para alguns críticos, a renuncia do papa e um novo conclave, fora um meio do Vaticano dirigir as atenções da mídia para outro assunto, neste caso o novo papa. 

Habemus papam: O papa argentino

Jorge M. Bergoglio
Antes de falarmos a respeito do novo papa Francisco, irei falar um pouco dele, como fiz com o papa Bento XVI. Jorge Mario Bergoglio era o filho caçula de cinco filhos dos imigrantes italianos Mario Bergoglio e Regina Bergoglio, os quais se mudaram para Buenos Aires, capital da Argentina. Seu pai era ferroviário e sua mãe dona de casa. Jorge nasceu em 17 de dezembro de 1936 no bairro de Flores na capital argentina. Tornou-se logo cedo fã do clube de futebol San Lorenzo de Almagro, onde seu pai havia sido jogador. Bergoglio entrou na Universidade de Buenos Aires onde graduou-se em engenharia química. Tendo terminado a universidade, ele tinha planos de se casar com sua namorada chamada Amália, no entanto, como essa não aceitou o seu pedido de casamento, Bergoglio aos 21 anos decidiu se tornar padre e entrou no seminário em 1957No ano de 1958 entrou para a Companhia de Jesus, onde passaria os anos seguintes estudando e sendo professor de colégios jesuítas. Jorge graduou-se em Filosofia em 1960 e em 1969 em Teologia. Em 1969 fora ordenado padre, e no mesmo ano tivera que fazer uma cirurgia que levou a remoção de parte de um de seus pulmões por um agravamento devido a uma terrível pneumonia que o atingira quando tinha 21 anos, a qual quase lhe tirara a vida. Em 1992 tornou-se Bispo de Auca e bispo auxiliar de Buenos Aires. Em 1998 fora promovido a arcebispo. Finalmente em 2002, o papa João Paulo II o reconheceu como cardeal. Nestes anos publicou vários livros. 

Bergoglio é descrito como um homem simples, de bom humor, que gosta de futebol, de tango e de ler, como aponta sua biografa, a jornalista argentina Francisca Ambrogetti, coautora da biografia oficial do papa Francisco, intitulada El Jesuíta. Nos últimos dias deu-se para notar que o papa não gosta muito das formalidades que se exigem de seu cargo, tanto como papa, como chefe de Estado. Francisco usa trajes simples, e optou em usar um crucifixo de ferro ou invés do habitual crucifixo de ouro, assim como trocou o trono papal de ouro por um trono mais simples. Suas vestes também não mostram o requinte das antigas vestes papais. 

Dentre algumas das posições que o novo papa defende e apoia, estão: é contra o aborto, a eutanásia e o casamento homossexual. Dedicou-se a promover campanhas de ajuda aos pobres, aos doentes e a combater a desigualdade social. Acerca do casamento homossexual, devemos ter em mente que desde o surgimento da Igreja, a mesma sempre se posicionou contra tal união, embora em alguns momentos tolerasse o homossexualismo como acontece hoje, mas em outros, tal prática fora condenada de heresia e perseguida pelas Inquisições. Assim, devemos ter em mente que a posição defendida pelo atual papa não é apenas particular a ele, mas sim, uma posição adotada pela Igreja Católica desde seu início, assim como também referente ao aborto e a eutanásia. 

No dia 12 de março começou o conclave para eleger o sucessor de Bento XVI, o primeiro dia terminou sem um eleito. No dia seguinte, numa quarta-feira fora anunciado que o novo papa havia sido eleito, seu nome, Jorge Mario Bergoglio, o qual adotara o nome de Francisco.


Papa Francisco
Embora tenha ficado em segundo lugar no conclave anterior, fora uma surpresa sua escolha, pois embora consta-se entre os dez favoritos, acreditava-se que os candidatos da Itália, Estados Unidos e do Brasil pudessem ser eleitos, mas Bergoglio surpreendeu pela indicação, sendo eleito com 77 de 115 votos, se tornando o primeiro papa latino-americano e argentino da História.

Para entendermos um pouco melhor acerca do conclave, no início, o papa era eleito pelo clero romano, a elite romana e os bispos das províncias romanas. Com o fim do Império Romano, os bispos das províncias romanas, foram substituídos pelos bispos das dioceses dos Estados cristãos. No entanto, entre 1059-1061, o papa Nicolau II determinou que o conclave só seria realizado pelos cardeais-bispos, os quais seriam os únicos a terem o direito de se candidatar e votar. Em 1173, o papa Alexandre III estabeleceu que a validade da eleição seria obtida se o candidato obtivesse pelo menos 2/3 dos votos. Outro fato a se mencionar é que a partir de 1492, os conclaves passaram a serem realizados com regularidade na Capela Sistina, sob maior sigilo e rigor posteriormente, como delegara o papa Gregório XV em 1622, para se evitar intervenções internas e o contato entre os cardeais na hora da votação, daí, a obrigatoriedade dos mesmos permanecerem em silêncio durante a votação e nem poderem falar um com o outro. Em 1970, o papa Paulo VI, estabeleceu a barreira dos 80 anos, como a idade máxima para que um cardeal concorra ao pontificado, pois anteriormente, houveram papas que foram eleitos como mais de 80 anos, como o caso de Gregório XII. 

O papa Francisco tem 76 anos e um duro desafio pela frente: recuperar a imagem do Vaticano abalada com os escandá-los ocorridos nos últimos três anos durante o pontificado de seu antecessor, como também se posicionar acerca de questões polêmicas que vem a cada ano sendo postas em pauta à Igreja, procurar integrar ainda mais o Catolicismo ao resto do mundo cristão e não-cristão e por em prática seus próprios objetivos, como o que ele chamara de "uma Igreja para os pobres", porém a ideia não é tornar a Igreja uma "ONG Piedosa", como ele mesmo sublinhara, mas fazer da Igreja a representante dos ensinamentos de Jesus Cristo e de Deus, assim como Cristo teria legado ao seus Apóstolos, "vão e espalhais meus ensinamentos". 

O nome Francisco

Bergoglio escolhera o nome de Francisco, o primeiro a fazer tal escolha, em homenagem a dois santos, São Francisco de Assis (1182-1266) e São Francisco Xavier (1506-1552), os dois foram notórios em suas épocas, por terem trazido mudanças na pregação da Igreja Católica Apostólica Romana. O mesmo dissera que a ideia de escolher o nome veio de uma frase que o arcebispo emérito de São Paulo no Brasil, o cardeal Cláudio Hummes dissera: "não esqueça dos pobres".

"Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E quando os votos chegaram a 2/3, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. [...] Ele me abraçou, me beijou e disse: 'Não se esqueça dos pobres'. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei de São Francisco de Assis". (G1). 

Nascido Giovanni di Pietro di Bernardone, o qual ficaria conhecido como São Francisco de Assis ou apenas São Francisco (pois fora o primeiro santo com este nome a ser canonizado), nasceu na Itália medieval, no seio de uma próspera família burguesa de Assis. Seu pai, Pietro di Bernadone dei Moriconi era um comerciante bem sucedido e sua mãe, Pica Bourlemont era de origem francesa, fato onde seu pai possuia grande admiração pela França e sua cultura. Sabe-se que Giovanni cresceu com conforto, mas as hagiografias contam que ele fora um adolescente rebelde e indisciplinado. Giovanni chegou a entrar no exército por volta de 1202, com o senho de se tornar um herói e progredir na carreira militar, mas acabou sendo preso, e ficou gravemente doente, depois disso voltou ao serviço militar, mas começou a notar que não tinha vocação para ser soldado. Contam os hagiógrafos que ele teria ajudado um leproso que estava largado em uma rua em Assis, e sentia muito frio; Giovanni que na época já era chamado de Francisco, cobrira o leproso com seu manto. A partir deste acontecimento ele teria ido orar na Igreja de São Damião, onde tivera a revelação de Deus. Um dos episódios mais marcantes da sua renúncia fora quando ele se despiu de suas luxuosas roupas e joias e as jogou aos pés de seu pai, e disse que renunciava a herança deste, pois dedicaria-se a evangelização, tornando-se um missionário e fundando a Ordem dos Frades Menores em 1209. A ordem também é conhecida como Ordem de São Francisco ou Ordem dos Franciscanos, onde os seus seguidores fazem votos de celibato, obediência e de pobreza, renunciando ao luxo, seguindo uma vida dedicada a pregação, a caridade e a ajuda principalmente dos pobres e dos doentes. 

Basílica de São Francisco de Assis, Itália.
São Francisco ficou conhecido por sua dedicação a evangelização, por sua simplicidade e humildade, sua devoção a Deus e a Igreja, seu apoio aos pobres, doentes e até mesmo aos animais (pois és protetor dos animais); ajudou na construção de igrejas, mosteiros e conventos. Na Idade Medieval, depois dos Apóstolos, São Francisco fora considerado o santo que mais se aproximou do ideal cristão pregado por Cristo. Hoje, ele é um dos santos mais reconhecidos no Cristianismo.

No caso de São Francisco Xavier, este nasceu na Espanha em Navarra, com o nome de Francisco de Jaso y Azpilicueta, o qual era filho de Juan de Jasso, na época conselheiro do rei, e de Maria de Azpilicueta y Xavier, era o filho caçula. Sua família vivia em condições confortáveis pois pertenciam a aristocracia de Navarra, além disso seu pai tinha contatos próximos ao rei de Espanha. Todavia, Navarra fora invadida e durante alguns anos ficou em guerra, seu pai falecera quando Francisco só tinha nove anos; sua mãe temendo pela segurança do filho mais novo e sua instrução, o enviara para estudar em Paris, no Colégio de Santa Bárbara, dirigido por um padre português. Francisco passara os anos seguintes estudando no colégio até ser admitido na Universidade de Paris, fora na universidade onde ele formou importantes amizades, o que incluiu o seu colega de quarto Santo Inácio de Loyola (1491-1556). Eles dois e mais alguns amigos criaram a Sociedade de Jesus, posteriormente em 1534 fora reconhecida como Companhia de Jesus, sendo Francisco seu co-criador. Em 1537 Francisco fora ordenado padre, e passou algum tempo trabalhando em Roma, pois a ideia dele, de Inácio e dos demais era realizar uma peregrinação a Jerusalém, mas devido a insegurança gerada entre a rivalidade de muçulmanos e cristãos, eles acabaram desistindo da viagem. A missão dos jesuítas como ficariam conhecidos os membros da Companhia de Jesus que só veio a ser oficializada em 1541, era de evangelizar, ensinar e ajudar. Os jesuítas assim como os franciscanos também fazem voto de pobreza. 

No ano de 1540 o papa Paulo III recebera uma mensagem do rei de Portugal, D. João III pedindo que enviassem um novo missionário, pois Nicolau de Bobadilla que partiria com Simão Rodrigues para as Índias, acabou adoecendo gravemente. Na ocasião, o rei fora sugerido a procurar pelos jesuítas, então Inácio de Loyola sugeriu ao papa que nomeasse Francisco de Xavier para tal missão. Francisco chegou em Portugal e partiu no mesmo ano, chegando aportar meses depois em Moçambique, onde ficaram algum tempo aguardando bons ventos para seguir viagem a Índia. Em 1542 eles chegaram em Goa na Índia, chegando em maio. Pelos dez anos seguintes, Francisco de Xavier se dedicaria a pregação, conversão e ao ensino, viajando pela Índia, Málaca, as Ilhas das Especiarias (nome dado a algumas ilhas da atual Indonésia), chegou a viajar para Macau na China e fora o primeiro padre a ordenar uma missão oficial ao Japão em 1549, onde permanecera até 1551, tendo com a ajuda de cônegos, convertido os primeiros japoneses ao Cristianismo, e fundando as bases para uma missão jesuítica no país. 

São Francisco Xavier ficou conhecido como um homem de fala alegre, educado, inteligente, amigo, devoto a evangelização; um homem simples e aventureiro, pois não mediu esforços para ir a terras longínquas e estranhas para conhecê-las e levar a palavra do Senhor. São Francisco Xavier também é conhecido como "O Apóstolo das Índias" e o "Apóstolo do Oriente"

Logo, como sugerem o papa Francisco escolheu este nome como forma de aludir as pessoas dos dois santos mencionados, em se unir a devoção que ambos mostraram em suas épocas: o apoio de São Francisco aos pobres, necessitados e doentes e a devoção missionária de São Francisco de Xavier de levar a palavra de Deus a terras distantes e ao mesmo tempo procurar integrar os cristãos do mundo. No entanto, os resultados disso só saberemos com o tempo. 

Polêmica envolvendo o papa Francisco e a Ditadura Militar Argentina

Segundo alguns jornais, como o Pagina 12, no ano de 1976 durante o período ditatorial argentino, Bergoglio na época era chefe da Ordem dos Jesuítas no país, e teria sido omisso em relação a outros dois padres jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, os quais realizavam trabalhos em comunidades carentes em Buenos Aires, algo que os militares não gostaram, então os sequestraram e os torturam, pois pensavam que os dois jesuítas fossem espiões, ou estivessem pregando ideias contrárias a ditadura vigente. A acusação que recaí sobre Bergoglio é que o mesmo sabia do sequestro dos dois, mas nada fizera para resgatá-los. 

"As acusações são mencionadas no livro Iglesia y Dictadura, de Emílio Mignone, publicado em 1986, e em O Silêncio, de 2005, escrito pelo jornalista investigativo e ex-guerrilheiro argentino Horacio Verbitsky". (BBC Brasil).

Todavia, Bergoglio negara que fora omisso aos sequestros dos dois jesuítas e em 2010 voltou a negar novamente, chegando a dizer que até mesmo tentou resgatá-los.  

""Me reuni duas vezes com o comandante da Marinha nesse momento, com Massera", afirmou Jorge Bergoglio há três anos no tribunal de Buenos Aires que julgou os crimes cometidos na maior prisão da última ditadura (1976-1983), a Escola de Mecânica da Marinha (Esma), sob a direção de Massera". (Abril).

No dia 15 de março de 2013, o padre Francisco Jalics, negou a se pronunciar a respeito deste incidente, mas desejou paz e boa sorte ao novo papa. Jalics diz que depois que ele Yorio foram soltos, eles chegaram a conversar com Bergoglio, porém, o mesmo não comentou acerca desta conversa. Hoje Jalics vive na Alemanha, e Yorio, já falecera há alguns anos.

Acerca desta acusação, o juiz argentino Gérman Castelli se pronunciou em 16 de março de 2013, dizendo que as acusações contra Bergoglio não eram conclusivas e de ralo fundamento, logo, o tribunal as rejeitou por não as considerarem como sendo verdadeiras. 

"É totalmente falso dizer que Jorge Bergoglio entregou os padres. Nós analisamos, escutamos esta versão, vimos as evidências e entendemos que sua atuação não teve implicações jurídicas nestes casos. Em caso contrário, teríamos denunciado", disse Castelli ao jornal La Nación". (Exame.com). 

O segundo crime pelo qual o papa é acusado há alguns anos, é que durante a última ditadura argentina (1976-1983) teria também estado envolvido no desaparecimento de um bebê, na época a pequena Ana de La Cuadra que fora sequestrada pelos militares. Além dela, sabe-se também que outras crianças foram sequestradas pelos militares durante este período. O envolvimento do papa na época se dera no fato que a avó de Ana, a qual era co-fundadora da  organização, Avós da Praça de Maio, escrevera para Bergoglio pedindo a sua ajuda para encontrar a neta e a filha Elena, no entanto, a acusação partira da irmã de Elena, Estela de Carlotto, a qual acusara Bergoglio de ter sido omisso em ajudar, e ter mentido que desconhecia o fato do desaparecimento de crianças durante a Ditadura Argentina, pois Bergoglio nos anos 80, dissera que só veio saber acerca deste fato após o fim da ditadura. 

