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Leandro Vilar

sábado, 27 de outubro de 2012

A Revolução Científica Moderna

"O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano."
Isaac Newton

A chamada Revolução Científica fora uma série de fatores e mudanças que ocorreram principalmente no século XVII que desencadearam o surgimento das ciências modernas, e ao mesmo tempo levou a se repensar muitos dos conhecimentos até então existentes. Antes da revolução, muitos acreditavam que o mundo fosse plano e o "centro do universo"; durante a revolução tal ideia fora contestada e após a revolução, tal ideia praticamente já estava esquecida, pois o mundo era redondo e girava em torno do sol.

No entanto, a Revolução Científica não ficou apenas restrita a essa ideia, ela repensou a astronomia, a matemática, a física, a química, a biologia, a medicina, anatomia, e em alguns aspectos, a zoologia, microbiologia, fisiologia e até a filosofia. Em geral a revolução se deu no que nós chamamos hoje de ciências exatas e da natureza, nesse caso, medicina estaria ligado ao sentido de natureza. Assim, alguns historiadores das ciências e filósofos das ciências dizem que fora nesse período que o "pensamento do mundo moderno" começou a ganhar características próprias, onde o conhecimento, a visão de mundo, a cultura e a sociedade, começaram a mudar especialmente na Europa, berço dessa revolução e posteriormente, a influência da mesma começou a ser sentida de forma menor e variável pelas colônias europeias no mundo. Nesse texto, falarei a respeito de como essa revolução surgiu, se desenvolveu, seus principais pensadores e até onde ela chegou.

Conceituando a revolução

Alexandre Koyré
O conceito Revolução Científica fora criado em 1939 pelo proeminente físico, filósofo e historiador das ciências russo Alexandre Koyré (1892-1964), o qual concebeu tal conceito ou expressão como forma de se referir aos eventos e mudanças ocorridos principalmente ao longo do século XVII que culminaram na formação da ciência moderna, pois até então, considerava-se que os antigos gregos, romanos, egípcios  judeus, persas, árabes, etc., já possuíam um certo conhecimento que fora considerado "científico", assim, durante a Revolução, a ciência moderna surgiu em si. No entanto, uma pergunta vem em mente, o que é ciência? Será que o conceito atual de ciência poderia ser aplicado no século XVII, ou estaríamos cometendo um anacronismo?

"1. Conjunto organizado de conhecimentos relativo a determinada área do saber, caracterizado por metodologia especifica. - 2. Saber, conhecimento. - 3. Conhecimento quem se obtém através das leituras, de estudos; instrução, erudição. - 4. Conhecimento prático usado para uma dada finalidade". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 6, 1998, p. 1402).

Num significado mais amplo, baseado nas conclusões de Marconi e Lakatos [2007], por sua vez, feitas a partir das definições dadas por Ander-Egg e por Trujillo, dois especialistas em filosofia da ciência:

"... a ciência como um pensamento racional, objetivo, lógico, confiável, ter como particularidade o ser sistemático, exato e falível, ou seja, não final e definitivo, pois deve ser verificável, isto é, submetido à experimentação para a comprovação de seus enunciados e hipóteses, procurando-se as relações causais; destaca-se, também, a importância da metodologia que, em última análise, determinará a própria possibilidade de experimentação". (MARCONI; LAKATOS, 2007, p. 23).


Assim, podemos chegar há algumas conclusões: primeiro, o conceito de ciência é um tanto complicado de ser definido, pois na definição dada acima, necessariamente não se incluí as chamadas ciências humanas e sociais, no entanto, nesse contexto não seria um problema, pois a definição de ciências humanas e sociais só surgiu no final do século XIX, logo o que fora dito, pode ser aplicado ao sentido visto na Revolução, pois os estudiosos da época, realmente realizaram observações, propuseram hipóteses, teorias, desenvolveram pesquisas e experimentos. 

Logo, podemos dizer que os modernos faziam ciência? Sim. Pelo ponto de vista aqui dado, pode-se dizer que eles faziam ciência, porém aqui chegamos a segunda questão: o termo ciência que hoje usamos para se referir a vários tipos de conhecimentos, sejam das áreas exatas, da natureza, médicas, humanas, sociais, jurídicas, etc., no período moderno, o termo ciência não possuía toda essa abrangência, e em geral era pouco utilizado, a não ser com rara exceções, como fora o caso de Galileu, o qual disse que estava redefinindo a "ciência do movimento".

Assim, o mais sensato a dizer, é que na Idade Moderna, se fez ciência para nosso sentido, mas para os modernos, eles estavam realizando "estudos da natureza", o "conhecimento natural", logo, os mesmos também não se chamavam de "cientistas", pois essa terminologia só fora criada no século XIX, assim dizer que Galileu e Newton foram cientistas, sem fazer a devida ressalva, é cometer um anacronismo. Mas, se o termo cientista não existia naquela época, então como eles se chamavam, se referiam?

Os historiadores hoje apontam três termos pelos quais os estudiosos dessa época se referiam aos seus estudos e a sua profissão: "filosofia natural", "nova filosofia" e "filosofia mecânica", logo, os mesmos se chamavam de "filósofos naturais", "filósofos da natureza" ou "filósofos mecânicos"

Porém, nessa época o sentido de filosofia era bem mais abrangente do que nós estamos habitualmente acostumados hoje em dia. Assim como o conceito de ciência é vasto para nós, o mesmo pode-se falar do conceito de filosofia para os modernos, pois no século XV durante o Renascimento, o conceito de filosofia abrangia naturalmente a própria filosofia em si, mas também a história, geografia, matemática, física, química, astronomia, anatomia, arquitetura, engenharia, alquimia, magia, e as artes. Daí, os filósofos do século XVII para especificar seu trabalho, adotaram os termos "novo", "natural" e "mecânico".

Sendo a palavra "natureza" aqui empregada para se referir aos conhecimentos que envolviam o estudo do mundo e da natureza: astronomia, matemática, física, química, zoologia, anatomia, história natural, geografia, etc. Quanto a respeito do termo "mecânico", hoje para nós tal palavra remete-se ao profissional que concerta máquinas e aparelhos, no entanto, no século XVII, as máquinas ainda não existiam, as mesmas só começaram a surgir no século XVIII com a Revolução Industrial. Assim, a palavra "mecânico" naquela época não se referia a "conserto" ou "manutenção", mas sim a "movimento" e "estrutura".

