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Leandro Vilar

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os Mongóis

"Nunca subestime um povo. Tribos podem virar impérios".
Leandro Vilar


Há 800 anos um povo nômade das estepes asiáticas, senhores dos cavalos, liderados por um grande líder o qual seu tornou uma lenda viva, iniciaram uma cavalgada que mudaria a face do mundo conhecido até então. Por mais de cem anos, quase toda a Ásia e 1/4 da Europa, foi governada pelos khans. De simples cavaleiros e pastores nômades, armados com arcos e flechas, os mongóis se tornaram o exército mais temido e poderoso em seu tempo, tão implacável na crueldade, que lhe renderam a fama de bárbaros sanguinários e sem misericórdia. Embora o seu "império dividido" tenha ruído após duzentos anos, o legado mongol perpetrou-se pela Ásia por mais de 600 anos. Essa é a história de um povo simples, que vivia e ainda vive nas estepes da Mongólia, que partiram para derrotar os mais poderosos impérios e reinos de seu tempo, e fundaram um império tão vasto, que nem Roma sonhou um dia possuir, e nem Alexandre, o Grande conseguiu conquistar.

Introdução

O povo mongol já existe há vários séculos, mais suas origens ainda são desconhecidas. Os relatos mais antigos datam do século VII, especialmente dos chineses, contudo o tronco da família mongólica, é bem mais antigo, remontando há milhares de anos. Deste tronco familiar surgiram os povos que deram origem aos mongóis, turcos, hunos, citas, cazaques, chineses, coreanos, japoneses, e a centenas de povos indígenas das Américas, reafirmando a teoria da colonização do continente americano através do Estreito de Bering. Daí o fato de que todos estes povos possuírem semelhança físicas bem contrastantes. 

Mas de qualquer forma, antes do século XIII, os mongóis não eram um povo unificado, não havia um governo centralizado, a Mongólia era apenas a região que eles viviam, até mesmo uma identidade nacional não existia. Embora eles falassem a língua mongol, tivessem a mesma religião e cultura, eles se referiam um aos outros pelos nomes dos clãs, dentre os quais se destacavam os Merquitas, Queraítas, Tártaros (alguns viajantes denominavam todos estes clãs de forma genérica, usando a palavra tártaro) e os Naimans.  Uma identidade nacional só surgiu no século XIII com o início do império.

Os mongóis não foram o primeiro e nem o último povo das estepes a formarem impérios, antes da ascensão deles, o mundo já havia conhecido o império dos Citas, dos Hunos, dos Persas, etc. De fato, quando eles iniciaram sua expansão para o Oeste, os povos que ali habitavam já conheciam em parte a língua mongol e alguns de seus costumes, já que antepassados dos mongóis viveram naquelas terras. 

A vida nas estepes

O mongóis antes do século XIII, habitavam a região que compreendia ao sul o rio Kerulen e ao norte o rio Onon, e entre os dois, as montanhas Burqan Qualdun, consideradas até hoje como local sagrado. A maior parte do território da Mongólia é formada por planaltos e estepes, além de possuir algumas cordilheiras, especialmente na parte norte do país. Nos vales destas montanhas existem florestas de coníferas ou florestas de pinheiros, lar de algumas tribos seminômades. Não obstante, ao sul do país encontra-se as terras áridas do Deserto de Gobi que marca a fronteira entre a Mongólia e a China. A Mongólia possui os rios e lagos de água doce mais limpos do mundo.


Território da atual Mongólia.
Os mongóis se organizavam em tribos chamadas ulus, as quais eram formadas por clãs, sendo que um destes clãs era o governante da tribo. O líder era chamado de bahadur. A maioria dos clãs eram nômades, eram chamados de ayils. O território destas tribos, chamado de yurte, podia abranger vários quilômetros quadrados, e possuir vários ayils sob seu domínio, liderado por um bahadur, e em alguns casos, dependendo do tamanho do território e da influência do chefe, ele passava a receber o título de khan (senhor). Contudo, era comum os clãs entrarem em briga um com os outros, então perseguições, assassinatos, sequestros, traições, era algo comum na vida de um mongol da Idade Média.

Essencialmente eles viviam da caça, da pesca, da coleta e do pastoril, não praticavam a agricultura devido a infertilidade do solo para o plantio e as condições frias das estepes. Assim, os mongóis que habitavam as florestas, viviam basicamente da caça, da coleta e da pesca, e em alguns casos não exerciam o pastoril. Já os mongóis das estepes, também caçavam e coletavam em raras vezes, e viviam mais do pastoril. Eles criavam rebanhos de cabras, carneiros, camelos, as vezes de vacas ou iaques e de cavalos. Além destes animais eles também criavam cachorros.

"O peixe é apreciado quando os outros alimentos escasseiam: armadilhas, arpões e redes são indiferentemente utilizados para pescar no Onon, no Tula ou no Kerulen e também nas torrentes que descem dos montes Kentei. A caça é também honrada. Flecha-se a pequena caça silvestre: andorinha, lebre, marmota, esquilo". (CONRAD, 1976, p. 130-131).


Além destes animais, eles também caçavam patos silvestres, antílopes, e outros pequenos roedores. Em alguns casos, se fosse preciso, se alimentavam dos camelos e em último dos cavalos. A bebida nacional dos mongóis, era e ainda é o cúmis, uma bebida fermentada, feita a partir de leite de égua azedo. Nesse caso, o cúmis era servido de duas formas, a forma comum, tirado direto da égua, e o outro, deixava-se coalhar e fermentar, assim o leite azedo desenvolvia através da fermentação, álcool, logo se tornava uma bebida alcoólica. 

Os cavalos eram os animais essenciais para a vida nas estepes, era a forma mais rápida e eficiente que existia para se cruzar aquelas vastas distâncias, um ditado mongol antigo dizia: "um mongol sem um cavalo, não é um mongol". Desde cedo as crianças, meninos e meninas aprendiam a cavalgar. O cavalo não apenas era usado como meio de transporte, mas era usado na guerra, e no transporte de mercadorias se fosse o caso, embora eles usassem mais os camelos e bois para transportar carga, essencialmente o cavalo era o meio de locomoção. Sobre os cavalos mongóis, Marco Polo disse o seguinte:

"Seus cavalos pastam a erva dos campos, de maneira que eles não necessitam carregar nem cevada, palha ou aveia. Estes cavalos são muito obedientes a seus donos. Quando é preciso, estes últimos permanecem toda a noite montados com todas as suas armas e o cavalo continua a pastar". (CONRAD apud POLO, 1976, p. 129). 


Mongóis, senhores dos cavalos das estepes.
A alimentação nas estepes era basicamente carnívora, pelo fato de as estepes serem escassas em vegetação para o consumo humano. Basicamente as estepes são formadas de gramíneas ou de terra e areia. No inverno, os campos ficam cobertos de neve, logo eram raras as vezes que coletavam alguma fruta, como bagas e avelãs. Basicamente, eles viviam da carne, do leite e do queijo. O pão, que era em muitos casos a base da alimentação de vários povos, não era aqui consumido devido a falta de plantações de trigo devido ao solo e ao clima, logo consumi-lo só era possível em outras terras, ou comprado de viajantes. 

Eles conheciam a metalurgia, embora o ferro fosse uma matéria preciosa na região, por isso era algo valioso. Confeccionavam suas roupas, calçados, acessórios, utensílios, armas, etc. Sua produção artesanal era a base de madeira, ferro, cascos, chifres, lã de ovelha, couro, pele de animais, etc. Praticavam o comércio com algumas caravanas da Rota da Seda ou com algumas cidades ao sul, em direção a China

A vida nas estepes era difícil, primeiro o perigo de conflitos com inimigos; segundo, o clima era razoavelmente frio, e constantemente tinham que mudar de lugar devido a ameaça de inimigos ou em busca de pastos para alimentar os rebanhos. Se os rebanhos não fossem bem alimentados e engordados até o inverno, eles corriam o risco de passar fome ao longo do inverno. 

Os homens em grande parte dedicavam-se a arte da guerra, ao pastoril e ao artesanato, confeccionando suas armas, roupas, utensílios, ferramentas, etc. A caça era de vez em quando. As construções fixas ou de alvenaria eram raras, suas casas eram tendas, chamadas de yurt (embora o termo correto seja ger). A estrutura de uma yurt não mudou muito desde aquela época, alguns mongóis, mesmo em pleno século XXI, ainda vivem e conservam os costumes desta época, vivem como nômades e pastores. 

A estrutura de uma yurt é feita de madeira, o chão é forrado com tapetes ou peles de animais, e as paredes e o teto são forrados com feltro de lã ou couro, e as vezes peles de animais, como de lobos e cervos. O teto possui uma abertura que permite a entrada de luz e a saída da chaminé. Por muitos séculos os mongóis utilizaram madeira e folhas secas da floresta para acender as fogueiras, contudo, com a ausência destes meios, eles recorriam a utilização de esterco dos animais, nesse caso, deixando um cheiro nada agradável no interior das tendas. De qualquer forma, era melhor do que morrer de frio. De forma rápida, eles as desmontavam, guardavam na carroça e seguiam viagem.


A tradicional tenda mongol (ger), mais conhecida como yurt.
"Eles constroem a habitação na qual dormem sobre uma armação circular de varas entrelaçadas convergindo para um pequeno arco, no topo de onde sobe um gargalo como uma chaminé, e cobrem esta estrutura com feltro branco. Frequentemente, revestem de cal, argila branco ou de pó de ossos para que pareça mais branca. Outras vezes utilizam feltro negro. O contorno deste arco do topo é decorado de belos motivos. Diante da entrada suspendem também uma peça de tecido decorada com bordados diversos, pois bordam o feltro em cores de parreiras ou de árvores, de pássaros e de animais". Jean Plan Carpin, missionário francês, século XIII. (CONRAD, 1976, p. 133). 

"A yurte tártara é redonda e fabricada em forma de tenda com a ajuda de bastões e finas varetas. Ela é aberta no topo por um orifício redondo que devia passar a luz do dia e sari a fumaça que solta o fogo habitualmente aceso no centro da cabana. As paredes e o teto são recobertos de feltro, matéria serve também para a fabricação das portas. O volume dos yurtes difere segundo a posição social". Guilherme de Rubruck, missionário francês, século XIII. (CONRAD, 1976, p. 134-135). 


A respeito de sua aparência física, um franciscano do século XIII, chamado Jean de Plan Carpin, fora o primeiro viajante europeu que se tem noticia na Ásia Central, ele descreveu em seus cadernos de viagem, a descrição de um mongol ou tártaro, como costumavam também a ser chamados.

"No físico, o Tártaro difere de todas as outras raças. Ele tem uma separação mais pronunciada entre os olhos e as bochechas, as maçãs do rosto sensivelmente mais salientes que o queixo, o nariz achatado e miúdo, os olhos pequenos, as pálpebras levantadas até as sobrancelhas: ele é estreito de cintura, salvo rara exceções, e de uma estatura geralmente medíocre. Pouco deles têm barba: em alguns, entretanto, nascem alguns pelos sobre o lábio superior e no queixo, que eles negligenciam o corte. O Mongol traz o cabelo no meio da cabeça em forma de coroa à maneira dos clérigos e se raspam de uma orelha à outra numa largura de três dedos, formando a coroa. Raspavam também a fronte numa largura de dois dedos. Entre a coroa e a parte raspada do crânio, deixa crescer os cabelos até as sobrancelhas; entretanto os corta mais curto nas têmporas do que na fronte; sobre o resto da cabeça, ele os deixa crescer como as mulheres e faz duas tranças que liga atrás das orelhas. Seus pés são pequenos". (CONRAD apud CARPIN, 1976, p. 127-128). 


Os casamentos eram arranjados, os noivos não escolhiam um ao outro, mas suas famílias é que escolhiam os pretendentes. Nesse caso, os homens cuidavam de escolher as noivas para seus filhos, irmãos, sobrinhos e netos. As noivas eram geralmente escolhidas de outros clãs ou tribos, como forma de se construir laços de união entre estes. O pai do noivo deveria pagar um dote para a família da noiva, e antes de se casarem, a noiva recebia um presente de sua família quando ia se casar. 

A noiva após se casar, passava a morar com o marido e sua família se fosse o caso. Em alguns casos, ocorria também o rapto de mulheres. Ao invés de se negociarem o casamento, alguns homens atacavam pequenos clãs e raptavam as mulheres, as quais eram forçadas e se tornarem suas esposas ou concubinas. A poligamia não era proibida, um mongol poderia ter tantas esposas, desde que conseguisse manter-las de forma digna. 


As mulheres, não possuíam voz ativa entre a sociedade, contudo, as esposas dos lideres e algumas xamãs, ainda possuíam um pouco de destaque, mas em geral, as mulheres eram submissas aos maridos, e cuidavam dos filhos, da casa e de outros afazeres domésticos. Elas também podiam aprender a dançar, cantar e tocar instrumentos. 


Nessa época, os mongóis praticavam a escravidão, em geral, eles vendiam os prisioneiros de guerra como escravos, geralmente para outros povos. Eles também mantinham escravos consigo, mas nem todos tinham este costume, já que em si, os escravos eram oriundos da guerra. 


