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Leandro Vilar

terça-feira, 19 de julho de 2011

A Revolução Francesa: Liberdade

"Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa". (HOBSBAWM, 2010, p. 97).

Para muitos historiadores de distintas vertentes os acontecimentos transcorridos durante os anos de 1789 à 1799, época que durou o governo revolucionário francês iniciado com a própria revolução em 14 de julho de 1789, perfaz um dos momentos de maior mudança da história moderna e da história do homem. Outras revoluções de grande porte e influência já haviam ocorrido anteriormente, anos e décadas antes, mas a Revolução Francesa foi a primeira a balançar os alicerces do mundo moderno. Algumas das revoluções que sucedem o ano de 1789, tiveram influência direta desta, e mesmo hoje, no século XXI, preceitos políticos, sociais, econômicos, judiciais e legais, possuem ou sofreram influência das reivindicações e das causas propostas na revolução. Não é a toa que o ano de 1789, marca na cronologia histórica o fim da Idade Moderna e o começo da Idade Contemporânea.

Neste artigo e nos dois seguintes, falarei a respeito das causas que levaram a eclosão deste movimento, das reivindicações propostas, quem foram seus líderes, seus ideais combatidos e defendidos, as influências sofridas e os influenciados. 

Antecedentes da Revolução

A independência dos Estados Unidos

O antecedentes da revolução se iniciam no governo do rei Luís XVI, o qual subiu ao trono em 1774, com apenas vinte anos de idade, substituindo a contra gosto, seu avô o rei Luís XV. Pelo fato de ser jovem e um tanto imaturo para as questões políticas e para a responsabilidade que lhe aguardava, já que o mesmo era o herdeiro direto do trono, Luís XVI o qual governou até 1791, se mostrou um rei de péssimas decisões, um homem não apto para a política e um governante fraco. Somando-se a essa sua debilitação como governante, estiveram os escândalos de sua esposa, a rainha Maria Antonieta. O governo de Luís XVI foi marcado por crises, escândalos, controvérsias e culminou com um fim trágico para a realeza.

Quando o jovem rei assumiu o trono, o país já vivenciava em 1774 problemas financeiros, deixados pelos gastos de seu avô com conflitos, arte, luxo, festas, e os fracassos em se estabilizar as finanças do Estado, algo que corroeu não apenas o país mas também a própria dignidade da corte. Os tempos de prosperidade e glória de Luís XIV, o Rei-Sol começavam a escurecer.  Assim, o jovem rei tivera que receber um Estado virtualmente desequilibrado economicamente e para piorar a situação, em 1776, eclodira na América do Norte a revolução das Treze Colônias Britânicas, que culminaria com a proclamação de independência dos Estados Unidos da América, em 4 de julho. 

Mas, antes que a independência fosse proclamada, as tropas inglesas do rei Jorge III tentavam impedir a separação de suas colônias da metrópole, e como os colonos não detinham uma grande força para combater a poderosa marinha inglesa, os franceses decidiram dar-lhes apoio. Assim, Luís XVI, esperançoso que os ingleses perdendo suas colônias ficariam arruinados, e ao mesmo tempo em que a França manteria acordos de paz e econômicos com a nova nação, investiu de forma dispendiosa enorme recursos para manter as tropas francesas e coloniais lutando contra os ingleses, até mesmo depois de ter a independência sido proclamada, os franceses ainda mantiveram o seu apoio.

Assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América em 4 de julho de 1776
A consequência foi que se o país já estava com problemas financeiros, os gastos com a guerra, elevaram as dívidas ainda mais e os credores passaram a pressionar o rei. Visivelmente a França caminhava para a bancarrota. 

O Antigo Regime

O Antigo Regime (Ancien Régime) desenvolveu-se na França do século XVI, como um legado do feudalismo e da Idade Média. Da França, o Antigo Regime expandiu-se para outros países da Europa Ocidental, e permanecendo em voga até o século XIX em alguns locais. Basicamente, o Antigo Regime foi um sistema político, social e econômico, o qual baseava-se na propriedade da terra, mantinha aspectos da servidão feudal e da cobrança de impostos deste tempo, mesmo a França sendo uma nação mercantilista, a importância da terra ainda era maior do que o comércio; possuía um governo baseado na monarquia centralizada, a qual ficara conhecida como absolutismo; definia uma estratificação da sociedade, no caso da França, a população dividia-se nos chamados Três Estados:
  1. Primeiro Estado: Formado pelo alto e baixo clero.
  2. Segundo Estado: Formado pela alta e pequena nobreza.
  3. Terceiro Estado: Formado pela burguesia, camponeses, artesãos, mercadores, funcionários públicos, militares de baixa patente e o restante da população.
Jacques Turgot
Por volta de 1789 a população da França era estimada entre 26 a 28 milhões de habitantes, sendo que cerca de 98% deste total faziam parte do chamado Terceiro Estado, o qual era o responsável pelo pagamento dos impostos, já que tanto o clero como a nobreza eram isentos de impostos. Em 1774, Luis XVI havia eleito o brilhante economista Jacques Turgot (1727-1781) para o cargo de ministro-geral das Finanças, contudo devido a seu pensamento liberal e iluminista, o clero e a nobreza se viram ameaçados de perderem certos privilégios; Turgot havia sugerido que tanto o clero como os nobres também pagassem impostos, e questões da posse da terra e tributárias fossem mudadas, porém isso não agradou o clero e os nobres, levando o rei a demiti-lo do cargo em 1776. 


"Turgot, o economista fisiocrata, lutou por uma exploração eficiente da terra, por um comércio e uma empresa livres, por uma administração eficiente e padronizada de um único território nacional homogêneo, pela abolição de todas restrições e desigualdades sociais que impediam o desenvolvimento dos recursos nacionais e por uma administração e taxação racionais e imparciais". (HOBSBAWM, 2010, p. 1010).

Jacques Necker
Ainda no ano de 1776, o rei elegera um substituto para Turgot, Clugny de Neits, o qual veio morrer pouco tempo depois de ter assumido o cargo de inspetor-geral das Finanças. Em seu lugar foi posto o economista e político suíço Jacques Necker (1732-1804). Necker como Turgot, compartilhava de ideias liberais e reformistas para o Estado, todavia, a diferença de seu governo para o de Turgot fora o fato de que este buscou realizar suas reformas de forma que não atacasse diretamente os interesses do clero e da nobreza. De fato, Necker conseguiu realizar algumas mudanças tributárias, além de estabilizar os gastos do Estado, conseguindo que durante o seu mandato de 1776-1781, a economia francesa se estabiliza-se e se recompô-se, mas para que isso ocorre-se, Necker acabou gerando muitos inimigos, onde alguns desejavam sua cabeça. Pelo fato de ter "atacado" algumas questões que envolvia as despesas da corte e do clero além de outros assuntos, então em 1781 o mesmo pediu demissão. Por mais, que deixa-se o cargo tendo inimigos nas elites, sua popularidade entre as classes baixas era enorme, e isso seria importante para o seu retorno ao governo em 1788.

Iluminismo

Se por um lado, os ministros das finanças de Luís XVI, como Turgot e Necker procuraram empregar uma política liberal e reformista, tais preceitos tinham base no pensamento iluminista ou ilustrado da época. O Século das Luzes, Iluminismo ou Ilustração foi o nome dado a um movimento ideológico e revolucionário que se iniciou em meados do século XVII e perdurou até o fim do século XVIII, abarcando distintos países europeus. O iluminismo visava à reformulação dos ideários políticos, culturais, sociológicos, artísticos, científicos, além de influenciar a crítica, o deísmo e a laicização da sociedade europeia no final do Antigo Regime. Os iluministas queriam através da razão e das ciências promoverem uma revolução intelectual na sociedade.

O pensamento ilustrado estaria tanto em voga antes e durante a revolução. No outro artigo conheceremos quem foram os principais representantes no meio político que seguiam estes preceitos, mas primeiro falarei um pouco de alguns filósofos que trouxeram importantes contribuições para o pensamento revolucionário politico que seria posto em prática na França pós-1789. 

