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Leandro Vilar

domingo, 27 de março de 2011

Fábrica, aço e vapor: A Revolução Industrial

A Revolução Industrial foi um marco na história humana, ela fez romper a barreira que prevalecia em nosso desenvolvimento econômico, tecnológico e científico e deu aos homens a visão do progresso, de um futuro melhor. Bem... Era assim que as pessoas dos fins do século XVIII e idos do XIX viam em parte os benefícios gerados pela Revolução Industrial. Todavia algumas pessoas, apontaram naquela época que a revolução não "libertara" o homem como pretendia uma de suas propostas, mas pelo contrário, ela acentuou a exploração humana, assim dizia Karl Marx.

Hoje em dia, é comum nos livros didáticos apresentar uma divisão da Revolução Industrial, uma divisão em fases, na qual diz que a primeira fase que vai mais ou menos de 1780-1880, diz respeito a época do carvão, do vapor e da ferrovia; a segunda fase já emprega a energia elétrica, o petróleo e o motor a explosão; e a terceira fase trata da energia nuclear. E há quem diga, que já podemos falar de uma quarta fase, na qual impera a informática e a robótica.

Contudo, antes de chegarmos aos problemas e dilemas apontados por Marx, já em meados do século XIX, devemos retornar no tempo até os fins do século XVIII quando a revolução teve início na Inglaterra, mas antes de começarmos a falar da revolução devemos compreender alguns motivos que levaram a sua origem ou talvez não. Como apontara o historiador britânico Eric J. Hobsbawm, "as origens da Revolução Industrial Inglesa ainda são incertas". Mesmo assim, trilharemos alguns fatos de suma importância para estas origens.

Antecedentes da revolução:

A Grã-Bretanha em meados do século XVIII já era uma potência mundial, um império ultramarino, nesse tempo as ideias políticas de um liberalismo econômico, do investimento na exportação de produtos para suas colônias e as nações vizinhas, geravam um lucro para os banqueiros e os comerciantes, mas antes de chegarmos a estes frutos deste período, a Inglaterra por muito tempo como tantas outras nações viveu basicamente da terra. A agricultura perfazia a sustentação desta nação, fato este que antes dos meados do século XVIII, em algumas regiões do reino, cerca de 80% da população ainda vivia no campo, um número que não se distanciava de outros países, como França, Espanha e Rússia.


"A maioria dos habitantes da Inglaterra do século XVIII vivia em áreas rurais, embora as cidades já começassem a expandir-se. Em 1695, uma vez mais seguindo Gregory King, cerca de um quarto da população da Inglaterra e do País de Gales habitava as cidades e vilas onde havia mercados, mas a maioria destas últimas nada mais era do que burgos populosos. Além de Londres (com aproximadamente meio milhão de habitantes), havia somente três cidades na Inglaterra com mais de 10.000 habitantes, Norwich, Bristol e Birmingham. [...]. Apenas um em cada cinco ingleses viviam em cidades". (DEANE, 1973, p. 19-20).


Mas, fora a partir deste longo processo que culminou no desenvolvimento agrícola, no que alguns historiadores costumam de chamar de "revolução agrícola inglesa" que gerou um aumento da produção alimentícia, que implicou no aumento do comércio, exportando o excedente, e a disponibilidade demais comida para se alimentar mais bocas, logo as pessoas passaram a ter mais filhos para ajudar no trabalho no campo, assim a população começou a aumentar. Um fato interessante que corrobora esta questão é que nos fins do século XVII e nos idos do XVIII o preço dos cereais eram bem mais elevado do que a partir de meados do século XVIII, onde o preço da comida decaiu e os salários aumentaram razoavelmente.


"Todo mundo sabe que a expetacular revolução industrial não teria sido possível sem a revolução agrícola que a precedeu: e o que foi a revolução agrícola? Baseou-se principalmente na introdução do nabo. O humilde nabo tornou possível uma mudança na rotação de culturas que não exigia muito capital, mas que acarretou um aumento considerável na produtividade agrícola. Em decorrência disso, podia-se cultivar muito mais alimento com muito menos força de trabalho. A força de trabalho foi dispensada em favor da acumulação de capital". (DEANE, 1973, p. 53, apud NURKSE, 1953, p. 52).


Não obstante, há alguns historiadores que ainda questionam se a implantação do cultivo de nabos, acarretou tais mudanças na produção de alimentos.


"No século XVIII, a população aumenta na Inglaterra tal como aumenta em toda a Europa: 5.835.000 habitantes em 1700; um pouco mais de 6 milhões em 1730; 6.665.000 em 1760. Depois, o movimento acelera-se: 8.216.000 em 1790; 12 milhões em 1820; quase 18 milhões em 1850". (BRAUDEL, 1996, p. 524). 

Mesmo com as epidemias e as crises de fome que marcaram a Europa do século XVIII, a população não caiu de forma drástica como fora vista em períodos anteriores, alguns dos motivos apontados foram: a queda do nível de mortalidade infantil, da mortalidade durante o parto, e a falta de grandes conflitos armados, que são uma das principais formas de diminuição em massa de uma população. Todavia ainda existem lacunas a respeito dos motivos que levaram a este surto populacional, já que em alguns períodos houveram crises de fome, epidemias de cólera e varíola, além do mais, as cidades eram imundas, isso contribuía para surtos epidêmicos como cólera, varíola, peste negra, catapora, tuberculose, infecções, etc. 