Recentemente, Estela de Carlotto, hoje líder das Avós da Praça de Maio, dissera  a Rádio La Red, que a organização mantem o discurso, e está aberta para ouvir o pronunciamento do papa Francisco acerca deste fato. A acusação ainda corre na justiça, mas ficara enfraquecida nos últimos anos, sendo revivida recentemente com a eleição de Bergoglio ao papado. 

""Tenemos confianza y siempre con los abiertos los brazos y el corazón para escuchar. Si alguien tiene que rendir algo a la historia, corre por cuenta de esa persona", afirmó Carlotto en la entrevista radial". (La Nácion). 

Todavia, o Vaticano se pronuncia oficialmente defendendo a inocência do papa perante estas acusações.

"Nunca houve uma acusação concreta e crível contra ele", disse o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, acrescentando que o papa - ainda enquanto cardeal Jorge Mario Bergoglio - nunca foi formalmente acusado. Lombardi atribuiu as críticas a Bergoglio a "elementos esquerdistas anticlericais sendo usados para atacar a Igreja". (BBC Brasil). 

"Ao mesmo tempo, o Prêmio Nobel da Paz argentino, Adolfo Pérez Esquivel, também saiu em defesa do novo papa, dizendo à BBC Mundo que ele "não tinha vínculos com a ditadura". (BBC Brasil).

Como as acusações ainda não foram oficialmente encerradas, embora o parecer do juiz Castelli acerca do sequestro dos padres Jalics e Yorio seja contundente, a  segunda acusação ainda está em aberto, por mais que alguns defendam a inocência do papa. A resposta disto só teremos pela frente. 


NOTA: Ao todo existem seis santos com o nome Francisco. Os outros quatro são: São Francisco de Paula (1416-1557), São Francisco de Borja (1510-1572), São Francisco de Sales (1567-1622) e São Francisco Coll Guitart (1812-1875). 
NOTA 2: O nome de São Francisco de Xavier também pode ser grafado como São Francisco Xavier, sem o uso do (de). 
NOTA 3: O dia litúrgico de São Francisco de Assis é em 4 de outubro, já o dia litúrgico de São Francisco Xavier é em 3 de dezembro
NOTA 4: O papa Bento XVI fora o primeiro papa a ser eleito no século XXI, como também o primeiro papa a renunciar ao pontificado no mesmo século. 
NOTA 5: Na História houveram vários papas franciscanos, curiosamente o papa Francisco é o primeiro jesuíta.
NOTA 6: Os papas que tiveram os três maiores pontificados foram: São Pedro, o Apóstolo que teria governado 34 anos, de 33 a 67 (todavia alguns historiadores não consideram o pontificado de São Pedro o mais extenso, pois faltam documentos que comprovem o início de seu papado); Pio IX que governou por 31 anos, 7 meses e 23 dias, de 1846 a 1878, e em terceiro lugar, João Paulo II, que governara por 26 anos, 5 meses e 7 dias, de 1978 a 2005
NOTA 7: Bento XVI decidira homenagear Bento XV o qual fora papa de 1914-1922, pelo mesmo ter tentado promover o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) , o que lhe rendera a alcunha de "o papa da paz". Além disso, ele promoveu uma reforma administrativa no Vaticano, a fim de adaptá-lo ao século XX. 
NOTA 8: O papa Bento XVI em sua visita ao Brasil em 2007, o país com o maior número de católicos no mundo, ele canonizou o primeiro santo brasileiro, Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, mais conhecido como Frei Galvão
NOTA 9: O primeiro papa a ser eleito na Capela Sistina, quando se passou a ser regular a realização do conclave na mesma, fora o papa Alexandre VI em 1492. Alexandre VI se chamava Rodrigo Bórgia, e sua família fora bem influente e polêmica nesta época. 
NOTA 10: No século XX e início do XXI, os conclaves duraram poucos dias, sendo os mais extensos tendo durado cinco dias. No entanto, o maior período de tempo que o papado ficara vacante aconteceu entre 304 e 308, onde após a morte do papa São Marcelino, o papado ficara vago por quatro anos. 
NOTA 11: Dos 50 primeiros papas, 48 se tornaram santos. Dos papas que concorrem a canonização o mais recente é o beato João Paulo II. 
NOTA 12: Na história da Igreja apenas quatro papas renunciaram ao pontificado. Ponciano renunciou em 235, após ter assumido o papado em 230. Celestino V renunciou em 1294, poucos meses após assumir o pontificado, alegando que não estava preparado para ter assumido o papado. Gregório XII renunciou em 1415 e, por fim Bento XVI, tendo renunciado em 2013

Referências Bibliográficas:
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 18, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 22, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
MONIZ, Antônio Manuel de Andrade. A evangelização do Japão na óptica de Fernão Mendes Pinto. In: O Século Cristão do Japão: Actas do colóquio internacional comemorativo dos 450 anos de amizade Portugal-Japão (1543-1993). Lisboa, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa e Instituto de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1994. 

Referências da internet:
http://g1.globo.com/mundo/novo-papa-francisco/platb/
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/03/130315_escolha_francisco_papa_jp_tp.shtml
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/03/130315_biografa_papa_personalidade_humor_jp_mc.shtml
http://www.vatican.va/news_services/press/documentazione/documents/cardinali_biografie/cardinali_bio_bergoglio_jm_it.html
http://g1.globo.com/mundo/novo-papa-francisco/noticia/2013/03/g1-no-vaticano-papa-francisco-fala-sobre-escolha-do-nome.html
http://es.wikipedia.org/wiki/Papa_Francisco
http://www.lanacion.com.ar/681078-el-candidato-bergoglio-il-papabile
http://www.lavozdegalicia.es/noticia/informacion/2013/03/13/francisco-i-jorge-mario-bergoglio-nuevo-papa/00031363202152310484709.htm
http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/renuncia-do-papa/conheca-papas-que-renunciaram-e-o-que-aconteceu-apos-saida-do-vaticano,3d3bff68a3ecc310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html
http://visaoregional.com.br/2013/02/27/infografico-mostra-historia-do-papa-bento-16/
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/index_po.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Bento_XVI
http://os10maiores.blogspot.com.br/2010/07/os-10-pontificados-mais-longos-da.html
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/05/publicacao-de-cartas-secretas-do-papa-gera-escandalo-na-italia.html
http://www.publico.pt/vatileaks
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/jesuita-sequestrado-durante-ditadura-argentina-se-diz-em-paz-com-o-papa?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ExameMundo+(EXAME+Mundo)
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/justica-argentina-rejeitou-acusacoes-contra-o-papa-por-desaparecidos
http://www.lanacion.com.ar/1565882-carlotto-admite-que-ya-no-va-a-hablar-mas-del-papa-francisco

domingo, 17 de março de 2013

Uma breve história das Entradas e Bandeiras

O movimento das entradas e das bandeiras marcaram um ciclo importante da história colonial brasileira, pois tantos as bandeiras como as entradas foram responsáveis por moldar geograficamente o Brasil, parecido com a atual forma geográfica que ele possui hoje nos mapas. Não obstante, além do intuito desbravador e expansionista, as entradas e bandeiras foram expedições belicosas, onde se infiltravam nos sertões atrás de caçar índios para serem escravizados, como também de ir confrontar povos invasores, ou se tornarem os próprios invasores, como foi visto principalmente entre as bandeiras do século XVII, no sul da colônia.

As entradas e bandeiras também adentravam os sertões atrás de riquezas minerais, no que resultou na descobertas de minas de ouro no final do século XVII. Tais expedições também foram responsáveis pela defesa de vilas, cidades e das terras das colônias; e no caso das entradas, estas também foram incumbidas de fundarem vilas, fortes, fortalezas e cidades, no sentido de iniciar a ocupação de áreas desertas da colônia. Limitar tais expedições meramente ao intuito expansionista, é um engano, pois suas funções foram além disso, e suas contribuições foram profundas, embora que em alguns casos foram terríveis e sangrentas.

Devido a brevidade deste texto, não pude citar outras entradas e bandeiras, mas procurei construir um enredo que desse atenção aos principais acontecimentos. 

O CICLO DAS ENTRADAS
(1504?-1696)

As entradas foram expedições organizadas e preparadas por autoridades vinculadas ao governo colonial ou diretamente pela própria Coroa portuguesa, e no caso, também a Coroa espanhola, durante o período da União Ibérica (1580-1640), onde as duas nações foram regidas pelo mesmo soberano. Como foi salientado na breve introdução, a proposta inicial das entradas era explorar os sertões, termo que designava as terras interioranas que estivessem longe da costa, onde tais expedições iam no intuito de mapear a região e descobrir a evidência de metais preciosos e joias. 

Posteriormente as entradas receberam a missão de irem caçar ou prear indígenas para o trabalho escravo, como também fundar fortalezas, vilas e cidades, no intuito colonizador, e também foram organizadas entradas paramilitares para defender as terras coloniais de invasões ou da ameaça dos próprios indígenas. Neste caso, como será visto mais a frente, as bandeiras se tornaram expedições mais bélicas do que as entradas em si. 

Estudar a história das entradas é um pouco trabalhoso, pois muitas entradas não deixaram registros históricos, relatórios ou diários de viagem, por outro lado, alguns relatos são contraditórios ou de veracidade duvidosa; e, num terceiro aspecto, alguns destes relatórios acabaram se perdendo ao longo do tempo. 

O relato mais antigo conhecido de uma entrada que se tem notícia, como afirmava Magalhães (1978), advêm de dois historiadores brasileiros, Capistrano de Abreu (1853-1927) e de Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), onde Varnhagen descobriu uma carta escrita pelo navegador, mercador, geógrafo e explorador italiano Américo Vespúcio (1454-1512), o qual no ano de 1504 a serviço a Coroa portuguesa, teria realizado a primeira entrada conhecida, como atestara Capistrano de Abreu em sua tese Descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI, escrita para um concurso em 1883, onde ele falou o seguinte: 

"A primeira entrada de que há notícia deu-se em 1504, ano em que Vespucci, acompanhado de uns trinta homens, penetrou umas 40 léguas pelo sertão do Cabo Frio, provavelmente para os lados do rio São João ou de qualquer dos seus afluentes. Gonçalo Coelho é bem possível que, no tempo que demorou no Rio de Janeiro, houvesse tentado empresa semelhante; não está porém, isto provado". (MAGALHÃES, 1978, p. 16-17 apud ABREU, 1883, p. 703). 

Sabe-se que desde 1502, Américo Vespúcio vinha participando de viagens navais ao longo da costa do Brasil, e sua entrada em Cabo Frio no Rio de Janeiro, foi real. A respeito dessa entrada, a podemos hoje ler ao seu respeito, graças a tradução feita por Varnhagen. Sobre esta carta, menciono trechos no qual Américo refere-se a sua estadia na costa do Cabo Frio.

"Achámos com effeito a terra populosa e habitada por uma nação peior que féras, como ouvirá. E V. Magnificencia entenderá que ao principio não vimos ninguem; mas concluimos que havia homens por muitos signaes que observámos. Tomámos posse do paiz em nome do d'este Serenissimo rei de Portugal, e o achámos muito ameno, viçoso, de boa apparencia, e situado além da equinocial cinco para o sul; isto feito voltámos para as náos; e porque tinhamos grande necessidade de agua e lenha, nos resolvemos, no dia seguinte, a tornar á terra para fazer nosso provimento". (RIHGB, 1878, p. 9 apud VESPÚCIO, 1504). 

Vespúcio narrou que nos dias que eles permaneceram ancorados na costa, mais e mais indígenas iam visitar os navios, mas jamais chegavam perto, olhavam com olhares de curiosidade e receio. Alguns tripulantes chegaram a trocarem mercadorias com os índios, e até foram apalpados, tiveram os cabelos puxados, foram cutucados, por mulheres e homens, pois como Vespúcio escreveu: para os índios, os brancos eram um "animal estranho e curioso". No dia seguinte a este contato, Vespúcio narrou:

"Na manhã seguinte vimos das náos que a gente da terra fazia muitos fumos, e pensando que seria para chamar-nos desembarcámos, e conhecemos  que se tinha ajuntado em grande numero, mas conservaram-se todavia a distancia, accenando-nos para que fossemos a elles por terra adentro. Em consequencia d'isto dois dos nossos se animaram a pedir licença ao capitão, para expôrem ao perigo de ir á terra vêr que gente era, e se tinha alguma riqueza ou especiaria, ou outras drogas; e tanto instaram até que o capitão o houve por bem. Apromptaram-se, pois, com muitas fazendas de resgate, e partiram com regimento de não porém mais de cinco dias para voltar; porque tanto era o tempo que deviamos esperar por elles. Tomaram caminho por terra, e nós para náos, das quaes viamos vir todos os dias gente á praia, mas sem quererem nunca fallar-nos". (RIHGB, 1878, p. 9 apud VESPÚCIO, 1504). 

Cinco dias se passaram e a expedição retornou, no entanto dois dias depois, quando alguns tripulantes foram falar com as índias que estavam na costa, um deles foi golpeado na cabeça e capturado, logo, os homens apareceram e dispararam flechas contra os demais, assim como narra Vespúcio. Segundo ele, o homem capturado foi esquartejado e devorado pelas índias, a tripulação queria descer a terra e matar aqueles selvagens, mas o capitão preferiu ir embora, voltando a seguir viagem para o norte. Talvez tenha sido exagero de Vespúcio a questão do canibalismo, pois embora esse fosse uma prática comum entre algumas tribos, o canibalismo era feito no intuito ritualístico, a chamada antropofagia, e não consistindo num hábito alimentar como os europeus imaginavam. 

Todavia, alguns historiadores não aceitam plenamente o relato de Vespúcio como tendo sido uma entrada, mas apenas uma expedição de mera curiosidade. Porém, depois deste relato, não se conhece nenhum outro relato de entrada até pelo menos o ano de 1530, quando ocorreram as três entradas lideradas por Martim Afonso de Sousa.

As entradas de Martim Afonso de Sousa (1530-1532)

"As primeiras expedições lusitanas, baseadas em provas incontrastáveis, na fase inicial de nossa História, e em demanda do interior, com o fito de descobrimento de minas ou com outro intuito, devem-se à arma de Martim Afonso de Sousa, e foram em número de três". (MAGALHÃES, 1978, p. 17). 


Martim Afonso de Sousa
Martim Afonso de Sousa (1490/1500-1571) embora fosse de descendência bastarda do rei Afonso III de Portugal, Martim se tornara um respeitado nobre e militar do reino. Atuou em expedições em África, nas Índias e no Brasil. Assumiu cargos importantes, incluindo o cargo de Governador da Índia, entre 1542 e 1545. Em 1530, Martim foi enviado ao Brasil no comando de quatro naus e cerca de quatrocentos homens, no intuito de realizar entradas, a fim de procurar por sinais de riquezas minerais. Os relatos de sua missão foram escritos pelo seu irmão Pero Lopes de Sousa (1497-1539), o qual escreveu o Diário da navegação da Armada que foi à terra do Brasil em 1530. Pelos relatos dados por Pero, em 30 de abril de 1531 a expedição aportou na baía de Guanabara, onde Martim ordenou que quatro marujos fossem explorar a região; os mesmos num prazo de 60 dias, percorreram 23 léguas. Porém, o relato de Pero aponta o contrário, e de certa forma um tanto exagerado. Pero Lopes diz que os quatro marujos teriam percorrido 230 léguas em dois meses, onde teriam encontrado um "rei indígena" o qual os acompanhou na viagem de volta, entregando para o capitão, cristais, e dizendo que havia ouro e prata no rio de nome Paraguai

O problema desta história como aponta Magalhães é que ela pouco provável. O historiador Derby chegou a dizer que, se essa distância tenha sido realmente percorrida que é pouco provável, os quatro portugueses teriam chegado no que hoje é o estado de Minas Gerais. Acerca dos cristais, estes provavelmente foram cristais de quartzo, mas o problema reside acerca do rio Paraguai, pois essa região ainda estava sendo explorada pelos espanhóis e os portugueses, e naquela época sabiam muito pouco a respeito. Provavelmente Pero Lopes ou se equivocou com o nome do rio, ou apenas mencionou um suposto boato. 