John Locke
A Revolução Americana ou Guerra pela Independência, tivera como base o pensamento de filósofos iluministas, como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), mas principalmente o pensamento liberal do filósofo, médico e teórico político inglês John Locke (1632-1704). Locke ficou conhecido por suas ideais liberais, direito a propriedade, renúncia a autoridade divina dos reis, direitos civis, liberdade, dever como cidadão etc. O pensamento lockiano de certo modo era bem virtuoso para época, e no caso dos Estados Unidos, se encaixara perfeitamente, pelo fato de que a Inglaterra era uma monarquia parlamentarista, logo o rei não detinha total controle do Estado. Mas, tal fato não se empregava aos franceses, os quais há quase trezentos anos viviam sob o absolutismo. Assim, a aristocracia e os intelectuais do século XVIII se agarraram com os trabalhos dos filósofos como o suíço Rousseau e o francês Montesquieu (1689-1755), respectivamente autores de O Contrato Social (1762) e O Espirito da Leis (1748), ambas obras de grande importância politica e social para o século XVIII e ainda para os dias de hoje. No segundo artigo, voltarei a falar mais destas obras, já que ambas passaram a ser utilizadas na organização do governo revolucionário. 


"Os direitos naturais inalienáveis do individuo à vida, à liberdade e à propriedade constituem para Locke o cerne do estado civil e ele é considerado por isso o pai do individualismo liberal". (WEFFORT, 2000, p. 88).

"Locke influenciou ainda os filósofos iluministas franceses, principalmente Voltaire e Montesquieu e, através deles, a Grande Revolução de 1789 e a declaração de direitos do homem e do cidadão". (WEFFORT, 2000, p. 89).

Jean-Jacques Rousseau
Como Locke, Rousseau e Montesquieu compartilhavam a ideia de que o governo não era um direito divino dado aos reis, pelo contrário, os governantes não deveriam ser pessoas arrogantes, egocêntricas e tolas, eles deveriam ser pessoas benevolentes, firmes e racionais. A razão era o grande mote do ideal iluminista, era através desta que o mundo poderia se transformar, poderia progredir para melhor. Assim, governantes arrogantes não mereciam está no trono enquanto gozavam dos luxos e mordomias conseguidos através do suor e do esforço do restante da população que era oprimida por leis e impostos severos. 


"O que o homem perde pelo contrato social é sua liberdade natural e um direito ilimitado a tudo o que o seduz e que ele pode alcançar. O que com ele ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui". (ROUSSEAU, 2009, p. 38).

A partir de meados do século XVIII tais ideias liberais, reformistas, revolucionárias iriam ganhar mais adeptos entre a burguesia e a aristocracia francesa, tais obras seriam debatidas e lidas nas universidades, discutidas nas cafeterias, nas praças, nos clubes de leitura, etc. 

Além dos trabalhos de Locke, Rousseau, Montesquieu, outros filósofos como Voltaire (1694-1778), conhecido por suas críticas mordazes aos costumes da época, ao alto clero, a monarquia, a sociedade, ao absolutismo e Denis Diderot (1713-1784), organizador da Encyclopédie de 1750-1772 (uma das maiores enciclopédias da história) foram homens que tiveram seus trabalhos lidos e chegaram a constestar o Estado. 

No caso da Encyclopédie, Diderot e seus colaboradores reuniram trabalhos nos campos das ciências, história, política, filosofia, religião, etc. A Encyclopédie foi fundamental para a transmissão do ideal de história universal e da construção do conhecimento. Além destes, outro nomes importantes para a época foram, Condorcet, Condillac, Buffon, Lavoisier, Quesnay e Mirabeau, todos homens da nobreza, mas todos homens de pensamento iluminista e revolucionário. 


"O Iluminismo francês foi um movimento das elites letradas para as elites letradas. Tirante a eterna exceção de Rousseau, seus representantes mais influentes não acreditavam que o conhecimento das massas fosse possível ou desejável. A educação popular deveria se limitar ao minimo e a uma medida de instrução física, ocupacional e moral, pois o objetivo primário era promover a utilidade econômica e a estabilidade social - nada mais". (BLANNING, 1991, p. 32). 


Jean-Jacques Rousseau foi a principal exceção entre os filósofos iluministas pelo fato do mesmo não pertencer a nobreza. Rousseau saiu da Suíça e foi morar na França, mas viveu como um burguês. Os demais filósofos franceses como alguns já citados, eram nobres ou descendiam de nobres. Pode parecer estranho a própria nobreza lutar contra a nobreza, mas sempre houve dissidências entre os nobres franceses, principalmente entre a Corte em Versalhes e os nobres provinciais, os quais se sentiam relegados da esfera política.


"Na França, a criação de uma corte exclusiva por Luis XIV, a imposição da centralização e a expansão massiva do cargo venal enobrecedor haviam sobrecarregado a monarquia com uma nobreza demasiado numerosa, diversa e desintegrada. Adoecendo na penúria e obscuridade provinciais, a nobreza inferior abrigava um intenso ressentimento em relação aos magnatas na corte". (BLANNING, 1991, p. 21).


Todavia, além deste fato, devo ressaltar que grande parte da população era analfabeta e com baixa escolaridade, logo o acesso ao ensino superior como nas academias e universidades era algo reservado aos burgueses, nobres e clérigos. Assim, como será visto mais a frente, foram estes dissidentes de ambos os Três Estados que fundamentaram as ações e se mantiveram a frente do controle do governo com a queda do rei em 1789.


A Família Real

Rei Luís XVI da França
A realeza durante o reinado de Luís XVI (1774-1791), vivenciou os seus últimos dias de glória antes da queda, algo que só voltaria a ser visto com mudanças durante o governo de Napoleão I. Quando Luis XVI e Maria Antonieta se casaram em 1770, estes eram adolescentes com seus 16 e 14 anos. Luís era um jovem gordo, tímido, que gostava de caçar, gostava de marcenaria, de fabricar chaves e fechaduras como hobby; era um garoto sem vocação para a política e totalmente despreparado para assumir o trono apesar de contar com vinte anos na época (houve casos que monarcas assumiram o trono ainda como crianças ou mais jovens, contudo eram assessorados). Sua esposa era a arqueduquesa Maria Antonieta da Áustria, filha da imperatriz e do imperador da Áustria, na época o país pertencia ao Sacro Império Romano-Germânico, logo o seu pai Francisco I, era sacro imperador. Como era comum o arranjo de casamentos entre as monarquias europeias visando acordos políticos, a jovem e magricela Maria Antonieta, uma menina de cabelos louros e olhos azuis, sorriso simpático, extrovertida, casou-se com o delfim (título dado ao herdeiro do trono francês).


Rainha Maria Antonieta da França
Todavia, quando ambos se tornaram rei e rainha de França em 1774, a realidade da Corte começou a mudar. Se outrora o rei era um homem de extravagância, o novo rei não seria tão extravagante assim, mas a rainha o seria. Mas, antes de adentrar as críticas feitas pela sociedade à monarquia, há um fato que contribuiu tanto para o deboche dos monarcas entre a nobreza e o povo, a questão de um herdeiro. Os dois se casaram em 1770, contudo o primeiro filho, no caso uma menina de nome Maria Teresa Carlota, só veio a nascer oito anos depois de estarem casados, nesse tempo, houve uma forte pressão pelo herdeiro da França, já que era cobrado a rainha ter um filho logo depois de casar. Mas devido aos problemas de saúde de Luís (ele sofria de fimose, mas isso não foi noticiado publicamente) o que dificultava o ato sexual, começou a correr boatos que a rainha era estéril, ou que o rei não gostava de mulheres, tendo casado apenas de fachada.

Quando tais boatos chegaram aos jornais, manchetes eram lançadas dizendo: "o rei é tão impotente como governante, assim como homem". E mesmo depois que seus filhos começaram a nascer, havia boatos que estes eram filhos dos amantes de Maria Antonieta. Verdade ou não, os jornais principalmente da década de 1780 falavam de uma monarquia devassa e escandalosa. 


A rainha era conhecida por suas roupas e penteados extravagantes, gostava de festas, de dançar de beber, até mesmo chegou a pedir ao marido que fizesse uma fazenda para ela nas terras do palácio, para ali era se afastar da rotina da Corte e criar as crianças em meio a natureza. O rei ordenou que reformassem o Palácio Petit Trianon e fizesse a tal fazenda para a rainha. Além disso, os jornais atacavam os gastos da rainha, com roupas, jóias, passeios, viagens, sapatos, decoração, comida, festas etc. 