Assim, a Grã-Bretanha mesmo com estas dúvidas acerca de como sua população cresceu, dispunha de uma mão-de-obra que crescia, uma produção agrícola que crescia com seus limites da época (devemos nos lembrar que o transporte naquele período ainda era arcaico), e a manufatura também se desenvolvia. O número de artesãos que formavam guildas (corporações de mercadores, de artesãos, etc) no século XVIII cresceu devido ao aumento do comércio, isso fora um ponto para a revolução posteriormente, já que existia um mercado consumidor amplo. E tal mercado se destacava principalmente com o comércio de tecidos, em especial a e o algodão (sendo este advindo das colônias inglesas, especialmente durante o século XVIII, o algodão vinha da Índia, depois passou a vir dos Estados Unidos e do Brasil).

"Mais decisivo ainda parece ter sido o papel do mercado interno. Na Inglaterra o esquema é conhecido nas suas grandes linhas. Um mercado potencial encontra, nela, existência desde o início do século XVIII, sem alfândegas internas nem pedágios como na França ou nos Estados alemães. O crescimento da população, a melhor repartição das riquezas e o crescimento da renda 'per capita' provenientes das inovações da agricultura e do comércio, criam os consumidores potenciais, reunidos agora nas cidades em expansão rápida". (RIOUX, 1975, p. 39).

Neste ponto, podemos ver como fora importante a ampliação do comércio inglês com outras nações, como forma de não apenas atrair o capital, mas incentivar o aumento da produção. Fato este que repercutiu com o decreto da Lei dos Cercamentos de Terras, onde devido ao crescimento da produção de lã, os grandes fazendeiros forçaram o Estado a aprovar tal lei (devemos nos lembrar que muitos dos parlamentares, advinham de ricas famílias, que possuíam muitas terras), logo os pequenos proprietários tinham apenas duas escolhas a fazer: ou aceitavam a dá suas terras aos grandes fazendeiros (farmers no original  e continuarem a morar naquele local, mas passando a trabalhar para aquele senhor, ou vendiam suas terras e iam embora, e na maioria das vezes estes partiam para as cidades, já que não conseguiam comprar outras terras com o pouco dinheiro que conseguiam com a venda de suas próprias terras. Tal fato gerou um êxodo rural, e milhares de pessoas migraram para as cidades, especialmente a região da capital Londres, em busca de emprego. Os pequenos proprietários que ali chegavam com suas famílias que continham uma prole com média de cinco a sete filhos, estavam desesperados por emprego e acabavam se sujeitando a morarem em locais degradantes, pois não tinham dinheiro para pagar alugueis mais caros ou comprar uma casa.  


"O êxodo para fora da agricultura passa de cerca de 25 mil por década entre 1751 e 1780 a 78 mil para a década de 1781-1790, 138 mil em 1801-1810, 214 mil em 1811-1820 e 267 mil em 1821-1839; ele fica sensivelmente mais moderado neste período". (BEAUD, 2005, p. 144).


FONTE: História do Capitalismo, Michel Beaud, p. 145.

"Assim, o setor da oferta, a agricultura modernizada seria um requisito prévio indispensável  disponibilidades alimentares causando a revolução demográfica, mão-de-obra posta à disposição da indústria, capitais acumulados aplicados no circuito produtivo novo, quase tudo dependeria dela". (RIOUX, 1975, p. 28).

Nesse ponto já temos quase tudo para se iniciar a construção das fábricas e por os operários para trabalhar. Já existe uma mão-de-obra abundante, disponibilidade de alimentos, uma produção manufatureira razoável, capital que pode ser aplicado, mesmo em baixa quantidade. Já que os bancos nessa época não conseguiam aplicar o capital agrícola em outro meio, isso só veio mudar com a criação do Banco Central. Mas, de qualquer forma a iniciativa fabril partiu do investimento de particulares e não do governo. Isso só viria ocorrer no século seguinte, e em outros países como a França e os Estados alemães, onde o próprio governo daria subsídios para a construção de fábricas.


Ainda continuando com os antecedentes, o historiador francês Fernand Braudel a partir do trabalho de John U. Nef, publicado na década de 30 do século XX, apontara que um dos motivos que contribuiu para o surgimento das fábricas e do crescimento industrial, fora a demanda por carvão. Nuf conta que no século XVI as florestas britânicas haviam diminuído drasticamente, e o carvão de madeira ou lenha, havia se tornado mais caro, a solução para se evitar um aumento dos preços e o aumento do desmatamento, veio a partir do carvão mineral, ou seja as minas de carvão. 

"A Inglaterra dedica-se então (contrariamente aos Países Baixos ou à França) a uma vastíssima exploração do carvão a partir da bacia de Newcastle e de numerosas jazidas locais. As minas, onde camponeses trabalham em tempo parcial e só na superfície, passam então ao trabalho contínuo; os poços penetram até 40 e 100 m de profundidade. A produção, de 35.000 toneladas, atinge as 200.000 no princípio do século XVIII". (BRAUDEL, 1996, p. 513).

A importância do carvão fora evidente, pois algumas das máquinas a vapor que surgirão no século XVIII partiram de ideias para o uso na mineração de carvão. Além disso, Braudel e Nuf lembram, que já no século XVII, as pequenas fábricas de tijolos, vidro, alúmen, etc., já usavam fornos a carvão, pois além de ser mais barato na época, sua combustão era mais duradoura do que a da madeira. 