"Duvidamos muito de que quatro portugueses, sem guias indígenas (exceto na volta) e sem intérprete, se houvessem aventurado a um embrenhamento tão profundo em nosso hinterland. Não é brincadeira palmilhar no curto espaço de 60 dias, 130 léguas sobre serras matagosas e 100 em região campestre, logo após a estação das águas". (MAGALHÃES, 1978, p. 17).


A segunda entrada partiu em 1 de setembro, a partir dos boatos que Francisco de Chaves um dos membros da tripulação, o qual havia contado ao capitão Martim Afonso. O capitão Afonso acabou acreditando na história de Francisco, o qual dissera que havia numa entrada anterior, conseguido encontrar ouro numa localidade próxima a costa. Martim designou Pero Lobo, o responsável por comandar um grupo de 80 homens, os quais seriam guiados por Francisco de Chaves. 


Um mês e meio depois, nenhuma notícia tiveram da entrada de Pero Lobo. Meses se passaram e nada a respeito sabiam sobre a entrada enviada, constatou-se que eles ou se perderam ou morreram. Até hoje não se sabe ao certo o que aconteceu, mas sabe-se que dos oitenta integrantes nenhum retornou vivo. Acredita-se que eles foram mortos pela tribo dos Carijós, tribo que vivia na região para onde eles se dirigiram.  

A terceira entrada partiu no final de 1531, da região de Cananeia, hoje município de São Paulo, por via marítima, onde Pero Lopes liderou uma nau em direção ao estuário do rio da Prata, pois sabia-se que havia notícias que em 1515, um português de nome Solis, a serviço de Espanha, encontrara prata naquele rio. Porém, a expedição de Pero Lopes adentrou o rio e o seguiu por algumas léguas, mas nenhum vestígio do metal foi encontrado, e Pero constatou que aquelas terras estavam fora dos limites do Tratado de Tordesilhas, o que significava uma invasão dos domínios espanhóis. O mesmo, abortou a entrada e retornou para se encontrar com seu irmão.


Em 22 de janeiro de 1532, Martim Afonso de Sousa fundou a primeira vila do Brasil, chamada de Vila de São Vicente, na ilha homônima. A vila viria em 1534 se tornar capital da Capitania de São Vicente, quando no mesmo ano, o rei D. João III criou as Capitanias Hereditárias. Martim Afonso foi nomeado capitão donatário de São Vicente. 



Fundação de São Vicente, Benedito Calixto, 1900. 
Com início do pequeno núcleo urbano de São Vicente, Martim Afonso de Sousa começou a dar início a construção de um engenho, ao cultivo da cana de açúcar, a criação de gado e o assentamento dos colonos. Martim Afonso retornou para Portugal em 1533, e no ano seguinte, seguiu para a Índia. No entanto, oficialmente era o proprietário da capitania, devido ao contrato vitalício decretado por D. João III. 

Em 1536, Brás Cubas um dos responsáveis pela administração da vila, criou na mesma ilha o povoado de Santos (em 1546, o povoado foi reconhecido como vila). No continente em 1539, Pero de Góis, às margens do rio Itabapuana fundou a Vila da Rainha.

João Ramalho (1493-1580) havia formado um povoado por volta de 1531, no planalto onde vivia com os indígenas da tribo dos Guainases e seus filhos mestiços, pois desde 1513, Ramalho habitava a região, pois acabou naufragando naquelas terras. O povoado em 1553, foi elevado a categoria de vila, passando a se chamar Vila de Santo André do Campo da Borda do Piratininga, na ocasião, Brás Cubas e Antonio de Oliveira realizaram uma entrada até a região, a qual ficava no planalto do Piratininga algumas léguas de distância da capital da capitania. Com ordens dadas pelo capitão Martim Afonso, eles fundaram a vila mencionada. Antonio de Oliveira se mudou para a vila com a família e levou outros colonos para povoá-la. 


Em 25 de janeiro de 1554, foi fundado pelos jesuítas padre Manuel da Nóbrega e o irmão José de Anchieta, com o apoio da entrada de Brás Cubas e Antonio de Oliveira, e o apoio de João Ramalho e o cacique Tibiriça (sogro de Ramalho), o Colégio de São Paulo do Piratininga



Vista atual do Pátio do Colégio de São Paulo do Piratininga, fundado em 1554. Consistindo na primeira construção do que viria a ser a vila de São Paulo, a atual cidade de São Paulo. 
Entradas pela Bahia (1538-1592)

Como a proposta deste trabalho é fazer uma breve história das entradas e das bandeiras, não poderei me reter a relatar cada entrada a qual tive fonte, pois algumas necessariamente não tiveram muitos dados acerca de sua missão, ou apenas foram mencionadas por cronistas.

Sabe-se que desde 1538 houve algumas entradas naquele ano pelos sertões da Bahia, muitas haviam partido de Porto Seguro, e um dos motivos para a partida de algumas destas entradas foram os boatos sobre a existência de esmeraldas no interior da capitania. Duarte Coelho, capitão donatário de Pernambuco, tentou pedir autorização ao rei para liderar uma entrada aos sertões, atrás de esmeraldas, em 1542, ele mandou uma carta para o rei D. João III, mas este recusou em decretar a entrada, o rei tinha outras preocupações no momento. 

Anos depois, o governo-geral foi criado em 1548, por D. João III, o qual nomeou o nobre Tomé de Sousa (1503-1579) para se tornar o primeiro governador-geral, e fundar a primeira cidade e capital da colônia, a qual veio a ser Salvador, na Capitania da Bahia de Todos os Santos. Salvador foi fundada em 1549. Junto com Tomé de Sousa, vieram vários trabalhadores, oficiais para assumir os cargos criados para a capital, famílias, escravos, cabeças de gado e missionários jesuítas, os primeiros a chegarem na colônia.


Em 1550, o governador enviou Miguel Henriques numa entrada para se adentrar o rio São Francisco pela foz, porém o navio que a expedição seguia, acabou naufragando e a entrada foi cancelada. O governador cogitou pedir que Filipe de Guilhem que já havia participado de entradas anteriores, lidera-se uma nova entrada, mas este devido a idade, disse que não tinha forças para realizar tal viagem, logo em 1553, Tomé de Sousa escolheu o espanhol Francisco Bruza Espinosa para liderar uma entrada pelos sertões da Bahia. 


Tomé de Sousa deixou o cargo no mesmo ano, pois chegou ao fim de seu mandato, porém seu sucessor Duarte da Costa manteve a ideia da entrada, e em março de 1554, a pequena expedição de Espinosa, composta de 13 europeus, incluindo  o padre João de Azpilcueta Navarro (o qual relatou a viagem posteriormente) e mais alguns índios, partiu de Porto Seguro indo percorrer 350 léguas, levando meses de viagem. Sobre o itinerário da viagem, Calógeras nos apresenta uma das melhores versões:

"Entrou pelo rio das Caravelas, margeou além o Jequitinhonha, e, das cercanias da Diamantina, a que atingira, chegou provavelmente ao São Francisco, seguindo um dos seus afluentes da margem direita, quiçá o Jequitaí, alcançando uma aldeia indígena junto ao Mangaí, e pelo rio Pardo, explorado desde as suas margens por essa entrada, foi presumivelmente feito o retorno dela, em 1555". (MAGALHÃES, 1978, p. 31-32 apud CALÓGERAS, p. 549).


Todavia não se sabe ao certo todo o trecho da viagem desta entrada, pois alguns historiadores têm dúvida acerca do nome dado aos afluentes por qual a entrada seguiu viagem, mas sabe-se que Francisco Bruza acabou fundando um povoado, o qual nomeou de Espinosa, hoje localizado no norte de Minas Gerais. Sua entrada não encontrou vestígios de ouro e nem de esmeraldas.


Em 1561, o vereador da Bahia, Vasco Rodrigues Caldas conseguiu autorização do governador-geral Mem de Sá para realizar uma entrada atrás de riquezas, mas depois de percorrerem algumas léguas pelo vale do Paraguaçu, sua entrada foi abortada devido a um ataque que sofreram dos Tupinaés. Outra entrada que falhou, foi a de 1567, liderada por Martim Carvalho, o qual com cerca de 60 homens, percorreu em oito meses, 220 léguas como relatou o padre Pero de Magalhães Gandavo. A entrada retornou sem sucesso, porém, por pouco não descobriram esmeraldas como seria atestado anos depois, em uma outra entrada que se dirigiu para o mesmo percurso.


Em 1572 ou 1573, ocorreu a entrada de Sebastião Fernandes Tourinho, conhecida por ter descoberto esmeraldas. Partindo com 400 membros, a entrada  partiu de Porto Seguro, percorreu o interior do sul da Capitania de Porto Seguro, indo em direção ao que hoje é o norte de Minas Gerais, e em um dado momento da jornada, eles encontraram algumas pedras verdes, retornando para Porto Seguro, foi avisado ao governador-geral Luís de Brito, a descoberta de tais gemas, assim o governador ordenou outra entrada para confirmar se haveria uma mina de esmeraldas no local onde as pedras foram encontradas. Antônio Dias Adorno foi incumbido de liderar essa entrada. 



Esmeralda em estado bruto. Para olhos distraídos ou inexperientes, tal pedra pode passar despercebida ou ser confundida com outras pedras, como a turmalina.
"Entrou pelo rio de Caravelas, e, ganhando o vale do Mucuri, foi buscar as vertentes do Araçuí, onde achou os sinais deixados por Tourinho, assim como amostras de minerais preciosos; das cabeceiras do último rio citado, alguns membros da expedição retrocederam, vindo sair no Atlântico, pela foz do Jequitinhonha, cujo leito desceram em canoas; Adorno, porém, com o resto de seu bando, transmudou a missão exploradora em caçadora de índios, tomando para tal fim o rumo do norte, donde regressou para o litoral com 7.000 selvagens reduzido a cativeiro". (MAGALHÃES, 1978, p. 34 apud CALÓGERAS, p. 389-390).

Antonio Dias Adorno acabou não encontrado as tão sonhadas minas de esmeraldas, mas encontrou indícios de outros minérios como ferro, cobre e estanho, a preação dos índios foi uma solução para ganhar dinheiro, pois embora já houvesse o comércio de escravos negros na colônia, estes eram mercadorias caras e nem todo mundo tinha dinheiro para comprá-los, por sua vez os índios eram mercadorias mais baratas. Muitas bandeiras se especializaram em caçar índios. 


Rei Filipe II de Espanha
No ano de 1580, o rei de Espanha Filipe II assumiu o trono português, pois o último rei português, o cardeal D. Henrique I não tinha filhos, e devido a idade avançada governou apenas por dois anos. Seis pretendentes ao trono apareceram, mas pelo o fato de Filipe II contar com um exército e ser o mais rico e poderoso do que os outros, conseguiu convencer os lordes portugueses da Corte de Tomar, em elegê-lo rei de Portugal, assim iniciava-se o período conhecido como União Ibérica, que se estenderia por 60 anos, sendo governado por Filipe II, depois o seu filho e neto. Durante esse período, Portugal e seu império ultramarítimo ficou sob o domínio espanhol, e de certa forma isso gerou problemas para os antigos domínios espanhóis, como será visto na parte que falo a respeito das bandeiras.

Em 1590, Gabriel Soares voltava de Lisboa para Porto Seguro, tendo sido incumbido pelo rei espanhol de comandar uma nova entrada. Soares trouxera consigo 364 pessoas entre mulheres e homens, o que incluía quatro carmelitas. Todavia, a entrada ocorreu apenas dois anos depois, em maio de 1592. Gabriel Soares partiu com sua entrada contendo mais de 200 índios auxiliares, se dirigindo a Serra do Gariru (hoje Quareru), lá eles levantaram um forte, para servir de apoio a outras entradas e dar início a uma povoação no local, porém Soares acabou adoecendo e veio a falecer. D. Francisco de Sousa, capitão-mor de Porto Seguro, ordenou que a entrada fosse cancelada e o forte abandonado. Mais uma entrada entre tantas outras que haviam partido nos últimos anos, fracassou em se descobrir ouro e esmeraldas. 


Em busca de ouro e prata em São Paulo (1560-1562/1601-1602)


Das várias entradas que aconteceram na Capitania de São Vicente, posteriormente batizada de Capitania de São Vicente e São Paulo, e finalmente Capitania de São Paulo, por mais de cinquenta anos muitos se aventuraram a procura de ouro na região, de fato conseguiram encontrar ouro em pouca quantidade, mas conseguiram. Todavia, as descobertas de ouro em São Paulo se deram principalmente pelas bandeiras em si, e não pelas entradas, porém farei menção a três entradas em especial.


A primeira entrada conhecida em São Paulo para ir descobrir ouro, data de 1560, onde o governador-geral Mem de Sá, ordenou que Brás Cubas fosse procurar ouro. Segundo consta o relato acerca de sua expedição, Cubas teria adentrado cerca de 300 léguas, todavia há contestações acerca desta distância. Em 1561 ele acabou adoecendo, e teve que cancelar a entrada, retornado no ano seguinte para São Vicente. Cubas ainda conseguiu trazer consigo amostras de minerais encontrados, uma supunha-se ser ouro, mas não era ouro, e as pedras verdes que encontrou não eram esmeraldas, mas turmalinas. 


Na mesma época que Brás Cubas partiu, Luís Martins o qual também foi incumbido de procurar por ouro e joias, seguiu cerca de 30 léguas ao norte de Santos, onde o mesmo atestava que havia encontrado ouro, todavia o suposto ouro de "boa qualidade" que ele atestava, não era ouro, provavelmente deveria ser perita, o chamado "ouro dos tolos", minério parecido com ouro na coloração.   


Nos anos seguintes outras entradas foram enviadas para procurar ouro, e boatos começaram a surgir da existência do mesmo, como será atestado na parte acerca das bandeiras. Em 1601, André de Leão foi incumbido pelo governador-geral D. Francisco de Sousa, de viajar para o norte da capitania em busca de prata, pois por essa época corriam nas capitanias da Bahia, Sergipe e Espírito Santo a história da Sabarabuçu, a qual seria supostamente uma serra feita de prata. 


Além de Sabarabuçu havia também a história do Reino de Payati, o qual seria rico em ouro e prata, e ficaria localizado em algum lugar no centro do continente. A viagem de Leão durou nove meses, como atesta o holandês Wilhelm Joost ten Glimmer o qual viajou junto a bandeira. Glimmer relata que chegando numa região cheia de serras, Leão teria dito que naquele lugar ficaria a tal serra de Sabarabuçu, todavia, nenhum sinal de prata foi encontrado, e a entrada retornou sem êxito. Sete décadas depois, o bandeirante Fernão Dias Paes passaria pela região atrás de esmeraldas. 


A entrada de Cristóvão de Barros (1574-1575)

Em 1565, foi fundada a segunda cidade do Brasil, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por Estácio de Sá. Em 1572, a Coroa decidiu fazer uma experiência, nomeou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro co-capital administrativa da colônia, a incumbido de cuidar da administração das capitanias do Sul, enquanto Salvador faria o mesmo com as capitanias do Norte. 


No ano de 1573, o então governador do Rio de Janeiro Antônio Salema, ordenou Cristóvão de Barros para organizar uma entrada punitiva, a fim de atacar os tupinambás. A entrada mencionada é uma das primeiras que se tem notícia onde o objetivo não era desbravar, mas sim exterminar os gentios. De acordo com o relato do Tratado descritivo do Brasil em 1587, escrito por Pero de Magalhães Gandavo (1540-1580), publicado postumamente, o cronista português relatou que a entrada de Cristóvão de Barros, contou com 400 homens e 700 índios, e realizaram uma verdadeira razia (incursão rápida e violenta), tendo matado centenas de índios e capturado de oito a dez mil destes. Não se tem certeza da veracidade do número de indígenas feitos cativos e mortos, mas sabe-se que a entrada foi uma das mais violentas que aconteceu. 