Luís XVI não foi um homem averso ao conhecimento ou ao Iluminismo, por outro lado, ele gostava da ideia de ter um povo inteligente e que isso pudesse levar ao progresso da França, assim como estava ocorrendo na Inglaterra, a qual já vivenciava sua Revolução Industrial. A única questão que incomodava o rei era a respeito das ideias liberais, republicanas, democráticas, etc. O rei estava determinado em não deixar o poder e não cogitava a criação de uma constituição e de um parlamento fixo. 


"Convencer Luís XVI a tomar uma decisão era bastante difícil convencê-lo a se manter nela era bem mais do que um desafio. O mais velho de seus dois irmãos, o conde de Provence, desdenhosamente escrevera a seu respeito: "A fraqueza de indecisão do rei são indescritíveis. Imagine bolas de marfim untadas que você tenta segurar juntas". (BLANNING, 1991, p. 42).


Burguesia


""A causa essencial da Revolução", escreveu Albert Soboul, "foi o poder de uma burguesia chegada à sua maturidade e confrontada por uma aristocracia decadente que se agarrava tenazmente aos seus privilégios"". (BLANNING, 1991, p. 14). 


Ao longo do século XVIII a burguesia francesa cresceu de tamanha forma, que chegou a confrontar a nobreza em questões de riqueza e influência, mas não apenas isso, parte da própria burguesia queria ser nobre, enquanto parte da nobreza comportava-se como burgueses. 


"Com tantos burgueses se comportando como nobres e tantos nobres procedendo como burgueses, é difícil encontrar uma evidência de conflito de classes entre eles. Na verdade é difícil até identificá-los como classe, quer adotemos uma definição marxista de classe baseada na função econômica e na consciência de classe, ou uma definição mais geral como a proposta por Marc Bloch, que escreveu que consideraria como da mesma classe aquelas pessoas 'cujos modos de vida fossem bastante similares e cujas circunstâncias materiais fossem próximas o bastante para não criar nenhum conflito de interesse". (BLANNING, 1991, p. 20). 


"A outra face da moeda era uma quantidade surpreendente de nobres capitalistas empreendedores e inovadores. A partir dos anos de 1770 principalmente, tornaram-se 'massivamente envolvidos' em companhias de comércio ultramarino e na indústria pesada". (BLANNING, 1991, p. 19). 


Tanto os burgueses como os nobres-burgueses queriam que reformas fossem efetuadas no país a fim de promover o crescimento comercial, a modernização da nação e a própria industrialização. Nesse caso, na França mal havia estradas de ferro, o transporte fluvial ainda era raro, por mais que o país possui-se rios navegáveis, não havia também, um banco nacional oficial ou bancos privados, os investimentos eram depositados em bancos estrangeiros; faltava uma modernização no setor financeiro e administrativo (letras de câmbio, títulos, créditos, taxas, ações, fundos etc), isso tudo debilitava o crescimento econômico e comercial do país, e os burgueses não estavam satisfeitos com um governante fraco e uma economia decadente.


A fome


Provavelmente o último grande fator desencadeador da revolução em 1789 foram os perjúrios da fome que acometeram a França entre os anos de 1787 a 1789, onde em ambos os três anos, invernos rigorosos destruíram as plantações, obrigando milhões de pessoas a passarem fome, já que o Estado não possuía reservas suficientes para alimentar as massas. 


Entre as décadas de 1760 e 1770 houvera na França, como também na Inglaterra e outras nações europeias problemas de abastecimento de comida, principalmente a respeito da colheita do trigo o qual era essencial para a fabricação de pão, o qual representava a base da alimentação da população europeia há alguns séculos;


"Os agricultores não podiam obter cereais em quantidade suficiente para alimentar grande número de animais e não tinham gado bastante para produzir o adubo capaz de fertilizar os campos e aumentar a colheita". (DARNTON, 1986, p. 42).


"Para a maioria dos camponeses, a vida na aldeia era uma luta pela sobrevivência, e sobrevivência significava manter-se acima da linha que separava os pobres dos indigentes. [...]. Assim, uma sucessão de más colheitas podia polarizar a aldeia, levando as famílias marginais à indigências, enquanto os ricos ficavam mais ricos". (DARNTON, 1986, p. 45).


Por mais que a França já vivencia-se uma economia embasada no mercantilismo, algo que fez enriquecer a burguesia, grande parte das finanças do Estado advinham da agricultura e dos impostos ligados a esta. Estima-se que pelo menos cerca de 70% a 80% da população francesa vive-se direta ou indiretamente do trabalho rural, logo uma os perjúrios da seca ou de invernos prolongados punham em risco toda a sustentação da população mais pobre, a qual era a maioria na nação.


"A maior parte da da agricultura francesa permanecia bloqueada no 'circulo infernal do pousio' (terra deixada em descanso = baixa produtividade = alta percentagem de aração = baixa percentagem de pastagens = pecuária insuficiente = adubo insuficiente = necessidade de descanso)". (BLENNING, 1991, p. 17).


O problema de falta de comida no ano de 1788 fora um dos motivos que levaram as autoridades do Terceiro Estado a pressionarem o rei pela convocação urgente dos Estados Gerais (uma espécie de parlamento primitivo). 

1789: Eclode a revolução


"O povo oprimido é como um leão acossado, quando não há mais saída, este explode em cólera".
Leandro Vilar

Os Estados Gerais


Em maio de 1789, devido aos problemas causados pela fome, financeiros, políticos, etc., o rei acabou sedendo as exigências do Terceiro Estado, convocou os Estados Gerais, os quais desde 1614, não eram convocados. A última vez que isso se deu foi ainda no reinado de Luís XIII, o Justo. Assim no dia 5 de maio estava previsto a realização dos Estados Gerais, onde contaria com a presença do rei e os representantes dos Três Estados. 

Os nobres provinciais, os quais representavam os resquícios dos senhores feudais foram todos convocados para a reunião, o alto clero (bispos, arcebispos, cardeais) também compareceram, e quanto ao Terceiro Estado, este foi representado pela aristocracia. Todavia, o rei foi bem claro que aquela reunião estava sendo feita para se tratar dos problemas tributários e financeiros, mas era claro que o Terceiro Estado, e os nobres liberais que pactuavam com estes, possuíam outros interesses, dentre os quais a cobrança por uma constituição, algo que inexistia no país.


Porém, quando após determinarem as questões a serem propostas, o rei decidiu que uma votação deveria ser realizada para se aprovar tais propostas, ele queria que cada "Estado" fosse representado como um voto, já que o número de deputados que representavam o Terceiro Estado eram superior aos do Primeiro e Segundo, logo ambos perderiam em número de votantes. O rei recusou a aceitar a proposta de voto individual do Terceiro Estado, já prevendo a eminente derrota que sofreria, e para piorar ele suspendeu a reunião. Em 15 de junho, representantes do Terceiro Estado invadiram uma quadra de péla (jogo parecido com o tênis) e realizaram um juramento para mudar as diretrizes do governo. Em 9 de julho, deputados do Terceiro Estado, da pequena nobreza e do baixo clero, se uniram e fundaram a Assembleia Nacional Constituinte, a qual teria grande importância para as diretrizes tomadas após 14 de julho. 


Juramento da Quadra de Péla em 15 de junho de 1789.
Para piorar a situação, o então Ministro das Finanças, Jacques Necker o qual havia reassumido o cargo ainda em 1788, havia sido demitido pelo rei. Luís XVI o demitiu em 11 de julho de 1789, após Necker recusa-se em aceitar as medidas tomadas pelo rei as suas concessões, as quais favoreciam o Terceiro Estado, dentre tais concessões estava a redução no preço do trigo, logo, do pão. O rei desaprovou a oposição do ministro e o demitiu, sua demissão seria a gota d'água para a revolução ocorrer. Necker era bem quisto pelas massas, já que o mesmo procurou ajudá-los, sua demissão fora uma apunhalada traiçoeira dada pelo rei ao seu povo.


A queda da Bastilha


Três dias depois da demissão de Jacques Necker, as notícias logo se espalharam por Paris e suas cercanias (a revolução eclodiu primeiro em Paris e depois se alastrou pelo país), membros mais radicais da Assembleia Nacional, de movimentos revolucionários, jornalistas, deputados, etc., inflaram pelas ruas o povo a se rebelar, estava na hora de agir. Na madrugada de 13 para 14, milícias de militares revoltosos se uniram com civis e começaram a levantar as massas para a rebelião, em 14 de julho, a movimentação pelas ruas da cidade era intensa (nessa época Paris não era a capital do país, a capital era Versalhes, a qual ficava acerca de 12 km ao sul da cidade). 