Desde as órbitas dos planetas, a propagação da luz, do som e o movimento dos seres vivos, os filósofos naturais procuraram não apenas compreender seus movimentos mas suas estruturas, algo que ficou bem marcante nos estudos da botânica, zoologia, fisiologia, anatomia e da própria física e astronomia. Daí, alguns dizerem que estudavam "filosofia mecânica". 

"O esforço de Galileu para reunir a cinemática e a filosofia natural resultou no que ele chamou de a nova ciência do movimento, que os historiadores ainda veem como um passo decisivo para as teorias subsequentes. Da mesma maneira, a nova extremamente influente filosofia natural de René Descartes (1596-1650), a filosofia mecânica, foi estabelecida a partir de suas tentativas de fundar a filosofia natural sobre as certezas do raciocino geométrico; e a nova filosofia natural de Newton baseou-se, como mostrava o titulo de seu livro, em princípios matemáticos". (HENRY, 1998, p. 16). 

Antecedentes da Revolução Cientifica 

Embora Alexandre Koyré e outros defendam que a revolução tenha começado no século XVII, alguns argumentam que a mesma teria começado ainda no século anterior, durante a fase do Renascimento na Itália. O período renascentista fora uma fase de transição entre o pensamento medieval para o pensamento moderno. Propriamente, o Renascimento se dividiu em três fases: Trecento, Quattrocento e o Cinquecento, que corresponderia aos séculos XIV, XV e XVI. Mas, embora tenha se iniciada na Itália e tido um grande foco voltado para as artes, os filósofos do Renascimento, não se limitaram apenas a Itália e a estudar as artes, alguns destes dedicaram-se a "redescobrir" o conhecimento dos antigos, e fora a partir dessa "redescoberta" que a "ciência dos antigos" fora trazida a luz do presente daquela época, para ser analisada e contestada. 

Saberes provenientes da filosofia, matemática, arquitetura, física, medicina, geografia, astronomia, farmácia, alquimia, etc., foram resgatados, pois ao longo da Idade Média, a Igreja "enclausurou" tais obras em seus mosteiros e bibliotecas, pois considerava tal conhecimento possivelmente pernicioso a humanidade, ou que não tivesse uma aplicação prática concreta. 

No Renascimento, em meio a pujança da  redescoberta  do conhecimento clássico, surgiu a concepção de que o homem não deveria ficar atrelado a ignorância ou apenas a uma área do conhecimento, ele deveria ser apto em outras áreas, assim surgiu o ideal do "homo universalitis". Em termos mais convencionais para nosso entendimento, o dito "homem universal" seria o "cientista" na sua concepção idílica.

Nesse caso, o melhor representante desse modelo fora Leonardo da Vinci (1452-1519). Seu pensamento febril o levou a se interessar em pesquisar e estudar as mas distintas áreas do saber, da matemática a pintura, da poesia a mecânica, da anatomia a arquitetura, do desenho a óptica, em suma, posteriormente nos séculos XVII e XVIII os filósofos naturais enxergariam em Leonardo uma espécie de "herói para a ciência", devido a sua versatilidade de enveredasse por vários campos do conhecimento, sendo muitos desses conseguidos por vias autodidata, algo que não lhe concedeu credibilidade por parte de alguns. 

Leonardo da Vinci
"Leonardo da Vinci foi certamente um homem da ciência, mas em sua época esse aspecto era desconhecido, exceto, talvez, por alguns íntimos. Para o mundo em geral, ele era um mecânico e um artista; sua ciência foi compreendida somente muito depois de sua morte. Certamente, foi uma opção sua, pois, apesar da falta de instrução formal, as invenções da imprensa e da gravura estavam disponíveis, e ele poderia tê-las usado para difundir seu trabalho. Mas ele estava satisfeito em contemplá-los e estudá-los em seu próprio benefício; ter o suficiente para as suas necessidades parece ter sido sua única ambição material". (RONAN, 2001, p. 17).


Outro fato que contribuiu para o desenvolvimento científico e literário no início da Idade Moderna fora a invenção da prensa de tipo móvel concebida em 1448 pelo alemão Johannes Gutenberg (1399-1468). A criação de Gutenberg fora um passo-chave para o desenvolvimento não apenas cultural do Renascimento mas para as "ciências", já que filósofos naturais de diversas partes do continente e posteriormente do mundo, agora tinham meios mais fáceis de publicarem seus estudos e dessa forma disseminarem o conhecimento. 

Albrecht Dürer (1471-1528), matemático e pintor alemão, publicou importantes obras para o estudo da matemática, óptica, estética, perspectiva e pintura. Ele chegou a escrever três livros sobre esses assuntos, e também publicou um trabalho simplista sobre botânica e zoologia, mais voltado para a arte. 



Frontispício de Quatro livros sobre as proporções humanas (Vier Bücher von menschlicher Proportion) de Albrecht Dürer (1528).
Entretanto alguns conterrâneos seus, Otto Brunfels (1488-1534), Jerome Bock (1498-1554) e Leonhard Fuchs (1501-1566) são considerados os "pais da botânica" na Alemanha. Com exceção de Fuchs que era médico por formação, os demais eram botânicos, filósofos naturais e pastores luteranos. Seus trabalhos eram voltados para uma tendência "científica".

Desenho de um lírio (Lilium bulbiferum), por Leonard Fuchs.

Nessa mesma época na Polônia, o astrônomo, matemático, médico e jurista Nicolau Copérnico (1473-1543), escrevia sua mais famosa obra, De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções dos mundos celestes), publicada postumamente, gerou grande alarde na época, pelo fato de conter a teoria heliocêntrica, a qual negava a veracidade do modelo ptolomaico. O heliocentrismo apresentado e defendido por Copérnico, se tornou o marco para o inicio da revolução como alguns historiadores consideram. Fora a partir dessa reinterpretação do universo, que os astrônomos e vários outros estudiosos, começaram a contestar a supremacia dos modelos dos antigos. Outro astrônomo que também deixou importantes contribuições fora o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) o qual deixou importantes descobertas que contribuíram para mudar a visão cosmológica do mundo e apoiar o posicionamento de Copérnico. Acerca de suas contribuições estão: 1) comprovação de que o céu não era imutável; 2) os cometas não eram fenômenos atmosféricos; 3) os corpos celestes estavam mais distantes do que se supunha; 4) os planetas giravam em torno do Sol; 5) desenvolvimento de aparelhos de precisão para o estudo astronômico; 6) determinação da translação em 365 dias.