Aumentando a produção


"[...] talvez a maior parte - das atividades econômicas e manufatureiras da Grã-Bretanha era rural, sendo o trabalhador típico uma espécie de artesão de aldeia ou pequeno proprietário que trabalhava em casa, especializando-se cada vez mais na manufatura de algum produto - principalmente tecidos, vestuários e uma grande variedade de artigos de metal -, e assim, gradualmente, deixando de ser um pequeno camponês ou artesão para se transformar em trabalhador assalariado". (HOBSBAWM, 1986, p. 28-29).

Pintura retratando as fumacentas fábricas dos primórdios da Revolução Industrial na Inglaterra.
Será a partir do crescimento desta "indústria doméstica" como assinalava Hobsbawm, que daria-se um surto para o desenvolvimento das fábricas. Como fora visto anteriormente, um longo processo marcou a formação das bases para a revolução industrial, tornando a Inglaterra a primeira nação a poder se industrializar no mundo, e grande parte disso adveio do comércio. Hobsbawm dizia que antes dos ingleses serem industriais eles eram acima de tudo comerciantes, fora a partir do comércio interno e externo que o setor manufatureiro e os setores alimentícios e de produção de matéria-prima aumentaram sua produtividade.

"Aos poucos, as aldeias em que os homens passavam seu tempo livre tecendo ou fazendo trabalhos de mineração, começaram a se transformar em vilas industriais de tecelões ou mineiros em tempo integral, e por fim algumas - mas não todas, decerto - converteram-se em cidades industriais". (HOBSBAWM, 1986, p. 29).

FONTE: História do Capitalismo, Michel Beaud, p. 141.

Logo uma rede comercial cruzou o país, regiões mineradoras como Newcastle, conhecida por suas minas de carvão, começaram a ganhar uma leva cada vez maior de emigrantes em busca de emprego, aproveitando que os fornos industriais se abasteciam do carvão, também não tardou para que após a década de 1760, quando passou-se a efetivamente empregar-se máquinas a vapor em distintas atividades, as quais necessitavam do carvão como fonte de energia. Quanto ao ferro, este curiosamente não era abundante na Inglaterra, a extração do minério de ferro e sua produção realmente alcançou níveis altos efetivamente no século XIX, quando passara-se a utilizá-lo em maior quantidade, e a investir na fabricação de aço, para utilizá-lo na fabricação de maquinário pesado: navios, estradas de ferro e as locomotivas. Até os fins do XVIII o aço era pouco utilizado, por ser um material muito caro.


Braudel [1996] comenta acerca desta questão do uso do ferro na Revolução Industrial. Geralmente pensamos que com o despontar da revolução, o ferro passou de uma hora para outra a se tornar um material amplamente utilizado para se construir as máquinas, entretanto, como Hobsbawm, Braudel e outros lembram bem, o ferro não se tornou um produto de grande consumo pelo menos nos trinta primeiros anos da revolução. A metalurgia do século XVIII até pelo menos 1780, estava restrita a produção de ferramentas, pregos, parafusos, porcas, barras de ferro, armas, etc. 

O emprego de ferro na confecção de máquinas e de outras estruturas só começaria a se intensificar no final do século, fato este que Braudel salienta que em alguns lugares da Inglaterra, alguns aparelhos e máquinas eram construídos com madeira e não ferro, pois o ferro ainda era um produto caro. Tal fato repercute, quando o mesmo dissera que as máquinas que surgiram durante este período, eram pouquíssimas utilizadas, pois eram caras, e nem toda fábrica dispunha de condições de utilizá-las. Até mesmo as máquinas usadas na indústria têxtil, eram feitas de madeira e não de ferro. 

Mas, se por um lado, regiões que se fundamentavam basicamente no setor mineiro, não tinham espaço para cuidar de outras necessidades, logo nestas regiões começaram a surgir vilas operárias, onde fábricas de tecidos fabricavam as roupas dos mineradores, e ao mesmo tempo, também começou a surgir fazendas que forneciam alimentos para abastecer estas áreas. Além disso, outros estabelecimentos urbanos começaram a se estabelecer nessas áreas: armazéns, casas, lojas, tavernas, prostíbulos, etc.

"Assim, a grande vantagem do mercado interno pré-industrial era sua dimensão e sua constância. Talvez não haja contribuído muito no sentido de uma revolução industrial, mas sem dúvida favoreceu o crescimento econômico". (HOBSBAWM, 1986, p. 45).

Dessa forma, as cidades pequenas como Manchester que contava com cerca de 15 a 20 mil habitantes nos fins do século XVIII, passou a contar com uma população de 180 mil habitantes em meados do século XIX. Como Hobsbawm sugerira, a revolução não se deflagrou apenas como uma questão econômica, mas uma questão de necessidade.

Com isso, já entre as décadas de 1780, nota-se o crescimento constante de fábricas e indústrias pelo país. Vizinhos como a Holanda, Bélgica, França e os Estados Alemães, só começariam a se industrializar em meados do século XIX, até lá haveria apenas um pequeno setor fabril em determinadas localidades de cada nação. A França poderia ter-se industrializado logo em seguida a Inglaterra, mas devido a crise econômica que o país sofria sob o fraco governo do rei Luís XVI, tal desenvolvimento ficou estagnado, e nem mesmo as mudanças governamentais geradas pela Revolução Francesa (1789-1799) conseguiram reestruturar o país, e após isso, veio o império de Napoleão I (1806-1815), que também não conseguiu reestruturar o setor fabril e por de vez a França nos eixos da industrialização.