Grupos de milícias invadiram o Hotel dos Inválidos (local construído por Luís XIV para abrigar os militares inválidos), a invasão dera-se por causa das armas e de munição, porém apenas poucas armas foram encontradas e pouquíssima munição, o rei logo que soubesse da manifestação poria o exército nas ruas. O povo estava decidido a lutar e eram necessárias armas para isso. 


Munidos de algumas poucas armas de fogo, pedras, pedaços de pau, facas, forcados, lanças e tudo que pudesse ser utilizado como arma, homens e mulheres saíram as multidões pelas ruas parisienses em marcha à Bastilha.


Quadro retratando o ataque a Bastilha em 14 de julho de 1789.
A Bastilha era uma fortaleza medieval que a partir do século XVII, passou a ser utilizada como prisão, e nos tempos de Luís XVI era uma prisão principalmente para presos políticos. Em 14 de julho, havia apenas 7 presos, porém o povo marchou para a Bastilha não para simplesmente libertar sete presos, no local guardava-se munição e armas, e, além do mais, a Bastilha era vista como um símbolo da autoridade do rei, um símbolo que remetia a Idade Média e ao feudalismo. Devemos nos lembrar que alguns impostos feudais ainda eram cobrados e a servidão ainda existia de forma diferente da época feudal. Então, destruir a Bastilha era destruir este símbolo da autoridade monarca, era mostrar ao rei que o povo tinha força. 


A multidão cercou a prisão e forçou a entrada, o governador da Bastilha o marquês de Launay tentou negociar, mas após disparos serem dados, a população se rebelou. Civis e guardas foram mortos, porém os guardas sofreram o pior, foram espancados, decapitados, esfaqueados, etc; o próprio marquês fora surrado em meio a rua, então fora decapitado e sua cabeça espetada em uma lança para ser exibida. As bandeiras da Dinastia dos Bouborns foram rasgadas ou queimadas, então foram substituídas pelas cores da bandeira de Paris, azul e vermelho, acrescida com uma faixa branca ao centro, posteriormente tal bandeira se tornaria o símbolo da revolução e a bandeira nacional da França. 


A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix (1830), Museu do Louvre, Paris.
Os presos foram libertos, o local foi saqueado e posteriormente destruído, sendo reduzido a escombros. Os ecos da queda da Bastilha logo se espalharam pelo país, algo que ficou conhecido como o Grande Medo. O Grande Medo é como os historiadores designam a situação da França após a Queda da Bastilha até mais ou menos o ano de 1794, quando encerram-se os tumultos da República Jacobina e o chamado período de Terror. Quando a notícia da queda da Bastilha se espalhou pelo país e ao mesmo tempo a ideia de uma revolução, logo, camponeses de todas as províncias francesas começaram a pegar em armas, a invadirem castelos, palacetes, igrejas, etc., e começaram a saquear, destruir, queimar e matar os nobres e todos que se opusessem a eles. A nobreza rural começou a deixar o país e logo este medo chegou aos portões de Versalhes, onde a própria Corte temendo que a fúria do povo recaísse sobre eles, também decidiram fugir. 


"A grande diferença é que a Revolução Francesa, desde logo, apresentou-se não como a sucessora de um regime que desaparecia por morte natural, mas como a destruidora voluntária do regime antigo por morte violenta". (COMPARATO, 2008, p. 132).


Nos dias seguintes a noticia da revolução se espalhou pelas nações vizinhas, Inglaterra, Espanha, Prússia, Áustria, Suíça, Itália, Alemanha, etc. Nos meses seguintes, a noticia chegou a Ásia, norte da África e nas Américas. No caso do Brasil a Inconfidência Mineira realizada ainda no ano de 1789, ressoou com o alarde gerado em 14 julho em Paris. Nos anos seguintes, outras revoltas, manifestações, revoluções ainda no século XIX, faziam ressoar o barulho de 1789.  


A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão


"A Assembleia realizou uma obra imensa: Declaração dos Direitos do Homem (26 de agosto), elaboração de uma Constituição que previa uma monarquia acompanhada de uma assembleia única, eleita por sufrágio censitário; uma reforma completa na administração, na Justiça e nos impostos. Os bens do clero foram nacionalizados (2 de novembro)". (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, v. 20, p. 5036). 


A Declaração foi concebida com base na Declaração de Independência dos Estados Unidos e ao mesmo tempo, na Constituição Americana, datada de 1788, um ano antes da própria revolução eclodir. Não obstante, a Declaração visava garantir os direitos humanos e posteriormente os de cidadão, baseado no modelo burguês, já que a burguesia passou a ocupar o poder. Sendo assim,  alguns dos direitos que a Declaração resguardavam, eram: 
  • todos os homens são livres perante a lei;
  • todos os homens têm direito a liberdade, segurança e prosperidade;
  • direito de participação na política do Estado;
  • liberdade de expressão;
  • cobrança dos atos do governo;
  • responsabilidade perante o Estado;
  • direito a propriedade privada;
  • separação dos três poderes.
Nessa primeira versão da Declaração, já que a mesma seria reeditada mais três vezes até 1795, essencialmente ela assegurava a questão da liberdade entre os homens, liberdade esta respaldada pelo fato de ela abolir a servidão, e a cobrança dos impostos feudais. A igualdade se encontraria propriamente no fato de que todos os homens perante a lei são iguais, mas a Declaração não nega a desigualdade social adquirida pela riqueza, já que a mesma defende o direito a propriedade privada. 


"Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária". (HOBSBAWM, 2010, p. 106).


"Mesmo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o mais universalista e autoconsciente de todos os documentos revolucionários, declarava a propriedade privada como um direito natural e inalienável (um principio de pouca relevância à grande maioria dos franceses, que não possuía propriedade alguma e não dispunha de qualquer perspectiva nesse sentido). A abolição das barreiras alfandegárias internas, a abolição de monopólios comerciais privilegiados, a introdução de um sistema uniforme de peso e medidas, o método para a venda dos biens nationaux, a Lei Allarde (que abolia as guildas) e a Lei Chapelier (que declarava ilegais associações de trabalhadores) - tudo isso promovia os interesses burgueses". (BLANNING, 1991, pp. 56-57). 


A respeito da divisão dos três poderes, essa é uma concepção de Montesquieu, e quanto a questão do direito a propriedade, esta é uma concepção defendida por Locke. Já Rousseau preferia que os homens fossem livres por natureza, assim como eram, mas já que não podem retornar ao "estado selvagem", devem ser livres até onde as leis permitissem. 

A partir dos direitos defendidos na Declaração, estes posteriormente passariam a fazer parte da Constituição Francesa, elaborada ainda em 1789. Não obstante, passou-se a dirigir-se as pessoas como cidadão e cidadã, não mais como cortesão e cortesã. Todavia, a palavra cidadã não implicava em dizer que as mulheres possuíam direitos como os homens, esta igualdade ainda não existia. 

Com a formulação da Constituição, decretou-se o direito ao sufrágio, a formação de um parlamento, logo uma monarquia parlamentarista, mas tal ideia sofreria algumas reviravoltas sangrentas nos anos seguintes, devido ao fato de que parte dos revolucionários radicais queriam que se proclamasse uma república.

A prisão do rei

Entre 5 e 6 de outubro de 1789, a situação em Paris voltou a piorar, faltava pão nas padarias, logo não havia comida direito nos bairros mais pobres da cidade, isso levou uma multidão de mulheres, na maioria donas de casa, a protestarem pelas ruas, atrás de comida para suas famílias. O protesto foi se estendendo ao longo do dia, e como a Assembleia Nacional não agiu, decidiram cobrar satisfações com o rei, assim a turba de mulheres enraivecidas se uniu com homens que aderiram ao protesto, então todos marcharam até Versalhes.

Em Versalhes, os portões foram trancados e a população que estimasse que eram cerca de 10 a 20 mil pessoas, acampou ao redor das terras do palácio, aguardando a resposta do rei. Em 6 de outubro, Luís XVI, recusou o pedido da multidão, esta enfurecida, atacaram os guardas do portão, derrubaram o portão e invadiram o palácio. Guardas e funcionários foram assassinados, por pouco a rainha Maria Antonieta fora vitima do furor das donas de casa furiosas.  