Embora não possuíssem um governo centralizado, existia um conselho geral responsável por ditar algumas regras entre as confederações mongóis, assim como se dividiam algumas regiões da Mongólia, com suas tribos. O conselho era chamado de Quriltay, e reunia os principais líderes mongóis e seus conselheiros. Os mais velhos possuíam uma grande importância neste conselho, já que se levava com respeito sua palavra em referência as decisões tomadas. Todavia, o conselho não se reunia de forma tão regular, e nem sempre seus membros entravam em consenso. Porém o maior consenso que eles chegaram, ocorreram 1196 e em 1206.


A religião dos mongóis nesse tempo e por muitos séculos fora o xamanismo. Xamanismo é um termo genérico para se referir a práticas medicinais, mágicas, fetichistas, animistas, entre outras. Nesse caso, o xamanismo era cultuado e seguido por distintos povos da Ásia, Europa, Américas e África. Possuindo suas próprias particularidades. Neste caso, geralmente o xamã é uma mistura de mago, curandeiro e sacerdote, logo, em algumas culturas ele é visto como o intermediário entre os homens e os deuses, possuindo poderes mágicos e até proféticos, como a vidência. Os xamãs poderiam ser homens ou mulheres, era temidos por alguns, ou vistos com respeito por outros.



                        O xamã Zorigtbaatar Banzar, em uma cerimônia nos dias atuais.
O Xamanismo ainda existe na Mongólia, contudo hoje em dia a religião principal do país é o budismo de vertente tibetana, introduzido no país por monges chineses, principalmente após o fim do império e quando o país todo passou a ser território do Império Chinês. No entanto, muitos mongóis se declaram sem religião. E no caso dos atuais xamãs, alguns se tornaram charlatões, ou desenvolveram métodos próprios, que diferem dos métodos tradicionais, conservados por alguns outros. Os mongóis acreditavam em vários deuses, mas especialmente tinham respeito e medo de um deus, Tengri, o Senhor do Céu azul e deus dos trovões e tempestades (a versão mongol de Zeus). 

Os costumes mongóis praticamente não mudaram até o século XIII e depois com a ascensão do império e seu fim, boa parte de suas práticas culturais se conservaram ao longo dos séculos até os dias de hoje, como fora o caso da música e da dança, vistos em alguns festivais, especialmente no Naadam; o estilo de vida nômade; a vestimenta tradicional; o esporte (corridas de cavalo, luta, tiro ao alvo, etc), entre outros. No caso do esporte, a popular luta do Bokh, praticado há vários séculos, praticamente não sofreu nenhuma mudança nas regras neste tempo.



Lutadores em uma competição de Bokh, luta tradicional mongol, praticada a muitos séculos.
O Bokh era uma forma não letal que os homens tinham para testar sua força, resistência, concentração, técnica e masculinidade. Basicamente o bokh possui regras simples: o adversário deve ser derrubado no chão, através de rasteiras, empurrões e puxões, não se pode dá socos, cotoveladas, chutes, joelhadas ou cabeçadas no adversário a fim de derrubá-lo. Em geral as lutas são bem rápidas, durando poucos segundos e mau chegam a um minuto. Além da força, a técnica é essencial para derrubar rapidamente o seu oponente, antes que você se canse. Existe um árbitro que coordena a luta, a fim de evitar faltas e trapaças. 

Desde o século XVII o bokh passou a ocorrer de forma regular como um campeonato, hoje há lutadores profissionais da modalidade, e se permite apostar dinheiro nos lutadores. Outras duas curiosidades que envolvem a luta é sua peculiar roupa, e o fato de que quando o lutador vence ele deve realizar um movimento de comemoração, andando e balançando os braços, como se fosse voar, algo que remete a águia, animal tido sagrado pelos antigos mongóis. 



O Império Mongol
(1206-1348)

O lobo cinzento:

Antigas lendas xamânicas contavam histórias de que o grande deus Tengri, Senhor do Céu azul, enviaria um lobo cinzento, o qual desceria do céu e devoraria o mundo. Para muitos, este lobo cinzento foi Genghis Khan. De fato, os mongóis consideravam que alguns homens e mulheres fossem descendentes de seres divinos. Uma antiga tradição dizia que há muito tempo, um visitante celestial desceu do céu e engravidou Alankoa, esposa de Dobun Mergu. Alankoa tivera três filhos, sendo que o terceiro, chamado Bodeontchar, era considerado o ancestral de Genghis Khan, daí o fato de que o mesmo posteriormente dizer que era o tal lobo cinzento que as lendas previam, e legitimar sua autoridade e ascendência divina como imperador dos mongóis. 

De qualquer forma, a história do homem que viria a se chamar Genghis Khan, imperador dos mongóis, senhor de quase toda a Ásia, se iniciou por volta de 1167 próximo as margens do rio Onon, no norte da Mongólia. Nessa época, ele era conhecido pelo seu nome verdadeiro, Temudjin. Temudjin nasceu em 1167, era filho primogênito de Yesugei, líder do Clã Yasoun dos Queraítas (ou Kiyats), e de Ulun, do Clã dos Merquitas (ou Merkits). Ambos os clãs eram inimigos, mas Yesugei raptou Ulun para que se tornasse sua esposa, tal ato traria consequências anos depois para Temudjin. Quando completou nove anos de idade, seu pai decidiu que estava na hora de arranjar uma esposa para seu filho, assim os dois e mais alguns companheiros seguiram viagem até outro clã, lá Temudjin se tornou noivo de Boerte, a qual fora lhe prometida como esposa, e o casamento ocorreria daqui a alguns anos. 


Contudo a situação mudou drasticamente. Enquanto retornavam para casa, eles se depararam com alguns cavaleiros tártaros, embora fossem inimigos, era costume em alguns casos de não agredir uns aos outros, contudo presentes deveriam ser ofertados. Comida e bebida foram trocados, e nesse caso, Yesugei fora envenenado, vindo a morrer alguns dias depois. Com a morte de Yesugei, Temudjin era o sucessor direto e agora líder do clã, contudo os outros clãs que eram aliados e vassalos de seu pai, se recusaram a aceitar a liderança de uma criança e de sua mãe, assim os clãs os abandonaram nas estepes a pura sorte. Temudjin fora traído pelos antigos aliados de seu pai, e largado na estepe com sua mãe e seus seis irmãos. 


Porém os problemas só estavam começando. Os Taichuits, antigo clã aliado de seu pai, liderado por Tergutai, temendo que Temudjin viesse buscar por vingança, jurou o menino de morte. Temudjin por algum tempo fora mantido prisioneiro e escravo de Tergutai, até que conseguiu fugir. Depois disso, os anos se passaram, ele se casou com Boerte, porém sua esposa acabou sendo raptada pelos merquitas, para salvá-la, Temudjin pediu ajuda a alguns amigos, e juntos reuniram uma força de combate e atacaram o inimigo, resgatando Boerte, mantando vários adversários, saqueando e escravizando alguns outros.


Deste fato em diante, Temudjin passaria a ser reconhecido como um bravo e forte guerreiro, e começaria a ganhar respeito e prestígio, até que em 1196, por volta de seus 29 ou 30 anos, fora convocado a comparecer ao Quriltay, lá os chefes mongóis, decidiram conceder a Temudjin o titulo de khan. E assim, ele passou a ser chamado de Genghis Khan ("Grande Senhor" ou "Senhor dos Senhores"). 



Temudjin/Genghis Khan
Nasce o império:

Antes de Genghis Khan, outros khans tentaram unificar as tribos mongóis, mas falharam muitas vezes, mas em 1206, após dez anos de guerras, Genghis, conseguiu unificar a porção oriental da Mongólia e a porção ocidental, unificando todas as tribos através de clemência, honrarias, crueldade e medo. Assim, no ano de 1206, um novo Quriltay fora convocado e os senhores mongóis decidiram conceder a Genghis Khan o título de kagan (imperador). A Mongólia fora unificada e o império nascia. 


Contudo, a ambição de Genghis Khan não se limitava apenas em ser o imperador da Mongólia e dos mongóis, ele queria mais, muito mais, o mundo seria seu prêmio. Como dizia a antiga lenda mongol, de que o lobo cinzento devoraria o mundo, nesse caso, Genghis procurou conquistar o mundo. E seu primeiro alvo, ele escolheu atacar alguns velhos inimigos dos mongóis, a Dinastia de Kin ou Jin (também conhecida como Jurchen), formada por invasores tunguses vindos da Mongólia e da Rússia. 



Mapa da Ásia e da África Oriental no ano de 1200 com a divisão de reinos e impérios.
Nessa época, o Império Chinês estava dividido sob o poder de três grandes dinastias, no Norte a Dinastia Jin, a noroeste a Dinastia Tangut ou Si Hia e ao Sul, a Dinastia Song, de origem chinesa. Além disso, outros pequenos reinos ocupavam o antigo território do império. Nesse caso, devido as proximidades com a Mongólia, Genghis Khan tivera de início como meta conquistar seus inimigos chineses. No passado, alguns khans mongóis foram traídos pelos chineses e mortos de forma humilhante, assim, Genghis tinha em mente uma vingança por essa desfeita. 

Em 1207 ele marchou para o sul em direção ao Império Tangut ou Si Hia, depois de alguns meses de batalha, em 1209 ele subjugou o império, o rei havia decretado rendição, contudo o império só seria conquistado totalmente em 1226, devido ao fato de haver focos de rebelião no local. Concluído a conquista dos tanguts, ele retornou para a Mongólia a fim de se preparar para invadir os domínios dos Jin, conhecidos também como os "Reis de Ouro" (a alusão se deve ao fato de que as palavras kin ou jin significa ouro). 


Os ataques começaram em 1211 e se prolongaram até 1217, mas, em 1214, a capital do império, Pequim fora sitiada, e após um cerco de vários meses, o imperador Taizu decretou rendição, mas ao mesmo tempo aproveitou para fugir. Ele refugiou-se no sul do império, fato este que o Império Jin só seria conquistado na sua totalidade após a morte do Grande Khan. Em resposta a fuga do imperador, Genghis Khan ordenou que Pequim fosse pilhada e incendiada em 1215.


Mesmo tendo conquistado apenas metade dos domínios dos Jin, Genghis ordenou que novas campanhas fossem feitas em direção a Coréia e ao sul, em direção ao poderoso Império Song, contudo, notícias vindas do ocidente, levaram o Khan a mudar de ideia.


"Terminada a guerra da China, o grande Khan vai se voltar para o Oeste, em direção à Ásia Central, dominada nesta época pelo império Kara Kithais e pelos Turcos Uigures. Desde 1211 estes haviam homenageado Genghis Khan por intermédio de seu príncipe Bartchuck, senhor dos oásis situados ao norte da bacia do Tarim". (CONRAD, 1976, p. 170).


Contudo, a situação se inverteu em 1212, quando um usurpador chamado Kutchlug, destronou o então rei e assumiu o poder. Kutchulg era de origem naimam, logo era inimigo de Genghis, fato este que ele repudiou as honrarias feitas ao líder mongol, Genghis indignado com a traição e a afronta, decidiu conquistar o seu império. Kutchulug era o soberano do Canato de Kara Khitai, mas para se chegar ao canato, deveria-se antes passar pelo Canato dos Uigures, governado pelos turcos uigures, os quais eram favoráveis a aliança com os mongóis. 


O Grande Khan, enviou o seu general Djebé para resolver este problema, em 1218, Djebé subjugou o Canato de Kara Khitai, executando o traidor e anexando os dois canatos ao Império Mongol. Os canatos compreenderiam nos dias de hoje, parte do território da China e os territórios do Turcomenistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão


Com a conquista dos dois canatos, o império se estendia do Mar Cáspio na Ásia Central ao Mar Amarelo na China. Porém as conquistas de Genghis Khan ainda não haviam se encerrado. Ainda em 1218, ele tentou fazer alianças com o próspero Sultanato de Khwarezm ou Império Carisminiano, regido pelo sultão Mohammed Chah. O sultanato se localizava ao sul dos canatos, abrangido os atuais territórios do Uzbequistão, da antiga Pérsia (hoje Irã) e a Bacteriana (região norte do Afeganistão). Contudo, desentendimentos gerados entre o governador de Ortrar com os mongóis, levou o Grande Khan a declarar guerra ao sultão. Assim, de 1218 a 1221 batalhas se seguiram, sendo lideradas pelo próprio Genghis Khan, pelos seus filhos, alguns netos e seus generais Djebé e Subotei


Mohammed Chah acabou fugindo e fora perseguido por Djebé e Subotei, mas acabou morrendo em uma ilha no Mar Cáspio. A capital do império, Urgundj fora tomada por Djotchi, filho bastardo do Khan em 1221. O herdeiro do sultão, acabou fugindo e se exilando na Índia, e anos depois ele retornaria para tentar recuperar o império do pai, no entanto não teria sucesso. Nesses pouco mais de três anos de guerra, alguns historiadores persas, relataram na época que pelo menos 1 milhão de persas foram massacrados na guerra. De fato, as campanhas na China e na Pérsia foram as mais sangrentas do governo de Genghis Khan, as hordas agiram com tamanha brutalidade e sanguinolência, fato este que levou o Ocidente a vê-los como bárbaros e a passar a ter medo do Senhor da Ásia, Genghis Khan. 