O trabalho fabril

A primeira grande indústria inglesa fora a indústria têxtil. A Inglaterra nos fins do século XVIII, possuía a maior indústria têxtil do mundo, o país produzia tecidos, vestuários e outros produtos a base de lã, seda, linho, mas principalmente em algodão. O setor têxtil como aponta alguns relatos de época, gerava trabalho para pelo menos um milhão de pessoas, de forma direta e indireta. Devemos nos lembrar que nessa época, tanto homens, mulheres e crianças trabalhavam nas fábricas em rotinas esgotantes de até 14 a 16 horas por dia, no caso dos homens. Já as mulheres e crianças trabalhavam menos horas, mesmo assim era um trabalho desgastante.

"Assim, no têxtil, as duas grandes operações são a fiação e a tecelagem. Um tear de tecelão exigia, no século XVII, para sua alimentação contínua, o produto de sete ou oito fiandeiros, ou melhor, fiandeiras. Logicamente, era para a fiação, a operação que requer mais mão-de-obra, que deviam voltar-se as inovações técnicas. No entanto, em 1730, é o tear de tecelagem que se vê favorecido pela lançadeira volante de Kay. Mas essa invenção elementar (a lançadeira acionada por uma mola é manobrada à mão) que acelera o ritmo da tecelagem só se propagará depois de 1760, talvez porque precisamente nesse momento são lançadas três inovações, desta vez aceleradoras da fiação e de difusão muito rápida: a spinning jenny, por volta de 1765, cujos modelos simples estão ao alcance da oficina familiar; a máquina hidráulica de Arkwright, por volta de 1769; e, dez anos depois, 1779, a mula de Crampton, assim chamada por combinar as características das duas máquinas precedentes". (BRAUDEL, 1996, p. 526). 


Gravura retratando uma tecelã operando uma "spinning jenny", uma das máquinas criadas durante a Revolução Industrial ainda no século XVIII. 
As fábricas, eram mau iluminadas, ainda não existia luz elétrica, a luz vinha das pequenas janelas e dos lampiões ou candieiros que iluminavam seu interior. Eram locais pequenos (já que a maioria das fábricas eram de pequeno porte), abafados, apertados devido aos grandes maquinários e os vários funcionários; eram locais insalubres e quentes; não havia segurança ou direito a segurança no trabalho, se o operário se machucasse de alguma forma, isso era problema dele e de sua família, ainda não existia leis trabalhistas para este setor que crescia cada vez mais.

"Assim, tanto na França quanto na Inglaterra, a industrialização capitalista do século XIX se desenvolveu com base, numa exploração muito dura das massas operárias utilizadas nas indústrias motrizes da época: têxtil, metalurgia, explorações de carvão". (BEAUD, 2005, p. 153).


Trabalhadores em uma fábrica de peças de aço.

Em si, tais condições degradantes e subumanas, levou Marx no século seguinte a criticar a exploração do trabalho. O peso do Capitalismo já começava a ser sentido nesta época.

"O crescimento do proletariado fabril, a ascensão da burguesia industrial e sua fusão progressiva com a antiga elite, a atração crescente dos camponeses pela cidade e a competição dos novos métodos e de uma nova escala de cultivo, todas essas tendências incentivaram alguns observadores a prever uma polarização da sociedade entre uma grande massa de assalariados explorados e um pequeno grupo de exploradores proprietários dos meios de produção". (LANDES, 2005, p. 9).

Se por um lado o trabalho fabril era degradante, fora no setor têxtil que a industrialização tomou forma. Hobsbawm aponta que na década de 1790, praticamente 90% da produção de algodão do país era exportada. O algodão não era plantado na Inglaterra, mas vinha de suas colônias e das colônias das nações amigas, assim os ingleses o manufaturavam e o revendiam.


FONTE: A Revolução Industrial: 1780-1880. J. P. Rioux. 1975, p. 54.


Se antes da revolução os artesãos demoravam vários dias para tecer e fiar os tecidos, roupas e outros produtos, com a invenção de determinados maquinários tudo isso se acelerou.


A mecanização e o vapor

No século XVIII o setor minerador e o setor têxtil formavam as principais fábricas da Inglaterra. O trabalho nas minas era o mais desgastante e o qual possuia o maior indice de mortes. Mas, fora no setor mineiro que se iniciou o emprego da máquina a vapor em 1712, onde o ferreiro e mecânico inglês Thomas Newcomen (1663-1729) aperfeiçoou a máquina a vapor, a utilizando para drenar a água das minas de carvão. A criação da máquina a vapor (ou motor a vapor) por Newcomen dera inicio a uma revolução tecnológica, a qual seria aperfeiçoada nas décadas seguintes.

Representação da máquina a vapor de Thomas Newcomen.

Se por um lado a máquina a vapor começou a ser utilizada no setor minerador, não significa que o vapor ficaria retido apenas a esse setor. Em 1733, John Kay criou a lançadeira volante, que gerou um aumento na produção têxtil, anos depois em 1765, John Wyatt e Lewis Paul lançam a "spinning-jenny" que duplicou a produtividade da máquina anterior, contudo nenhuma destas máquinas ainda utilizava a força do vapor para fazer seus mecanismos funcionarem. Em 1768, Richard Arkwright criou a "water-frame" máquina movida a força da água, esse novo avanço substituiu o uso da força animal e humana, mas será em 1779 que Samuel Crompton, lançara a "mule-jenny" que combina as duas máquinas anteriores, agora empregando o vapor para mover seus mecanismos. E no ano seguinte em 1780, Edmund Cartwright patenteia o primeiro tear a vapor. Todavia, a consolidação das máquinas a vapor só se dará no século XIX.



FONTE: A Revolução Industrial: 1780-1880. J. P. Rioux. 1975, p. 57.