No fim, o rei decidiu se render, então optaram por levar a família real para Paris, para ficar mais próximo do povo. Assim, num cortejo de milhares de pessoas, os monarcas foram levados em sua carruagem até Paris. As pessoas cantavam, dançavam, exibiam armas e as cabeças dos guardas nas pontas das lanças. Em Paris, os monarcas não foram destratados, passaram a residir no Palácio das Tulherias.

Palácio das Tulherias em Paris. Pintura do século XVII. O palácio fora destruído em um incêndio no século XIX
Um Estado Laico


Um dos ideais do Iluminismo era a separação entre o Estado e a Igreja, ou seja, o laicismo. Tal condição foi posta em prática em 1790, onde em agosto do dito ano, a Assembleia Nacional aprovou a Constituição Civil do Clero, a qual pronunciava reformas na burocracia da Igreja Católica em França, além de estabelecer que os padres, bispos, frades e outros funcionários eclesiásticos, seriam tratados como funcionários do governo, logo, deveriam prestar não apenas conta ao papado, mas também ao Estado. 

Outro ponto, diz respeito as propriedades da Igreja, onde algumas passaram a pertencer ao Estado, e além disso, alguns funcionários como padres e bispos, seriam eleitos por um júri civil para os cargos em paroquias, não sendo mais eleitos pela própria instituição. De fato o papa Pio VI foi contra tais medidas, mas nada pôde fazer para contrariá-las, tal tentativa poderia gerar maiores desavenças entre a França e o papado, algo que ocorreu com Portugal durante o reinado de D. José I e o governo de seu primeiro-ministro, o Marquês de Pombal, o qual devido a desentendimentos, em parte gerados pela Inquisição Portuguesa, o país cortou laços com o papado por alguns anos. 


Conspirações e um rei fugitivo


Oficialmente a França ainda era uma monarquia, porém esta era uma monarquia limitada, já que o rei não detinha a mesma autoridade de antes, e o país era governado de fato pela Assembleia Constituinte Nacional. Todavia, não significa que tudo estava bem no país. A família real e parte da Corte moravam no Palácio das Tulherias desde 1789, nesse meio tempo, a rainha Maria Antonieta, o próprio rei e outros membros da Corte mantiveram correspondências com as nações vizinhas, especialmente a Áustria, devido a rainha ser austríaca, e em parte com a Prússia. Tais correspondências fundamentavam tentativas de conspiração para a retomada do país, assim, cogitavam-se a possível fuga da família real para a Áustria, o os austríacos e prussianos haveriam de invadir a França par libertar o rei. 


De fato isso realmente veio a ocorrer, tropas prussianas invadiram o país em 1791, mas não tiveram exito em chegar até Paris. Contudo, o exército francês ficara bem debilitado, nem tanto por causa dos conflitos, mas pelas dissidências internas, parte das Forças Armadas, ainda eram leais ao rei e outra eram leais a Assembleia. Mas, de qualquer forma o plano da fuga fora executado e quase deu certo.


Em 20 de junho de 1791, com ajuda de membros da nobreza, do exército e dos funcionários do palácio, Luís XVI, Maria Antonieta e seus filhos e filhas, disfarçaram-se como criados, e deixaram o palácio em uma carroça, de lá eles deixaram Paris e seguiram para o norte, em direção a fronteira com a Áustria, onde eram aguardados por aliados. Na noite de 21 de junho o comboio disfarçado, havia percorrido grande parte do caminho e chegou na cidade de Varennes, contudo, os monarcas foram descobertos por civis, onde um dos homens disse ter reconhecido o rei. A família real ficou detida até ser conduzida de volta a Paris, por membros da Guarda Nacional e da Assembleia. 


Luís XVI e sua família são descobertos em Varennes em 21 de junho de 1791.
Em 25 de junho a comitiva que trazia os fugitivos chegou a Paris, uma multidão se aglomerou pelas ruas, gritando, xingando e jogando pedras na carruagem. O rei havia decretado oficialmente sua traição ao povo francês. O povo ainda continuou a seguir a carruagem, ameaçando de atacá-la e matar os monarcas, tal tentativa fora reprimida com violência, que gerou alguns feridos e mortes, onde o Marquês de Lafayette, ordenou que a Guarda Nacional atacasse a turba enfurecida. A própria Assembleia não queria que o rei morresse naquela momento, isso traria consequências ainda piores para o governo.

O retorno de  Varennes, Luis XVI é conduzido a Paris.
Após a fuga do rei e sua captura, a França tomaria um novo rumo, a Constituição seria aprovada e a república seria instaurada no ano seguinte, e uma nova fase de terror e complicações acometeriam o país.






NOTA: O dia 14 de julho, o qual marcou em 1789, a Queda da Bastilha, hoje é um importante feriado francês, chamado dentre alguns nomes como o Dia da Federação
NOTA 2: Os incidentes de 1789, inspiraram trechos do Hino Nacional da França.
NOTA 3: Luís XVI e Maria Antonieta tiveram duas filhas e dois filhos, com exceção de Maria Teresa Carlota a qual morreu aos 71 anos, os demais morreram ainda na infância. O próprio Luís XVII, morreu aos dez anos de idade em 1795.
NOTA 4: Maria Antonieta era tia-avó da imperatriz Maria Leopoldina de Habsurgo, primeira esposa de D. Pedro I do Brasil.  
NOTA 5: O filme Maria Antonieta (Marie Antoinette) de 2006, dirigido por Sofia Coppola, retrata a vida de Maria Antonieta desde seu casamento até o ano de 1789, tendo em foco a vida extravagante da rainha e da Corte. 
NOTA 6: No quadro A Liberdade guiando o Povo, o próprio pintor Delacroix se autorretratou como o homem à direita de chapéu e empunhando armas. 
NOTA 7: O filósofo iluminista Immanuel Kant (1724-1804), o qual vivia na pequena cidade de Konigsberg, na época Prússia, hoje Alemanha, era conhecido por ser um homem bem metódico, e todos os dias costumava sair a tarde para dá sua caminhada costumeira, contudo no dia em que soube que a revolução eclodira na França, ele não saiu de casa. O povo habituado em vê-lo todos os dias no mesmo horário, acharam isso estranho; Kant havia ficado em casa comemorando a revolução. Então as pessoas de Konigsberg sabiam que algo de muito importante havia ocorrido. 


Referências Bibliográficas:
HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. 25 ed, São Paulo, Paz e Terra, 2010. (Capitulo 3: A Revolução Francesa). 
BLANNING, T. C. W. Aristocratas versus Burgueses? A Revolução Francesa. São Paulo, Ática, 1991. 
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 6 ed, São Paulo, Saraiva, 2008. (Capitulo 5). 
WEFFORT, Francisco, C. (organizador). Os clássicos da politica - volume I. 13 ed, São Paulo, Ática, 2000.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Tradução de Paulo Neves, Porto Alegre, L&PM, 2009. 
WELLS, H. G. História Universal - volume 3. São Paulo, Editora Egéria S. A, 1966. (Capitulo XXXVI, pp. 296-308). 
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. v. 20, São Paulo, Nova Cultural, 1998. 


Links relacionados:
O Antigo Regime
Nos deem comida. O povo tem fome.
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Os princípios da natureza e das virtudes

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nostradamus

Nostradamus é uma das figuras mais curiosas da história, pelo simples fato de o mesmo ter sido um dos poucos profetas a ter credibilidade, renome, e ao mesmo tempo ter deixado um vasto trabalho escrito com suas profecias. Mas, quem fora realmente este homem? Será que todas suas profeciais de fato se realizaram? Por que cada vez mais, seu nome e suas profeciais são procuradas e analisadas, será mesmo que ele previu o fim dos tempos, como alguns dizem?

Vida e Obra

Michel de Nostradame ou mais conhecido como Miguel de Nostradamus, nasceu em 14 de dezembro de 1503 em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França. Filho de um notário, e neto de um ilustre farmacêutico e astrólogo, descedente de judeus da tribo de Issachar (filho de Jacó), conhecidos pelo dom da vidência, perpretou a Nostradamus, algo que ele dizia ser uma habilidade inata, herdada de seus antepassados, a vidência. Nostradamus era um de oito irmãos, todos cristãos, já que o seu avô havia se convertido ao catolicismo romano há algumas décadas, fato este que Nostradamus sempre carregou consigo, sendo um cristão devoto.