Entre 1221 e 1223, Djebé e Subotei, empreenderam campanhas no sul da Rússia, levando duras derrotas aos russos, turcos e búlgaros, contudo, as suas campanhas foram suspensas, devido ao fato de terem sido chamados para cuidar de revoltas na Pérsia. Em 1225, Genghis Khan havia retornado para a Mongólia, para a capital do império em Karakorum. No ano seguinte, ele empreendeu uma nova campanha contra os tauguts, os subjugando em abril de 1227. 


Com a nova vitória, o Khan decidiu retomar as batalhas contra os "Reis de Ouro" do que restava do Império Jin, contudo em 18 de agosto de 1227, o Senhor da Ásia, o Imperador do Mundo, veio a falecer, as causas ainda são incertas, mas o Grande Khan fora sepultado com honrarias, próximo ao Monte Kentei na Mongólia, embora que seu túmulo até hoje não fora encontrado. Genghis Khan unificou os mongóis, lhe deu leis e um Estado, e tornou simples cavaleiros arqueiros numa "máquina de guerra" que abalou a Ásia medieval.  



Mapa com as conquistas e as campanhas de Genghis Khan e de seus generais e familiares.
Um império continental

O reinado de Ogodei Khan (1229-1241):


"O Mundo Antigo, aterrorizado, via as hordas de cavaleiros bárbaros, aparentemente invencíveis, marcharem em sua direção. Em toda a parte desencadeava-se o Apocalipse sob sua passagem. As populações sedentárias, ameaçadas, não tinham nem mesmo a certeza de que sua submissão aos novos conquistadores lhe permitiria escapar à sede de carnificina, sangue e morte. Em toda parte, as campanhas relâmpagos traziam vitórias aos guerreiros vindos das estepes. Os impérios mais brilhantes, os reinos mais prósperos, os Estados bem protegidos pela distância ou pelas muralhas de montanhas, todos conheceriam a humilhação e a derrota". (CONRAD, 1976, p. 193-194).


Antes de sua morte, Genghis Khan já havia sabiamente escolhido seu sucessor e designado as possessões de seus de mais filhos. Em fevereiro de 1227, Djothci faleceu em batalha na China, assim seus domínios ficaram para seu filho Batu. Batu Khan, se tornou o governador das regiões que compreendiam o sul da Rússia, incluindo o Reino dos Búlgaros em volta do rio Volga e o outrora pequeno reino turco de Kyptchak (nessa época a Rússia não possuía a dimensão que conhecemos hoje e era composta por vários pequenos Estados). 


O segundo filho de Genghis, Djaghatai Khan, ficou responsável pelo governo da Ásia Central, compreendendo o antigo Canato de Kara Khitai e parte do Sultanato de Khwarzm. Ogodei Khan, o terceiro filho, ficou com as regiões que compreendiam o Canato dos Uigures e o antigo pais dos Naimans, a noroeste da Mongólia. Finalmente o caçula, Tolui Khan, ficou responsável pelo restante do império.


Na tradição mongol, o filho caçula, chamado de otcigin, era o responsável por zelar pela casa dos pais, assim, era o único que tinha direito depois de se casar e constituir família, em poder continuar a morar na casa dos pais, os de mais irmãos deveriam ir morar em suas próprias casas. Seguindo tal tradição, Tolui Khan assumiu a regência do império após a morte de seu pai e permaneceu como regente temporário até o ano de 1229, quando um Quriltay convocado no mesmo ano, decidiu quais dos filhos seria o novo kagan (imperador). Pelo fato de Tolui e Djaghatai não se entenderem muito bem, os senhores mongóis vinham nisso uma ameaça para a integridade do império, assim, o terceiro filho de Genghis Khan, Ogodei Khan fora eleito seu sucessor.



Ogodei Khan, terceiro filho de Genghis Khan, imperador de 1229 a 1241.
Ogodei daria continuidade ao trabalho iniciado pelo seu pai, e expandiria ainda mais os limites do império, chegando de fato a Europa Oriental. Além disso, ele também procurou estabilizar as províncias, as finanças e a ordem.

"O reinado do filho de Temudjin foi marcado por um sério esforço de tomado do poder administrativo. Aconselhado pelo Khitai Yé Lin Tchou Tsai, Ogodei organizou um serviço de chancelaria assegurado por Turcos Uigures, Persas e Chineses. O imposto foi regularmente aumentado, sobre os sedentários, mas também sobre as tribos nômades, foi criado um sistema postal. Mas essas obras de paz não iriam interessas Ogodei, e o traço dominante de seu reinado foi a busca de conquistas em todas as direções". (CONRAD, 1976, p. 214-215).


Como forma de honrar a memória do pai, Ogodoi Khan decidiu levar a cabo a conquista do restante da China. Em 1231, ele havia conquistado a Coréia, e no ano seguinte, seguindo em direção ao Império Jin, Ogodei e seus generais subjugaram as últimas forças dos "Reis de Ouro" em 1233, o último imperador Jin, cometeu suicídio enquanto se encontrava em sua cidadela na capital do país. No inicio de 1234, o Império Mongol anexava de vez o Império Jin. Com a vitória, Ogodei decidiu em 1235 iniciar as campanhas para se conquistar o poderoso Império Song, contudo, os Song ainda estavam longe de serem conquistados. Vários conflitos se deram entre os mongóis e os chineses, mas a conquista definitiva dos Song, só viria com um dos filhos de Tolui Khan, Kublai Khan


Enquanto as campanhas de conquista seguiam na China, Ogodei tivera que cuidar de alguns problemas no Ocidente, nessa mesma época, o filho do sultão Mahommad Chah, havia retornado da Índia e iniciado um movimento de rebelião na porção oriental da Pérsia, com isso, o Khan enviou um de seus generais de confiança, Tchormaghan para cuidar do problema. Tchormaghan conseguiu derrotar as forças rebeldes do príncipe Djlela ed Din, este por sua vez acabou fugindo, e sumindo da História. Contudo, revoltas geradas nas fronteiras ocidentais da Pérsia, obrigaram, o general a manter seus exércitos na região, por mais dez anos.


Em 1236, Ogodei, o qual ainda se ocupava com a fracassada empreitada no sul da China, ordenou que Subotai e outros generais, seguissem marcha com Batu Khan a fim de se conquistar a Rússia. Entre 1236 e 1237, o Reino da Bulgária no Volga fora conquistado de vez, ainda e 1237, os turcos de Kyptchaks foram destruídos, com as duas vitórias, o sul da Rússia estava praticamente sem defesas. Batu e Subotei continuaram a seguir para o Oeste, e ainda no ano de 1237, as cidades de Moscovo (atualmente Moscou), Soudzal, Wladimir, Jaroslav, foram tomadas e saqueadas. 



Gravura chinesa do general Subotei (1176-1248), considerado um dos maiores generais mongóis da História. Um dos "cães de guerra de Genghis Khan".
Subotei e Batu lideraram um exército de 150 mil homens que saiu destruindo tudo do Volga até Kiev (atualmente Ucrânia). Nem mesmo o rigoroso inverno russo mantivera os mongóis afastados, embora que a cidade-Estado de Novogrod não fora tomada, devido ao degelo que transformou as terras em lamaçais, fazendo os mongóis desistirem de conquistá-la. Todavia, Subotei fora o único comandante militar a realizar vitoriosas conquistas na Rússia, mesmo durante o inverno, algo que nem Napoleão Bonaparte conseguiu fazer, séculos depois. 


Pintura retratando a chegada dos mongóis a cidade de Wladimir, na Rússia.
"Em 1239 e 1240, a Ucrânia foi tomada a fogo e sangue, e Kiev interiamente destruída. No principio de 1241, atravessando o Vistula gelado, os Mongóis se atiram sobre a Polônia. Cracóvia, abandonada por seus habitantes aterrorizados, é incendiada. Passam o Oder e enfrentam o duque polonês Henrique da Silésia, apoiado por contingentes teutônicos. A 9 de abril de 1241, as tropas europeias são aniquiladas em Wahstadt". (CONRAD, 1976, p. 219). 

Com a vitória sobre a Ucrânia, os mongóis marcharam sobre a Hungria e no começo de abril as tropas de Subotei confrontaram os exércitos do rei húngaro Bela IV, seus exércitos foram derrotados e o rei fugiu do país. Os soldados húngaros subjugados, foram degolados. Ainda no mesmo ano, os mongóis continuam com seu avanço frenético e tempestuoso sobre a Europa, eles chegam próximo as cidade de Viena e Natal (hoje ambas na Áustria), dali, seguem para o sul e chegam ao Mar Adriático, a poucos quilômetros da República de Veneza. Nessa época, os mongóis foram vistos como uma nova praga que assolaria o mundo europeu, bárbaros nômades vindos do coração da Ásia, trazendo a destruição com eles, algo que a Europa já havia vivenciado oito séculos antes com os hunos, povo de origem mongol, os quais liderados pelo seu maior líder, Átila, aterrorizaram o decadente Império Romano do século V. 


Em 1241, o rei da França, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, o papa e outros senhores da Itália, temiam que a terrível horda de bárbaros chegassem as suas terras. Mas para a sorte da Europa, o destino trouxe-lhes uma boa noticia, ainda no ano de 1241, Ogodei Khan veio a falecer, e a escolha de um herdeiro era cogitada. Dessa forma Subotei e Batu tiveram que suspender as campanhas na Europa e retornar rapidamente para o Oriente, para participar da escolha do próximo imperador.


"É nesse momento que a noticia da morte de Ogodei salvará a Europa do perigo maior que se delineia a leste". (CONRAD, 1976, p. 220).


Duas imperatrizes e dois imperadores:


Ogodei estava morto, seu irmão Djagathai também havia morrido no mesmo ano e para completar, Tolui, havia falecido nove anos antes, dessa forma, todos os filhos de Genghis Khan candidatos ao trono, estavam mortos, os filhos bastardos não tiveram direito, assim a única solução era escolher um dos seus netos, e o herdeiro que Ogodei havia deixado era o seu filho Guyuk, porém ele não assumiu o trono de imediato, com a morte de seu pai, sua mãe, a imperatriz Toregene Khatun assumiu a regência do império. Pela primeira vez na História, uma mulher governaria o mais vasto império que o mundo conhecera. 



Guyuk Khan, neto de Genghis Khan, terceiro imperador mongol de 1246 a 1248.
Toregene governou por cinco anos, até que em 1246, um Quriltay votou a favor da nomeação de Guyuk Khan como novo imperador. Guyuk assumiu o poder, mas governou brevemente, vindo a falecer dois anos depois. Com a morte do imperador Guyuk Khan em 1248 o império voltava a ficar sem nenhum soberano, e novamente a regência deste fora integre a uma mulher, Ogul Ghaymish, esposa de Guyuk. 

Nessa época, Batu o qual era contrário a Casa de Ogodei, possuía planos para derrubar Guyuk do poder, mas este acabou morrendo de forma inesperada, assim sua viúva assumiu a regência temporária, até que o próximo imperador fosse escolhido, contudo ele sabia que não teria sorte em se tornar o próximo governante, devido ao seu legado bastardo, assim ele apoiou Mongka Khan, filho de Tolui e da princesa Sorgak Tani, uma cristã nestoriana. 



Mongka Khan, neto de Genghis Khan, quarto imperador mongol de 1251 a 1259.
Em 1251, o Quriltay votou a favor da escolha de Mongka Khan como novo imperador. Mongka não realizou grandes conquistas em seu governo, de fato, ele continuou a empreender as campanhas para se tentar conquistar o Império Song. Porém ele priorizou a manutenção do império e conseguiu que outros Estados que não estavam totalmente sob o controle mongol se tornassem seus tributários como forma de não serem invadidos. Além disso, Mongka, anos antes, havia participado ao lado de seu irmão Guyuk e de seu primo Batu, nas campanhas de conquista da Rússia, dos búlgaros e na Polônia, de fato, eles eram considerados veteranos de guerra. 

Fora também no governo de Mongka, que os mongóis começaram a sentir mais profundamente a influência cultural dos povos conquistados. Na época de Genghis e Ogodei, os mongóis levavam uma vida plenamente nômade, e cultuavam seus deuses, contudo nessa época, alguns mongóis já haviam adotado a vida sedentária, e novas crenças, o islamismo, o cristianismo nestoriano e o budismo, eram as principais religiões as quais os mongóis passaram a se converter, a própria mãe do imperador Mongka era uma cristã nestoriana.


Não obstante, essa tendência de se assimilar a cultura e aos costumes dos povos conquistados seria uma das questões de embates entre os khans que defendiam a velha ordem e as tradições de seu povo, e ao mesmo tempo, seguindo tal tendência o império se tornaria cada vez mais dividido. Mongka faleceu em 1259, sendo sucedido pelo seu irmão Arik Boga que se autoproclamou imperador, porém, Arik tinha dois grande problemas pela frente, seus irmãos Hulagu e Kublai, os quais não aceitaram que o mesmo se declarasse imperador sem o consentimento deles próprios e do Quriltay.