A medida que as descobertas nos campos da física, hidráulica, mecânica e química vão se desenvolvendo, isso permitiu a criação e o aperfeiçoamento de novas máquinas.

"Uma série de máquinas impulsiona o setor moderno: a prensa hidráulica, os fiadores de precisão, o martelo-pilão, o martelo-batedor pneumático, máquinas-motorizadas (fresas, aplainadoras, polidoras) com o sem torres, a máquina de costura, as rotativas para imprensa, as máquinas de escrever, as colhedeiras, as debulhadoras". (RIOUX, 1975, p. 58)

"O impulso pela ciência torna o crescimento industrial acelerado: o movimento continuará, agora, por si próprio. Os processos e as pesquisas são mais divulgados e os velhos ciúmes do inicio do século menos opressivos. Técnica e ciência tornam-se elementos naturais do crescimento dos países capitalistas. E os homens também evoluem: o artesão engenhoso é sucedido pelo pesquisador, pelo técnico e pelo engenheiro". (RIOUX, 1975, p. 59).

Mesmo com todo este progesso no aumento da produção, no aperfeiçoamento das máquinas, no aumento do investimentos e do lucro, isso só poderia continuar progredindo se o transporte destas mercadorias fosse eficiente. Até o final do século XVIII, o transporte terrestre será feito via a carroças, e no mar continuará a prevalecer os navios a velas. Contudo, será nos idos do século XIX, que será criada a ferrovia que revolucionará o mundo.

"A rapidez reduz os custos e as amortizações, une o produtor ao consumidor, obtém mais agilmente o lucro e estimula a habilidade". (RIOUX, 1973, p. 61).

Nas primeiras duas décadas do século XIX, alguns inventores ingleses começaram a aperfeiçoar as máquinas a vapor, lhe dando rodas e a pondo em trilhos. Em 1804, Richard Trevithick (1771-1833), criou a "puffing devil" na qual consistiu numa máquina com um motor a vapor que puxava carrinhos de mina em trilhos. Em 1812, John Blenkisop, aperfeiçou uma das primeiras locomotivas, dando-lhe mais potência, permitindo que puxa-se cargas mais pesadas. Mas, será a partir dos anos de 1815 e da década de 1820 que começaram a se construir as primeiras estradas de ferro na Inglaterra.

Fotografia de uma locomotiva inglesa de 1868.

Tais estradas ficaram presas a curtas distâncias, especialmente em áreas mineiras, até então nessa época já começavam a cruzar os mares os navios a vapor, que se mostravam mais vantajosos do que as locomotivas até então. A primeira estrada de ferro regular, ligava Darlington-Stockton e tinha 13 km de extensão. Ainda se levaria pelo menos mais quinze a vinte anos para que as ferrovias começassem a se espalhar pela Inglaterra e pela Europa.

Em 1825 fora fundada a estrada Manchester-Liverpool, e após com os resultados de sua eficiência, empresas especializadas na construção de ferrovias começaram a surgir pelo país, em 1850, já havia mais de 9 mil km de estradas de ferro pela Grã-Bretanha. A França, a Bélgica e a Alemanha, já contavam também com uma malha ferroviária que crescia nesta época. Na década de 1860, as estradas férreas cruzavam os Estados Unidos, e foram úteis na movimentação de recursos e tropas na sua Guerra Civil (1861-1865), além disso, a ferrovia permitiu a ligação mais eficiente da costa leste com a costa oeste do país, cruzando milhares de quilômetros. No Brasil, fora através das iniciativas do Barão de Mauá, o qual instalou a primeira fábrica de fundição de ferro, estaleiros para a construção de navios, e trouxe as primeiras locomotivas e construiu a primeira estrada de ferro, a Estrada de Ferro Mauá, fundada em 1854, no Rio de Janeiro. Na década de 1870 e 1880, as estradas de ferro se espalharam pela província de São Paulo, Pernambuco e Bahia.

Será também na década de 1870 e 1880, que outras nações do mundo começaram a conhecer o progresso trazido pelas ferroviais, a Austrália, recebera sua linha férrea, o Japão, Índia, China, Rússia, Espanha, Itália, México e o Peru. A partir de 1900, começará a se notar um maior crescimento na malha ferroviária no continente africano, asiático e latino-americano.


FONTE: A Revolução Industrial: 1780-1880. J. P. Rioux. 1975, p.68.


Se por um lado a ferrovia trouxe grande progresso, não podemos nos esquecer que antes de sua "glória" o navio a vapor, já esbanjava seu ar de triunfo tecnológico. A estrada de ferro fora importante para a Inglaterra, mas pelo fato desta ser uma ilha, o trem estava na época limitado a estas fronteiras (hoje existe o Eurotúnel, que liga Londres-Paris).

Antes do emprego do navio a vapor, uma viagem da Inglaterra para Nova York levava mais de um mês em navios a vela, ao empregar o navio a vapor em 1830, tal tempo caiu para quatorze dias. Os navios começaram a cruzar o Atlântico e posteriormente o Índico e o Pacífico. Tal revolução fica mais nítida a partir da década de 1860, quando passa-se a empregar um tipo de hélice aperfeiçoada, concedendo estabilidade e potência para os navios. Assim várias companhias marítimas começaram a se desenvolver, tais como: Cunard, British India, Cie Generale Transatlântique, Hamburg-Amerika, dentre outras.

Em 1869, fora inaugurado o Canal de Suez no Egito, onde passou a ligar o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, assim ao invés de ter-se que contornar a África para se chegar ao Oceano Índico, bastava atravessar o canal, sair do Mar Vermelho, e já se estaria no Índico.