"Tinha corpo robusto, fronte grande, nariz direito, olhos cinzentos, olhar doce, mas rutilante, quando se zangava; rosto severo e risonho, barba longa; pensavam muito e falava pouco; dormia de 4 a 5 horas; louvava e amava a liberdade de linguagem; chistoso, mordaz, mas risonho; fervoroso no catolicismo; dizia que fora do catolicismo não há salvação; reprendia os que se afastavam dele, condenando suas doutrinas estranhas e dizendo que eles teriam mau fim; fazia orações e jejuns; dava esmolas, liberalmente, dizendo: "granjeai amigos com as riquezas da iniquidade" (S. Lucas 16-9)". (CRUZ, 1991, p. 101 apud Chavigny).

Aos 15 anos entrou na Universidade de Avignon, porém devido a um surto de peste negra, tivera que abandonar os estudos, e passou os anos seguintes viajando e trabalhando como farmacêutico. Nostradamus fora um aluno exemplar e aos 26 anos se doutorou em medicina pela Universidade de Montpellier. Como médico, passou os anos seguintes viajando pela França e Itália, convivendo algum tempo com o médico e filósofo Scaligero. Posteriormente passou a residir em Salon de Provence, onde conheceu sua futura esposa Adriette de Loubejac, os dois se casaram posteriormente e tiveram dois filhos. Porém a vida não seria fácil para Nostradamus, em 1545 ocorreu um novo surto da peste negra, Nostradamus e outros médicos foram convocados para ajudar, a peste se espalhou pela Provença, região sulista francesa. No fim, o próprio conseguiu sobreviver novamente, porém sua esposa e os dois filhos acabaram morrendo.

Após a morte da família, Nostradamus se retirou para o Mosteiro de Orval em Luxemburgo, onde passou a residir por algum tempo, convivendo com o trauma. Foi no mosteiro que ele começou a escrever suas primerias previsões.

Casa em que Nostradamus viveu
Posteriormente retornou para Salon de Provence, onde se casou com a viúva Ana Ponsarde, com quem tivera seis filhos, sendo o mais conhecido, César Nostradamus. Deste ponto em diante, continou a atuar como médico, a escrever suas profeciais, a atuar como astrológo e possivelmente também como alquimista. Em 1555 publicou sua primeira obra As Profeciais (Les Propheties), trabalho iniciado ainda em seu período de exílio no mosteiro de Orval. Após a publicação do livro, Nostradamus passou a sofrer insultos pelas ruas, até mesmo recebendo cartas com acusações e diflamações. Ele passou a ser chamado por alguns de louco, farsante, herege, bruxo; que tais profecias eram fruto do Diabo; que iriam entregá-lo a Inquisição, etc. Enfim, Nostradamus só não tivera um destino pior, pelo fato de passar a contar com o apoio de gente poderosa. Se por um lado, seu livro atraiu péssimas críticas, também atraiu o interesse de pessoas que realmente acreditavam que este homem detinha o dom da profecia, e uma destas pessoas fora a rainha de França, Catarina de Médicis (1519-1589), esposa de Henrique II (1519-1559). Nostradamus, fora convidado pela rainha até Paris, a fim de que o mesmo pudesse realizar alguma previsão sobre o futuro dos jovens príncipes, contudo, para temor da rainha, Nostradamus não conseguiu prever o futuro dos príncipes, mas possivelmente a morte do rei. Segue abaixo a previsão feita:

"O jovem leão conquistará o velho no campo da guerra por um curioso duelo: numa gaiola de ouro (máscara) os olhos vazará; duas dignidades contra uma, depois morrer, morte cruel". (previsão sobre a morte do rei Henrique II de França em 1559).

Henrique II, rei da França
Em 10 de julho de 1559, o rei contrariando os apelos de sua esposa decidiu participar de uma competição de justa (disputa onde se compete usando armadura, escudo e uma lança sem ponta, cavalgando em um cavalo, diante de uma mureta, indo de encontro ao adversário do outro lado da mureta), onde o rei que contava com seus quarenta anos, ostentava em seu escudo a heráldica de um leão (velho leão) confrontou o conde escocês Montgomery (jovem leão), o qual após o confronto, a lança de Montgomery partiu-se, e alguns fragmentos entraram pelo elmo dourado (gaiola de ouro) do rei, lhe furando um olho e parte da garganta. Henrique, veio a morrer dez dias depois de intensa agonia. De fato, Nostradamus se tornou famoso em vida com uma noticia ruim, ele havia previsto a morte do rei em 1555 e posteriormente em 1556 havia também previsto a cegueira de um dos olhos do rei e uma guerra civil, a qual de fato ocorrera. O rei faleceu em 1559, quatro anos depois de sua previsão. Nostradamus passou o restante da vida em Salon escrevendo suas profeciais. Deixando uma vasta obra, composta por: Carta a meu filho César Nostradamus; Carta a Henrique II, rei da França, ambas as escritas em prosa; As Centúrias ou As Profecias; Presságios e Predições. Em vida, o próprio organizou suas profecias em 12 volumes, que compreendem as Centúrias, mas após a sua morte, seu filho César dera continuidade ao trabalho do pai, já que os últimos três volumes das Centúrias foram publicações póstumas.

Próximo ao fim da sua vida, Nostradamus previu o dia e o local de sua morte, deixando o relato escrito no livro Presságios. Nostradamus se confessou com o Padre Vital, comungou, fez suas orações, escreveu seu testamento, para que finalmente viesse a morrer em 2 de julho de 1566, vitima do agravamento de gota em seu escritório, sozinho.

"De volta de uma embaixada (a Arles, a convite do rei Carlos IX), nada mais fará; irá para Deus; próximos parentes, amigos, irmãos de sangue, achá-lo-ão morto, perto do leito e do banco". (Nostradamus, sobre a sua morte). (CRUZ, 1991, p. 105).

Miguel de Nostradamus fora sepultado na igreja do Convento de Cordeliers. Anos depois, fora visitado pelos reis de França, Luís XIII, o Justo, Luís XIV ( o rei-sol) em companhia do Cardeal Mazarino, além de outros mais. Não obstante, além de ter previsto o dia de sua morte e o local, Nostradamus também escrevera o próprio epitáfio em latim, que diz o seguinte:

Epitáfio de Nostradamus
"Aqui estão os restos mortais do muito ilustre Miguel Nostradamus, o único, na opinião de todos os mortais, cuja pena quase divina, foi digna de escrever, segundo o movimento dos astros, os futuros acontecimentos, que se hão de dar no mundo inteiro. Viveu 62 anos, 6 meses e 17 dias. Morreu em Salon, no ano de 1566. Que a posteridade não pertube o seu repouso. Ana Pônsia, sua segunda mulher, deseja ao excelente esposo um eterno descanso". (Epitáfio de Nostradamus) (CRUZ, 1991, p. 102).

Em 1791, seu túmulo fora violado, e posteriormente seus restos mortais foram transferidos para a Capela da Virgem, na Igreja de Saint-Laurent em Salon, onde residem até hoje.
Profecias

No período que Nostradamus publicou suas profecias, milhares de mulheres e homens por toda a Europa tinham sido queimados na fogueira por crimes de bruxaria, todavia, pelo fato de Nostradamus ter sido um homem devotamente cristão comprovado, isso de certa forma assegurou sua integridade, fora, o fato de suas profecias se concretizarem como ele havia dito. Não obstante, Nostradamus pelo fato de ter sido um astrólogo e alquimista, conhecia o ocultismo e provavelmente a magia, questões consideradas como bruxaria pela Igreja. De fato, se Nostradamus utilizou alguma técnica deste gênero, o segredo morreu com ele. Ainda hoje alguns estudiosos se perguntam como ele concebia suas previsões: se era através de sonhos, ou ele ouvia vozes, ou era através de alucinações, visões, transes mentais, etc. De qualquer forma, Nostradamus deixou um legado de centenas de previsões, das quais muitas se realizaram, outras ainda estão por acontecer e outras não se concretizaram e a data para isso já passou. Todavia, estudar as profecias de Nostradamus é algo complicado, o seu livro mais famoso e que contêm a maioria das profeciais, as Centúrias, dividido em 12 volumes, fora escrito em quadras com versos de 10 a 12 sílabas, versos estes que em alguns casos são bem claros, em outros são formados por muitas metáforas e anagramas, levando a distintas interpretações, o que sugere que a possibilidade de que algumas profecias realmente ocorreram ou não ocorreram. Além disso, nem todas profecias foram determinadas cronologicamente, dificultando ainda mais suas interpretações.