Entradas relatadas por frei Vicente de Salvador no ano de 1578


Frei Vicente de Salvador (1564-1636) em sua História do Brasil, nos deixou relatado algumas entradas. O frei nos conta que em 1578 partiu de Ilhéus na Bahia, a entrada de Luís Álvares Espinha que se meteu pelo sertão, e nunca mais se soube a respeito. De Pernambuco partiram Francisco de Caldas e Gaspar Dias de Taíde com uma entrada que seguiu o curso do rio São Francisco, sertão adentro. No entanto, depois de dias de viagem e léguas percorridas, um dos indígenas que era guia da expedição, chamado de "Braço de Peixe", traiu os colonos, e uma rebelião se instaurou e a entrada teve que ser abandonada. 


Ainda de Pernambuco, partiu a entrada de Francisco Barbosa da Silva com cerca de 70 homens, liderada por Diogo de Castro. Depois de dias de viagem, a entrada alcançou o rio Cotinguiba, na Capitania de Sergipe, após ter sobrevivido a ataque de índios pelo caminho, os quais mataram parte dos membros da expedição. 

"O temor de uma possível invasão de indígenas e a necessidade de uma via terrestre de comunicação entre a Bahia e Pernambuco determinaram a conquista definitiva da orla marítima de Sergipe, missão de que galhardamente desempenhou Cristóvão de Barros". (MAGALHÃES, 1978, p. 24). 


Tais entradas citadas pelo frei, tinham como objetivo procurar riquezas e estabelecer povoados, como também reconhecer o território. Pois de Olinda  a Salvador, muitas daquelas terras estavam desocupadas, e o medo de que tribos indígenas que ali viviam pudessem atacar as vilas e os canaviais, era grande como Magalhães apontou. 


Além disso, havia o fato de que os franceses aproveitavam estas brechas na ocupação do território brasileiro, para irem roubar pau-brasil. Tal fato foi um dos motivos que levou o governo-geral a criar a Capitania Real da Paraíba (1585), pois naquelas terras que antes pertenciam a Capitania de Itamaracá, várias vezes foram avistados navios franceses os quais partiam carregados com pau-brasil. 

Fundação da Paraíba e ocupação do Rio Grande do Norte

Antes de 1574, duas entradas lideradas por Diogo Dias Fernão da Silva, falharam em se estabelecer a ocupação da região norte da Capitania de Itamaracá, mais precisamente na desembocadura do rio Sanhauá, um dos afluentes do rio Paraíba. Grande parte da capitania itamaraquense estava desocupada e não era explorada, isso permitiu que os franceses fossem ali realizar contatos com os indígenas, especialmente os Potiguaras, como também extrair pau-brasil. 


Em 1574, a situação piorou quando o Engenho de Tracunhaém foi incendiado pelos potiguaras, devido a uma confusão gerada entre os colonos e um grupo de potiguaras que ali passou a noite, onde uma índia acabou sendo sequestrada, sendo que esta era filha do cacique. Os índios foram embora e retornaram com reforços e massacraram a população local, destruindo o engenho e resgatando a índia.

O governador-geral Luís de Brito enviou uma carta ao rei D. Sebastião I avisando sobre o ocorrido, o rei ordenou que o governador-geral fundasse um forte na foz do rio Sanhuá, e de-se início a ocupação daquela região, fundando uma vila. Alguns historiadores não consideram que as cinco expedições enviadas para se conquistar a Paraíba tivessem sido entradas, todavia, dez anos transcorreriam de duras derrotas aos portugueses onde Frutuoso Barbosa, responsável por liderar duas das expedições (entradas) quase morreu e enlouqueceu, pois embora tenha se fundado um forte na margem norte do rio Paraíba, chamado de Forte de São Filipe e Santiago (1584), o mesmo foi duramente atacado pelos potiguaras e os franceses. 


Apenas em 1585 com o apoio da tribo dos Tabajaras, inimigos de longa data dos Potiguaras, é que Portugal teve chance de subjugar os potiguaras. O acordo foi feito em 5 de agosto daquele ano, entre João Tavares, escrivão da Câmara e Juiz de órfãos de Olinda e o cacique Piragibe. Assim foi fundada a Capitania da Paraíba e a cidade de Nossa Senhora das Neves (atualmente João Pessoa), a terceira cidade mais antiga do Brasil. 

Com a nova capitania estabelecida e a capitania de Itamaracá reduzida a ilha de mesmo nome, o governo-geral constatou que isso não seria o suficiente, pois o território da Capitania do Rio Grande (do Norte) que anteriormente compreendia parte da Capitania da Paraíba antes de sua criação, era praticamente despovoado pelos colonos, e isso facilitava a ida de navios franceses para explorarem o pau-brasil. A solução veio dez anos depois da fundação da Paraíba. 


"A ocupação do Rio Grande do Norte efetuou-se em fins do século XVI, com a expedição chefada por Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor de Pernambuco, e da qual fizeram parte Feliciano Coelho, capitã-mor da Paraíba, e Jerônimo de Albuquerque. Auxiliado por estes, aquele, a 6 de janeiro de 1596, lançou os fundamentos do forte dos Santos Reis Magos; e Jerônimo de Albuquerque  25 de dezembro de 1599, demarcou, junto à dita fortaleza, da qual ficara como comandante, o local onde surgiu a cidade de Natal. A conquista daquele trato de terras foi devida ao temor de incursões francesas, e o seu desenvolvimento posterior está ligado também à segunda grande invasão batava. (MAGALHÃES, 1978, p. 25). 



Em primeiro plano a Fortaleza dos Três Reis Magos, fundada em 1596. Aos fundos a cidade de Natal, fundada 1599.


As supostas minas de prata de Sergipe (1587-1677)

Entradas anteriores já haviam ocorrido na região do Sergipe, a qual ainda não era uma capitania, mas parte norte da Capitania da Bahia. Em 1587 a entrada de Cristóvão de Barros foi incumbida de colonizar essa região. As margens do rio Real, foi criado um povoado e fazendas. Após três anos de povoamento, em 1590 o rei Filipe II criou a Capitania de Sergipe del-Rei

Todavia, o que marcaria as entradas pelo Sergipe foi a suposta existência de uma serra de prata chamada de Sabarabuçu, a qual estaria localizada nos sertões de Sergipe. Por várias décadas se devassou o sertão sergipano atrás desta prateada serra, alguns chegaram a alegar que ela ficaria na Bahia, no Espírito Santo ou até mesmo em Minas Gerais, mas a verdade é que tal serra nunca existiu. 

Em 1592, Belchior Dias Moreia (também grafado Melchior Dias Moreia), primo de Gabriel Soares e neto do Caramuru, foi incumbido de liderar uma entrada pelos sertões da Bahia e do Sergipe. Por oito anos, Belchior e seus companheiros percorreram os sertões, alguns dos familiares chegaram a acreditar que tivessem morrido. Por volta de 1604, sua entrada aportou nas redondezas da Serra de Itabaiana, na região central de Sergipe, e de lá, Belchior partiu para Salvador. Depois destes oito anos fora de casa, ele decidiu ir cobrar sua recompensa, prometida pelo rei espanhol. Belchior partiu para a Espanha onde residiu por quatro anos, mas não conseguiu do rei sua recompensa, pois na prática a entrada falhou em encontrar minas. Então retornou ao Brasil, e chegou posteriormente a viajar novamente para Madrid a fim de falar com o rei, no intuito de conseguir alguma mercê por sua dedicação.

Serra de Itabaiana, Sergipe. Por vários anos acreditou-se que haveria prata nesta serra. 

O fato interessante que marca a longa entrada de Belchior, foi que o mesmo havia dito que havia descoberto prata em Sergipe, nas redondezas da serra de Itabaiana. Outra entradas para lá foram enviadas, a fim de averiguar o fato, porém, nenhuma prata foi encontrada, embora alguns dos metais ali encontrados chegaram a serem confundidos com prata. Algumas autoridades chegaram a alegar que Belchior ou era um grande mentiroso, ou estava guardando o segredo da verdadeira localização das minas de prata do Sergipe.

Belchior chegou a viajar para Sergipe numa entrada em 1618 para localizar outras minas, acabou retornando em 1620, ficou algum tempo preso, pois havia se negado a revelar a localização das minas de prata ao capitão-mor de Pernambuco Luís de Sousa, e o capitão-mor da Bahia Francisco de Sousa, ambos haviam chegado a viajar em 1618 com Belchior ao Sergipe, para ver as supostas minas que ele dizia ter descoberto. 

"O não ter querido o neto do Caramuru revelar as riquezas do sertão sanfranciscano, riquezas de ouro e de prata, sobretudo desta última, que ele dissera haver tanta 'como ferro em Bilbau, foi o que deu origem à lenda das minas de prata, que atravessou todo o resto da nossa evolução colonial". (MAGALHÃES, 1978, p. 41). 

Nos anos seguintes outras entradas organizadas pelo governo colonial e até mesmo pelos holandeses, os quais a partir de 1630, haviam conquistado Pernambuco, criando a colônia da Nova Holanda (1630-1654), ainda havia gente que acreditava que as minas de prata que Belchior alegava existir no Sergipe, eram reais. Um dos bisnetos de Belchior, chamado Belchior, o Moribeca chegou a dizer as autoridades que sabia da localização das minas de seu bisavô, e além disso, numa segunda entrada que fez em Sergipe, ele alegou ter encontrado ouro. O material contestado por alguns de realmente ser ouro, foi enviado para Lisboa, para ser averiguado, porém, o navio que o carregava afundou na viagem. 

Em 1677, D. Rodrigo liderou uma entrada ao Sergipe atrás das minas de Paranaguá e Sabarabuçu, mas retornou sem nenhum êxito. A realidade só veio mudar no final do século XVII, onde em 1697, a entrada de Damião Cosme de Faria e do sargento-mor Manuel do Rego Pereira, foram às serras de Sapucaia, onde dizia-se ficar a Serra Jacobina, a qual supostamente teria ouro. 

Lá eles encontraram também a serra da Pedra Furada ("Itacupurebá"), como os indígenas chamavam o local, e diziam haver ouro na região. Anos depois nesta região, que hoje fica ao norte da Bahia e próximo da fronteira oeste do Sergipe, seria encontrado ouro, como atesta João Calhelha: o metal foi encontrado na serra do Pindobuçu ou Pindobaçu

A suposta serra das Esmeraldas em Espírito Santo (1598-1677)

Assim como foi visto em Sergipe com as várias entradas que partiram em busca do Sabarabuçu, na Capitania do Espírito Santo procurava-se a suposta Serra das Esmeraldas, a qual por mais de um século, entradas a buscaram constantemente. 

Em 1596, Diogo Martins Cão conhecido como "o Matante Negro ou Matador de Negros", foi ordenado pelo governador-geral D. Francisco de Sousa, a descobrir a Serra das Esmeraldas. Martins Cão pediu auxílio ao bandeirante Antônio de Proença, o qual mandou seu filho Francisco de Proença, liderando uma pequena tropa de homens armados. A entrada por cerca de dois anos devassou o sertão da capitania e nada encontrou sobre a tal Serra das Esmeraldas. Proença acabou retornando para São Paulo, e Martins Cão voltou para Vitória, sem êxito. 

Por volta de 1612, um tal Marcos de Azeredo teria encontrado esmeraldas, e o mesmo viajou para a Espanha para mostrá-las ao rei Filipe III, onde mandou averiguar se eram esmeraldas. Segundo os relatos dos cronistas do século XVII, foi comprovado serem esmeraldas, mas como Azeredo não recebeu nenhuma recompensa por sua descoberta, retornou para a colônia e faleceu pouco tempo depois, levando para o túmulo a localização das minas de esmeralda. 

O problema desta história como atesta Magalhães é que ela é bem parecida com a de Belchior Dias Moreia. Ambos passaram anos atrás de supostas minas, e após todo esse tempo, juravam que haviam encontrado tais minas, e assim foram ao reino cobrar do rei mercês. O problema dessas histórias é que se realmente tais minas houvessem sido descobertas, por que tais homens não receberam suas mercês pelos serviços prestados a Coroa, e tais minas não foram exploradas?

De qualquer forma, sabe-se que em 1634 foi realizada uma entrada comandada pelos jesuítas, liderada pelo padre Inácio de Siqueira para procurar por esmeraldas, mas como não portavam armas, acabaram abandonando a entrada depois da ameaça de tribos indígenas. Dez anos depois, Salvador Correia de Sá e Benevides, governador e administrador-geral das minas da Repartição do Sul, escolheu Antônio e Domingos, o qual era filho de Marcos de Azeredo, para liderar uma nova entrada aos sertões da capitania em busca de esmeraldas. A entrada teria partido em maio de 1646 ou 1647, mas acabou não dando êxito. Um sobrinho de Azeredo, chamado Diogo realizou mais duas entradas em 1649 e 1653, mas também fracassou. 

Em 1667, Fernão Pais de Barros um dos que liderou entradas em busca de esmeraldas, acabou desistindo de prosseguir com a expedição depois de perigos enfrentados pela selva. Em 1696, com a descoberta de ouro nas Minas Gerais, muitos desistiram de ficar procurando por esmeraldas que ninguém encontrava, e decidiram ir tentar a sorte nas Minas. No entanto, no começo do século XVIII, foi descoberto ouro nos sertões do Espírito Santo, o qual garantiu pelo menos três décadas de exploração deste metal.

Entradas no Ceará e no Maranhão (1603-1616)


As capitanias do Maranhão (a mesma era dividida em duas partes) e do Ceará já existiam desde 1534, quando foi criado as Capitanias hereditárias, todavia, praticamente ninguém morava nestas capitanias a não ser os indígenas e poucos colonos. Não havia fortalezas, vilas ou cidades, embora aquelas terras oficialmente pertencessem a Coroa portuguesa, tais capitanias estavam praticamente inexploradas, pois seus capitães donatários, não haviam conseguido desenvolvê-las.


Entre 1535 e 1536 partiu a entrada de Aires da Cunha, e vários anos depois entre 1554 e 1557, foi a vez da entrada de Luís de Melo, ambas as entradas acabaram falhando em tentar fundar povoados e desbravar a região. O fracasso das entradas não se deu propriamente pela falha de seus chefes e membros, mas sim pelo mar, pois os navios em que eles partiram naufragaram. Logo, as capitanias do Ceará e do Maranhão praticamente ficaram a parte do restante da colônia, devido a sua distância de Salvador, então capital. 


Em 1603, Pero Coelho de Sousa cunhado de Frutuoso Barbosa, partiu a 26 de janeiro, liderando uma entrada com 265 membros, sendo 200 destes escravos indígenas. A missão da entrada era explorar o Ceará em busca de indícios de metais preciosos, e averiguar a situação da capitania acerca de sua povoação. 

"Partindo em julho de 1603, a expedição seguiu a  ourela atlântica indo parar, um mês depois, à foz Jaguaribe, onde construiu um fortim ou abrigo, a que foi posto o nome de São Lourenço; captada a confiança dos silvícolas da região, prosseguiu e avançada, acampando junto à enseada do Mucuripe, e, logo após, à barra do rio Ceará; daí rumando sempre para o norte, sem se afastar da orla marítima, estanciou em Jericoacoara e nas matas do Iburá-Quatiara (como diz frei Vicente do Salvador), chegando ao Camocim". (MAGALHÃES, 1978, p. 46).


No ano seguinte, em 19 de janeiro, a entrada subiu a Serra do Ibiapaba, onde acabaram por confrontar os Tabajaras, os quais foram subjugados pelos colonos. De lá, Pero seguiu viagem até o rio Parnaíba, porém, devido a vários meses de viagem, os demais membros convenceram Pero Coelho a voltar para o forte. Tendo vários problemas no caminho, chegou em julho as margens do rio Ceará, onde fundou um segundo forte, batizado de Forte de São Tiago da Nova Lisboa.