Na França, os trabalhos de Pierre Belon (1517-1564), Guillaume Rondelet (1507-1566) e Konrad Gesner (1516-1565) deixaram importantes contribuições no campo da botânica, zoologia, anatomia e da história natural. O volumoso trabalho de Gesner, Historiae Animalium (História dos Animais) é considerado como o precursor da zoologia "cientifica" e da taxionomia.

"A matemática floresceu durante a Renascença e exerceria um importante papel no desenvolvimento de outros ramos da ciência. Durante os estágios iniciais da Revolução Científica, a matemática ajudou esclarecer o comportamento da Lua e dos planetas em seu movimento pelo céu, assim como a resolver alguns problemas básicos de mecânica. O grande desenvolvimento atingiu seu pico nos séculos XVII e XVIII, mas seus fundamentos foram lançados no século XVI". (RONAN, 2001, p. 59).

A medicina não chegou a dá grandes passos, no entanto o campo da anatomia fora o mais expressivo dessa área. Em 1543 o famoso médico e anatomista belga André Vesálio (1514-1564) publicou seu famoso livro A organização do corpo humano (De Humani Corporis Fabrica), considerado a mais importante obra sobre anatomia da Idade Moderna. Vesálio dedicou vários anos de pesquisa e estudo para compor este atlas da anatomia, o qual contribuiu para repensar o estudo e a compreensão do corpo humano e da própria medicina a qual até então era profundamente ainda influenciada pelo pensamento de Galeno.

Página do livro A organização do corpo humano de André Vesálio. Nessa página, Vesálio fez uma elaborada descrição de vários músculos do corpo humano.


Na física alguns filósofos naturais que deixaram importantes trabalhos que contribuíram para o desenvolvimento da "física moderna", fora o engenheiro, matemático e físico belga Simon Stevin (1548-1620), o qual deixou importantes trabalhos no campo da estática e hidrostática, nos livros, Princípios da estática (1586) e Princípios da hidrostática, onde o mesmo desbanca as ideias de estática e hidroestática de Aristóteles e perfaz a base para estudos posteriores que contribuíram para a descoberta e compreensão da eletricidade. E o famoso médico e físico britânico William Gilbert (1544-1603), escreveu o primeiro importante trabalho acerca do magnetismo, exposto em seu livro O magnetismo (De magnete), publicado em 1600. 
Mas se por um lado, os estudos naturais, matemáticos, físicos, astronômicos e filosóficos tiveram o que contribuir para se repensar esses saberes e o mundo, outros três fatores importantes que movimentaram os séculos XV e XVI, fora a religião, a magia e a alquimia. 

Após Lutero ter pregado suas 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg em 31 de outubro de 1517, ele havia acendido o pavio para o que viria ser conhecido como a Reforma Protestante. A Reforma iniciada em solo alemão se espalhou pelos Estados Alemãs, e posteriormente o norte da França, Grã-Bretanha, Países Baixos, Bélgica, Escandinávia, etc., um novo "cisma" entre a cristandade começava a ganhar corpo. Embora as ideias de Lutero não tenham sido inéditas, já que outros cogitavam fazer o mesmo há pelo menos um século, mas fora a voz de Martinho Lutero (1483-1546) que levou adiante essa reforma, que não apenas incidiu sobre o dogmatismo católico, mas na sociedade, na cultura e no próprio pensamento moderno.



Páginas exibindo 30 das 95 teses escritas por Martinho Lutero
"... a Reforma e a Contra-Reforma - viria a ter um efeito profundo no crescimento e na prática da ciência durante a Renascença e por muito tempo mais, como se torna claro quando se traça o progresso da ciência do século XV em diante. Aconteceu em virtude da ética do protestantismo emergente. Por um lado, a atitude protestante em relação ao trabalho encorajou o crescente capitalismo da época no norte da Europa (especialmente Alemanha) e, por outro, estimulou a pesquisa cientifica. O estímulo científico foi causado pelo desejo de usar a descoberta para criar uma figura do universo ordeira e coerente com a finalidade de descobrir ainda mais o trabalho de Deus. Isso ajudou a satisfazer uma necessidade sentida por aqueles para quem os caminhos de Deus com os homens deviam ser discernidos mais na Bíblia e na natureza do que nos mistérios dos sacramentos e da Igreja". (RONAN, 2001, p. 11).

Tal liberdade de trabalho dado aos filósofos naturais, é bem visível, quando falamos de nomes como, Bacon, Kepler, Boyle, Newton e Leibniz. Todos esses foram protestantes, falaram profundamente de filosofia e "ciência", mas acima de tudo, não deixaram de tentar associar religião com "ciência". O próprio João Calvino (1509-1564) fundou várias universidades ou participou da fundação destas, além de ter se formado em Direito.



"Em Filosofia, pode ocorrer que a contemplação do homem esteja dirigida a Deus, ou se estenda sobre a Natureza, ou se reflita e se volte sobre o próprio Homem. A partir de diversas indagações, emergem três conhecimentos: filosofia Divina, filosofia Natural e filosofia Humana ou Humanidade. Pois todas as coisas estão marcadas e estampadas com este caráter tríplice: o poder de Deus, a diferença da natureza e a utilidade do homem". (BACON, 2007, p. 136).   

Giordano Bruno
Mas se por um lado, o protestantismo não fora tão radical como o catolicismo a respeito da filosofia natural, permitindo que a mesma pudesse ser estudada, desde que não predize-se heresias ou distancia-se os homens de Deus, estava tudo bem em estudar os mais distintos assuntos. No caso da Igreja Católica, embora que durante o Renascimento houvera uma certa "liberdade" nas pesquisas realizadas, a Igreja ainda se mantinha atenta aos trabalhos publicados e caçava os supostos heréticos, um dos famosos casos acerca disso foram as acusações dadas a Galileu, e a Giordano Bruno (1548-1600) o qual acabou sendo sentenciado a execução na fogueira por ter sido sentenciado a crimes de heresia e desvirtuação dos valores cristãos. Embora, Giordano tenha sido um frade dominicano, ele contestava vários preceitos doutrinários da Igreja em relação aos saberes naturais. 