Nostradamus dedicou muitas profecias que foram atribuídas a Napoleão Bonaparte, abaixo segue um resumo destas:

"A vida de Napoleão I é contada com minúncias, numa realidade flagrante (Centúrias: 1: 60; 7: 13; 8: 57; 4: 26; 4: 75; 10: 24; 5: 60; 2: 44; 1: 98). Diz que ele teria um nome feroz como o das 3 parcas. Napoléon vem de né Apollyon, que em grego significa: "Novo Exterminador" (Cent. 1: 76); que nunca um monarca francês teve este nome (4: 54); nasceria perto da Itália (na Córsega) 1; 60); de soldado (lepetit caporal), iria a Imperador; vexaria os padres como a esponja faz à água: de dólmam curto chegaria a ter manto imperial; que o manto em vez de ter flores-de-lis, teria abelhas, sem ninguém saber por quê; faria tremer a Inglaterra, a Itália e a Espanha; seria obrigado a sair da Rússia, e um general (foi Ney) protegeria a retirada, morrendo muitos na neve; seria cativo (em Elba) mas desembarcaria em Marselha (em 1 de março de 1815); haveria coligação contra ele e seria vencido (foi em Waterloo, 18 de junho de 1815; foram os 100 dias); que teria a cabeça com cabelo raso (foi, por isso, chamado le Petit Tondu = "o Pequeno Tosquiado"; desde Luis XIV os reis usaram cabeleiras postiças); que morreria numa ilha de 5000 habitantes, com língua e costumes estranhos, longe de seu céu, (morreu em Santa Helena, em maio, no dia 5, de 1821; tinha 51 anos, 8 meses e 21 dias). (Coincidência: os mesmo números da data: 5 1821). (CRUZ, 1991, p. 103).

Sobre Adolf Hitler, Nostradamus refere-se com anagramas, nesse caso o anagrama utilizado é Hister. Muitos acreditaram que pelo fato de ele se referir a um tal Hister, não deveria ser Hitler, por mais, que os nomes sejam parecidos, todavia isso gerou incredibilidade em relacionar tais profecias a pessoa de Adolf Hitler. Contudo, o nome Hister, não é um erro do nome Hitler, Hister era um dos antigos nomes por qual o rio Danúbio, era conhecido. Hitler nasceu na Áustria, em uma cidade próxima ao Danúbio. Mesmo assim, nas outras profecias ele refere-se a este homem nascido próximo do Danúbio pelo nome de Hister, e de fato realmente fora Hitler.

"Outras são tão dificeis (com simbolos, metáforas, perífrases, latinismos e até a sintaxe errada), que só quando se realiza o que elas dizem, é que se vê bem o sentido que encerram". (CRUZ, 1991, p. 104).

Em uma das profecias para o rei Luis XIV, Nostradamus dizia o seguinte:

"Quando o forcado for sustentado por dois paus,
Com seis meios corpos, e seis tesouras abertas:
O muito poderoso Senhor, herdeiro de sapos,
Então subjugará ao seu poder todo o Universo"
(Centúria X, CI)


A respeito da intepretação da quadra, alguns a interpretaram da seguinte forma:
O forcado:............................. V
Sustentado por dois paus:....... M
Seis meios corpos: ....... CCCCCC
Seis tesouras abertas: .. XXXXXX

Logo, chegou-se ao número MCCCCCCXXXXXX = 1660.
Quanto a referência a "herdeiro de sapos", os reis da Dinastia Merovingia, tinham como heráldica um sapo.

Só veio a descobrir-se que tal profecia referia-se a Luis XIV quando a mesma havia se realizado. Em 1660, o rei havia chegado ao auge de seu poder, conseguindo a chamada Paz dos Pirineus, além disso Nostradamus também previu que o próprio teria um reinado de paz por cerca de 57 anos, e tal periodo corresponde aos anos que vão de 1658 a 1715. A respeito de "Então subjugará ao seu poder todo o Universo", como é citado na quadra, Luis XIV dizia ser o "Rei-Sol", logo ele "iluminava" todo o mundo. O próprio, também chegou a se comparar ao deus grego Apolo.

Todavia, Nostradamus não previu acontecimentos relativos a monarcas ou a grandes líderes, ele também previu acontecimentos de desastres, de vitórias, uniões, derrotas, acordos e traições. Porém dois aspectos intigrantes podem advirem do estudo de suas profecias. Nostradamus, de acordo com suas profecias teria previsto a vinda dos três anticristos. Nesse caso, alguns estudiosos sugerem através da interpretação das Centúrias, que o primeiro anticristo fora Napoleão I, o segundo, Adolf Hitler, e o terceiro esta por se revelar neste século. Se pensarmos bem, Napoleão corresponde ao século XIX, Hitler ao XX, e finalmente o terceiro se mostrará no XXI, e para algumas vertentes, será a partir das ações do dito terceiro anticristo que o mundo caminhará para o Apocalipse.

Sobre a previsão do "fim dos tempos", pelo fato de Nostradamus não enumerar cronologicamente algumas de suas profecias, fica dificil de definir qual das profecias refere-se ao "fim dos tempos", e se ele realmente previu este acontecimento. 

NOTA: A respeito da polêmica data de 21 de dezembro de 2012, Nostradamus não deixa nada que indique que tal data será o Apocalipse. Pelo contrário, pelas análises feitas de suas profeciais, o "fim dos tempos" ainda estaria longe, embora que ele previu alguns acontecimentos menores para o ano de 2012. 

Referência Bibliográfica:
CRUZ, Sérgio Marques da (organizador). Profecias de Nostradamus: até outubro de 1999 ("Fim dos tempos"). 34a edição, São Paulo, Editora Pensamento, 1991.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Declaração de Independência dos Estados Unidos da América






Apresentação

A Declaração de Independência dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso Continental em 4 de Julho de 1776, tem estampada no seu texto o génio de Thomas Jefferson.

Um gênio, ao mesmo tempo literário e filosófico, que produziu um texto sem, aparentemente, artifícios literários, que se distinguem pelos seus elevados princípios morais, fácil dicção e cadência ritmada, conjugado a uma clareza e precisão de conceitos, que o tornam muito eficaz. Jefferson foi de fato um retórico brilhante, no sentido clássico do termo, interessado mais na transmissão de ideias do que na beleza da expressão. Esta característica era enriquecida pela sua confiança na razão, educação científica e gosto neoclássico.

A prosa utilitária de Jefferson vai direta ao assunto, nunca se desviando do seu propósito, mas de uma maneira agradável e imaginativa e com uma eloquência que lhe dá o charme e o poder que caracterizam todos os seus textos.
 
 
O texto, o mais elaborado de todos os escritos de Jefferson, conjuga uma linguagem clara, simples e direta com a elevação filosófica, acordando-se bem a um apelo solene à Razão da Humanidade. Do princípio ao fim da declaração, o ritmo compassado das palavras apresenta uma argumentação que ajudou à aceitação da causa da liberdade americana.
 
 
A Declaração de Independência tornou-se um texto intemporal em que é explicitada a filosofia dos direitos naturais do homem e da autodeterminação dos povos. O autor conjugou o constitucionalismo britânico com aos valores humanos fundamentais, apresentando a sua conclusão de uma forma facilmente compreensível. No célebre segundo parágrafo uniu numa frase uma cosmologia, uma teoria política e uma crença, ao afirmar que as verdades que declarava eram evidentes, indiscutíveis. De fato a ideia não era nova, vinha de John Locke, dos filósofos do Iluminismo e de dissidentes políticos britânicos, mas era a primeira vez que era tão claramente exposta, sendo que Jefferson considerava que sendo uma parte tão clara da opinião americana, ele só tinha tentado «apresentar à humanidade a evidência do assunto».
 
 
Os princípios de igualdade, dos direitos naturais do homem, da soberania do povo e do direito de revolta da população, deram à Revolução Americana uma ideia de superioridade moral que se conjugou com uma teoria do governo em liberdade. De fato, era a primeira vez que na criação de um novo país se defendia que eram os direitos dos povos, e não os dos dirigentes, que estavam na origem da fundação de uma nova nação.


Declaração


Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo dissolver os laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno para com as opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação.
 