Os mongóis avançam para o Oriente Médio:

Enquanto Mongka cuidava da parte administrativa e das campanhas na China, os outros khans governavam o restante do império, e nesse caso nessa época o khan responsável pela Pérsia, era o irmão do imperador, Hulagu. Hulagu tinha pretensões de aumentar os dominios do império, já nessa época, ele havia empreendido campanhas nos atuais territórios do Arzebaijão e Geórgia, agora sua atenção se voltava para sudoeste, em direção ao Califado de Bagdá o qual pertencia a poderosa Dinastia dos Abássidas, os quais possuíam territórios pela Ásia, África e na Península Ibérica (Portugal e Espanha). 

Contudo, naquele momento o califado era o alvo em questão. As campanhas se seguiram pelos anos seguintes, e finalmente em 1258, as tropas de Hulagu Khan sitiaram Bagdá, a cidade fora invadida, saqueada e destruída, as tropas de defesa foram executadas sem misericórdia, e parte da população fora escravizada. Historiadores persas, apontam que cerca de 90 mil pessoas foram mortas naquela batalha que durou três dias.


Contudo, uma nova questão surgira nas batalhas pelo Califado de Bagdá, Hulagu, o qual era budista, fora incentivado por sua esposa, Dokuz Katun, de poupar os cristãos. Sua esposa era uma cristã devota, e temia que os cristãos viessem a se rebelar contra o domínio do marido, já que os mesmos poderiam vim a serem importantes aliados. O khan aceitou a ideia da esposa, e poupou os cristão dos massacres. Quando Bagdá caiu em 1258, no ano seguinte ele marchou em direção a Síria, se apresentado como inimigo dos muçulmanos e libertador dos cristãos. Tal tendência se mostrou satisfatória, os cristãos que moravam na Síria se aliaram aos mongóis e em poucas semanas o país fora conquistado. 

A capital, Damasco se rendeu sem combater. Hulagu estava confiante de prosseguir com suas conquistas em direção ao sul, indo de encontro aos atuais Líbano, Israel, Jordânia e Cisjordânia e possivelmente o próprio Egito, porta de entrada para África, todavia, as campanhas de Hulagu sofreram uma pausa devido a conflitos ocorridos ainda no ano de 1259, Mongka havia falecido, e Arik Boga havia tomado o poder, nessa época, Hulagu se encontrava na Síria e Kublai na China, porém os dois irmãos não deixariam isso por menos. Hulagu acabou abandonando as campanhas na Síria e retornou para a Pérsia, as tropas que ficaram no país foram derrotadas pelos Mamelucos egipcios, que retomaram a Síria e Bagdá, em outras palavras, as conquistas de Hulagu duraram menos de um ano. Kublai, também abandonou suas campanhas no sul da China, e recuou para o norte, o embate entre os irmãos estava por se iniciar.



Gravura retratando um guerreiro Mameluco (esquerda). Por vários séculos os Mamelucos formaram uma poderosa força militar de distintos impérios.
O reinado de Kublai Khan (1260-1294):

Kublai, retornou para a capital mongol Karakorum, lá através do Quriltay convocado, ele fora eleito imperador em junho de 1260, contudo, seu irmão mais novo Arik Boga não aceitou a proclamação do irmão, pelo fato de também ter sido eleito imperador, assim os dois iniciaram uma guerra que durou quatro anos. Hulagu, também tentou entrar nessa guerra, mas acabou desistindo, devido as ameaças dos mamelucos aos seus territórios e a traição iniciada pelo seu primo Berké Khan, governador do Canato da Horda de Ouro. Berké era um fervoroso muçulmano e se mostrou totalmente contrário ao ato do primo de ter queimado Bagdá, assim ele decidiu conquistar os dominios de Hulagu, e para isso, ele se aliou ao sultão dos Mamelucos do Egito, Baibars e em 1262, os dois iniciaram conflitos contra Hulagu, o qual tivera que desistir de disputar o trono.



Kublai Khan, neto de Genghis Khan, quinto e último grande imperador. Governou de 1260 a 1294.
Kublai não apenas assumiu como novo imperador mongol, mas também passou a deter o titulo de imperador da China. Ele fundou uma nova dinastia, chamada Yuan, e se proclamou herdeiro dos "Filhos do Céu", Kublai como seu avô se proclamava enviado do Céu. Seria no governo de Kublai, que o império sofreria profundas mudanças que culminariam na sua fragmentação, o próprio imperador, era mais chinês do que mongol em si. Kublai transferiu a capital do império, de Karakorum na Mongólia, para  Pequim na China. Ele passou a adotar uma vida sedentária, a religião budista e taoísta, até mesmo os costumes e a língua chinesa.

Kublai tentou conquistar o Japão, então enviou duas expedições militares para o Império Japonês. A primeira fora enviada em 1274, as tropas mongóis desembarcaram no país e se confrontaram com as tropas de samurais. Nos primeiros dias de invasão, os mongóis conquistaram territórios no país, mas o grande embate com a força japonesa se deu na Baía de Hakata, onde embora estando em maior número e possuindo uma tecnologia bélica superior (os mongóis usavam bombas feitas de pólvora, algo que se assemelharia a uma granada moderna), a batalha fora perdida, devido a erros na estratégia e a rebelião das tropas, já que o exército invasor era formado em sua grande maioria por soldados coreanos e chineses, os quais não eram totalmente submissivos aos mongóis, assim a invasão acabou falhando, o restante do exército bateu em retirada. De fato, os japoneses estavam em grande desvantagem, e se os mongóis tivessem persistido, eles teriam adentrado o país e conquistado mais terras neste.



Gravura japonesa retratando a Batalha em Hakata no Japão, no ano de 1274.
Kublai indignado com a derrota, ordenou a execução dos rebeldes e dos generais e comandantes incompetentes. Ele passou imediatamente a preparar uma nova expedição, sua ideia era partir em 1275, mais atrasos, acabaram levando a expedição a ocorrer apenas em 1281. Nessa época, os japoneses tiveram tempo de se preparar para o próximo confronto, eles aumentaram o contingente militar, construíram muralhas e fortalezas em pontos estratégicos, já esperando o próximo ataque mongol. Devo lembrar que embora o Japão fosse um império, nessa época ele vivenciava seu período feudal, logo, os daimyo (senhor feudal) possuíam maior autonomia e autoridade do que o próprio imperador. 

Dessa vez Kublai enviou uma frota maior e mais homens para a batalha, porém a frota chinesa acabou tendo alguns dias de atraso para sair e demorou para se unir com o restante do contingente que aguardava na costa japonesa de Kyushu. Porém, para azar dos mongóis e de seu exército chinês, um tufão varreu aquelas águas, e muitos dos barcos e pequenos navios afundaram, matando milhares de soldados. Os japoneses, viram aquele tufão como uma ajuda divina e o batizaram de Kamikaze "deus do vento". A frota mongol parcialmente destruída e abalada moralmente, bateu em retirada. Kublai acabou desistindo de tentar uma terceira expedição.


Se por um lado, as conquistas no Japão fracassaram, ele conseguiu por outro, conquistar o Império Song definitivamente. Em 1279, Kublai havia subjugado o outrora poderoso Império Song, as lutas contra os Song duraram quase quarenta anos, e finalmente a China estava conquistada. Os domínios de Kublai ainda se expandiriam rumo ao sul, em direção ao norte do Vietnã e de parte do que hoje é MianmarNepalButão e a fronteira norte da Índia, embora que os hindus só seriam conquistados, três séculos depois, e os vietnamitas nunca foram conquistados pelos mongóis, por terem sido rechaçados pela estratégia militar vietnamita que arrasou com suas tentativas de conquista. 


Mas o governo de Kublai não fora apenas marcado por conquistas e derrotas, ele empreendeu profundas reformas especialmente na China, local que adotou como exclusividade de seu império, um erro fatal. Enquanto Kublai, se preocupava em reconstruir as cidades, vilas, recuperar os campos e terras destruídos pelas campanhas de seu avô, pai e tios, e ao mesmo tempo proporcionar o enriquecimento e o desenvolvimento da cultura chinesa, o restante do império era relegado, e ficava sob o domínio dos khans locais, isso contribuiu para a desintegração do império como um todo, posteriormente. 


"O aspecto mais original da política de Kublai na China permanece a sua ação em matéria econômica e "social". Junto ao serviço postal imperial fundado por Ogodei e ligando entre si as diferentes partes do império, um outro "serviço" desse gênero foi instituído, o dos Celeiros do Estado onde, anualmente, eram armazenadas as reservas de cereais destinadas à distribuição aos mais necessitados durante uma colheita ruim ou uma inundação. A existência desses estoques públicos apresentavam igualmente a vantagem de dispor de um instrumento de manutenção de cotação que paralisava os eventuais especuladores quando de um mau momento. Ao lado dessas medidas, o imperador aplicou uma política de ajuda aos infortunados, criando hospitais e fazendo distribuir cereais aos pobres e órfãos". (CONRAD, 1976, p. 259-260).


Muito das reformas, do governo e das riquezas da Dinastia Yuan sob o governo do Grande Khan, foram descritas pelo viajante e mercador veneziano, Marco Polo (1254-1324). 



Marco Polo trabalhou por quinze anos diretamente para o próprio Kublai Khan.
Embora Kublai fosse adepto ao budismo e ao taoismo, ele não era aversivo ao islamismo e ao cristianismo, de fato ele tentou procurar se aproximar do mundo cristão europeu. Em 1269, o imperador enviou um embaixador chinês para falar com o papa, infelizmente entre os anos de 1268 e 1271, o papado ficou vago, devido ao fato de que o conclave não entrava em consenso. Kublai ofertou presentes ao papado e cogitou que embaixadores e estudiosos fossem levados para a sua corte em Pequim. Além dessa visita a Roma, os embaixadores de Kublai visitaram Constantinopla no Império Bizantino, visitaram a França e outros territórios europeus, Kublai queria ao mesmo tempo a integração com a Europa e de se mostrar como o senhor do mundo oriental. 

Em 1271, o papa eleito, Gregório X, decidiu aceitar a proposta do Grande Khan e decidiu enviar dois dominicanos para a corte do imperador, para isso ele precisava de alguém que havia viajado para a longinqua China, então o papa ficou sabendo de dois mercadores de Veneza, Nicola e Mafeo Polo. Assim, nesse ano, os dois Polos, levaram consigo o jovem Marco, e em 1273 eles chegaram a China, lá Marco se tornou embaixador, governador, cartógrafo e ocupou outros cargos lhe incumbido pelo próprio imperador. 

Quando Marco Polo retornou para Veneza nos idos do século XIV, seu livro escrito durante sua prisão, se tornou uma das principais fontes acerca das maravilhas existentes no Império Mongol do poderoso e rico Kublai Khan, senhor do mundo oriental. De inicio muitas pessoas ficaram incrédulas com os exageros de Marco Polo, mas a medida que viajantes, missionários, mercadores e embaixadores retornavam das terras do Império Mongol, começaram a confirmar tais verdades, o livro de Marco Polo, ainda é editado após setecentos anos. 

As grandes cidades da Pérsia, do sul da Rússia e na China, eram verdadeiros centros cosmopolitas, onde se encontravam pessoas de diferentes culturas, línguas e crenças de toda a Ásia. Podia-se encontrar numa cidade como Samarcanda, Pequim e Sarai, reuniam bairros de cristãos, muçulmanos, budistas, taoistas, xamanistas, de persas, turcos, bizantinos, chineses, mongóis, russos, coreanos, etc. 

No final do século XIII, o império começava a declinar. Kublai era afrontado pelos seus primos, senhores dos territórios ocidentais, que almejavam seus domínios e o titulo de imperador, confrontos acabaram desintegrando a estrutura imperial no ocidente, e em 1294 o Grande Khan veio a falecer aos 79 anos, deixando um império próspero, mas ao mesmo tempo politicamente fraco. Marco Polo, havia deixado a China nessa época, incumbido de levar uma esposa para o khan da Pérsia, de lá ele retornou para a Veneza. Com a morte do imperador, uma pequena guerra civil eclodiu para se eleger o seu sucessor, Kublai, havia tido várias esposas e concubinas, logo tivera vários filhos, embora que apenas os filhos legítimos tinham direito ao trono. 

Kublai fora sucedido por Temur Oljeitu como imperador da China, já que o império propriamente falando se fragmentou. Após a sua morte, nenhum outro imperador fora eleito, por vários anos seguintes, embora que o império ainda sobrevivesse sob os governos dos khans e dos imperadores da Dinastia Yuan, a qual perdurou até o ano de 1368. 

"Após Kublai, a decadência será rápida, o luxo e a facilidade suplantarão as rudes virtudes nômades, e a China, depois de haver aparentemente assimilado seus conquistadores, os expulsará, para restaurar, com os Mings, sua independência nacional". (CONRAD, 1976, p. 263).

Mapa do Império Mongol em sua máxima extensão, antes da morte de Kublai Khan em 1294. 
"Por que os mongóis superaram todos os outros povos nômades das estepes na extensão e rapidez de suas conquistas dentro do mundo civilizado é uma pergunta que não aceita respostas simples. Com efeito, nenhuma sequência de campanhas por um único povo antes ou depois deles jamais submeteu uma área tão grande à dominação militar. 