Curiosamente, mesmo diante desse embate entre fé e ciência, onde as Inquisições perseguiram os estudiosos, especialmente em Portugal, Espanha e Itália, não significa que os mesmos fossem descrentes ou que não possuíssem fé. Na verdade, o conceito de ateísmo inexistia nessa época, e alguns dos célebres filósofos naturais acreditavam em Deus bem mais do que supúnhamos

Kepler disse que depois que desenvolveu sua mecânica celeste finalmente pode compreender Deus. Descartes em seu famoso livro O Discurso sobre o Método fala acerca da existência de Deus. Newton chegou a dedicar algum tempo estudando a Bíblia e até mesmo nunca deixou de acreditar que Deus agisse sobre o mundo. "O conceito espaço absoluto de Newton, tão importante para a elaboração de seus Principia mathematica (1687), foi ditado não pelas exigências de sua análise matemática do sistema mundo, mas por seu conceito de Deus". (HENRY, 1997, p. 86).


A religião pode ter fornecido barreiras para o desenvolvimento das "ciências" ou dado novas oportunidades de comprovação e pesquisa, no caso da magia, essa se comportou de forma similar. Mas falar de magia nesse contexto é algo bem complicado quando vamos ver sua definição. Hoje para nós, magia consiste em algo sobrenatural, fora da lógica, porém para o pensamento moderno, especialmente entre o período dos séculos XIV ao XVI, a magia conotava outros significados. A magia ganhou importância e influência no Renascimento especialmente graças ao hermetismo, textos de origem grega atribuídos a suposta divindade Hermes Trismegisto.

"Baseava-se em escritos que se pensava serem originários do Egito, da época de Moisés, e que derivavam ou eram inspirados na divindade egípcia Thot, deus do cálculo e do aprendizado e conselheiro dos deuses do panteão egípcio. Seu equivalente grego era Hermes, e, devido á grande veneração que os gregos tinham pelos mistérios egípcios, ele recebeu, nos tempos helenísticos, a designação adicional de Trismegisto, que significa "três vezes grande"". (RONAN, 2001, p. 12).



Primeira página da Tábua de Esmeralda, traduzida para o latim por Chrysogonus Polydorus, 1541.
Nesses textos existem um forte teor de filosofia neoplatônica, aristotelismo, alquimia e misticismo, tais conceitos antigos foram revividos graças a tradução realizada por Marsilio Ficino (1433-1499), um dos grandes nomes do humanismo italiano. Ficino se maravilhou com o conhecimento contido em dezoito textos que compõem o conhecimento hermético, sendo os mais conhecidos, chamados de Tábua de Esmeralda e Corpus Hermeticum. A partir de sua tradução, outros filósofos e artistas se interessaram pelo conteúdo dessas obras, e propuseram resgatar a magia, a desassociando de seu caráter negativo construído pelo cristianismo.

No Renascimento a magia diferente de nossa concepção atual que remete há algo puramente ligado ao sobrenatural, naquele tempo, a magia era dividida entre o sobrenatural e o natural, daí ficou conhecida comumente como magia natural, o que se definia como o estudo da natureza por meio de métodos que hoje podemos dizer que sejam "pré-científicos".

"[A magia] circulou mais ou menos ocultamente durante a Idade Média e voltou a agir às claras durante o Renascimento, período em que muitas vezes foi considerada complemento da filosofia natural, ou seja, como a porte desta que possibilita agir sobre a natureza e dominá-la. Era assim considerada por Pico della Mirandola (De hominus dignitate, fl. 136v.) e por todos os naturalistas do Renascimento". (ABBAGNANO, 1998, p. 636).

"Johannes Reuchlin, Cornélio Agripa, Teofrasto Paracelso, Gerolamo Fracastoro, Gerolamo Cardano, Giovanni Battista della Porta, todos visavam eliminar o caráter diabólico atribuído [a magia] durante a Idade Média". (ABBAGNANO, 1998, p. 636).

Capa do livro Magiae naturalis sive de miraculis rerum naturalium, escrito por Giambattista della Porta. Tal livro fora um dos mais famosos da época a abordar o conceito de magia natural.


A magia natural como ficou conhecida incidiu em várias áreas do conhecimento, mesclando matemática com a numerologia, astronomia com astrologia, a física com a filosofia da Cabala, farmacêutica com curandeirismo, etc. Embora a magia natural fosse permitida, a magia negra era considera herética, e seus adeptos, os bruxos e bruxas eram perseguidos e queimados em fogueiras nessa época.

Por muito tempo a alquimia fora vista como uma prática mais voltada para a magia natural do que a filosofia natural, no entanto, a alquimia contribuiu para o desenvolvimento de conhecimentos utilizados na química, física, astronomia, mineralogia, botânica, farmacêutica, medicina, etc. 

O saber alquímico existe desde a Antiguidade, do Egito a China, vários povos praticavam a alquimia, e essa adentrou a Europa através dos gregos e posteriormente fora difundida pelos romanos. Na Idade Média, os estudos alquímicos na Europa eram modestos, já que a mesma era vista por alguns como sendo bruxaria, no entanto os árabes deram grande valor e deixaram importantes contribuições que foram úteis para o desenvolvimento da alquimia posteriormente.

Os trabalhos do alquimista, médico, astrônomo suíço Paracelso (1493-1541) e do alquimista e médico alemão André Livabius (1555-1616) tiveram grande impacto e influência na época. Embora os métodos alquímicos fossem contestados por alguns, seus métodos foram adotados posteriormente pela química, física, biologia, medicina, etc., por constituírem uma metodologia de observação, análise, contestação e experimentação. Tal fato é bem verídico, quando nota-se que o livro de Livabius, intitulado Alquimia (1597) fora utilizado pelos mais diversos estudiosos ao longo do século XVII, incluindo nomes notáveis das ciências, como Francis Bacon e Isaac Newton, ambos eram dados as práticas alquímicas

André Livabius ao lado de Paracelso, foram os mais notórios alquimistas do século XVI.

"Parece inegável que as tradições mágicas desempenharam um importante papel na grande transformação da filosofia natural escolástica na nova filosofia natural da revolução cientifica, mais empírica, de uso mais prático". (HENRY, 1998, p. 57). 