Detalhe da costa do Ceará e a barra do rio Ceará (João Teixeira Albernaz, o velho. Pequeno atlas do Maranhão e Grão-Pará. 1629).

Pero Coelho esperou que o governador-geral envia-se ajuda, mas isso nunca aconteceu, então ele decidiu abandonar o forte e retorna para o Rio Grande do Norte. Anos depois, em 1607, a missão jesuítica de Francisco Pinto e Luís Figueira, próximo a Ibiapaba, foi atacada pelos Tucurijus. Francisco Pinto e vários outros que seguiam com a missão, na grande maioria índios, foram mortos. Luís conseguiu sobreviver e fugiu. 

Além disso, descobriu se que navios franceses foram avistados no litoral cearense e havia indícios que os franceses possuíam uma colônia no Maranhão, pois na ilha de São Luís do Maranhão encontrava-se uma colônia francesa, fundada em 1594, chamada de França Equinocial ou França Ártica. Os portugueses e os colonos já haviam confrontado os franceses em uma grande luta na baía de Guanabara, onde quarenta anos antes existira a colônia da França Antártica, localizada na época na atual Ilha do Governador




Mapa moderno da Ilha de São Luís do Maranhão. De 1594 a 1615, na ilha existiu a colônia francesa da França Equinocial ou França Ártica. 



"As incursões francesas no Maranhão compeliram o governador do Norte, D. Diogo Meneses, a mandar sair do forte dos Santos Reis Magos uma expedição que guarnecesse um dos portos daquela zona, cabendo tal incumbência a Martim Soares Moreno, que tinha sido companheiro de Pero Coelho em 1603 e que em 1611 ergueu um reduto sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo, junto à ponta do Mucuripe, dando origem a atual cidade de Fortaleza". (MAGALHÃES, 1978, p. 25 apud RIHGB, LXXXVI, p. 23).



Fundado o povoado de Nossa Senhora do Amparo, por Pero Coelho em 1613, isso não bastou para a real ocupação da capitania, pois a efetiva colonização do Ceará ainda iria demorar mais algumas décadas. Os holandeses invadiriam a capitania, bandeiras paulistas viriam para libertá-la, missões jesuíticas iriam desbravar seu interior e a chegada do gado, proporcionaria a fundação de povoados e vilas em seus sertões, pois naquele momento, a ideia era partir do Ceará para o Maranhão, para derrotar e expulsar os franceses. 



Em 19 de novembro de 1614, João de Albuquerque liderou o primeiro ataque aos franceses, vencendo a Batalha de Guaxenduba. No ano seguinte mais reforços chegaram para os colonos, e em 4 de dezembro de 1615, a colônia da França Equinocial foi invadida e tomada, os franceses foram derrotados, uns fugiram, e os que ficaram, foram mortos. Com a expulsão dos franceses e a destruição de sua colônia, o Maranhão foi resgatado ao domínio lusitano, no entanto, assim como o Ceará, o Piauí e o Pará que seriam criados, ainda demorariam alguns anos para que tais províncias realmente recebessem um processo colonizador eficiente. Com a vitória no Maranhão, uma entrada foi enviada para oeste, liderada por Francisco Caldeira de Castelo Branco, ordenado por Alexandre de Moura em 12 de janeiro de 1616, foi fundada as bases da Vila do Belém do Pará



"Atingia assim o Brasil à extrema setentrional da linha de Tordesilhas, defendia a entrada do seu rio-mar contra a cobiça dos inimigos de Portugal e aparelhava, enfim, o ponto de partida para ocupação da imensa bacia amazônica". (MAGALHÃES, 1978, p. 26). 


Precavendo-se de novos ataques e invasões as capitanias do Norte, o rei Filipe II de Portugal (III de Espanha), criou em 1621, o Estado do Maranhão, que compreendia as capitanias do Maranhão e do Ceará, e as recém-criadas capitanias do Pará e do Piauí. Posteriormente os domínios deste estado colonial cresceriam para o oeste, levando a mudanças de nome do estado colonial para Estado do Maranhão e Grão-Pará (1654), depois para Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751), onde a capital foi transferida de São Luís para Belém. O Estado foi desmanchado ainda em 1751, voltando a fazer parte da administração do Principado do Brasil (nome oficial da colônia desde 1645). 

Entradas pela Floresta Amazônica (1619-1680)
Com a fundação de Belém do Pará, em 1616, a vila serviria de ponto de apoio e partida para várias entradas que iriam explorar a Floresta Amazônica, no que hoje seriam os territórios do Pará, Amazonas e Amapá. O sertanista e militar Bento Maciel Parente (1567-1642) foi um dos mais notáveis sertanistas que realizou entradas pela Amazônia. Veterano de guerra da Paraíba e Rio Grande do Norte, e que posteriormente confrontou os holandeses e ingleses, foi eleito vereador de Belém em 1619, e em 1621, com a criação do Estado do Maranhão, foi nomeado Capitão-Mor do Grão-Pará.

Fundou alguns fortes ao longo do rio Xingu, como os fortes de Mariocai e Santo Antônio de Gurupá. Ao longo do rio Xingu, confrontou forças holandesas que haviam montado fortes ali, saindo vitorioso no final. Com a invasão de Pernambuco pelos holandeses, Bento Maciel seguiu para lá, para enfrentar os holandeses, onde por alguns anos dedicou-se as lutas, deixando de lado sua vida nas entradas. 


Mas, se por um lado Bento Maciel se afastou das entradas, outros ainda continuaram nelas; Francisco de Azevedo foi o primeiro a liderar entradas aos sertões em Turi e Gurupi, hoje correspondendo a áreas de Tocantins. Entre 1622 e 1624, Luís Aranha de Vasconcelos viajou pela Guiana Brasileira, hoje o estado do Amapá


Pedro Teixeira em sua entrada (1637-1639), liderou uma expedição de 1000 homens, sendo a maioria índios, através do Rio Amazonas, chegando a região da Cordilheira dos Andes, de onde seguiram viagem até Quito (atual capital do Equador), na época a cidade pertencia a Real Audiência de Quito, um território administrativo, na época parte do Vice-Reino do Peru. Na viagem de volta a Belém do Pará, Pedro Teixeira decretou que todas as terras ao longo das margens do rio Amazonas, pertenceriam ao Estado do Maranhão. 


O rio Amazonas, afluentes e outro rios. Em 1637, Pedro Teixeira partindo de Belém do Pará liderou uma entrada de mil homens ao longo do rio Amazonas, indo chegar a Quito no Equador. A entrada retornou em 1639, tendo comprido sua missão. 


"A ação metropolitana, porém, só se fez sentir proficuamente, depois da restauração de 1640. Dessa data em diante foi que se cogitou de povoar a Bacia Amazônica, nos pontos mais vizinhos do delta, e novas entradas se efetuaram contra os silvícolas". (MAGALHÃES, 1978, p. 27).



Em 1 de dezembro de 1640, os portugueses elegeram D. João II de Bragança, o novo rei de Portugal, sob o nome de D. João IV. Tal acontecimento ficou conhecido como a Restauração Portuguesa, onde os portugueses se separaram da Espanha, reassumindo sua independência e pondo fim a 60 anos de União Ibérica. O rei de Espanha Filipe IV foi contra a separação. e até 1665, os espanhóis ainda relutavam ter perdido o domínio sobre Portugal e suas colônias. 

Mas embora, a União Ibérica tenha chegado ao fim, os portugueses tinham um grande problema em mãos, os holandeses já ocupavam parte do Nordeste do Brasil há dez anos, com sua colônia da Nova Holanda governando sobre Pernambuco, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte (Alagoas ainda não existia como capitania nesta época); além disso, os holandeses se apossaram de parte do Maranhão, Ceará e Piauí, como também atacaram o Grão-Pará, e em África tomaram posse de Angola e de alguns portos no Congo



Território da colônia da Nova Holanda no Brasil (1630-1654).



Os holandeses só seriam derrotados em 1654 definitivamente, até lá, a Coroa não deu atenção a ocupação da Bacia Amazônica, porém, várias entradas ocorreram por ali, para capturar indígenas ou exterminar tribos arredias, como também missões jesuíticas para lá partiram, a fim de evangelizá-los. 



As entradas de Bento Rodrigues de Oliveira e João Bittencourt Muniz em 1647, pela bacia amazônica, dizimaram tribos indígenas dos Tupinambás e dos Anibás do Jari. Pedro da Costa Favela empreendeu entradas pelo Grão-Pará e pela Guiana Brasileira (atual Amapá), e outras regiões do atual Amazonas, tendo empreendido em muitos casos a caça de indígenas ou a destruição de tribos inimigas. Em 1664, com o apoio dos Tapajós, ele derrotou os Guanavenes e os Cabouquenses. Dois anos depois, exterminaram várias aldeias dos Tapuias ao longo do rio Xingu. Favela também erigiu algumas fortes no Pará e na Guiana Brasileira. 



No entanto, outras entradas devassaram a floresta amazônica atrás de ouro e joias, porém em 1669, Gonçalo Pires e Manuel Brandão, encontraram minas de salitre (ou minas de sal), como também encontraram canela, cravo, castanha-do-pará e a seringueira, de onde no século XIX, demandaria vários trabalhadores para o Amazonas, no intuito de extrair a borracha e outras plantas que serviriam de especiarias, que na historiografia brasileira ficaram conhecidas como "drogas do sertão".



No ano de 1669, foi erguido as margens do Rio Negro, o forte de São José da Barra que daria origem ao povoado e depois Vila da Barra do Rio Negro, que posteriormente originaria a cidade de Manaus, atual capital do Amazonas. As entradas ainda continuariam até o final do século XVII, caçando índios, explorando a floresta atrás das "drogas do sertão", guiando missões jesuíticas, fundando fortes, povoados e vilas; procurando por ouro e joias. Porém, com a descoberta das Minas Gerais, muitos abandonaram a gigantesca floresta e foram tentar a sorte como tantos outros da colônia, na corrida do ouro que se iniciava. 


O CICLO DAS BANDEIRAS
(1561?-1758)

As primeiras bandeiras

Não se tem um consenso de quando realmente começaram as bandeiras, de fato por algum tempo creditou-se que a expedição de Brás Cubas e Luís Martins, em busca de ouro teriam sido bandeiras, mas como apontam os relatos de Magalhães e Volpato (1986), a expedição dos dois, foi uma entrada, pois foi delegada pelo governador-geral Mem de Sá. Outro relatos apontados por Maglhahães, sugerem que as expedições de Aleixo Garcia (1524/1526?) e do notório Cabeza de Vaca (1541-1542) deveriam ser consideradas bandeiras, porém, hoje essa tese de Magalhães não é mais considerada por muitos historiadores, devido ao fato de que praticamente nada se sabe sobre a expedição do português Aleixo Garcia, pois dos relatos exigentes que alegam relatar sua expedição, muitos são duvidosos e até mesmo romanceados. 

No caso de Cabeza de Vaca, sabe-se que este realmente empreendeu sua expedição, chegando até mesmo a descobrir a Cataratas de Foz de Iguaçu, o problema, é o fato que Cabeza de Vaca era um espanhol, e estava a serviço da Espanha, pois o mesmo na ocasião era governador da Província do Rio da Prata, logo, sua viagem não teve nada a ver com as bandeiras da Capitania de São Vicente.

Quando retornamos ao ano de 1562, onde Brás Cubas e Luís Martins retornavam de suas entradas, a Vila de São Paulo do Piratininga foi atacada pela Confederação dos Tamoios (1557-1567), formada pelos Tupinambás, Guaianazes, Aimorés e Temiminós, que durante alguns anos causaram vários problemas aos colonos de São Paulo, sendo o ano de 1562 onde ocorreram uma das maiores batalhas. 


Nesta época, como não havia exército na colônia, os próprios colonos tinham que se defender de alguma forma, assim foram criados grupos paramilitares, que eram chamados popularmente de "bandeiras". Na ocasião de 1562, algumas destas "bandeiras" se uniram para combater a confederação indígena, resultando na vitória dos colonos. Em 1561, registra-se uma bandeira contra os índios do Anhembi, e no ano seguinte a bandeira de João Ramalho contra tribos que viviam nas proximidades do rio Paraíba do Sul

A bandeira de 1561, que na ocasião participou o padre São José de Anchieta, como capelão, é considerada a mais antiga bandeira de que se tem registro, pois diferente de muitas entradas que possuíam registros de sua atuação, as bandeiras por serem de caráter particular, muitas não deixaram registros algum. De certo, alguns historiadores brasileiros sugerem que as bandeiras se iniciaram por essa época, possivelmente mesmo antes, mas as mesmas atuavam como grupos de defesa e não de exploração e apreensão, algo que viria ocorrer posteriormente, principalmente a partir das décadas de 1570 e 1580.


Assim como no caso das entradas, pouco relatos se tem principalmente acerca de bandeiras ocorridas no século XVI, a maioria das fontes referem-se as bandeiras do século XVII, principalmente ocorridas em São Paulo, no sul da colônia e no chamado "velho oeste brasileiro", que compreenderiam os sertões que hoje são Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Existem também relatos de bandeiras que atacaram quilombos no Nordeste ou participaram de expedições ao Piauí, Maranhão e Ceará, ou combateram os holandeses, mas devido a grande quantidade de relatos que geram livros sobre o assunto, assim como fiz com as entradas, falarei de algumas das principais bandeiras que ocorreram, algumas ficaram famosas em si, não por sua façanha, mas pelos bandeirantes que foram seus líderes. 

"Do ponto de vista geográfico, as bandeiras paulistas foram possíveis em grande medida devido à posição de São Paulo, centro de circulação fluvial e terrestre à 'boca do sertão'. Capistrano de Abreu, numa forma bem sintética, resume as facilidades geográficas da região: 'O Tietê corria perto; bastava seguir-lhe o curso para alcançar a bacia do Prata. Transpunha-se uma garganta fácil e encontrava-se o Paraíba, encaixado entre a serra do Mar e a da Mantiqueira, apontando o Caminho do Norte". (DAVIDOFF, 1984, p. 28-29).


Descoberta de ouro na Capitania de São Vicente


Diferente do que aprendemos nas escolas, onde dizem que apenas as Capitanias de Pernambuco e São Vicente obtiveram êxito, na realidade a história não foi bem assim. Apenas as vilas de São Vicente e Santos é que prosperavam de forma razoável, porém, o restante da capitania, não compartilhava desta prosperidade e era constantemente ameaçada pelas tribos indígenas que não aceitavam os colonizadores, a saída para esse problema que os colonos encontraram, foi exterminar os indígenas, escravizá-los, e ir procurar ouro e joias.


Entre 1570 e 1584, Heliodoro Eobanos empreendeu algumas bandeiras pela capitania, indo prear índios e procurar por ouro. Eobanos partiu de São Sebastião do Rio de Janeiro para a vila de São Paulo do Piratininga, para realizar suas bandeiras, diz-se que ele teria encontrado ouro de aluvião ou ouro de lavagem (termo dado ao ouro encontrado nos leitos de rios), em Iguape, Paranaguá e Curitiba. Sabe-se que em Paranaguá e Curitiba ouro foi encontrado, embora não se tem certeza se Eobanos foi o responsável por tal descoberta. Todavia, tal fato é interessante, pois geralmente nas escolas, aprendemos que ouro no Brasil só foi descoberto em Minas Gerais, no final do século XVII. 


Em 1590, de acordo com os relatos do historiador e militar Pedro Taques, contido em seu livro Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica, ele atesta que Afonso Sardinha, Afonso Sardinha Filho e Clemente Álvares, teriam encontrado ouro de lavagem nas Serras Jaguamimbaba em Jaraguá, e na de Ibiturana, próximo a Vila de Parnaíba. Quando Afonso Sardinha Filho veio a falecer em 1604, também deixou registrado no testamento, uma quantia em ouro, o qual o mesmo alegava ser de 80 mil cruzados em ouro em pó.