Entre 1190, quando Temudjin - que assumiria mais tarde o nome de Gengis Khan - começou a unificação das tribos da Mongólia, e 1258, quando seu neto tomou de assalto Bagdá, os mongóis dominaram sucessivamente todo o Norte da China, a Coréia, o Tibete, a Ásia central, o império Khwarzim (na Pérsia), o Cáucaso, a Anatólia e os principados russos, além de fazer incursões no norte da Índia; e em 1237-1241, fizeram amplas campanhas na Polônia, Hungria, Prússia oriental e Boêmia e mandaram forças de reconhecimento na direção de Viena e Veneza". (KEEGAN, 1995, p. 217-218). 

Um império dividido

A divisão do império mongol não foi um processo que teve início durante o reinado de Kublai Khan, na realidade, como já foi dito anteriormente, ela teve início antes mesmo da morte de Genghis Khan, em 1227. O Grande Khan, antes de morrer, havia decidido dividir os domínios do império para seus filhos, e um dos filhos seria nomeado imperador, nesse caso, Ogodei. Mas, foi a partir desta divisão que se originou os territórios chamados de Canato da Horda Azul, Canato da Horda Branca, o Canato de Djaghatai, o Ilkhanato e a Dinastia Yuan. 


As hordas Azul, Branca e Dourada:


Em 1227, Djochi, filho bastardo de Genghis havia morrido, assim os territórios designados para ele, ficaram para seu herdeiro, Batu Khan. Batu, se tornou o primeiro senhor do Canato da Horda Azul, o qual compreendia as regiões da Rússia, Ucrânia, Polônia, Croácia, Cazquistão o antigo Reino Búlgaro no Volga, e o Canato dos Kyptchaks. A leste, se formou o Canato da Horda Branca, o qual compreendia parte da Sibéria, do Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão. O canato fora princialmente governado por um dos filhos de Batu, Orda Khan



Batu Khan, neto bastardo de Genghis Khan, senhor da Horda Azul de 1227 a 1255.
Em 1240, Batu decidiu expandir seus domínios e englobou o canato do filho, isso acabou dando origem ao Canato da Horda Dourada, assim como os russos o batizaram. Contudo, oficialmente o Canato da Horda Dourada se tornou um império unificado, apenas no ano de 1380 sob o governo de Tokhtamysh Khan, herdeiro de Batu. 


Mapa com o território do Canato da Horda Dourada (1240-1502).
Diferente do que se viu nas outras partes do império, a região que compreendia os domínios da Horda Dourada ou Horda de Ouro, facilitavam o estabelecimento de uma economia nômade, logo também dos costumes nômades. Embora houvessem grandes cidades neste império, parte dos mongóis que ali viviam, ainda conservavam os costumes de seus ancestrais. 

"Os ulus de Djotchi fora dividido em apanágios e feudos, dados aos membros da familia do príncipe e aos nobres, os bahadurs, que combateram ao seu lado". (CONRAD, 1976, p. 264).


"Assim, sem que a Horda de Ouro disponha de uma administração tão complexa como a encontrada na China, a autoridade do Khan possui, no entanto, os meios de ação necessários para se impor, além da simples hierarquia feudal". (CONRAD, 1976, p. 268).


Embora parte da economia fosse focada no pastoril, o canato possuía prosperas terras para a agricultura, e os grandes rios como o Volga facilitavam a irrigação dessas terras, também havia o comércio de várias mercadorias vindas de todas as partes do canato e do próprio império, através da Rota da Seda. a capital do canato, Sarai era uma das cidades mais ricas do mundo em seu tempo. Sarai ficava localizada no baixo Volga, sendo o centro econômico, político, cultural e religioso do canato.


"Todos os tipos de povos vivem aqui: os Mongóis, dos quais são muçulmanos, os Kyptchaks, que são todos, os Tcherkesses, os Russos e os Bizantinos, que são cristãos... Cada nacionalidade vive em seu bairro e aí tem seus bazares. Quanto aos mercadores e aos estrangeiros, vindos dos dois Iraques, do Egito, da Síria e alhures, encontram-se eles e seus bens em um distrito especial de muros...". Ibn Batutah, viajante, geógrafo e historiador afro-árabe, no século XIV (CONRAD, 1976, p. 269).



A estrela representa a localização da cidade de Sarai, capital da Horda de Ouro. No canto superior a esquerda, pode-se ver a localização das cidades de Moscovo, Kiev, Vladimir e Novgorod, cidades-estados tributárias da Horda. 
Canato de Djaghatai:

O canato tivera sua origem com o segundo filho de Genghis Khan, Djaghatai Khan, o qual viveu e governou até o ano de 1242. Os domínios de Djaghatai compreendiam parte do Turquestão e da Pérsia, possuindo as importantes cidades de Samarcanda, Bukhara e Urgundj. O canato perdurou até o ano de 1687, sendo o mais duradouro legado direto de Genghis Khan.



Mapa com o território do Canato de Djaghatai no ano de 1300. O Canato perdurou de 1227 a 1687.
A história do Canato iria mudar drasticamente durante o século XIV sob o governo do último khan da linhagem de Genghis Khan, Tamerlão. Será no governo do príncipe dos desertos que o canato conheceria seu apogeu e sua expansão máxima. 

Ilkhanato:


O Ilkhanato fora formado em 1256 por Hulagu Khan, irmão de Mongka, Arik Bogo e Kublai. Ao longo de sua vida, Hulagu se dedicou a reestruturar os territórios destruídos pelo seu avô, pai e tios, de fato conseguiu reerguer muitas cidades, conteve rebeliões e ataques externos, conseguiu expandir os dominios do império até a Síria, Armênia, Iraque, Geórgia e a Turquia, batendo a porta do Império Bizantino, mesmo que parte destes territórios foram perdidos posteriormente. 



Mapa com o território do Ilkhanato (1256-1337).
O Ilkhanato fora profundamente islâmico, seguindo posteriormente sob o governo de alguns líderes, as leis do Alcorão. Embora que Hulagu fosse budista e sua esposa cristã, e ele mantivera por algum tempo boas amizades com os cristão, mas devido a sua fúria contra os muçulmanos, especialmente em suas campanhas no Califado de Bagdá, posteriormente, o canato fora conquistado e o antigo inimigo, passou a reger a nova ordem. 

Dinastia Yuan:


A nova dinastia foi fundada em 1271, pelo imperador Kublai Khan, o qual se proclamou com primeiro imperador chinês da nova dinastia. Como foi visto, sob o reinado de Kublai (1260-1294) a dinastia vivenciou seus anos dourados, a China havia sido totalmente conquistada, a Coréia, e os domínios da Dinastia Yuan se expandiam ainda em direção ao Himalaia, embora que as campanhas contra o Japão, Java na Indonésia, Vietnã e a Índia fracassaram (KEEGAN, 1995, p. 218). De qualquer forma, a Dinastia Yuan mesmo tendo entrado em declínio após a morte de Kublai Khan em 1294, conseguiu se manter no poder ao longo de 97 anos. De fato, a estrutura politica e a administração desenvolvidos por Kublai, já parcialmente evidenciados, contribuiu para sustentar este império, por quase cem anos.



Mapa com o território da Dinastia Yuan em 1294. A Dinastia perdurou de 1271 a 1368.
Em 1368, a decadente Dinastia Yuan já não possuía mais autoridade e controle sob seus súditos que se rebelavam contra o mau governo e má gerência do imperador Toghan-Temur, assim ainda no mesmo ano, um golpe de Estado derrubou o imperador e instaurou-se uma nova dinastia no poder, os Ming. Para alguns historiadores, o fim da Dinastia sino-mongol dos Yuan, significou definitivamente o fim do Império Mongol fundado por Genghis Khan em 1206. Enquanto os Yuan estiveram no poder, os mongóis ainda possuíam o legado do Grande Khan vivo, agora com a derrocada dos Yuan, a nova dinastia chinesa de fato, reassumia o controle de seu povo. Mas, como já fora visto, os outros territórios que se originaram da partilha do grande império, ainda perdurariam por mais alguns séculos, como fora o caso da Horda Dourada e do Canato de Djaghatai. 

O império de Tamerlão

"Passado um século depois da morte de seu fundador, o império mongol de Genghis Khan parece dividido e enfraquecido, e um novo conquistador vai aparecer para unificar com punhos de ferro o mundo das estepes e uma boa parte da Ásia". (CONRAD, 1976, p. 299).


Em 8 de abril de 1336 na pequena aldeia de Kesh, ao sul de Samarcanda a dois dias de cavalo, hoje Uzbequistão, nascia no seio de uma família de camponeses, Timur, o qual ficaria conhecido pelo seu apelido desdenhoso de Timur-i-lenk ("Timur, o manco"), ou como ficou mais conhecido pela forma cristianizada do seu nome, Tamerlão. Timur era filho do chefe Taragai, o qual era um protegido do Clã dos Barlas, uma família nobre e influente na região, e foi através desse padrinhado, que Timur, galgaria posições para alcançar seus objetivos, unificar o império mongol sob seu domínio. Timur era um turco-mongol, mas não se tem certeza se possuía algum grau de parentesco com os descendentes de Genghis Khan, mas de qualquer forma ele se proclamava herdeiro do mesmo, e se via como um novo Genghis Khan.



Timur/Tamerlão, o último grande conquistador das estepes.
Ao longo da juventude, Timur foi treinado na arte da guerra e começou a revelar apresso pela política e pelo comando, ele se mostraria um líder carismático, correto, rígido com as leis islâmicas, principalmente devido ao fato de ser um muçulmano fiel, fato este que lhe reforçou a alcunha de o "homem de ferro", além da própria questão de que o nome Timur, significa "ferro" em turco.

Ao atingir a idade adulta, Timur já estava envolvido na trama política do Canato de Djaghatai, nessa época os laços de apadrinhamento com o clã dos Berlas o levou a se aproximar do príncipe Kasgan, soberano da região da Transoxiana, no Canato de Djaghatai. Timur estava nas graças do nobre, e este o tomara como seu genro, o fazendo se casar com sua filha Aldjai, a qual se comparava sua beleza com a da lua. Contudo, a situação mudaria drasticamente alguns anos depois, quando seu sogro faleceu, e o poder local ficou vazio, logo, vários senhores gananciosos passara a disputar o governo da Transoxiana, e para piorar a situação o próprio Canato estava vulnerável, inimigos ameaçavam as fronteiras do império, e rixas internas debilitavam ainda mais, a fraca ordem reinante. Timur viu que estava na hora de agir, se ele pretendia seguir os mesmos passos de Genghis Khan, deveria impor sua autoridade, unificar o país, massacrar os seus oponentes. 


Em 1360, Tukluk Timur, descendente direto do fundador do Canato, proclamou sua autoridade sob a região, subjugando seus adversários, massacrando e expulsando outros, nessa ocasião, o tio de Timur, Hadji Barlas, decidiu fugir, e se exilou na região do Khorassan, Timur viu que não seria capaz de enfrentar este poderoso oponente, então decidiu se submeter ao conquistador e ganhar seus favores. A ideia acabou dando certo, e Timur fora escolhido para ser conselheiro de um dos filhos do khan, o príncipe Ilyas Khodja. Mas, Timur ainda era jovem e impulsivo, e isso fora seu erro.


"O jovem Timur não pode suportar muito tempo o novo poder e começou a incitar uma agitação anti-mongol no país. Desmascarado e condenado por Ilyas Khodja, foge em direção ao Afeganistão, onde seu cunhado Mir Hossen, rei de Balkh e de Kabul, poderia fornecer-lhe ajuda e proteção. Durante dois anos, aquele que seria o flagelo da Ásia leva uma vida de proscrito". (CONRAD, 1976, p.  301).


Timur abandonou o "cativeiro" imposto por seu cunhado e passou a ser um mercenário, e fora nas campanhas como mercenário do emir do Seistão, pequeno território entre os atuais Afeganistão e Irã, que Timur conseguiu experiência no campo de batalha, e renome, ele começou a contar histórias sobre seus feitos e algumas coisas a mais, seu carisma, cativou os homens, isso lhe trouxera fama e ao mesmo tempo incitou a desconfiança do emir do Seistão. 


"O emir do Seistão, inquieto com a fama deste chefe de bando, ataca inesperadamente, numa dessas traições usuais na história oriental. É no decorrer do combate que Timur recebe uma flecha na perna, o que foi a origem de sua aleijão. Ele acabava de ganhar seu pseudônimo de "Manco [Leng em persa] e é este nome Timur Leng, Tamerlão, que ria sacudir o Mundo Antigo". (CONRAD, 1976, p. 301). 


Mesmo ferido e humilhado por sua aleijão, Tamerlão como passou a ser conhecido, fizera vigorar seu antigo epiteto de o "homem de ferro", passou a ser um líder mais rígido e frio, mais ainda conservava seu carismo junto aos seus soldados e seguidores. Tamerlão voltou para pedir ajuda de seu cunhado e em 1363 decidiu retomar sua aldeia, e conquistar a Transoxiana. Nessa época, o khan Tukluk Timur, havia morrido e seu filho Ilyas, o traidor, assumira o poder. Tamerlão possuia uma velha rixa com Ilyas, e estava na hora de cobrá-la. Ele marchou com seu exército e libertou Kesh, depois disso esmagou o exército do khan perto em Samarcanda, isso levou o khan a fugir do país. 