Não obstante, outros médicos, alquimistas e filósofos naturais como Giovanni Pico, Pomponazzi, Girolamo Fracastoro e Daniel Sennert, trabalharam no intuito de conseguirem desenvolver através da alquimia um elixir para curar todas as doenças, a lendária panaceia, a cura para todos os males.  

XVII: O século das ciências

Como fora dito anteriormente, boa parte dos historiadores e filósofos das ciências consideram o século XVII como o século onde decorreu a Revolução Científica, pois fora nesses cem anos que muitos filósofos naturais deixaram importantes contribuições para diversas áreas que contribuíram para o surgimento da dita "ciência moderna". 

Assim, iniciando o século XVII um dos estudiosos que estava em alta nesse período era o notório astrônomo, matemático e astrólogo alemão Johannes Kepler (1571-1630). Kepler conheceu Brahe em 1599 em Praga, quando o mesmo residia e trabalhava como astrônomo real na corte do rei Rodolfo II. Kepler tornou-se assistente de Brahe e estes trabalharam por pouco tempo já que Brahe veio a falecer em 1601, no entanto, fora a partir dos trabalhos, anotações e observações de seu mestre que Kepler repensou o universo.

Em 1609 ele lançou seu livro chamado Nova Astronomia, no qual defendia que a órbita dos planetas não era circular assim como sugeriram Ptolomeu, Copérnico e Brahe, na realidade a órbita era elíptica. Isso fora possível graças as observações feitas em relação a Marte. Não obstante, além de refutar a ideia da trajetória circular, Kepler deixou outras importantes contribuições que ficaram conhecidas como as Leis de Kepler que fundamentam a mecânica celeste, a qual estuda o movimento dos astros no universo. Tais leis, foram estudadas por vários astrônomos, matemáticos e físicos, incluindo Galileu e Newton, o qual comprovou a veracidade das leis de Kepler, com uma equação. Em 1618 ele lançou a Harmonia do Mundo, complementado sua mecânica celeste agora tendo estudado o movimento dos planetas, sua velocidade e harmonia. 

Diagrama retratando as Leis de Kepler, as quais inferem em definir o movimento elíptico dos planetas e de outros astros. 

Galileu Galilei (1564-1642) deu continuidade nos trabalhos astronômicos. De fato, fora a partir do século XVII que Galileu concebeu seu próprio modelo do telescópio e deu início a seus trabalhos em astronomia. Claro, que além disso, o mesmo seguiu com seus estudos na matemática, física e um pouco em filosofia.  Um dos importantes livros de Galileu fora O ensaiador (Il Saggiatore) publicado em 1623, no qual trazia assuntos de astronomia e física, e ao mesmo tempo perfazia uma sagaz e ácida resposta aos críticos de suas ideias.


"O ensaiador, não era polêmico em absoluto. Nele Galileu expôs seus pontos de vista sobre a realidade científica e sobre o novo método científico; explicou sua doutrina das qualidades primárias (as que podiam ser medidas) e secundárias (não mensuráveis, isto é, qualidades como odor e o sabor). Explicou também como definir um problema com o auxílio de experiências preliminares e, a partir dos resultados, formar uma teoria, a qual poderia, então, ser usada para "predizer" consequências capazes de ser testadas pela observação". (RONAN, 2001, p. 82).


Pintura retratando Galileu e seu discípulo Vincenzo Viviani conversando.


No entanto, os trabalhos de Galileu segundo Koyré contribuíram para o desenvolvimento da "nova física" ou "física moderna". Isso levou vários outros estudiosos a se embrenharem pela física, astronomia e matemática para repensarem suas "ciências". De fato, dois discípulos de Galileu, Vincenzo Viviani e Evangelista Torricelli (1608-1647) fundaram em 1657 a Accademia del Cimento (Academia de Experiências) dedicada a pesquisa e desenvolvimento das "ciências". Infelizmente a academia fora fechada dez anos depois, por um dos Medici. 

Não obstante, deixando a astronomia e adentrado a física, três aspectos importantes são merecedores de destaque: os estudos voltados para a compreensão da temperatura, realizados por Galileu, Santorio Santorio (1561-1636), mas especialmente pelo dinamarquês Ole Romer (1644-1710). Romer embora tenha sido um astrônomo de carreira, dedicou-se a estudar arquitetura, engenharia, matemática, física e química. Romer, fora o primeiro a definir as bases para a escala termométrica, desenvolvida no século XVIII, especialmente por Daniel Fahrenheit (1686-1736) e Anders Celsius (1701-1744), os quais desenvolveram suas próprias escalas termométricas, amplamente utilizadas hoje em dia, designadas pelos seus sobrenomes. Entretanto, Romer também é conhecido como tendo sido o primeiro a desenvolver o conceito de velocidade da luz, e dizer que a mesma não era infinita.



Ole Romer fora o primeiro a considerar a velocidade da luz, como uma velocidade constante mas não infinita.

O físico, engenheiro, diplomata e político alemão Otto von Guericke (1602-1686) se interessou por física na metade da vida, mas dedicou-se a essa até o final dela. Ele deixou importantes trabalhos no estudo da pressão atmosférica, nos estudos da pneumática, da propagação do som, da luz no vácuo, no magnetismo e na estática. Ele também é lembrado por ter criado sua própria versão da bomba de ar, e por ter criado a máquina eletroestática, a qual seria desenvolvida no século seguinte contribuindo para o entendimento acerca da eletricidade. 



Não obstante, fora num seguimento da óptica que surgiu a microscopia. Graças ao desenvolvimento do microscópio, isso abriu possibilidades para estudos tanto na física, química, botânica, zoologia, fisiologia, medicina, mineralogia, etc. Dentre os nomes que se destacaram estavam: Jan Swammerdam (1637-1680) um dos pioneiros nos estudos da microscopia, deixou um vasto trabalho zoológico acerca dos insetos, além de ter deixado importantes descrições anatômicas de alguns órgãos do corpo humano; Marcello Malphigi (1628-1694) o qual deixou importantes trabalhos no estudo da fisiologia e fora um dos primeiros a se dedicar aos estudos da embriologia; Nehemiah Grew (1641-1712) notório nos estudos fisiológicos, anatômicos e morfológicos das plantas. Seu trabalho mais importante fora Anatomia das Plantas, um volumoso trabalho abrangendo anos de pesquisas através do microscópio.