Além dos mares, os rios também foram dominados pelos barcos a vapor. Os rios Sena, Lorie e Ródano na França; o Reno, Elba e Oder na Alemanha; o Mississipi e os Grandes Lagos nos Estados Unidos. No caso do Brasil, as navegações a vapor ainda ficaram algum tempo retidas apenas ao uso marítimo, contudo na década de 1860, já existia uma rota de viagem ligando o Rio de Janeiro a Liverpool, mensanalmente.



Barco a vapor cruzando as águas do rio Mississipi (EUA).

Política econômica:

Uma última questão que focarei aqui diz respeito a politica liberal inglesa que colaborou para o desenvolvimento tanto nos fins do século XVIII e o restante do XIX. Já no século XVI algumas ideias sobre um liberalismo econômico pairavam sobre a Inglaterra, França e outros lugares. O liberalismo econômico de forma sintática, preve uma diminuição da ação do governo sobre o comércio, ou seja, ao invés do governo fazer uma forte pressão sobre as politicas econômicas de controla-las e poder intervir a qualquer hora, o liberalismo procurava por uma "independência". Os impostos seriam pagos normalmente, mas os comerciantes, banqueiros, os homens de negócios teriam maior liberdade para agir em suas relações comerciais, isso levou a alguns direitos defendidos entre os liberais, como a Lei da Livre Concorrência e a Lei de oferta e procura, ambas as leis procuravam reduzir a burocracia do comércio, e ao mesmo tempo procuravam pelo lucro.

No caso da Inglaterra o primeiro destaque nessa ideia de politica liberal fora o filósofo, médico e téorico politico, John Locke (1632-1704). Locke defendia uma politica liberal, dando oportunidade ao povo de gerir seus próprios negócios, e assim buscar formas de desenvolver a nação. Suas ideias sobre politica são bem claras em seus dois tratados, o Primeiro Tratado sobre o Governo Civil e o Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Locke, defendia o direito a propriedade, logo toda pessoa procuraria cuidar e gerir sua propriedade em busca de seu bem-estar, sendo assim, na economia deveria se acontecer o mesmo.

Todavia o grande mérito dessa politica liberal vai para o economista escocês Adam Smith (1723-1790). Smith é tido como um dos mais importantes economistas do século XVIII e da modernidade, sua grande obra fora Uma investigação sobre a natureza e a causa das riquezas da nações (1776). Nessa obra, o autor avalia a organização econômica, as relações de trabalho, as relações comerciais, a distribuição de renda, o acumulo de capital, os problemas enfrentados pelas politicas liberais e conservadoras, etc.

Sob essa temática, a industrialização se desenvolveu na Inglaterra, fato este que devemos nos lembrar que nesse primeiro momento, as indústrias surgiram por iniciativa de particulares não por investimento direto do governo, como viria acontecer posteriormente. Além disso, as leis tributárias, alfandegárias, as leis de importação, exportação e câmbio, refletem a politica liberal tomada pelos ingleses.

Contudo, o leitor não deve pensar que a politica liberal inglesa e posteriormente de outros países que seguiram este modelo, fora uma maravilha, a Inglaterra como outras nações no caso dos Estados Unidos e França, passaram por crises econômicas, que obrigou a suspensão deste liberalismo e a intervenção do governo para corrigir tais problemas.

No caso da França, em 1793 a Europa vivenciava o desenrolar da Revolução Francesa iniciada em 1789. Nesse ano o rei e a rainha de França, foram executados na guilhotina, e o governo Jacobino entrava em uma "era de terror". Só que as ameaças não ficaram retidas apenas a França, os jacobinos temendo o ataque de seus inimigos, declararam guerra a Áustria, e logo em seguida, a Prússia e a Inglaterra, entraram no combate, as lutas não foram tão acirradas assim, mas afetou as políticas exteriores.

A situação inglesa pioraria nas décadas seguintes, quando Napoleão Bonaparte se tornaria imperador da França e iniciaria a expansão de seu império, e uma destas consequências fora o embargo feito aos produtos ingleses, o Bloqueio Continental. Napoleão sabia que os ingleses não eram fortes em terra, mas em mar eram quase invencíveis, e para se conquistar a Grã-Bretanha a qual é uma ilha, a única forma era cruzando o mar. Porém seu plano, fora simples, enfraquecer a economia inglesa e destruturar o país, e assim ele decretou o bloqueio aos produtos ingleses, visando abalar a economia da Inglaterra. A relutância de Portugal em aceitar o embargo napoleônico, levou a fuga da Corte portuguesa para a colônia do Brasil em 1808.

Mesmo com o fim do império de napoleão em 1815, a economia europeía sofreu um retardamento no seu crescimento, algo que voltou a mudar nas décadas de 30 e 40. Mas, novamente novos problemas surgiriam neste tempo. Em 1848, o chamado "ano das revoluções" gerou uma série de revoltas pela Europa, revoltas de cunho democrático, liberal, nacional, que visavam por mudanças econômicas, politicas, legais e sociais, será neste contexto que as lutas sindicais dos homens do campo e dos operários ganhariam força, e será neste momento que Marx e Engels publicariam O Manifesto do Partido Comunista. As décadas seguintes serão marcadas pela difusão das ideias socialistas, marxistas e comunistas, as quais voltariam eclodir na Rússia em 1917.