 
Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. A história do atual Rei da Grã-Bretanha compõe-se de repetidas injúrias e usurpações, tendo todos por objetivo direto o estabelecimento da tirania absoluta sobre estes Estados. Para prová-lo, permitam-nos submeter os fatos a um mundo cândido.
 
 
Recusou assentimento a leis das mais salutares e necessárias ao bem público.

Proibiu aos governadores a promulgação de leis de importância imediata e urgente, a menos que a aplicação fosse suspensa até que se obtivesse o seu assentimento, e, uma vez suspensas, deixou inteiramente de dispensar-lhes atenção.
 
 
Recusou promulgar outras leis para o bem-estar de grandes distritos de povo, a menos que abandonassem o direito de representação no legislativo, direito inestimável para eles e temível apenas para os tiranos.
 
 
Convocou os corpos legislativos a lugares não usuais, sem conforto e distantes dos locais em que se encontram os arquivos públicos, com o único fito de arrancar-lhes, pela fadiga, o assentimento às medidas que lhe conviessem.

Dissolveu Câmaras de Representantes repetidamente porque se opunham com máscula firmeza às invasões dos direitos do povo.

Recusou por muito tempo, depois de tais dissoluções, fazer com que outros fossem eleitos; em virtude do que os poderes legislativos incapazes de aniquilação voltaram ao povo em geral para que os exercesse; ficando durante esse tempo o Estado exposto a todos os perigos de invasão externa ou convulsão interna.
 
 
Procurou impedir o povoamento destes estados, obstruindo para esse fim as leis de naturalização de estrangeiros, recusando promulgar outras que animassem as migrações para cá e complicando as condições para novas apropriações de terras.
 
 
Dificultou a administração da justiça pela recusa de assentimento a leis que estabeleciam poderes judiciários.
 
 
Tornou os juízes dependentes apenas da vontade dele para gozo do cargo e valor e pagamento dos respectivos salários.
 
 
Criou uma multidão de novos cargos e para eles enviou enxames de funcionários para perseguir o povo e devorar-nos a substância.
Manteve entre nós, em tempo de paz, exércitos permanentes sem o consentimento dos nossos corpos legislativos.
 
 
Tentou tornar o militar independente do poder civil e a ele superior.
 
 
Combinou com outros sujeitar-nos a uma jurisdição estranha à nossa Constituição e não reconhecida pelas nossas leis, dando assentimento aos seus actos de pretensa legislação:
 
 
para aquartelar grandes corpos de tropas entre nós;
 
 
para protegê-las por meio de julgamentos simulados, de punição por assassinatos que viessem a cometer contra os habitantes destes estados;
 
 
para fazer cessar o nosso comércio com todas as partes do mundo;

por lançar impostos sem nosso consentimento;
 
 
por privar-nos, em muitos casos, dos benefícios do julgamento pelo júri;
 
 
por transportar-nos por mar para julgamento por pretensas ofensas;
 
 
por abolir o sistema livre de leis inglesas em província vizinha, aí estabelecendo governo arbitrário e ampliando-lhe os limites, de sorte a torná-lo, de imediato, exemplo e instrumento apropriado para a introdução do mesmo domínio absoluto nestas colônias;
 
 
por tirar-nos nossas cartas, abolindo as nossas leis mais valiosas e alterando fundamentalmente a forma do nosso governo;
 
 
por suspender os nossos corpos legislativos, declarando-se investido do poder de legislar para nós em todos e quaisquer casos.
 
 
Abdicou do governo aqui por declarar-nos fora de sua proteção e fazendo-nos guerra.
 
 
Saqueou os nossos mares, devastou as nossas costas, incendiou as nossas cidades e destruiu a vida do nosso povo.
 
 
Está, agora mesmo, a transportar grandes exércitos de mercenários estrangeiros para completar a obra de morte, desolação e tirania, já iniciada em circunstâncias de crueldade e perfídia raramente igualadas nas idades mais bárbaras e totalmente indignas do chefe de uma nação civilizada.
 
 
Obrigou os nossos concidadãos aprisionados no mar alto a tomarem armas contra a própria pátria, para que se tornassem algozes dos amigos e irmãos ou para que caíssem em suas mãos.
 
 
Provocou insurreições internas entre nós e procurou trazer contra os habitantes das fronteiras os índios selvagens e impiedosos, cuja regra sabida de guerra é a destruição sem distinção de idade, sexo e condições.

Em cada fase dessas opressões solicitamos reparação nos termos mais humildes; responderam a nossas petições apenas com repetido agravo. Um príncipe cujo carácter se assinala deste modo por todos os atos capazes de definir um tirano não está em condições de governar um povo livre.
 
 
Tão-pouco deixamos de chamar a atenção de nossos irmãos britânicos. De tempos em tempos, os advertimos sobre as tentativas do Legislativo deles de estender sobre nós uma jurisdição insustentável. Lembramos-lhes das circunstâncias de nossa migração e estabelecimento aqui. Apelamos para a justiça natural e para a magnanimidade, e conjuramo-los, pelos laços de nosso parentesco comum, a repudiarem essas usurpações que interromperiam, inevitavelmente, nossas ligações e a nossa correspondência. Permaneceram também surdos à voz da justiça e da consanguinidade. Temos, portanto de aceitar a necessidade de denunciar nossa separação e considerá-los, como consideramos o restante dos homens, inimigos na guerra e amigos na paz.

Nós, por conseguinte, representantes dos ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, reunidos em CONGRESSO GERAL, apelando para o Juiz Supremo do mundo pela retidão das nossas intenções, em nome e por autoridade do bom povo destas colônias, publicamos e declaramos solenemente: que estas colônias unidas são e de direito têm de ser ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES; que estão desobrigados de qualquer vassalagem para com a Coroa Britânica, e que todo vínculo político entre elas e a Grã-Bretanha está e deve ficar totalmente dissolvido; e que, como ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES, têm inteiro poder para declarar a guerra, concluir a paz, contrair alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que têm direito os estados independentes. E em apoio desta declaração, plenos de firme confiança na proteção da Divina Providência, empenhamos mutuamente nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra.

John Hancock.

GEORGIA Button Gwinnett, Lyman Hall, Geo. Walton.
CAROLINA DO NORTE Wm. Hooper, Joseph Hewes, John Penn
CAROLINA DO SUL Edward Rutledge, Thos Heyward, junr., Thomas Lynch, junr., Arthur Middleton
MARYLAND Samuel Chase, Wm. Paca, Thos. Stone, Charles Carroll, of Carrollton
VIRGINIA George Wythe, Richard Henry Lee, Ths. Jefferson, Benja. Harrison, Thos. Nelson, jr., Francis Lightfoot Lee, Carter Braxton
PENNSYLVANIA Robt. Morris, Benjamin Rush, Benja. Franklin, John Morton, Geo. Clymer, Jas. Smith, Geo. Taylor, James Wilson, Geo. Ross
DELAWARE Caesar Rodney, Geo. Read
NOVA IORQUE Wm. Floyd, Phil. Livingston, Frank Lewis, Lewis Morris
NOVA JERSEY Richd. Stockton, Jno. Witherspoon, Fras. Hopkinson, John Hart, Abra. Clark
NOVO HAMPSHIRE Josiah Bartlett, Wm. Whipple, Matthew Thornton
BAÍA DE MASSACHUSETTS Saml. Adams, John Adams, Robt. Treat Paine, Elbridge Gerry
RHODE-ISLAND E PROVIDENCE C. Step. Hopkins, William Ellery
CONNECTICUT Roger Sherman, Saml. Huntington, Wm. Williams, Oliver Wolcott


NOTA: A Declaração tem como uma das fontes de base, a Declaração de Direitos de Virgínia, decretada em 12 de junho de 1776.
NOTA 2: Com o decreto da Declaração, as Treze Colônias Britânicas, tornaram-se os Estados Unidos da América, a primeira nação independente das Américas e a primeira república moderna.
NOTA 3: John Hancock (1736-1793) era na época, Presidente do Segundo Congresso Continental o qual aprovou a Declaração.
NOTA 4: Thomas Jefferson (1743-1826) fora um dos principais redatores da Declaração e um dos mais influentes "Pais Fundadores". Tornou-se o terceiro presidente da república, governando de 1801-1809.
NOTA 5: A Declaração sofreu forte influência de preceitos iluministas, principalmente do filósofo suiço Jean-Jacques Rousseau, autor do Contrato Social.