Entretanto, os microcopistas mais famosos na época foram, o holandês Anton van Leeuwenhoek (1632-1723) e o inglês Robert Hooke (1605-1723), os quais deixaram importantes contribuições na física, e na microbiologia. Leeuwenhoek é lembrado por seus trabalhos na microbiologia, onde o mesmo desenvolveu estudos acerca das células animais e vegetais, descobriu microrganismos como as bactérias e os protozoários, além de ter estudado os órgãos internos do corpo humano sob a lente do microscópio contribuindo para avanços na anatomia e medicina. O mesmo também projetou uma gama de microscópios e lentes, aperfeiçoando o aparelho até o final da vida. Hooke fora o criador do termo "célula", e por sua vez não apenas deixou contribuições para a microscopia e a microbiologia, as quais podem ser vista em seu livro Micrografia (1665), mas também atuou no desenvolvimento de microscópios, telescópios, além de estudar física, matemática, astronomia, química, geologia, etc. 

Um dos modelos de microscópio construído por Robert Hooke, retratado por ele mesmo em um desenho para o seu livro Micrografia (1665).

No campo da metodologia, teoria e da filosofia dois notórios filósofos naturais que se destacaram nesse período fora o polímata britânico Francis Bacon (1561-1626) e o filósofo, matemático e físico francês René Descartes (1596-1650). Embora, Bacon tenha deixado vários trabalhos no campo do direito, leis, alquimia e história, ele é principalmente lembrado para as ciências pelo seus trabalhos no campo da filosofia natural, onde deixara importantes obras a respeito da metodologia e teoria, nesse caso o chamado Empirismo. Desenvolvido em seu livros, O progresso do conhecimento (1605), Instauratio Magna (1620) e Novum Organum (1620). 


Capa do Novum Organum de Francis Bacon (1620)

"Bacon propôs (...) um método investigativo fundamentado em observação, descrição, classificação, comparação, eliminação e, só então, dedução das possíveis causas de um fenômeno. Em síntese, tratava-se do empirismo". (SERJEANTSON, 2009, p. 72).



"O principal mérito do método empírico é o de assinalar com vigor a importância da experiência na origem dos nossos conhecimentos. Os empiristas de um modo geral têm razão ao afirmar que não existem ideias inatas, e de que antes da experiência não há e nem pode haver conhecimento algum sobre o mundo exterior". (OLIVEIRA, 1997, p. 53).


No caso de Descartes, o mesmo deixou importantes trabalhos para a matemática, como o plano cartesiano; na óptica, junto com Christian Huygens (1629-1695) o qual se destacou nos estudos acerca da natureza e do movimento da luz, e fora o criador da "teoria da ondulação da luz", algo que influenciou Isaac Newton a desenvolver o telescópio de reflexão, utilizado para realizar seus experimentos descritos em seu famoso livro Optica. Entretanto, Descartes é principalmente lembrado como o desenvolvedor do Racionalismo na filosofia moderna. 


Seu pensamento metafísico pode ser analisado e estudado em duas de suas importantes obras: O Discurso sobre o método (1637) sua obra mais famosa, onde ele desenvolveu o conceito do método, e como esse pode ser aplicado na filosofia natural, além de dá os primeiros passos para o desenvolvimento do racionalismo moderno. É nesse livro que ele traz a famosa frase: "Penso, logo existo". Em as Meditações sobre Filosofia Primeira (1641), onde ele questionou a necessidade de duvidar-se de tudo excerto da própria razão. Nesse caso, ele dizia que ao duvidar, isso leva você a questionar o por quê dessa dúvida, logo, isso o impulsiona a procurar por respostas. Não obstante, ele também dedica parte do livro a falar sobre a constituição do universo, e acerca da existência de Deus e da alma e como através de seu método eles podem ser comprovados. 


Na química um dos mais notórios filósofos naturais dessa época fora Robert Boyle (1627-1691). Além de químico, Boyle também fora alquimista e físico, fato esse que o levou a trabalhar e se tornar amigo de Robert Hooke e Isaac Newton, onde os mesmos desenvolveram pesquisas na física. Boyle deixou uma série de trabalhos onde criticava algumas teorias platônicas e aristotélicas sobre a matéria, criticou também algumas teorias sobre a matéria desenvolvidas na alquimia, no entanto, deixou importantes contribuições no estudo dos gases, dos minerais, dos alcoóis, aperfeiçoou técnicas de destilação e aparelhos de laboratório além de desenvolver o conceito de elemento químico.



Robert Boyle fora um dos maiores químicos da Modernidade. Para alguns, fora o fundador da "química moderna". 


"O mundo do pensador moderno seria, cada vez mais, um mundo mecanisticamente reduzido à matéria e ao movimento, descrito por leis rígidas e quantificáveis, onde o espírito vitalista e qualitativo do alquimista iria perdendo espaço até não encontrar mais lugar. A própria mudança de Boyle diante de seus estudos de química nos fornecerá um excelente exemplo deste fenômeno". (GOLDFARB-ALFONSO, 2001, p. 161).

Na matemática além dos nomes já citados aqui, outros que se destacaram foram: o francês Blaise Pascal (1623-1662), o qual além de matemático, atuou também como físico, filósofo e teólogo. Entretanto, suas maiores contribuições residem na matemática, como a geometria projetiva, a teoria das probabilidades e o triângulo de Pascal, são algumas de suas notórias contribuições, além de uma curiosa máquina chamada La pascaline criada em 1642, tendo sido a primeira calculadora mecânica do mundo. 

Diagrama retratando o triângulo de Pascal

O matemático e físico italiano Evangelista Torricelli (1608-1647), chegou a ser discípulo de Galileu como já fora dito anteriormente, no entanto deixou algumas importantes contribuições para o estudo da pressão atmosférica, dentre as quais a descoberta do barômetro; estudou também cinemática nos sólidos e nos fluídos, onde nos estudos do movimento dos fluídos concebeu a Lei Torricelli e no movimento dos sólidos concebeu a Equação de Torricelli. Substituiu Galileu como matemático sênior da Academia Florentina

Equação de Torricelli

Da Alemanha o matemático, filósofo, diplomata e bibliotecário Gottfried Leibniz (1646-1716) fora considerado um dos grandes nomes da matemática no final do século XVII e começo do XVIII. A Leibniz é creditado a origem do conceito de "função" ainda hoje ensinado nas escolas; ao lado de Newton desenvolveu o chamado "cálculo moderno", estudou produto integral, regra do produto, linguagem binária, análise combinatória, harmonia, etc.; além de ter também deixado contribuições no campo da filosofia do direito, história, religião, lógica, etc.   