E se pensar, que todo este contexto aqui brevemente citado tem origem nas mudanças na valorização do capital, do trabalho, nos direitos trabalhistas, nas politicas econômicas, nos ideais filosóficos, sobre sociedade, direito, liberdade etc. O leitor deve saber que os fatos históricos não são algo isolado, mas sim um ponto de partida para outras questões ou um ponto de encontro para outras questões.

NOTA: Em 1873, o Banco de Viena decretou falência, isso abalou significativamente os investimentos de várias empresas e companhias pela Europa. Da década de 70 até 1900, problemas econômicos e financeiros se seguiram. Outros bancos, "quebraram" e empresas foram a falência pelo mundo.
NOTA 2: A primeira máquina a vapor conhecida na história data do século I d.C. Ela fora desenvolvida pelo inventor, matemático e físico grego Héron de Alexandria (10-70). Héron batizou sua invenção de Eólipila, a qual consistia numa esfera com quatro aberturas, onde as aberturas laterais que ficavam presas a dois eixos, recebiam o vapor, e as outras duas, liberavam o vapor, isso fazia a eólipila rodopiar. 

Referências Bibliográficas:
RIOUX, Jean-Pierre. A Revolução Industrial: 1780-1880. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1975.
DEANNE, PHYLLIS. A Revolução Industrial. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1973.
HOBSBAWM, Eric J. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. 4a edição, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1986.
LANDES, David S. Prometeu Desacorrentado: Transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental de 1750 até os dias de hoje. 2a edição. Rio de Janeiro, Elsevier, 2005. (Introdução, p. 1-43).
BEAUD, Michel. História do Capitalismo: De 1500 aos nossos dias. 5a edução, Brasiliense, 2005.
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: séculos XV-XVIII. Volume 3, Lisboa, Martins Fontes, 1996. (Capítulo 6: Revolução Industrial e crescimento). 

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Buda


Neste texto procurei falar um pouco da vida deste místico e emblemático homem, e de sua filosofia de moral, de vida e fé. Buda (Buddha em sânscrito) não é um nome próprio, mas sim uma designação que significa "Desperto", "Iluminado", "Esclarecido", assim como a palavra Cristo, significa "Messias" em grego, logo, Jesus Cristo seria "Jesus, o Messias".

Para nós do Ocidente, Jesus Cristo é a figura religiosa mais conhecida e fonte de muitos debates acerca de sua vida e feitos, no caso do Oriente, Buda assume essa posição, e quanto a Maomé, este fica mais relegado ao mundo islâmico. Todavia, tanto Jesus como Buda foram homens de preceitos divinos e que tiveram suas vidas marcadas pela fé e pelo misticismo, enquanto Jesus nasceu de uma virgem, no caso Maria, após Deus determinar que ela seria mãe de seu filho, aviso dado pelo anjo Gabriel, o nascimento do futuro Buda também segue preceitos semelhantes. 

Não se sabe ao certo a época em que Buda vivera, sabe-se que ele viveu 80 anos, e costuma-se dizer que ele tenha vivido entre os séculos VI e V a.C, algo que o próprio Jesus também compartilha, já que os historiadores ainda hoje questionam a data de seu nascimento, apontando que ele tenha vivido seus 33 anos entre o período de 8 a.C a 34 d.C.


Todavia, partamos para conhecer um pouco da vida de Sidharta Gautama o futuro Buda. Antes de nascer, diz a tradição budista que o Bodhisatva, título dado para aquele que viria a ser o Buda, determinou sua próxima reencarnação. Do céu em reunião com os deuses, o espírito que viria a ser Buda, determinou o local, a época e a família onde iria nascer, então ele decidiu encarnar como o filho do rei Sudohodana, da Dinastia dos Shakya e da rainha Maya. Sudohodana era rei de Kapilavastu, cidade localizada hoje no sul do Nepal, mas na época pertencia a Índia, logo em termos de nacionalidade, Sidharta era indiano.  

A rainha Maya, numa noite tivera um estranho sonho, ela sonhou com um elefante branco com seis presas e a cabeça da cor de rubi, que entrara em seu flanco direito. Ao despertar do sonho, a rainha sentira um bem-estar e muita felicidade. Posteriormente, ela descobriu que estava grávida e meses depois, enquanto caminhava pelo Jardim de Lumbini (hoje no atual Nepal), como aponta algumas tradições, como tendo sido o local onde Sidharta nasceu, lá a rainha deu a luz a criança a qual mesmo recém nascida já sabia andar e falar, então de acordo com algumas tradições a pequena criança teria dito que: 



Vista do templo Maya Devi, Lumbini, Nepal. Local onde a rainha Maya dera a luz a Sidharta Gautama. O local é considerado patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO.
"Sou o primeiro e o melhor, este é o meu último nascimento e venho dar fim à dor, à doença e à morte. Duas nuvens vertem água fria e quente para banhar a mãe e filho; os cegos enxergam, os surdos ouvem, os aleijados caminham, os instrumentos musicais tocam sozinhos; os deuses do quarto céu se regoziam, cantam e dançam; os condenados do inferno esquecem de sua dor". (BORGES, 1977, p. 10).
Pintura retratando uma das versões do nascimento de Gautama.
No mesmo dia, nasceram a futura esposa de Sidharta, Yasodhara, seu cocheiro Chana, seu cavalo, seu elefante e a árvore na qual ele viria a se tornar o Buda, após meditar sob esta. Sua mãe veio falecer sete dias depois. Enquanto isso, um vidente chamado Asita, desceu de seu reduto nas montanhas e foi ver o filho do rei, Asita havia previsto o nascimento do Bodhisatva, então ele veio examinar o jovem príncipe, procurando pelos sinais que lhe indicariam que aquela criança era a predestinada a se tornar o Buda. No budismo se diz que houveram vários budas, mas Gautama foi mais proeminente e sábio de todos eles. 
Pedra que marca o local do nascimento de Sidharta Gautama, o Buda. O local fica dentro do Templo Maya Devi. 
"Um vidente, Asita [...]. Comprova nele as marcas do eleito: uma espécie de alta coroa orgânica na metade do crânio, pestanas de boi, quarenta dentes muito unidos e brancos, queixada de leão, altura igual à extensão dos braços abertos, cor dourada, membranas interdigitais e centenas de formas desenhadas nas plantas dos pés, entre as quais figuram o tigre, o elefante, a flor de lótus, a montanha piramidal Meru, a roda e a suástica". (BORGES, 1977, 10-11).