Tamerlão, colocou no poder um dervixe (monge muçulmano), chamado Kabil Chah, descendente de Genghis. Ilyas, em 1365, tentou recuperar o poder, mas fora derrotado novamente por Tamerlão, o qual se apresentava como chefe militar supremo do Canato. Ilyas acabou fugindo e morreu alguns anos depois em exílio, Tamerlão agora se aproximava cada vez mais do poder de khan, mas ainda havia um empecilho em seu caminho, Hossen, o qual era vizir (primeiro-ministro) de Kabil Chah. De fato, Kabil era apenas uma marionete posta no trono, o qual era disputado por Hossen e Tamerlão.


Os confrontos seguiram por mais cinco anos, até que Hossen fora derrotado na cidade Balkh, capital da Bacteriana. A cidade fora invadida e arrasada pelas tropas de Tamerlão em 1370. 



Gravura persa, retratando o ataque a cidade de Balkh pelos exércitos de Tamerlão em 1370.
"A coragem, a astúcia e a perseverança permitiram a vitória de um príncipe  cuja reputação começava a estender-se por toda a Ásia Central. Senhor, aos 34 anos da Transoxiana e da Bacteriana, Timur apresenta-se como o continuador do império mongol". (CONRAD, 1976, p. 303). 

Tamerlão nos anos seguintes consolidou seus domínios e iniciou suas campanhas de expansão, ele conquistou o antigo território do Khwarezm, a grande cidade de Gurgendj fora destruída em 1379, por sua rebeldia ao novo líder. No ano de 1381, o novo soberano continuava a expandir seus dominios e cobrava a submissão de outros governantes, mais alguns se negavam a vê-lo como novo khan do Canato de Djaghatai. Nesse ano, Tamerlão marchou com o seu exército em direção a fronteira entre o Paquistão e a Índia, chamada de Hindu-Cuxe, a fim de esmagar um governador local que se recusava a se render ao domínio do novo khan. 


Tamerlão subjugou seu refúgio e o capturou o mantendo como prisioneiro, a cidade fora arrasada, dali ele marchou em direção ao Herat e a região do Seistão, subjugando ambas, depois fora a vez das cidades de Sabzuar e Zarendj, onde suas populações foram massacradas, inclusive mulheres, crianças e idosos. Tamerlão revivia a ira e a brutalidade que garantiu aos mongóis desde os tempos de Genghis Khan sua barbaridade. O sultão rebelde acabou morrendo na prisão de fome.


Por volta dessa época, Urus Khan havia morrido, este era o governante da Horda Branca, e seu filho Tokhtamysh havia assumido em 1378, contudo, outros khans não aceitavam seu governo, logo eles passaram a confrontar o novo soberano, Tokhtamysh decidiu recorrer a ajuda do poderoso Tamerlão, e o mesmo o ajudou lhe dando apoio militar e financeiro. Tokhtamysh conseguiu se manter no poder e unificou as Hordas Azul e Branca, criando a Horda de Ouro. 


Em 1386, Tamerlão deixou a cidade de Samarcanda com 100 mil homens, decidido a continuar suas campanhas de expansão, nos seis anos seguintes, ele conquistou os atuais territórios da Armênia, Georgia e Azerbaidjão, todos caíram sob o fogo e ferro da fúria dos exércitos turco-mongóis de Tamerlão. A capital do reino cristão da Geórgia, resistiu vários dias, mas no fim fora tomada, e arrasada, a cidade fora saqueada e incendiada, sua população foi massacrada, e pilhas de cabeça se amontoaram em seus arredores, a barbárie das tropas de Tamerlão, fizeram os europeus recordarem dos dias em que os mongóis passaram por aquelas terras menos de um século antes. Tamerlão parou seu avanço antes de chegar propriamente a Rússia, nessa época, tais territórios pertenciam a Horda de Ouro, e por hora, ele queria a paz com este vizinhos. Porém, ele acabou ficando sabendo que Tokhtamysh possuía planos de invadir seus domínios, que ele havia traído a sua confiança. 


Mas por hora ele decidiu dá atenção a outro problemas. Tamerlão retornou com seu exército já fraco e abatido, em direção a Pérsia, de lá ele seguiu em direção ao Iraque Adjemi, e conquistou a capital do país, a cidade de Isfahan, a qual relatos da época, dizem que cerca de 200 mil pessoas fora executadas. A cidade que era conhecida por ser uma das mais belas da Ásia, devido a seus jardins e canais, ficou manchada de sangue. 


No ano de 1388, logo após a conquista de Isfahan, Tamerlão recebeu noticias de que os boatos acerca do khan da Horda de Ouro eram verdadeiros, o khan havia lhe traído a confiança e marchava agora com um exército em direção a Samarcanda. 


"A reação do vencedor de Isfahan foi fulminante: ele se põe em marcha imediatamente para atravessar os 2.500 quilometros que separavam Chiraz de Samarcanda (fevereiro de 1388). Surpreso, Tokhtamysh retira-se para as estepes do norte, mas Tamerlão desta vez estava decidido a golpear até à morte este vizinho ameaçador". (CONRAD, 1976, p.309).


A campanha contra a Horda de Ouro demorou mais três anos para acontecer. Ainda em 1388, Tamerlão passou a adotar o titulo de sultão além do titulo de khan. E durante este tempo ele organizou os preparativos de sua campanha contra seu outrora aliado. Em 1391, aos 55 anos, Tamerlão partiu com seu exército em direção ao traidor de Tokhtamysh o qual havia recuado para o interior de seus domínios, na Rússia. A viagem fora longa e difícil, já que o exército tivera que atravessar as estepes frias de kirghizes, conhecidas como "estepes da fome", muitos soldados morreram no caminho, e a moral do exército caíra. 


Em 19 de junho de 1391, Tamerlão chegou ao esconderijo do traidor nos Montes Urais na Rússia, após meses de viagem, o traidor ainda se mantinha escondido e não arriscava um confronto direto. Quando a luta veio acontecer, a mesma durou três dias, as tropas de Tamerlão saíram vitoriosas, mas Tokhtamysh acabou fugindo para o interior da Rússia, isso enfureceu o conquistador, e sua cólera ainda ficou maior, quando soube que os territórios que havia conquistado, agora se rebelavam contra seu domínio.


"O conquistador não soubera dotar os territórios conquistados de estrutura administrativa sólida, e esta fraqueza hipotecava seu sonho de reconstituição do império de Genghis Khan". (CONRAD, 1976, p. 311).


Tamerlão desistiu de perseguir o traidor, e retomou para seus domínios, e no ano seguinte voltou a empreender novas campanhas para recuperar os territórios perdidos e abafar as revoltas. Pelos três anos seguintes, os exércitos de Tamerlão, liderados pelo próprio ou pelos seus filhos e generais, promoveram campanhas de reconquista, pela Pérsia, Iraque, Armênia e Geórgia, e em 1395, Tokhtamysh voltava a ameaçar o velho conquistador, o qual completara 60 anos.


Novamente o confronto se deu na Rússia, e Tokhtamysh fora derrotado, e mais uma vez acabou fugindo, mas esta fora a última vez que fugira, o mesmo acabou morrendo em algum lugar da Sibéria. Tamerlão agiu com uma vingança sangrenta:


"A capital de Berké e Tokhtamish, fixada no baixo Volga, a florescente Sarai, que antes de sua destruição contava com mais de 10.00 habitantes, foi inteiramente incendiada. A bela cidade comercial evocada por Al Omari e Ibu Batutah, sem dúvida a mais linda cidade da Rússia do século XIII, não era mais do que um amontoado de ruínas depois da passagem das hordas de Tamerlão. Caffa, Tna, Astrakan, foram também destruídas". (CONRAD, 1976, p. 313). 


Tamerlão não chegou a conquistar de fato o Canato da Horda de Ouro, já que novos khans apareceram para assumir o poder, mas enquanto estes não se intrometessem em seu caminho tudo estaria em paz, então ele retornou triufante para Samarcanda, e pelos dois anos seguintes, cogitou atacar o decadente Sultanato de Deli na Índia. No passado, nem mesmo o próprio Genghis Khan arriscou-se a atacar a Índia, seus exércitos de elefantes era famosos por sua força, embora não fossem necessariamente eficientes, como Alexandre, testemunhou há vários séculos. Mesmo assim, Tamerlão, estava confiante, tinha confiança que conseguiria subjugar os hindus.


Assim, em 1398 ele partiu de Samarcanda, com um exército de 150 mil homens, atravessou o Afeganistão, Paquistão e adentrou a Índia, nos domínios do sultão Mahmud. A invasão de seus domínios fora fácil, as defesas eram fracas, e as fortalezas e cidades no caminho fora subjugadas e destruídas, estimasse que pelo menos quase duzentos mil pessoas morreram apenas no percurso por onde os mongóis passaram. Em 17 de dezembro ocorreu o grande encontro com os exércitos do sultão Muhmad próximo ao rio Djumma. A batalha durou alguns dias, o sultão possuía um exército de 120 elefantes de guerra, parte do exército de Tamerlão fora massacrada devido aos furiosos elefantes, a solução para derrotá-los veio no dia seguinte.


"No dia seguinte a solução foi encontrada: camelos cobertos de palha foram lançados na frente da cavalaria e, no momento do confronto, a palha em chamas aterrorizou os elefantes que iriam semear o pânico nas linhas adversárias". (CONRAD, 1976, p. 316).


O problema de se usar elefantes no campo de batalha é que os animais diferente dos cavalos, ficam mais tensos rapidamente, e quando se descontrolam são muito difíceis de serem parados, isso fora um problema que Alexandre notou e que os romanos também notaram, quando combateram Aníbal no século III a.C. Com a desordem gerada, o exército do sultão fora derrotado e em janeiro de 1399, a cidade de Deli fora tomada, e Tamerlão proclamou-se Imperador das Índias. Nos meses seguintes, ele continuou com suas conquistas.



Gravura persa retratando a batalha de Tamerlão na Índia em 1398, contra os exércitos do Sultão do Deli.
A cavalgada que se seguiu através de todo o Norte do país espalhou o terror por todos os lados. Eram pilhagens, massacres, torturas, violações, degolamentos coletivos; a população induísta de Meerut foi esfolada viva; os exércitos hindus que tentaram opor-se ao avanço dos Mongóis foram regularmente aniquilados e todos os prisioneiros foram sistematicamente executados.


O Império Timúrida de Tamerlão, os território na Índia foram perdidos posteriormente.
Tamerlão não prosseguiu com as campanhas, seu intuito inicial era conquistar o Sultanato de Deli e expurgar os muçulmanos pecadores, assim como ele alegava que fossem. Tamerlão antes de partir para a Índia, alegou que os muçulmanos de lá haviam se corrompido e passaram a desobedecer as leis do Alcorão, e como um muçulmano devoto que ele era, era seu dever purificar estas terras. Acreditando que havia feito isso, decidiu retornar para a capital de seu império.

Ao retornar para Samarcanda o sultão, khan dos mongóis e agora imperador das Índias, recebeu noticias nada agradáveis, um novo império começava a surgir na Ásia Menor (hoje Turqui), estes eram os turcos da Dinastia Otomana. Os otomanos haviam conquistado grande parte do território dos bizantinos, além de ter expandido suas fronteiras pela Síria, pela Terra Santa e pelo Egito, e agora eles ameaçavam subjugar os bizantinos os quais estavam restritos a um pequeno território nos arredores de Constantinopla. 


Os reis cristão da Europa, temiam que se Constantinopla caísse, os otomanos invadiriam a Europa. Porém Tamerlão, não estava interessado no perigo que os europeus corriam, ele estava interessado em manter a cordialidade e a paz com os otomanos, não queria eles como inimigos, mas também não como meros amigos, mas sim como súditos. Ele enviou alguns embaixadores para falar com o Sultão Bajazet, o Claro, inclusive o seu filho Miran Chan, porém os embaixadores foram mau recebidos e expulsos das terras do sultão, o próprio enviou uma carta a Tamerlão dizendo que não tinha medo dele e de seu exército.



Bejazet I, Sultão Otomano de 1347 a 1403.
Em resposta a tal afronta, Tamerlão decidiu invadir o Império Otomano. Em agosto de 1400 ele partiu segundo algumas fontes persas, com um gigantesco exército de 700 mil homens, a Armênia fora arrasada, a cidade de Alepo a qual era defendida pelos Mamelucos egípcios, os mesmo que haviam derrotado Hulagu Khan a mais de um século, foram finalmente derrotados pelos mongóis, e a cidade tomada e destruída. 

Damasco, capital da Síria, fora tomada em 1401, a cidade fora saqueada e incendiada, segundo o historiador árabe Ibn Khaldun, Tamerlão contemplou a cidade arder em chamas do alto de uma colina. Em abril do mesmo ano fora a vez da cidade de Bagdá sofrer o mesmo terrível destino, nesse caso, relatos apontam que pilhas de cabeças humanas foram erguidas nos arredores da cidade. O terror imposto por Tamerlão era um aviso, aqueles que ousassem confrontá-lo, seriam massacrados. 