Gottfried Leibinz é considerado ao lado de Isaac Newton um dos fundadores da "matemática moderna".

Um dos últimos grandes nomes da filosofia natural ainda do século XVII é o famoso físico, matemático, astrônomo e alquimista inglês Isaac Newton (1643-1727). Nos fins do século XVII, o mesmo correspondeu-se com Robert Hooke, além de ter conversado com o famoso astrônomo Edmond Halley (1656-1742) acerca de astronomia. Newton juntou seu conhecimento sobre física e matemática, herdados de Kepler, Galileu, Descartes, Pascal, entre outros. 

Assim, ele em 1687, lançou os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural (Philosophiae Naturalis Principia Mathematica) nessa obra reeditada posteriormente mais duas vezes pelo próprio autor, Newton tratou basicamente de três assuntos: a cinemática, a mecânica celeste e expôs sua lei da gravitação universalNesse livro, ele desenvolveu de forma mais geométrica do que algébrica as teorias de movimento no que geraram as famosas Três Leis de Newton, comumente definidas como: inércia, dinâmica e ação e reação. A partir dessas leis e da descoberta da gravidade, ele comprovou a veracidade das teorias de Kepler, e introduziu novos conceitos e uma nova visão para o estudo da matemática e da física. 

Capa de Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton (1687).

"Os Principia eram uma obra-prima; foi considerado o maior livro cientifico de todos os tempos. Seu impacto foi imenso. Mas talvez isso fosse apenas o que de devesse esperar, pois, em um único volume, Newton reescrevera toda a ciência dos corpos em movimento com uma incrível precisão matemática. Ele completou o que os físicos do fim da Idade Média haviam começado e Galileu  tentara trazer à realidade; suas três "leis do movimento" formaram a base de todo o trabalho posterior. Newton tinha também resolvido um problema astronômico de 2 000 anos - o movimento dos planetas no espaço". (RONAN, 2001, p. 99).

De fato, Newton encerrou as grandes descobertas do século XVII e deu os primeiros passos para novas descobertas no século seguinte, já que seu segundo mais famoso livro, Óptica (Opticks) fora publicado em 1704 e contou com mais duas edições feitas pelo próprio, até o fim da sua vida. 

"A ciência moderna não saiu, perfeita e completa, como Atena da cabeça de Zeus, dos cérebros de Galileu e de Descartes. Pelo contrário, a revolução galieana e cartesiana - que, apesar de tudo, permanece como uma revolução -, fora preparada por um longo esforço de pensamento". (KOYRÉ, 1982, p. 181).

O fim da revolução?

O século XVIII fora marcado pelo Iluminismo, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. No entanto, o que recaí aqui no interesse desse trabalho diz respeito ao Iluminismo e a Revolução Industrial. De fato, o século XVIII fora chamado de o "século das luzes", o alvorecer de um novo futuro ou novo mundo. O Iluminismo diferente da Revolução Científica embrenhou-se mais claramente como um movimento sociopolítico e cultural, do que tendo ficado mais atrelado a questões "científicas".

Assim, para alguns historiadores o século XVIII marca o fim da Revolução Científica e a ascensão de novos modelos e conceitos, que embasariam a sociedade do século XIX. Entretanto, alguns dos historiadores das ciências aqui mencionados logo no começo desse texto, possuem opiniões diferentes acerca dos fins da revolução. 

"Na década de 1750, os dois editores da Encylopédie, Denis Diderot (1713-84) e Jean Le Rond d'Alembert (1717-83), falaram da revolução na ciência que fora iniciada no século anterior e que viam como em prosseguimento". (HENRY, 1997, p. 103).

Como fora dito inicialmente, Henry [1997] o qual se dedicou a escrever acerca do Renascimento e das origens da Revolução Científica, concebe a ideia de que a ciência esta constantemente se atualizando e sendo repensada, logo, a "revolução" termo que ele não gosta de usar nesse contexto, estaria acontecendo ao longo do século XVIII, agora, influenciada pelos modelos e posicionamentos do ideal iluminista, o qual segundo Burke [2001] o Iluminismo trouxe novas discussões para o meio político, social, cultural, religioso, econômico, etc. Ele procurou laicizar o Estado, colocar um fim no Antigo Regime, e ao mesmo tempo deixou mais "democrático" a divulgação e a opinião do conhecimento.

No caso de Kuhn [1988] como o mesmo defende a ideia de "revoluções", logo surgiram paradigmas no século XVIII que foram interpretados como microrrevoluções: os trabalhos de Laplace, Lavoisier, Vico, Lamarck, etc., todos esses e outros filósofos, também deixaram importantes contribuições que repensaram o mundo. De fato, alguns historiadores, consideram a origem do Iluminismo tendo ocorrido ainda no século XVII, mas especificamente em suas últimas décadas, logo este seria uma continuação da revolução antes começada.

"O nosso século é chamado o Século da Filosofia por excelência. Se examinarmos sem prevenção o estado atual dos nossos conhecimentos, não se pode deixar de convir que a filosofia registrou grandes progressos entre nós. A ciência da natureza adquire a cada dia novas riquezas; a geometria, ao ampliar os seus limites transportou seu facho para as regiões da física que se encontravam perto dela; o verdadeiro sistema do mundo ficou conhecido, foi desenvolvido e aperfeiçoado. Desde a Terra a Saturno, desde a história dos céus à dos insetos, a ciência da natureza mudou de feições. Com ela, quase todas as outras ciências adquiriram novas formas e, com efeito, era imprescindível que o fizessem". (D'ALEMBERT, 1758, p. 1 apud CASSIRER, 1994, p. 21).

Tal ponto de visão é cogitado e defendido por Ronan [2001] o qual como fora dito no início, considera o período da Revolução Científica tendo ocorrido entre 1500-1600 e 1600-1800, sendo o segundo bicentenário o auge da revolução em si, logo, o Iluminismo e a Revolução Industrial que se encontram no centenário do século XVIII, seriam consequências diretas das rupturas e mudanças surgidas no século XVII.