Todavia o historiador Capistrano de Abreu questionou se tal quantia realmente era verídica, ou um exagero da parte de Afonso Sardinha Filho. Para Capistrano, foi um exagero tal quantia apresentada, e provavelmente ele teria confundido o ouro em pó com "areia de Oçó", uma areia amarelada que lembra ser ouro em pó. Entretanto, sabe-se que realmente ouro foi descoberto em Jaraguá e Ibiturana. 


Casarão de taipa construído em 1580 pelo bandeirante Afonso Sardinha. Atualmente a casa encontra-se no Parque Estadual de Jaraguá na cidade de São Paulo, consistindo em um dos locais onde foram encontradas jazidas de ouro no Brasil. 
"Durante o século XVI, algumas jazidas foram descobertas na Capitania de São Vicente. Eram as jazidas do Jaraguá, próximas da vila de São Paulo, Ibiturana, na Vila de Parnaíba, e as jazidas de Curitiba e Paranaguá. Apesar da grande dificuldade encontrada para sua exploração, estas duas últimas chegaram a produzir algumas arrobas de ouro. Nenhuma destas descobertas chegou, no enanto, a ter uma produção significativa". (VOLPATO, 1986, p. 90).

O governador-geral D. Francisco de Sousa sabendo da descoberta de ouro de lavagem em São Paulo, incentivou entradas e os bandeirantes a irem explorar tais locais, o mesmo chegou a visitar a capitania entre 1598 e 1601, chegando a levar consigo um minerador inglês chamado Jacques Oalte, e dois engenheiros, Geraldo Beting e Bácio de Filicaia, os quais chegaram a visitar a jazida de Biraçoiaba, a qual possuía muito pouco ouro, mas o possuía. No mesmo ano como foi visto, ele organizou a entrada de André de Leão para procurar prata no norte da capitania.

Pelo século XVII, algumas destas jazidas ainda continuaram a serem exploradas, mas rapidamente se esgotavam, mesmo assim muitos bandeirantes ficaram ainda mais motivados em saber que havia ouro na capitania, e várias outras bandeiras se seguiram pelo restante do século, mas se nenhum êxito. Então as mesmas começaram a irem para mais longe, adentrando cada vez mais os sertões do que viriam a ser Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. 



Rotas de algumas bandeiras realizadas por famosos bandeirantes. 
Campanhas de conquista do Guairá e das "províncias do Tape e do Uruguai"


A medida que as bandeiras de preação de índios cresciam em número e retornavam as principais vilas da capitania, com centenas e as vezes milhares de cativos para serem vendidos, algumas tribos começaram a ir cada vez mais sertão adentro, e outras simplesmente foram sendo dizimadas pela ganância cruel dos bandeirantes em se apossar destas "pessoas-mercadorias" e de suas terras.

"Estas guerras, chamadas assaltos ou 'saltos' adquiriram enorme importância para a obtenção de escravos, a ponto de o padre Manuel da Nóbrega afirmar que 'de maravilha se acha cá escravo que não fosse tomado de salto". (DAVIDOFF, 1984, p. 32). 


No começo do século XVII, as bandeiras começaram a seguir cada vez mais para o sul da capitania, chegando a sair de seus domínios e adentrar o domínio da Província de Guairá, antiga colônia espanhola desenvolvida por missionários jesuítas. Todavia, como ainda estavam no período da União Ibérica, tecnicamente, os bandeirantes não estariam invadindo aquele território, pois tudo aquilo pertencia a Coroa espanhola, e de fato como apontaram algumas cartas de jesuítas espanhóis, isso se revelou um problema, pois os reis Filipe III e Filipe IV, meio que "fecharam os olhos" para as atrocidades que os bandeirantes andaram cometendo naquelas terras. 


A Província de Guairá ou de Vera, ou também chamada em espanhol de La Piñeria, compreendeu em grande parte o atual território do Paraná. A região foi principalmente ocupada a partir das missões jesuíticas começadas ainda em fins do século XVI, mas que se estabeleceram mesmo apenas nos primeiros vinte anos do século XVII. A província por volta desta época estava ligada ao governo do Paraguai, com que fazia fronteira. 



Mapa da Província do Guairá no século XVII.
Porém, sabe-se através de relatos e cartas de jesuítas, que alguns missionários já haviam viajado do Guairá para a vila de São Paulo, e alguns missionários já haviam partido de São Paulo para a cidade de Nossa Senhora de Assunção, capital do Paraguai. Todavia, embora tais rotas já fossem razoavelmente conhecidas, apenas no século XVII é que as bandeiras começaram a adentrar o Guairá atrás de índios.

Quando os paulistas chegaram ao Gauirá, apenas existia uma missão estabelecida, de nome Nossa Senhora do Loreto do Pirapó, estabelecida em 1610, no entanto, as vilas e cidades da província já existiam desde o século anterior: Ciudad Real del Guayra (1556), Ontiveros (1554) e Vila Rica do Espiritu Santu (1570). 

Em 1611, o bandeirante Fernão Pais de Barros atingiu o rio Paranapanema em fins de outubro daquele ano, onde atacou os Tambiú, porém, na ocasião o governador do Guairá, D. Antônio Anasco, sabendo do ataque dos bandeirantes partiu para confrontá-los, e Fernão Pais partiu em retirada levando consigo algumas centenas de índios. O cônego João Pedro Gay, disse em sua História da República Jesuítica do Paraguai, que Fernão Pais de Barros teria capturado 800 indígenas. 


No ano seguinte, Sebastião Preto adentrou o Guairá e capturou cerca de 900 índios, embora muios acabaram fugindo. Entretanto, foi o irmão de Sebastião, Manuel Preto quem se tornaria mais conhecido na região pelas bandeiras de preação dos indígenas. Os irmãos Preto, por vários anos atacaram o Guairá, sendo que Manuel ficou conhecido como "herói do Guairá", entre os paulistas, devido ao seus feitos na província espanhola. De acordo com os relatos do padre Pablo Pastells, autor de Historia de la Compañia de Jesús en la provincia del Paraguay, no ano de 1619, Manuel Preto com sua bandeira saqueou as missões de Jesus-Maria e Santo Inácio, e anos depois entre 1623 e 1624, ele teria capturado pelo menos mil índios, os quais levou de volta a São Paulo e suas fazendas.


A situação começou a piorar no final da década, quando outros bandeirantes vendo que era proveitoso saquear as missões jesuíticas do Guairá, que na época contavam em número de 12, começaram cada vez mais a partirem para a região. Em 1628 1629, Antonio Raposo Tavares um dos mais famosos bandeirantes, junto com Manuel Preto, João Pedro de Morais, conhecido como o "Terror dos Índios", entre outros, devastaram a região. 


Volpato (1986) nos informa que apenas a bandeira de Manuel Preto que partira de São Paulo em 1628 para o Guairá, contava com mais de três mil integrantes, sendo na maioria indígenas. Três mil homens era o contingente de algumas das menores legiões romanas da época do império, assim, nota-se que os bandeirantes quando adentraram o Guairá entre os anos de 1628 até 1633, foram com o intuito de conquistá-lo. 

Os irmãos Fernandes, André, Baltasar e Domingos, ambos empreenderam várias bandeiras no Guairá e no Tape, até os anos de 1660, tendo ficado famosos entre os bandeirantes na região, e principalmente por terem capturados milhares de indígenas, como terem promovido a fundação de povoados e a construção de igrejas. 

"Os bandeirantes avançavam promovendo razias, ateando fogo, efetivando uma ação destruidora. Ignorados pelas autoridades coloniais tanto espanholas como portuguesas, desfalcados, inseguros e ameaçados de novos ataques, os padres decidiram abandonar a região com os seus catecúmenos". (VOLPATO, 1986, p. 83). 


Das doze missões, dez foram destruídas entre 1628 e 1632. As cidades de Ciudad Real del Guayra e Vila Rica do Espiritu Santu foram destruídas em 1631, embora que foi permitido a população local fugir. Além disso, a cidade de Santiago do Xerez que não ficava localizada no Guairá, mas no norte da Província do Paraguai, no que hoje é território do Mato Grosso do Sul no Brasil, chamado na época de Itatim, foi alvo de algumas bandeiras. A cidade de Santiago do Xerez teria sido destruída em fins de 1632 ou no começo de 1633. 


"Em 1632, os paulistas, transpondo o alto Paraná, não só tomaram Santiago-do-Xerez, estabelecimento espanhol, sito perto das nascentes do Aquidauana, como também destruíram as três reduções de San-José, Ángeles e San-Pedro-y-San-Pablo, que os jesuítas tinham acabado de formar, com índios itatines, a oeste do rio Pardo, no atual Estado de Mato Grosso. Alguns castelhanos, moradores em Xerez, e que estavam de boa avença com os bandeirantes, passaram-se nessa ocasião para São Paulo". (MAGALHÃES, 1978, p. 101).


As autoridades paraguaias e o vice-rei do Peru, temeram que os bandeirantes que atacavam o Itatim tentassem conquistar Assunção e o Paraguai, para depois seguir para o Vice-Reino do Peru atrás das minas de prata de Potosi (atualmente na Bolívia). No entanto, isso não aconteceu, mas os ataques não terminaram por aí, as bandeiras continuaram a seguir para o sul, adentrando o que hoje são os estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e a República do Uruguai. No século XVII, tais terras estavam divididas entre as "províncias do Tape e do Uruguai". 



Província do Tape com a localização das missões jesuíticas. Atualmente a região compreende o estado do Rio Grande do Sul no Brasil. 
"Várias foram as expedições que atacaram as reduções no Tape, algumas comandadas por bandeirantes famosos como Antônio Raposo Tavares, André Fernandes e Fernão Dias Pais". (VOLPATO, 1986, p. 83). 


Antonio Raposo Tavares
Em 1636, Antonio Raposo Tavares que tinha Diogo Coutinho de Melo como imediato (segundo no comando), partiram de São Paulo com rumo ao Tape, levando consigo milhares de homens para a empreitada. Em fins de 1637, o Tape praticamente já havia sido conquistado. As reduções de Jesús-Maria-de-Yequi e Santa-Teresa-de-Ibiturana foram ocupadas por eles, e os jesuítas das demais missões (São Cristóvão, São Joaquim, Santa-Ana e Natividade de Araricá) foram abandonadas no mesmo ano, todavia, o padre Romero não querendo abandonar aquelas terras, incentivou os indígenas a lutarem contra os bandeirantes, e as lutas prosseguiram pelo ano seguintes, até que novas levas de bandeiras foram subjugando os indígenas e conquistado o Tape. Porém, os bandeirantes não pararam por aí, eles pretendia seguir para a Província do Uruguai e chegar ao Rio da Prata, onde acreditavam haver minas de prata ao longo de seu curso (o que não era bem verdade). No ano de 1638, novas bandeiras adentraram o Uruguai e começaram a devastar as missões jesuíticas. Caaró, Caazapámini e São Nicolau foram conquistadas, os jesuítas foram expulsos, os índios ou foram mortos ou escravizados.

Em 1639, Pascoal Leite de Paes um dos irmãos do famoso bandeirante Fernão Dias Paes, liderou uma bandeira contra a redução em Caasapaguaçu, porém os mesmos foram derrotados, marcando a primeira grande derrota dos bandeirantes no Tape. Pascoal entre outros foram mortos na ocasião. Dois anos depois da derrota em Caasapaguçu, Jerônimo Pedroso de Barros, irmão dos bandeirantes Luís e Sebastião, reuniu um exército de 2500 a 3000 mil homens e marchou de São Paulo em direção ao Tape, indo de encontro as reduções ocidentais que ainda resistiam aos bandeirantes. 


Dessa vez os padres e missionários deram armas aos indígenas e incentivaram que os mesmos fabricassem lanças, arcos e flechas, até mesmo um canhão improvisado foi feito. As lutas ocorreram principalmente no rio Mbororé, um dos afluentes do rio Uruguai. Jerônimo estava confiante em exterminar aqueles índios e poucos jesuítas, mas segundo consta os relatos dos jesuítas, haveria pelo menos 4 mil indígenas ao lado dos missionários, depois de poucos dias de conflitos, a bandeira de Jerônimo foi derrotada, marcando uma derrota ainda maior do que a de Caasapaguaçu. Isso resultou num retardo da colonização do Tape e do Uruguai pelos bandeirantes. 


Em 1640, o bandeirante Emilinho junto com sua família, fundou um povoado próximo do rio São Francisco em Santa Catarina, que em 1660, foi elevado a vila, passando a se chamar Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco. Outros bandeirantes também tentaram colonizar a região que ficava entre o Guairá e o Tape, a qual praticamente eram habitadas apenas pelos indígenas. Em 1675, Francisco Dias Velho na antiga Ilha dos Patos, posteriormente rebatizada para Ilha de Santa Catarina (hoje Florianópolis), fundou um povoado e a igreja de Nossa Senhora do Desterro. Por volta desta época, Domingo de Brito Peixoto fundou a Vila de Santo Antônio dos Anjos de Laguna


A região do Tape e do Uruguai ainda voltariam causar problemas entre os bandeirantes e os jesuítas espanhóis, pois a partir do final do século XVII, embora os bandeirantes tenham tomado a região, eles não investiram em uma colonização rápida, logo, os jesuítas retornaram e começaram a fundar novas missões e povoados, no que ficou conhecido inicialmente como Sete Povos das Missões. Além disso, para contrabalancear esse problema, a Coroa Portuguesa não querendo perder a influência que tinha sobre o Uruguai, ordenou que D. Manuel Lobo então capitão-mor do Rio de Janeiro, fosse fundar uma colônia no sul do Uruguai, próximo a cidade de Buenos Aires, que ficava do outro lado da foz do rio da Prata, assim a partir de 1680, começou a ser construída a Colônia do Santíssimo Sacramento, que asseguraria a ocupação luso-brasileira daquela região.


Painel em azulejos, representando a fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento em 1680 pelo brasileiros no sul do Uruguai.
O velho oeste brasileiro

O chamado velho oeste ou faroeste brasileiro, uma alusão ao período histórico do Velho Oeste dos Estados Unidos ocorrido entre 1850 a 1890, neste caso o nosso faroeste ocorreu no século XVII, porém, não é um termo um tanto usável nos dias de hoje, embora que em alguns livros dos anos 70 e 80, ainda podemos encontrar o termo far west, aludindo as bandeiras do século XVII. Foi um período onde dezenas de bandeiras devassaram os sertões de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, principalmente em busca de minas de ouro, prata, diamantes e esmeraldas. 



Mapa atual do Brasil, em destaque os estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Dito antigamente, o Velho Oeste Brasileiro.


Em 1673 partiu a bandeira de Manuel de Campos Bicudo e seu filho Antônio Pires de Campos, com Bartolomeu Bueno da Silva, o "Anhaguera" e seu filho Bartolomeu Bueno da Silva Filho (1672-1740). Bicudo ao longo da vida participou de 24 bandeiras, e na ocasião de 1673, ele e seu filho que tinha apenas 14 anos na ocasião, junto com cerca de 60 homens debandaram para desbravar os sertões do que hoje é o Mato Grosso, onde descobriram uma serra que batizaram de Serra dos Martírios, e acabaram na viagem encontrado algumas pepitas de ouro. Nos sertões de "catacases" como eram chamados ou sertões goianos, eles se encontraram com o Anhaguera. 



"A leva de Anhangüera sênior, da qual fazia parte o filho então de 12 ou 13 anos de idade, também partida em 1673, atingiu, por via terrestre, as margens do rio Vermelho, indo encontrar mais além o bando de Bicudo. Entre as tribos goianas, afora os muitos escravos que apresou e que dariam, segundo Machado de Oliveira (ob. cit. 145), para 'povoar uma cidade', deparou-se igualmente ouro ao sertanista audaz". (MAGALHÃES, 1978, 108). 



Estátua de Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o segundo "Anhaguera". Desbravador dos sertões de Goiás. 