Em julho de 1402, ocorreu na planície de Angora (atualmente Turquia) o grande confronto entre as forças do khan e do sultão. Relatos apontam que Tamerlão levou consigo um contingente de 500 mil homens, enquanto o sultão dispunha de 300 mil, sendo estes formados pela hábil cavalaria de croatas e a poderosa infantaria dos janízaros, mesmo assim isso não bastou para derrotar a fúria mongol, a batalha acabou após dez horas ininterruptas de combate, o sultão tentou fugir, mas acabou sendo capturado e feito prisioneiro, o mesmo veio a falecer na prisão em 1403. 


A Ásia Menor ainda continuou a ser arrasada por mais alguns dias, contudo, Tamerlão não possuía interesse de prosseguir em direção ao Império Bizantino ao a Europa, por hora, ele mantinha boas relações com os reis cristãos europeus, como ficou atestado em uma carta que enviou a rei de França Charles VI. Posteriormente o próprio recebeu a visita do embaixador do Reino de Castela (hoje Espanha), lhe enviando saudações e respeitos. Contudo, em 1404, os planos do grande conquistador, o implacável "homem de ferro", era conquistar o Império chinês dos Ming, e converter o povo chinês ao islamismo. 


Em 19 de janeiro de 1405 aos 71 anos, Tamerlão veio a falecer depois de uma grave febre que contraiu enquanto se encontrava a caminho de iniciar sua marcha em direção a China. O último grande conquistador das estepes estava morto, dois de seus filhos haviam morrido, o terceiro havia ficado louco e o quarto o qual assumira o trono não conseguiu se manter no poder. Com a morte do pai ainda em 1405, o Império Timúrida se fragmentou, lutas internas levaram ao seu fim, embora que o legado de Tamerlão ainda se manteria vivo por quase mais cinquenta anos, na Transoxiana e em Samarcanda.



Fotografia do Gur-e-Amir,  o mausoléu de Tamerlão, em Samarcanda no Uzbequistão.

O Império Mogol
(1526-1858)

Mais de um século após as furiosas e sangrentas campanhas de Tamerlão, que mudaram novamente a face da Ásia Central, uma nova leva de soberanos de origem mongol se erguiam, estes iriam reinar sobre a Índia, fundando o que ficou conhecido como Império Mogol ou Império do Grã-Mogol (na historiografia inglesa utiliza-se o termo Mughal para Mogol). Por mais de quatro séculos, os mogóis reinariam sobre o subcontinente indiano, desenvolvendo um império não vasto, mais próspero, tanto em riqueza como em cultura. 


Devido ao fato de eu não dispor acerca de mais fontes a respeito do Império Mogol, me limitarei aqui a falar brevemente deste, embora que de fato, eu teria que dedicar um artigo exclusivo para abordar suas histórias.


Babur se proclama imperador mogol da Índia:


Zahir ud-Din Mohammad nasceu em 14 de fevereiro de 1483 em Andijan (atualmente no Uzbequistão), era descendente de Tamerlão por parte de seu pai, Umar Sheykh Mirza, e descendente de Genghis Khan por parte de sua mãe, Qutlag Nigar Khanum. Ficou mais conhecido na história pelo apelido Babur ou Baber, uma variação da palavra turca para tigre. Como descendente de dois grandes conquistadores da História, ele sentia que era dever seu honrar o legado destes homens. 



Babur, fundador do Império Mogol, governou de 1525 a 1530.
Em 1505, Babur era um pequeno chefe militar o qual havia governado Samarcanda por algum tempo, porém, após algumas derrotas, abandou a cidade e fugiu com seu exército para o Afeganistão onde passou vários anos vivendo ali. Lá ele conseguiu importantes conquistas, se proclamando senhor de Pundjab e rei de Kabul (atual capital do país), porém ele estava interessado em um prêmio bem maior, a Índia. 

"A Índia se encontrava, então, em um estado de divisão inteiramente pronta para aclamar qualquer invasor capaz, que lhe prometesse paz e ordem". (WELLS, 1986, p. 130).


Babur confiante na vitória marchou com um pequeno e exército no ano de 1525 em direção a Deli, capital do Sultanato de Deli, o mesmo que Tamerlão havia derrotado mais de um século antes. Mesmo em desvantagem, o exército do sultão era fraco e indisciplinado, Babur conseguiu uma vitória rápida ainda em 1525, então se proclamou Imperador do Industão (região que compreendia as fronteiras entre o Paquistão e a Índia), após essa vitória ele passou os cinco anos seguinte tentando expandir seu império, algo que se procedera de forma lenta. 


Contudo, mesmo tendo tido um reinado breve, Babur implantou o Islamismo em seus domínios, e a religião islâmica seria a religião oficial de seu império que ele acabava de criar, embora o sultanato já tivesse o Islamismo como religião oficial, os imperadores mogóis preservariam tal condição no restante da história do Império Mogol. A arquitetura, os costumes, a literatura, música, dança, arte, as leis, etc, tudo seria movido de acordo com as diretrizes islâmicas contidas no Alcorão. 


Além disso, Babur e especialmente seu neto Akbar, empregaram os costumes islâmicos, mas também persas entre os indianos, de fato a Corte Mogol, era um misto da cultura persa e indiana. Aspectos das leis, estruturas, política, cultura, arquitetura, etc., da Pérsia fora aplicada na Índia sob o governo dos mogóis.


Akbar, o Grande:


Em 1556, aos 13 anos, o príncipe Jalalluddin Muhammad Akbar, filho do imperador ou Grão-mogol, Humayun, o qual era filho de Babur, se tornou o novo imperador mogol. Akbar governou por 49 anos, e em seu reinado o império chegou ao seu apogeu. Embora não tenha conquistado toda a península indiana, ele conseguiu consolidar os domínios conquistados por seu avô e pai, além de trazer a ordem, a paz e a prosperidade ao seu povo. Akbar é considerado o maior imperador mogol, homem dotado de um espírito bravo, corajoso, mas ao mesmo tempo benevolente e culto, procurou manter uma boa política com os reinos vizinhos que governavam a Índia, embora que tenha lutado por mais de vinte anos contra alguns desses inimigos. 



Akbar, o Grande, terceiro imperador mogol, governou de 1556 a 1605.
"A sua qualidade marcante foi a largueza de espirito. Devotou-se à tarefa de fazer de todo o homem capaz da Índia, fosse qual fosse a sua raça ou religião, um homem útil ao serviço público da vida indiana. O seu instinto era o verdadeiro instinto de síntese que caracterizava o estadista". (WELLS, 1986, p. 131).

Akbar reformou as estâncias do exército, passou a usar elefantes de guerra e armas de fogo, como mosquetes e canhões; tentou promover uma reforma na educação indiana, mas não conseguiu realiza-la com sucesso devido as distinções das castas adotadas pelos hindus; embora fosse muçulmano, tentou promover uma harmonia entre as religiões e os costumes, sem obrigar aos seus súditos adotarem o islamismo; promoveu debates religiosos, para ouvir as distintas partes. 


Como amante das artes, Akbar, gostava de literatura, pintura e música, atuou como mecenas de vários artistas, e tais ações podem ser vistas nos palácios que construiu ao longo da vida, e nos livros que ordenou que fossem traduzidos do persa para o sânscrito ou vice-versa. Ampliou o comércio e aos laços com nações vizinhas, como a China, Vietnã e Indonésia, além de receber a visita de embaixadores e missionários da África e da Europa; reformulou a cobrança de impostos, algumas leis e a prestação de serviço ao governo; arranjou casamentos, para ganhar o apoio das elites, especialmente dos Rajput, um antigo e influente clã indiano, para isso ao longo da vida ele tivera 36 esposas e várias outras concubinas, como herdeiros, teve três filhos e seis filhas; construiu templos, cidades, fortalezas e palácios. 



Gravura indiana retratando a visita de Akbar ao Clã dos Rajput, onde o mesmo foi tomar mais uma esposa.
Akbar, diferente de seu avô e pai, não se preocupou em construir um império gigantesco, mas em manter a ordem e a manutenção do império que já possuía.


O Império Mogol sob o reinado de Akbar, o Grande até o ano de 1605.
Akbar reinou por 49 anos, vindo a falecer aos 62 anos em 27 de outubro de 1605. Seu legado e suas reformas politicas permitiram que os imperadores seguintes expandissem o império conquistando toda a península indiana, e mantivessem a ordem e a prosperidade por quase cem anos. 


Mausoléu do imperador Akbar, o Grande, Sikandra, Índia.
As riquezas das Índias:

Ainda no governo de Akbar, os primeiros contatos com Ocidente haviam sido feitos, os portugueses já haviam chegado na Índia com Vasco da Gama em 1499, e em 1501 ele havia retornado para a cidade de Goa a sudoeste do país. Nos séculos seguintes, Portugal manteria feitorias em Diu, Damão, mas principalmente e Goa a qual até o século XVIII fora província portuguesa. Posteriormente, os portugueses também desenvolveriam relações com os indonésios, chineses e japoneses. No século XVI, durante o reinado de Akbar, a corte do mesmo abrigou por algum tempo jesuítas portugueses, além de missionários chineses, persas e turco-otomanos. 


No século XVII, os franceses e os holandeses chegaram a Ásia e passaram a manter contato e a comercializar com tais impérios. Desde antes do século XV as Índias como eram chamadas pelos europeus, eram consideradas uma região cheia de riquezas, e de fato, quando os missionários europeus retornaram para suas terras relataram as maravilhas que ali encontraram, luxuosos palácios, belos templos, fortalezas e cidades. Um dos exemplos mais conhecidos acerca da beleza da arquitetura islâmica na Índia dos mogóis é o mausoléu do Taj Mahal



Mausoléu do Taj Mahal construído pelo quinto imperador mogol Shah Jahan entre 1632 a 1653, em memória do grande amor por sua última esposa, Mumtaz Mahal.
Os jardins em estilo islâmico eram maravilhas da arquitetura, pelo fato de serem construídos baseados em quatro quadrantes onde canais o cruzavam. Uma concepção baseada no paraíso islâmico no qual diz que o Paraíso é cortado por quatro rios, algo que é visto nos relatos bíblicos sobre o Jardim do Éden. 


Vista de um dos quadrantes dos Jardins de Shalimar em Lahore.
A abundância das tão almejadas especiarias (pimenta, cravo, canela, noz-moscada, mostarda, etc.) eram vendidas em abundância nos mercados; as pessoas mais abastadas se vestiam de forma luxuosa, principalmente as mulheres que exibiam roupas de seda e tecido de tonalidades vivas, além de usarem muitas jóias e pedrarias; elas andavam com brincos, anéis, colares e pulseiras  em muito caso feitos de ouro e encrustado com rubis, esmeraldas e diamantes. 

Nos séculos XVII e XVIII o império ainda continuou a receber a visita de navios portugueses, ingleses, franceses, holandeses, chineses, otomanos, indonésios  e de algumas cidades-estados africanas como Zanzibar, Kilwa, Quíloa, Mombaça e Mogadixo, não obstante, os próprios indianos também viajavam para a África e outros lugares da Ásia para vender e comprar mercadorias. Mas, embora houvesse essa riqueza que transbordava com o comércio, o Império Mogol após o fim do sexto imperador Aurangzeb (1618-1707) o qual governou de 1685 a 1705, o império entrou em declínio, os imperadores seguintes, não conseguiram manter muitas das terras conquistadas até então, e perderam importantes pontos de comércio, logo de riqueza, além disso, as estruturas criadas por Akbar agora sem as devidas manutenções, começavam a cair, mesmo assim o império ainda duraria quase cento e cinquenta anos. 


Para o famoso historiador francês, Fernand Braudel, diz que não havia um consenso em se dizer quando o império teria chegado ao fim. Quando escrevera entre as décadas de 60 e 70, as hipóteses sugeriam que o império teria findado-se no século XVIII, no entanto, hoje considera-se que o fim derradeiro fora no século XIX, embora não há um consenso sobre isso. 


"A enorme máquina imperial dá, no século XVIII, sinais de esgotamento e de desgaste. Para marcar o início daquilo a que se chamou a decadência mogol, só há o problema da escolha; ou 1739, com a tomada e o prodigioso saque de Delhi pelos persa; ou 1757, com a batalha de Plassey ganha pelos ingleses; ou 1761, com a segunda batalha de Panipat: os afegãos, armados com couraças medievais, triunfam sobre os mahratas, armados à moderna no momento em que estes se preparavam para reconstituir em proveito próprio o Império do Grã-Mogol. Durante muito tempo, os historiadores, sem discutirem muito, aceitaram como fim da grandeza da Índia mogol a data de 1707, ano da morte de Aurang Zeb. Segundo eles, o Império teria morrido, em suma, de morte natural, sem deixar aos estrangeiros, persas, afegãos ou ingleses, o trabalho de dar fim ao seus dias". (BRAUDEL, 1996, p. 476). 



O Império Mogol em sua máxima extensão no ano de 1700.
Os ingleses subjugam os mogóis:

Mesmo tendo sobrevivido por mais de cem anos, o império nunca chegou a recobrar totalmente sua glória como fora nos tempos de Akbar e seus sucessores. No século XIX a presença do Império Britânico sob a Índia já era grande, era apenas uma questão de tempo para que os ingleses subjugassem a Índia a tornado uma de suas colônias ultramarítimas. Nessa época, o Reino Unido, era a nação mais rica e poderosa do mundo, sua marinha atuava praticamente em todos os oceanos do mundo, e os ingleses, possuíam contato e negócios em todos os continentes. 