Diderot, Voltaire, d'Alembert, Laplace, Buffon, entre outros não negaram em seu tempo a importância da contribuição da física newtoniana e do racionalismo cartesiano, como fundamentais para a formação do pensamento iluminista, logo, Cassirer (1994) considera o Iluminismo profundamente enraizado na Revolução Científica e em certos aspectos um continuador desse legado.

Assim, dependendo dos argumentos dos historiadores, a Revolução Científica ou terminou no século XVII, ou continuou pelo século XVIII, misturada entre o movimento próprio do Iluminismo e da Revolução Industrial, ou no fim, a revolução em si fora apenas um marco histórico, e várias outras "revoluções" continuaram após o século XVIII. 

NOTA 1: Embora o livro de Konrad Gesner, Historiae Animalium tenha sido considerado um precursor dos estudos da zoologia e da taxionomia, para alguns historiadores seu livro consistiu em uma espécie de bestiário mas bem formulado, pois em seu trabalho, Gesner não apenas retratou animais reais, mas animais fantásticos, como unicórnios, dragões, mantícoras, etc., pois até então acreditava-se que tais criaturas pudessem ser reais. 
NOTA 2: Cláudio Galeno (129-217) depois de Hipócrates (460 a.C - 377 a.C) é o mais notório médico da Antiguidade. Fora professor de medicina e médico de alguns imperadores romanos. Dedicou-se ao estudo anatômico e patológico. Sua contribuição ficou profundamente enraizada na medicina europeia que a mesma permaneceu quase inalterada por mais de treze séculos. Embora Galeno tenha deixado importantes contribuições, a medicina europeia era bem atrasada se comparando-a a medicina árabe, indiana e chinesa da mesma época. 
NOTA 3: O livro de Bacon, Novum Organum era uma crítica ao trabalho de Aristóteles chamado de Organum. Nesse caso, Novum Organum pode ser traduzido como "novo instrumento". Sendo instrumento no sentido de metodologia, técnica, e não de uma ferramenta. 
NOTA 4: A invenção do telescópio é creditada ao holandês Hans Lippershey, o qual era vidraceiro e trabalhava com lentes. No entanto várias outras pessoas na mesma época reivindicaram para si a criação do telescópio. Tal fato ainda é debatido hoje.
NOTA 5: Curiosamente, Isaac Newton demonstrava grande interesse para a alquimia, o próprio chegou a estudar meios de conseguir fazer a pedra filosofal


Referências Bibliográficas:

BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza/ Nova Atlântida. Tradução: José Aluysio R. de Andrade. São Paulo, Nova Cultural, 1999. (Coleção – Os Pensadores: Bacon).
BACON, Francis. O progresso do conhecimento. São Paulo, Editora UNESP, 2007.
BYINGTON, Elisa. O projeto do Renascimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2009.
CANO, José L. L. Método e hipóteses científicos. 2ª edição, México, Editorial Trillas S.A, 1979.
CASSIRER, Ernst. A filosofia do Iluminismo. Tradução de Álvaro Cabral, 2a ed, Campinas, SP, Editora da UNICAMP, 1994. (Coleção Repertórios). (Capítulo 1).
DESCARTES, René. Meditações sobre Filosofia Primeira. Tradução de Fausto Castilho. Ed. bilíngue em latim e português, Campinas, SP, Editora da UNICAMP, 2004.
DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de Paulo Neves, Porto Alegre, L&PM, 2010.
EPSTEIN, Isaac. Revoluções Científicas. São Paulo, Ática, 1988.
GOLDFARB-ALFONSO, Ana Maria. Da alquimia à química. São Paulo, Editora Landy, 2001.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, v. 6, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, v. 8, São Paulo, Nova Cultural, 1998. 
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, v. 13, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, v. 20, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
HENRY, John.  A Revolução Científica e as origens da ciência moderna. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
HIRSHFELD, Alan. O enigma do centro do universo. BBC Revista História, São Paulo, v. 12, p. 62-67, 2009.
JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário básico de filosofia. 3a ed, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Científico. Tradução e revisão de Márcio Ramalho, Rio de Janeiro, Ed. Forense Universitária; Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1982. (Coleção Campo teórico).
KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Tradução de Donaldson M. Garsehagen, 4a ed, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2006.
KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 5a edição, São Paulo, Editora Perspectiva, 1997.
MARCONI, Maria de A; LAKATOS, Eva M. Metodologia Científica. 4ª ed. 3ª. reimpressão, São Paulo, Atlas, 2006.
OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Tratado de Metodologia Cientifica: Projetos de Pesquisas, TGI, TCC, Monografias, Dissertações e Teses. São Paulo, Pioneira, 1997.
RONAN, Colin A. História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge, volume 3: da Renascença à revolução cientifica. Tradução de Jorge Enéas Fortes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.
ROSSI, Paolo. A Ciência e a Filosofia dos modernos. Tradução de Álvaro Lorencini, São Paulo, Editora da UNESP, 1992.
SERJEANTSON, Richard. Um novo pensar. BBC Revista História, São Paulo, v. 12, p. 72-74, 2009.

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4 comentários:

Danilo Muniz disse...

Seus posts são sempre sensacionais, parabéns!

Vanessa Lopes disse...

Caramba! muito bem explicado!! linguagem acessível, resumo completo!! adorei o esquema da fonte e tamanho da letra, permitiu a leitura até o final do texto, de forma leve e menos cansativa. Parabéns!

Edna Cristina disse...

Bacon era católico,Giordano Bruno não era Cientista,embora ensinasse geometria.Lavousier (pai da química) foi decapitado em praça pública pelos próprios filósofos da Revolução Francesa,e +outros 5 Cientistas.Este sim foi o primeiro mártir da Ciência.A Igreja forneceu +ajuda e apoio financeiro ao estudo da Astronomia,por + de 6 séculos da recuperação do saber antigo da Baixa idade média do que outra institui- ção. As universidades criadas pela igreja deu a Europa o impulso intelectual que desembocaria no Renascimento no século XIV e na Revolução Cien- tifica,entre os séculos VXI e XVII. Os padres e monges eram grandes es- tudiosos,eles não viviam apenas inclausurados num mosteiro lendo a Bí- blia não.Afinal,os pais da igreja (da Patrística) são a prova disso.

Sheila Landi disse...

É bom poder contar com a ajuda da internet para poder fazer trabalho de escola ou outras coisas também!!!