Anhaguera Segundo, chegou a participar da corrida do ouro, mas devido a grande rivalidade e perigo gerado na região mineradora, decidiu voltar a ser bandeirante, indo explorar o sertão de Goiás atrás de riquezas, pelos anos seguintes. Fundou o povoado de Santana em 1726, e Vila Boa de Goiás em 1739 (atualmente a cidade de Goiás), acabou descobrindo ouro no rio Vermelho, o que lhe rendeu o título de capitão-mor das minas, dado pelo rei D. João V, posteriormente começou a ser acusado de contrabando de ouro e sonegação de impostos, veio a falecer em Vila Boa de Goiás, vila que ajudou a fundar. 


Francisco Pedregoso Xavier, filho de João Pedroso, o "Terror dos Índios", companheiro de Raposo Tavares nas lutas no Guairá, em 1675 organizou uma expedição para atacar as reduções jesuíticas no Mato Grosso (neste caso Mato Grosso do Sul, hoje). Sua bandeira saqueou algumas missões jesuíticas, levando-o a confrontar o governador do Paraguai, Juan Díaz de Andino. Francisco Pedregoso não querendo se arriscar numa batalha contra o governador paraguaio, decidiu se retirar o quanto antes em direção a São Paulo, levando consigo pelo menos 4 mil cativos. 

Entre 1710 e 1730, várias bandeiras percorreram Mato Grosso e Goiás atrás de minas de ouro, motivados pela corrida do ouro que havia se instaurado em Minas Gerais. De fato, algumas destas bandeiras saíram vitoriosas e descobriram ouro nestas regiões, como foi o caso de Cuiabá (atual capital do Mato Grosso); outras aproveitaram para capturar indígenas, e outras foram desbravar estas terras, contribuindo para a sua ocupação e posteriormente anexação definitiva ao Principado do Brasil, pelo Tratado de Madrid de 1750.  

O caçador de esmeraldas (1674-1681)

Uma das bandeiras mais conhecidas, tanto por sua duração como por malogro, foi a bandeira de Fernão Paes Dias, o qual na velhice decidiu ir procurar por esmeraldas. Durante vários anos, Fernão dedicou-se a prear índios, participou de bandeiras no Guairá, Tape e Paraguai, como também viajou por outro lugares, porém nos últimos anos de vida dedicou-se a uma busca frenética por esmeraldas, o que lhe rendeu a alcunha de o "Caçador de esmeraldas". 

Quando contava com 63 anos, Fernão motivado pelo governador-geral que incentivava a procura de minas de ouro, prata e esmeraldas, prometendo mercês e outras recompensas para quem encontrassem tais riquezas, Fernão vendeu todo o seu gado, ouro e prata, e juntou 6 mil cruzados, com os quais armou sua bandeira, na ocasião, sua esposa que era vários anos mais jovem que ele, Maria Garcia Rodrigues Betim, implorou ao marido que não se arriscasse nessa empreitada, pois o mesmo já havia "torrado" as economias da família apenas para montar a bandeira. 

Fernão não lhe deu ouvidos e decidiu partir. Junto seguia seu filho primogênito Garcia Rodrigues Paes, seu genro Manuel da Borba Gato (tornou-se notório durante o ciclo do ouro), Matias Cardoso de Almeida, Antônio Gonçalves Figueira, Francisco Pires Ribeiro, entre outros, os quais partiram a 21 de julho de 1674 para o norte de São Paulo. 

Ainda hoje não se sabe com certeza o itinerário da viagem de Fernão, pois sua bandeira foi uma das mais longas conhecidas, tendo durado oito anos, pelos quais eles percorreram São Paulo e Minas Gerais. A jornada foi dura, muitos desertaram, incluindo os dois capelãs da bandeira, outros morreram de doenças, e até mesmo um motim foi descoberto, onde os traidores foram executados, o que incluiu um filho bastardo de Fernão. 

Por volta de 1680, ele teria em algum lugar de Minas, encontrado pedras verdes que acreditou piamente serem esmeraldas, mas posteriormente como ficou contestado, eram turmalinas. Contente com a descoberta, e contando com seus 71 anos de idade, decidiu retornar para São Paulo, a fim de mostrar sua descoberta, porém acabou contraindo paludismo ou malária, e veio a falecer em 1681, possivelmente na região do Sumidouro, localizada no sul de Minas. 

Morte de Fernão Dias Paes Leme, pintura de Antônio Parreiras, 1920. 

Sua família entrou em falência, embora que seu filho e um tio seu que era padre, tentaram na justiça receber alguma recompensa pelo longo esforço que Fernão fez, no entanto, nada conseguiram de imediato. Enquanto isso, o fidalgo D. Rodrigo Castel Branco, que havia chegado em 1678, para liderar uma entrada atrás de riquezas, se encontrava em viagem no ano de 1681, quando soube da morte de Fernão Dias, como sua entrada estava próxima de uma vila, decidiu retornar a capital para averiguar a questão das supostas esmeraldas encontradas pelo mesmo. Na ocasião de sua volta a São Paulo, alguns notório bandeirantes se encontravam presentes a assembleia que debateria acerca da expedição de Fernão Dias e seu achado, estiveram lá Brás Rodrigues de Arzão, Matias Cardoso e Jerônimo Camargo

D. Rodrigo Castel Branco acreditando que aquilo fossem realmente esmeraldas, decidiu partir para os sertões do que hoje é Minas, para procurar pelas supostas minas que Fernão Dias teria encontrado, na ocasião Manuel da Borba Gato seguiu junto e num desentendimento que tiveram por volta de 1682, Borba Gato matou Castel Branco, e daí exilou-se nos sertões para fugir da justiça. 

Bandeiras de Domingos Jorge Velho 

Domingos Jorge Velho (1651-1705) foi um notório bandeirante, tendo participado em várias bandeiras, embora seja principalmente lembrado por ter desbravado o Piauí junto com Domingos Afonso Mafrense, chamado de o "Sertão", e por ter destruído o Quilombo dos Palmares

"Na década de 1660 a 1670 colocava-se o início da colonização de nova e grande área brasileira cujo desbravamento primevo se deveu ao bandeirantismo paulista. As terras do Piauí como todos sabem se encontraram no vale do caudaloso Rio Grande dos Tapuias de Gabriel Soares (1587) chamado Pará por Diogo de Campos Moreno (1614), Povoaçu por Bento Maciel Parente (1626), Punaré por Frei Vicente de Salvador e Paraguaçu por Antônio Viera, antes de ser definitivamente batizado Parnaíba pelo bandeirante filho da pequena e gloriosa vila de Sant'Ana de Parnaíba ribeirinha do Tietê: Domingos Jorge Velho". (TAUNAY, 1975, p. 121). 

Entre 1671 e 1674, Velho e Mafrense devassaram os sertões do Piauí, escravizando índios e exterminando tribos. Domingos Afonso Sertão, fundou estâncias (fazendas) em número de pelo menos 39, o que permitiu abrir caminho para que colonos vindos de Pernambuco se estabelecessem com seu gado no Piauí, além de missões jesuítas ali irem se estabelecer. Pois embora o Piauí já tivesse vivenciado entradas e bandeiras no passado, como já foi falado acerca de algumas destas neste texto, apenas com os dois Domingos e suas bandeiras, é que a província ganhou praticamente a forma que hoje possui. 

Domingos Jorge Velho se retirou do Piauí voltando para Pernambuco, e depois seguindo para a Bahia, onde passou a trabalhar como mercenário para destruir quilombos e mocambos. O bandeirante Francisco Dias de Siqueira, chegou ao Piauí e no Maranhão, para levar uma nova leva de povoação, abrindo caminho para os colonos.

De qualquer forma, a próxima grande missão de Domingos Jorge Velho foi combater a "Troia Negra", a "Fortaleza Negra", a "República dos Palmares", ou como é mais conhecido, o Quilombo dos Palmares, o maior quilombo que já houve no Brasil e nas Américas, chegando a conter de 20 a 30 mil habitantes, ocupando uma grande faixa de terra na Serra da Barriga, na época Pernambuco, hoje em Alagoas

O quilombo foi formado nos fins do século XVI ou no começo do XVII, chegou a durar quase um século, tendo sido o "prego no calcanhar de Pernambuco" por todo este tempo, pois muitos escravos africanos tentavam fugir para Palmares, e Palmares se tornou uma "lenda", por sua brava resistência. Taunay (1975) nos conta que de 1668 a 1680, pelo menos vinte entradas atacaram Palmares, mas todas foram infrutíferas. 

Em 11 de março de 1687, o então capitão-mor de Pernambuco desanimado com os fracassos contra Palmares, escreveu uma carta para o rei, dizendo que havia pedido ajuda do bandeirante Domingos Jorge Velho.

"Tenho por sem dúvidas e segundo o parecer de todos, afirmar que só por este meio poderão os moradores de Pernambuco livrarem-se do pejo que esta má vizinhança lhe causa". (TAUNAY, 1975, p. 175).

Em 3 de março de 1687 daquele ano, João da Cunha Souto Maior havia proposto um contrato ao bandeirante Domingos Jorge Velho, o problema é que Velho só iria realizar seus serviços anos depois, devido há alguns problemas: o contrato foi suspenso após a saída de Souto Maior do cargo, com o final de seu mandato, sendo ratificado pelo Marquês de Montebelo, a 3 de dezembro de 1691, porém, o marquês só poderia aprovar o contrato anterior, com alvará do rei, e o rei D. João V só det o alvará em 7 de abril de 1693. Nestes anos, Domingos empreendeu outros serviços, indo destruir quilombos e combater tribos rebeldes, além disso, um surto de varíola e febre amarela, assolou algumas capitanias do nordeste, chegando a vitimar quase duzentos dos homens das bandeiras de Velho.

Sobre o contrato proposto para Domingos Jorge Velho combater e destruir o Quilombo dos Palmares, o contrato tinha dezesseis cláusulas, e entre algumas destas dizia o seguinte:

"Forneceria a Real Fazenda armas de fogo, chumbo, e pólvora e mais petrechos bélico, farinha, feijão, milho, e ainda mil cruzados de fazendas. Prometia o Rei quatro hábitos das três ordens a Domingos Jorge Velho e seus oficiais, legalizando por meio de sesmaria as terras de sua ocupação no Piauí, no Poti e no Parnaíba. Concedia ao cabo da tropa e seus oficiais perdão geral dos crimes e delitos que houvessem cometido, salvo quanto aos de primeira cabeça. E se a vitória compensasse os esforços da campanha que se ia encetar outorgaria Sua Majestade largas superfícies das terras agora ocupadas pelos canhemboras. Comprometer-se-ia Domingos Jorge a arrasar todos os quilombos palmarenses. Consentia em que dos prisioneiros, os antigos escravos fugidos ao cativeiro fossem resgatados pelo seus legítimos senhores mediante a paga de oito mil réis por cabeça. Do quinto dos aprisionados devido à 'Real Fazenda', permitiria Sua Majestade que uma quinta parte fosse doada e ele coronel a fim de que a repartisse como bom entendesse. Os demais quatro quintos dos cativos pertenceriam legitimamente aos paulistas que se comprometeriam a não os vender Pernambuco e sim no Rio de Janeiro e Buenos Aires". (TAUNAY, 1975, p. 176). 

Em 1693, depois de ter se recuperado das batalhas e da longa viagem do Piauí até Pernambuco, Domingos Velho esperou a chegada dos reforços enviados pelo então capitão-mor de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro. Em janeiro de 1694 ocorreu a primeira investida, onde Domingos liderou pelo menos três mil homens naquele primeiro ataque. As batalhas seguiram por dias, adentrando fevereiro, tendo os bandeirantes ao seu favor a vitória. Bernado Viera de Melo, um dos líderes dos ataque a Palmares, conseguiu capturar vários escravos, pois a meta não era matar todos, mas preferencialmente recapturá-los e receber a recompensa de seus senhores que os queriam de volta. 


Pelo fato do quilombo ser muito grande, formado por aglomerados populacionais, a meta era destruir todos eles e alcançar o núcleo, chamado de "Macaco", onde se escondia Zumbi dos Palmares (1655-1695), o rei do quilombo. Mas, a medida que as tropas coloniais adentravam pela serra da Barriga, cada vez mais difícil ficava seu avanço, pois palafitas, trincheiras e muros, eram barreiras ao avanço dos bandeirantes e seu exército, além disso, os quilombolas possuíam a vantagem de conhecer o terreno. A luta se estendeu pelo restante do ano, e do ano seguinte, pois em novembro de 1695, Zumbi foi traído por um dos seus companheiros que delatara aos bandeirantes a localização de seu esconderijo. Zumbi e seus companheiros fiéis, lutaram até a morte. Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, tendo sido decapitado e sua cabeça levada ao Recife, como troféu da vitória sobre Palmares. Nos dois anos seguintes, novos ataques empreendidos a região da Barriga, levaram a extinção dos quilombolas restantes. O maior quilombo das Américas havia caído. 

A descoberta das minas de ouro: o início do ciclo do ouro
Para encerrar este relato sobre as bandeiras, o encerrarei com "chave de ouro", ironicamente falando a respeito da descoberta das tão sonhadas e procuradas minas de ouro, que portugueses, espanhóis, holandeses e colonos se aventuraram por mais de um século a sua procura. 

Todavia, assim como há lacunas sobre quem realmente descobriu ouro em São Paulo, embora alguns historiadores creditem a Afonso Sardinha tendo sido seu descobridor, as jazidas em Minas Gerais, também vivenciam a mesma questão, não se sabe ao certo quem foi ou foram os primeiros a descobrir ouro em grande quantidade, para ter proporcionado uma corrida do ouro para aquela região. 

Segundo Magalhães (1978) em alguns documentos avulsos localizados no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, data que no ano de 1683, Garcia Rodrigues Pais, filho mais velho de Fernão Dias Pais, teria descoberto esmeraldas, após voltar a visitar os locais que seu pai teria visitado anteriormente, e neste caso teria também encontrado ouro, todavia, não existem mais fontes que corroborem a descoberta de grandes jazidas por Garcia.

Orville Derby a partir de documentos encontrados na Biblioteca Nacional, aponta que a bandeira do padre João de Faria, acompanhado de seu cunhado Antônio Gonçalves Viana, o capitão Manuel Borba Gato e Pedro de Avos, realizada por volta de 1693 ou 1694, teriam encontrado nos ribeirões do rio Grande, rio das Mortes e do Sapucaí, ouro. O problema disto é que Borba Gato estava foragido por essa época, pois havia matado D. Rodrigo Castel Branco, e não se sabe ao certo quando teria retornado, pois era procurado pela justiça, então fica a dúvida se os outros teriam aceito a ajuda de Borba Gato e encoberto seu crime? 

No livro Cultura e opulência do Brasil, por suas drogas e minas, escrito por Antonil no século XVIII, diz que foi um mulato que em 1697 teria descoberto grandes jazidas de ouro. Outro relato, aponta que foi na bandeira de Antônio Rodrigues de Arzão em 1693, a qual partiu de Taubaté em São Paulo, com cerca de 50 brancos e alguns índios, adentrou o sertão, indo descobrir ouro no rio da Casca, porém ele e seus homens foram atacados por índios, e tiveram que se retirar para Vitória no Espírito Santo. Arzão teria mostrado ao capitão-mor da província o ouro que descobrira, então retornou para Taubaté onde veio a falecer pouco tempo depois, mas segundo consta os relatos, ele teria dito para o seu concunhado Bartolomeu Bueno de Siqueira, a localização das jazidas. 