No ano de 1857 eclodiu na Índia a Revolta dos Sipais, termo utilizado para designar o soldado indiano a serviço da Companhia Britânica das Índias Orientais, os sipais se manifestaram contra as péssimas condições de vida e a exploração do trabalho sobre eles e suas famílias, sua rebelião serviu de mola propulsora para que outras rebeliões começassem a eclodir pelo país ao longo de 1857, as pessoas que estavam indignadas com a exploração efetuada pela companhia inglesa agora pegavam e armas e lutavam contra os invasores europeus. Embora que nem todos os estados indianos aderiram a revolta, alguns eram a favor de que os ingleses passassem a controlar o país, e outros não queriam que o Império Mogol voltasse a governar todo o país, nesse caso, o último imperador mogol, Bahadur Shah II (1775-1862) aderiu a revolta e passou a dá apoio aos sipais, isso levou a sua queda no ano seguinte, quando a revolta fora sufocada. 



Os sipais confrontam o exército britânico.
Em 1858, a revolta fora sufocada, muitos foram executados, e saques ocorreram nas cidades rebeldes. O último imperador mogol, fora destituído do poder e enviado para exílio, onde acabou morrendo, anos depois. A Companhia Britânica das Índias Orientais fora fechada e um novo governo fora instaurado, o chamado British Raj, assim a Índia definitivamente saiu das mãos dos mongóis, para cair nas mãos ingleses. O país se tornou uma colônia e assim permaneceu até 1947.

Bahadur Shah II, décimo sétimo e último imperador mogol, reinou de 1837 a 1857, sendo destituído pelo Império Britânico.

Galban Khan
E a tentativa de reunificação do Império Mongol



Desde a desintegração do Império Mongol em 1348, os dois séculos que se seguiram, vários outros khans tentaram promover a unificação do império, em maior destaque Tamerlão (1338-1405), contudo no século XII nas últimas décadas deste novamente um homem tentaria reerguer o império de Genghis Khan, seu nome, Galban Khan. 

Galban Boshugtu Khan (1644-1697).


Galban era um dzungar ou jungar, denominação dada as tribos que falavam a língua oirot, nesse caso, os dzungar eram formados por mongóis, turcos, tibetanos, chineses e alguns outros povos. Nos idos do século XVII, eles fundaram um canato, chamado Canato Zunghar ou Império Zunghar, seu território era chamado de Dzungaria, o qual compreendia a porção ocidental da atual Mongólia, parte do território ocidental da atual China, indo em direção a região do Tibet, compreendia também parte da Sibéria, na Rússia, e se estendia através do Turquestão em direção ao atual Cazaquistão. 




Delineado em azul o território do Canato Zhungar (1619?-1756).


Galdan foi o terceiro khan dzungar, nasceu em 1644, era o quarto filho de Erdeni Baatur Hongtaiji, fundador do canato. Durante a sua infância ele fora enviado ao Tibet para ter uma instrução budista lamaísta, já que sua mãe era devota de Buda, e embora seu pai tivesse apresso pelo islamismo, tolerava o budismo. Assim, o jovem Galdan passou a infância e parte da juventude, morando em Larsa (capital do Tibet, lar do Palácio de Potala, residência oficial dos Dalai-lamas). Em Larsa, ele fora instruído pelo Lobsang Chökyi Gyaltsen (1570-1662), o quarto Pachen Lama e posteriormente fora instruído pelo quinto Dalai-lama (1617-1682).




Lobsang Gyatso, o Grande, Quinto Dalai-lama. 


Em 1671, seu irmão Sengge foi assassinado por um dos próprios meio-irmãos, chamado Tseten, o qual pretendia tomar o poder, já que Sengge era o então governador do canato. Galdan, ficou sabendo da morte de seu irmão e da traição familiar, então renunciou os votos de monge, e partir em busca de vingança, pelos cinco anos seguintes, ele combateu seus meio-irmãos traidores e os aliados destes, incluindo o próprio avô de sua esposa, Anudara. Em 1678, Galdan recebeu do próprio Dalai-lama o titulo de Boshugtu Khan, assim tendo sido proclamado khan pelo representante dos Céus na Terra, o Dalai-lama, Galdan decidiu expandir seu império e reerguer o império mongol. 

"No final do século XVII a Kachgaria, vitima então das rivalidades das aristocracias muçulmanas que governavam Kachgar e Yarkend, é submetida. Os oásis do Turfan e de Hami são dominados, a região de Kerulen, do Orkhan e de Tula é tomada dos Mongóis orientais que partem para implorar a ajuda de Kong Hi, o imperador madchu da China". (CONRAD, 1976, p. 356-357).

Nessa época, a Mongólia estava repartida entre os dzungar que controlavam a porção ocidental e os mongóis orientais que eram súditos dos chineses, assim, o imperador Kong Hi ou Kangxi, temendo que um novo levante destes "bárbaros" viessem assolar seu império, como ocorrera no passado, decidiu apoiar os mongóis e declarou guerra a Galdan Khan. 

Imperador chinês Kangxi, reinou de 1662 a 1722.

Embora os exércitos de Galdan fossem fortes, os tempos já eram outros e a arte da guerra havia evoluído. Enquanto, o dzungar ainda possuíam grande confiança em sua cavalaria de arqueiros, assim como fora no passado, os chineses já há muito tempo adotaram as armas de fogo, mesmo que ainda usassem as armas tradicionais, assim em 1690 e 1695, em duas grandes batalhas travadas entre Galdan e os exércitos do imperador Kangxi, os exércitos dzungar foram reduzidos drasticamente pela artilharia chinesa. Equipados com mosquetes, mas principalmente canhões, bombas e misseis, se tornou um obstáculo intransponível para os conquistadores naquele tempo. 

Galdan faleceu em 1697 aos 53 anos, seu filho Tsewang Rabdan assumiu o lugar do pai, mas não conseguiu realizar grandes feitos, e acabou perdendo muito dos territórios que existia. O Canato de Zunghar ainda sobreviveria até o ano de 1756, encolhendo cada vez mais, e o sonho de Galdan Khan de reerguer o império de Genghis Khan morreu pela última vez. Após ele, não houve nenhum outro líder de renome que ousou tentar unificar o gigantesco império mongol de outrora. 

Ablai Khan
O último dos grandes khans
A medida que o Canato Zhungar ia diminuindo, o mesmo perdera seus territórios na Mongólia Oriental, na Sibéria, no Turquestão chinês, e era cada vez mais pressionado para o interior da Mongólia Ocidental e para o ocidente em direção ao atual Cazaquistão, contudo, os khans cazaques já não aceitavam mais a se submeter as ordens dos dzungar, e lendas antigas diziam que um descendente do poderoso Genghis Khan viria unificar todas as tribos cazaques e libertá-los do domínio dos dzungar, e este homem foi Ablai Khan, o último dos grandes khans. 

Nascido em 1711, com o nome de Waliuly Abilmansur, era descendente do fundador do canato, Janybek Khan, os quais diziam ser descendente longínquo de Genghis Khan. Por longos anos, os cazaques vinham enfrentado os dzungar, os russos e até mesmo os chineses e outros povos, vários khans haviam sido eleitos desde a fundação do canato no século XV, contudo, nenhum deles havia conseguido unificar todas tribos, e o próprio Abilmansur demorou quase toda a vida para fazer isso. 



Selo comemorativo ilustrando a figura de Ablai Khan.

Por mais de trinta anos, de 1720 a 1750, Abilmansur se tornou um poderoso guerreiro e líder respeitado, liderando várias batalhas contra os dzungar. Ao mesmo tempo, ele tinha em mente a unificação dos cazaques, os quais estavam divididos em tribos, e eram regidos por três Juz, o Grande Juz, o Médio Juz e o Pequeno Juz, cada um dos Juz possuía um próprio khan que governava sobre as tribos que compreendiam seus territórios, alguns destes khans eram vassalos do Império Russo, e outros agiam como mercenários dos chineses, contudo, eles tinham os dzungar como inimigo em comum. 


Divisão do Cazaquistão sob o governo dos três Juz. Em verde claro (esquerda), o território do Pequeno Juz; em amarelo o Médio Juz; e em rosa o Grande Juz

Após vários anos disputando o poder contra os khan do Pequeno Juz e do Grande Juz, em 1771, Abilmansur que era considerado um herói para os cazaques, foi eleito khan do Médio Juz, passando a adotar o nome de Ablai Khan. Nessa época, ele contava com seus 60 anos. Seu reinado durou apenas dez anos, contudo neste década ele conseguiu realizar muita coisa.

De início, os russos não reconheceram a Ablai como novo khan, isso ainda levaria alguns anos, contudo, o mesmo conseguiu o reconhecimento de sua autoridade a partir de uma aliança formada com os chineses, os quais apoiaram Ablai nas lutas contra os dzungar, assim nos anos seguintes, Ablai liderou exércitos contra os dzungar os expulsando do sul do território do Grande Juz, e das regiões que hoje compreendem o Turcomenistão e Quirguistão, após esses feitos, ele conseguiu unificar as tribos cazaques sob seu poder, criando a Cazaquéia, hoje Cazaquistão. 


Em 1781, Ablai Khan faleceu aos 70 anos, tendo conseguido expulsar os dzungar e criar um Estado cazaque. Mesmo tendo unificado as tribos cazaques, outros khans iriam disputar o poder da Cazaquéia pelos anos seguintes, até que em meados do século XIX, o Império Russo os conquistou. De qualquer forma, Ablai é considerado um dos maiores khans que reinaram sobre o Cazaquistão e o último dos grandes líderes de descendência mongol.



Mausoléu de Khoja Ahmed Yasawi, Cazaquistão. Muitos khans e sultões estão sepultados nesse mausoléu, inclusive o próprio Ablai Khan.

NOTA: O filme O Guerreiro Genghis Khan (Mongol) dirigido pelo diretor russo Sergei Bodrov, de 2007, aborda da infância de Temudjin até ele conquistar o título de Genghis Khan.
NOTA 2: Alguns aspectos da vida de Ablai Khan, são retratados no filme Nômade (Nomad), dirigido pelos diretores Sergei Bodrov e Ivan Passer, de 2006. No entanto, o filme não segue uma cronologia realista, pois Ablai só ganhou o título de khan aos 60 anos, no entanto, no filme ele tem em torno de vinte poucos anos. 
NOTA 3: O Mausoléu de Khoja Ahmed Yasawi, foi construído a pedido de Tamerlão, as obras começaram em 1389, mas se encerraram em 1405, com a morte do mesmo. Ainda hoje a construção está inacabada. 
NOTA 4: A arquitetura mogol na Índia, possui uma forte influência da arquitetura timúrida, desenvolvida durante o reinado de Tamerlão. 
NOTA 5: Durante o século XVI, o czar da Rússia, Ivan, o Terrível derrotou os mongóis do pequeno Canato de Kazan, entre os anos de 1551 a 1561.

Referências Bibliográficas:
BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XVI-XVIIIvolume 3: O Tempo do Mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 474-485.
CONRAD, Phillipe. As civilizações das Estepes. Rio de Janeiro, Editions Ferni, 1976. (Coleção: Grandes Civilizações Desaparecidas).
GRANDE Enciclopédia Larousse Cultural, v. 18, São Paulo, Nova Cultural, 1998. 
KEEGAN, John. Uma história da guerra. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 
WELLS, H. G. História Universal, vol. 3. São Paulo, Editora Egéria S. A, 1966. (Capitulo XXXII: O grande império de Genghis Cã e seus sucessores). 

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8 comentários:

Rúbia disse...

Olá,

Somos de uma Editora e gostaríamos de saber sobre as condições para utilização de foto de povos mongóis em nosso livro.

Aguardo retorno.

Obrigada,

Rúbia Calais
didatico@editoradimensao.com.br

Leandro Raliv disse...

Bom... todas as fotos que utilizei nesta postagem, as peguei no Google, e algumas em links da Wikipédia.

Acredito que as imagens já estejam em domínio público. Logo, não sei especificar de forma mais clara, vossa questão.

Mas sugiro que entrem em contato com o pessoal da Wikipedia, pois eles usam muitas fotos, devem saber com mais detalhes destes procedimentos.

PASSADA disse...

Otimo texto, parabens.

Milena Dias disse...

Texto fantástico. Fez uma excelente linha temporal e percebi como o império mongol se perdeu desde Yuan.

Maria Jose Morais de Andrade - Zeze Andrade disse...

Muito bom o texto!!! Claro, sintético!Obrigada, amei!!

Felipi soares sousa disse...

Uma ótima história, parabéns pelo texto. Matou a minha curiosidade sobre o assunto. Mas assim vou buscar conhecer mais sobre este tema que me facina tanto.

Leandro Vilar disse...

Obrigado Felipi. Tenho que até que revisar esse texto e acrescentar algumas coisas. No entanto se você curte o tema, você já assistiu a série Marco Polo do Netflix? Caso não, recomendo vê-la, pois embora possua alguns problemas históricos, é uma boa série sobre os mongóis.

QUALITY ADMINISTRAÇÃO disse...

Texto incrivel...viajei por todos os lugares descritos, parabéns!