"A tradição em parta amparada por provas oficiais, evidencia Bartolomeu Bueno de Siqueira, acompanhado, entre outros, por seu cunhado Manuel Camargo, por seu sobrinho João Lopes de Camargo, por Miguel de Almeida e Antônio de Almeida, seus imediatos e auxiliares na bandeira, retomou, em meados de 1694, a trilha que lhe indigitara o concunhado, encontrando indícios de ouro na Itaverava e depois chegando até à margem do rio da Velhas, donde retornou à serra aurífera. Pela mesma época, ainda partira de Taubaté, com a capitão Manuel Garcia, o Velho, e outros sertanistas, o coronel Fernandes Furtado de Mendonça, que também se dirigiu para as bandas do rio Doce, para a chamada 'Casa da Casca', sendo esta leva mais destinada à procura de índio do que de metais". (MAGALHÃES, 1978, p. 133).

Embora Antônio Rodrigues de Arzão tenha descoberto ouro em 1693, a história concede a seu concunhado a oficialização desta descoberta, pois ainda em 1694, o governador da repartição sul (aquele que administrava questões gerais das capitanias do sul: Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Rio Grande do Sul), na época Artur de Sá e Meneses, que também era capitão-mor do Rio de Janeiro, foi avisado da descoberta da bandeira de Siqueira. 

Artur de Sá e Meneses enviou uma carta para o rei D. Pedro II, avisando da descoberta de várias jazidas de ouro pelo sertões de Catagueses, como era conhecida a região que viria a ser parte de Minas Gerais. Em novas cartas enviadas em 1697 e em 1698, avisava-se ao monarca que novas jazidas de ouro haviam sido encontradas. A corrida do ouro havia se iniciado. Em 1697, Artur de Sá e Meneses foi visitar pessoalmente as minas de ouro, que já contavam com acampamentos improvisados e pequenos povoados desengonçados que se formavam nos arredores. No ano seguinte ele enviou uma nova carta ao rei, dizendo o seguinte:

"Minas de Taubaté são as chamadas dos Cathaguazes, q. distão de Taubaté mais de sem legoas, continuanmte. se vão descobrindo novos ribeiros de grandissimo valimto, como já tenho dado conta a V. Magde...; o ouro he excellentissimo, e dizem os ourives qe. he de vinte e tres quilates". (MAGALHÃES, 1978, p. 136).

Em 24 de junho de 1698, a bandeira de Antônio Dias de Oliveira descobriu uma grande jazida aurífera, a qual ele batizou de "Ouro Preto", pois o mineral ali encontrado, estava coberto por uma fina camada de paládio, que o enegrecia. Em 1711, o povoado que se formou ao redor destas jazidas foi elevado a condição de vila, passando a se chamar Vila Rica, depois rebatizada para Vila Rica do Ouro Preto, e hoje Ouro Preto. 

A bandeira do padre João Faria chegou a localidade no ano seguinte e descobriu novas jazidas. Ouro Preto em pouco tempo se tornava um dos principais polos auríferos. Ainda neste ano, Manuel da Borba Gato para receber o salvo-conduto de seu crime, foi nomeado pelo governador Artur Sá e Meneses, "tenente-general das jornada de descobrimento da prata de Sabarabuasu", como ouro havia sido encontrado, o governador acreditava que a prata também deveria existir, embora Borba Gato nunca chegou a descobri-la. 

Fotografia da rua dos Paulistas em Ouro Preto, Minas Gerais. 
A medida que novas bandeiras descobriam jazidas pelos sertões de cataquases, mais e mais pessoas iam chegando para explorar a região. Em 1695 e 1696, houvera um surto de fome, algo que se repetiu em 1700 e 1701, pois naquelas terras não haviam cidades, vilas, fazendas de gado ou plantações, logo muitas pessoas simplesmente se arriscaram a chegar ali, e algumas acabaram morrendo no caminho; além disso, a escassez de alimentos gerou brigas nos acampamentos, povoados e arraiais que se formavam, levando a vários conflitos, ao ponto que em 1701, o governador Artur Sá e Meneses proibiu que rotas entre as minas fossem feitas para se ligar a Salvador, como forma de inibir a grande leva de pessoas que para lá se dirigiam e geravam tumultos. No entanto, o governador não proibiu que fazendeiros levassem suas cabeças de gado para serem vendidas na região mineira. 

"Cada ano, vêm nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas recôncavas e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa". (VOLPATO, 1986, p. 93 apud ANTONIL). 

O problema é que como aponta Taunay (1975), o gado que era vendido na região mineradora, era vendido a um preço extorsivo e as vezes chegava a ser dez vezes mais caro do que fosse vendido em qualquer outra região. Além disso, os fazendeiros e outros mercadores só aceitavam pagamento em ouro, ele não aceitavam o dinheiro normal, os réis. Daí muitos mercadores enriquecerem, ao ponto de montar mercados na região, e ao mesmo tempo garantirem o monopólio sobre aquelas terras. 

Mas enquanto esse problemas de abastecimento iam sendo resolvidos por ações do governo colonial ou por interesse de particulares, pois rotas comerciais foram abertas pela Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, e posteriormente do Rio Grande do Sul (neste caso, a província de mesmo nome, compreendia o que hoje é o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul).

Por volta de 1701, Manuel da Borba Gato pensou ter encontrado Sabarabuaçu, embora não tenha encontrado prata ou esmeraldas, descobriu ouro, numa região quase no centro de Minas Gerais, que os indígenas chamavam de Sabará, a qual deu o nome a um arraial na localidade que originou uma vila de mesmo nome. Naquela região, posteriormente o Anhaguera II, e seus futuros genros João Leite da Silva Ortiz e Domingos Rodrigues do Prado, levantaram o arraial chamado São João do Pará, depois batizado de Curral del Rei, o qual em 1815 se tornou a cidade de Belo Horizonte, atual capital de Minas Gerais.  É creditado a João Leite, a fundação do Curral del Rei que originou Belo Horizonte. 

João Leite da Silva Ortiz, bandeirante que fundou o arraial de Curral del Rei, núcleo que originaria Belo Horizonte. 
No sul de Minas nas redondezas do rio das Mortes, Tomé Portes-del-Rei deu início a ocupação daquela localidade por volta de 1701, anos depois surgiu o Arraial Novo do Rio das Mortes, erigido por exploradores paulistas entre 1704 ou 1705. O local foi palco da Guerra dos Emboabas (1707-1709) como será visto logo a frente. Em 1713, o arraial se tornou a Vila de São João del-Rei, a qual viria a ser uma das mais importantes vilas de Minas Gerais durante o ciclo do ouro, junto com Vila Rica e Sabará. 

Ainda no sul, pela região de Sabará, na chamada região de Caeté, devido ao rio homônimo que passa por lá, novas jazidas foram descobertas, o que levou ao surgimento de novos arraiais, como o de Vila Nova da Rainha, erigido em 1702 por Leonardo Nardes de Arzão. Uma leva de paulistas, capixabas e baianos se estabeleceram na região, onde começaram a surgir outros núcleos populacionais e posteriormente isso contribuiria para aumentar conflitos pela posse e exploração do ouro, entre os paulistas e os demais membros de outras capitanias, que por eles eram chamados de emboabas

A chamada Guerra dos Emboabas travada pelo controle de Minas, entre 1707 e 1709, tendo Manuel da Borba Gato um dos principais representantes dos paulistas contra os emboabas (termo depreciativo que os paulistas usavam para se referir aos demais colonos de outras capitanias, aos portugueses e outros estrangeiros), se desenrolou pelo simples motivo que os paulistas queriam que o rei reconhecesse que devido a árduo trabalho que eles realizaram com suas bandeiras, detivessem monopólio da exploração aurífera, não permitindo que outros ali fossem explorar as minas de ouro. 

Os paulistas acabaram perdendo a causa, e a Coroa decidiu criar uma nova capitania, batizando de Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, criada em 3 de dezembro de 1709, embora o nome de São Paulo não significava que os paulistas passaram a controlá-la, pelo contrário, a Capitania de São Vicente é que foi englobada a nova capitania. 

Com o surgimento da nova capitania, o governo começou a reconhecer arraiais e povoados como vilas, e escolheu Vila Rica (hoje Ouro Preto) para ser sua capital. Um corpo administrativo foi sendo imposto a região para ajudar a evitar conflitos, fiscalizar os problemas, evitar contrabando de ouro, mercados foram estruturados; prefeitos, juízes, ouvidores, etc., foram designados para assumir a administração das vilas; casas de fundição começaram a serem erguidas, para transformar o outro bruto em barras e levá-los para Portugal. Em 1720, o rei decidiu fazer uma nova mudança, criou a Capitania de Minas Gerais e a Capitania de São Paulo, a fim de se evitar problemas entre as duas capitanias. 

Por volta de 1725 ou 1728, o bandeirante Sebastião Leme do Prado teria descoberto perto do rio Jequitinhonha, jazidas de diamantes. Todavia, alguns relatos dizem que foi um cônego que descobriu os diamantes, outros apontam que foi o português Bernado da Fonseca Lobo quem descobrira as pedras, tendo enviado amostras em 1728 ou 1729 ao rei, o qual reconheceu seu feito em uma carta em 1730, lhe dando os parabéns pela descoberta das joias na região do Serro, que mais tarde ficaria conhecida como Diamantina. Até o final do século outras minas seriam descobertas por Minas Gerais, incluindo minas de esmeraldas. Além disso, alguns bandeirantes partiram para Goiás e Mato Grosso em busca de índios para trabalhar nas minas e descobrir novas jazidas, como vimos no caso de Anhaguera II. 


Mapa mostrando as principais áreas de mineração no século XVIII.
De acordo com Magalhães (1978) as bandeiras que pertenciam ao movimento do bandeirismo surgido na segunda metade do século XVI, haviam se findado no final do século XVII. Volpato (1986) diz que embora ocorreram bandeiras durante o século XVIII, essas já não tinham a mesma organização propriamente do que as bandeiras dos dois séculos anteriores, que o século XVII foi o auge do bandeirismo, o qual lentamente foi ofuscado pela descoberta do ouro. Além disso, ela lembra que nem todos as expedições que ocorreram durante o século XVIII merecem ser chamadas de bandeiras, pois as bandeiras foram um movimento puramente de origem paulista, logo, alguns cronistas chegaram a chamar de bandeira expedições particulares organizadas por habitantes de outras capitanias. 


Mapa do Brasil mostrando a divisão geográfica após o Tratado de Madrid em 1750. Algumas capitanias foram anexadas a outras, como Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte, foram anexadas administrativamente a Pernambuco (Alagoas ainda não existia); Piauí e Ceará foram anexadas ao Maranhão. Os demais estados de hoje não existiam naquela época. 
Para Diogo de Vasconcelos autor de História média de Minas Gerais, ele diz que as últimas bandeiras realizadas ocorreram nos sertões do rio Doce, em Minas, onde em 1746 os bandeirantes Manuel Chassim Monteiro e Sebastião Pinto Cabral descobriram algumas pepitas de ouro. Por fim, a última bandeira que ele considera oficial, foi a do guarda-mor João Pessanha Falcão ocorrida em 1758, onde na companhia de poucos, exploraram o rio Vermelho, o Saçuí Grande, o Saçuí Pequeno e o rio Doce, e nas fraldas da Serra das Correntes ele fundou o povoado de Pessanha, hoje cidade de mesmo nome. Assim se findava o ciclo das bandeiras que durou quase um século e meio.

"A partir da segunda metade do século XVIII, a Capitania de São Paulo através de lavoura canavieira conseguiu superar sua condição de deficiência econômica e inserir-se definitivamente na economia de mercado. Por essa época, o movimento bandeirista já estava desativado. O ápice da sociedade paulista era então composto por comerciantes e latifundiários. O grande cabo-de-tropa, senhor de milhares de índios flecheiros, já tinha ficado para trás, era personagem do passado". (VOLPATO, 1986, p. 98). 


NOTA: Sabará, hoje cidade de Minas, no passado ficou sendo conhecida algum tempo pelo nome de Sabarabuçu, em referência ao equívoco de Manuel da Borba Gato acreditar que as lendárias minas de prata e esmeraldas estariam ali. 

NOTA 2: Domingos Jorge Velho não conseguiu ganhar parte da recompensa acordada em seu contrato para destruir Palmares, no entanto, ele conseguiu terras na Paraíba, cedidas pelo capitão-mor paraibano. Domingos passou seus últimos anos morando em Piancó, onde veio a falecer. 
NOTA 3: Hoje a Colônia do Santíssimo Sacramento, é uma cidade uruguaia, no entanto entre 1817 a 1828, o Uruguai era a província Cisplatina, tendo sido anexada pelo rei D. João VI ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e mantido por D. Pedro I como parte do Império do Brasil
NOTA 4: O ciclo do ouro começou a frear sua pujança de riquezas a partir de 1770, embora jazidas ainda foram descobertas em Minas até o final do século, e em 1821 ou 1822 foi descoberto diamantes na Bahia, como algumas jazidas auríferas também, embora efêmeras. 
NOTA 5: Taubaté foi durante o ciclo mineiro, uma das mais importantes vilas de São Paulo, pois muitos bandeirantes haviam partido dali para explorar Minas Gerais, além disso, foi a primeira vila paulistana a receber uma casa de fundição. 
NOTA 6: A Vila do Serro de quem fazia parte a futura cidade de Diamantina, foi um local que ficou famoso, pois foi onde morou Chica da Silva (ca. 1732-1796), ex-escrava que se tornou esposa do rico comerciante João Fernandes de Oliveira
NOTA 7: Não foi mencionado aqui, mas alguns bandeirantes chegaram a lutar contra os holandeses em 1624, quando estes invadiram Salvador, e depois entre 1630-1637 e 1644-1654, na tentativa de expulsar os holandeses.
NOTA 8: Para quem tiver mais interesse acerca da bandeiras, sugiro procurar o vasto trabalho de Afonso E. Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas, do qual tive apenas acesso a um dos onze volumes. 
NOTA 9: O Tratado de Madrid de 1750, tivera como objetivo Portugal e Espanha assegurarem os limites de seus territórios, os portugueses alegaram que as terras antes pertencentes aos espanhóis, já haviam sendo ocupadas há vários pelos seus colonos, logo, reivindicando o direito de "uti possidetis" (a terra é de quem a ocupa), o Brasil alcançou naquela época uma forma bem parecida a de hoje, graças as entradas e as bandeiras. 
NOTA 10: Manuel da Borba Gato embora tenha ficado alguns anos foragido e ter participado ativamente da Guerra dos Emboabas, mesmo assim mantivera prestígio entre os políticos, recebendo até mesmo sesmarias, e criando fazendas de gado em Minas. 
NOTA 11: O epíteto de "Anhanguera" compartilhado por Bartolomeu Bueno da Silva, pai e filho, é uma palavra de origem tupi, que referia-se a um espírito guardião que vagava pelas florestas sobre muitas formas, protegendo os animais. Neste caso, por sua ligação a caça e a exploração, os dois bandeirantes receberam tal epíteto, embora que os jesuítas identificaram o anhangá ou anhanguera com o demônio. 
NOTA 12: Taunay conta que no século XVII houveram cinco Antonio Raposo, logo por muito tempo confundiu-se estes quatro com Antonio Raposo Tavares, apenas no século XX é que conseguiu separar suas viagens das bandeiras de Tavares. 
NOTA 13: Martim Afonso de Sousa é mencionado em Os Lusíadas, onde Camões o elogia pelo seu governo na Índia e pelo seus feitos no Brasil. 

Referências Bibliográficas: 
MAGALHÃES, Basílio de. Expansão geográfica do Brasil colonial. 4a edição, São Paulo, Nacional, 1978. (Coleção Brasiliana - volume 45). 
TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas - tomo I. 3a edição, São Paulo, Melhoramentos, 1975.
VOLPATO, Luiza. Entradas e Bandeiras. 2a edição, São Paulo, Global, 1986. (Coleção História Popular - 2).
DAVIDOFF, Carlos Henrique. Bandeirantismo: verso e reverso. 2a edição, São Paulo, Brasiliense, 1984. 
VARNHAGEN, Francisco Adolfo. Cartas de Américo Vespúcio, na parte que respeita as suas três viagens ao Brasil. Revista do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, Rio de Janeiro, tomo LXI, p. 9, 1878). 

Links relacionados: 
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