Asita fica ao mesmo tempo maravilhado e triste por aquela descoberta, pelo fato de ele ser velho, logo morreria, e não poderia viver para aprender os ensinamentos de Buda. De qualquer forma, Asita e outros sacerdotes disseram para o rei, que o sei filho seria um grande rei ou o redentor do mundo, Sudohodana ficou maravilhado com tais notícias, contudo ele preferiu que o filho viesse a se tornar um grande rei, assim ele ordenou que três grandes palácios fossem construídos para o filho.


Sidharta cresceu com as mordomias e o luxo da vida de um príncipe. Ele também foi educado por vários mestres, nas artes, na luta, na filosofia, história e outros conhecimentos; ao completar dezenove anos ele se casou com  sua prima Yasodhara, de acordo com a tradição da época, era comum haver desafios pela mão de uma noiva, assim o pai de Yasodhara testou o futuro genro, diz que no desafio de arco e flecha, Sidharta atirou mais longe que todos os outros pretendentes, e no local que sua flecha caiu, brotou uma fonte. 


Pintura indiana representando o casamento de Sidharta Gautama e Yasodhara.
Contudo não se sabe ao certo quando eles se casaram. Alguns relatos apontam que Sidharta teria se casado aos 16 anos, outros apontam aos 20 anos, e talvez até mesmo depois disso. 

Sidharta ainda continuou a viver sua vida farta, cheia de regalias, e dos prazeres mundanos por mais dez anos, mas quando este completou 29 anos, num dia, cansado de ficar preso no palácio, decidiu chamar Chana, seu servo de confiança e visitar a cidade, ele queria ver a vida lá fora. Então ele acabou se chocando com a realidade nua e crua da vida. Ao chegar na cidade, ele viu um homem moribundo, de cabelos brancos, raquítico e que se apoiava num bastão, o príncipe perguntou para o seu servo quem era aquele homem, e este lhe respondeu dizendo que aquele era um velho, que todos os homens e mulheres ficariam velhos um dia. Em outra rua ele se deparou com um leproso, e Chana lhe disse que nenhum homem estava livre de adoecer. Em outra rua, o príncipe se deparou com um morto sendo carregado por outros, e o cocheiro disse que tudo que nasce, morrerá um dia. Prestes a deixar a cidade, já alarmado com o que vira, Sidharta avistou um monge que pedia esmolas, então decidiu voltar para o palácio. Naquela noite ao retornar para o palácio, Sidharta se sentiu mal ao ver que tantas pessoas passavam por necessidades, enquanto ele desfrutava das riquezas em seu "palácio de ilusões". 


Pintura indiana retratando a visita de Gautama e Chana a cidade. Onde o príncipe testemunhou um velho moribundo, um leproso, um morto e um monge. 
Ao retornar, ele foi avisado que sua esposa dera luz ao seu filho, chamado Rahula. Sidharta seguiu para ver-los, ao chegar no quarto, ele viu os dois dormindo, a mãe tinha a mão sobre a cabeça do filho o qual dormia tranquilamente, Sidharta queria tocar o filho, mas se sentiu incapaz de acordar tamanha beleza, paz e amor que testemunhava, então ele decidiu partir, e retornar quando já fosse Buda. 


Gautama avista sua esposa Yasodhara e seu pequeno filho, Rahula. 
Com a ajuda de seu fiel cocheiro Chana. Ambos deixaram o palácio e partiram para o Oriente, ao se distanciar na floresta, Sidharta entregou seus pertences, o cavalo e suas vestes para o servo, ele também cortou os cabelos, então mandou o servo ir embora. Nessa hora apareceu um asceta o qual segundo algumas versões, foi enviado pelos deuses para auxiliar o príncipe naquele momento. O asceta lhe entregou as três peças do traje amarelo (o traje de um monge): o cinto, a navalha, a tigela para esmolas, a agulha e a peneira para filtrar a água. O monge lhe dissera que Sidharta deveria pedir esmola para sobreviver, nunca ofender aqueles que recusassem em ajudá-lo, pedir apenas o suficiente para se sustentar, e nem enganar os outros, se valendo de quem fosse generoso. A navalha lhe serviria para raspar a cabeça e a barba, a agulha para remendar suas vestes.



Gautama vestido com traje de monges, prepara-se para cortar seus cabelos. Chana carrega nos braços as vestes reais e joias do príncipe. 
Assim, o príncipe passou inicialmente sete dias em profunda solidão, vagando pela floresta, até que decidiu procurar os ascetas que viviam na floresta, lá ele conheceu a rotina de orações, jejuns e abstinências feitas pelos monges, contudo estes lhe disseram que os sábios mestres viviam nas montanhas, e que eles poderiam ajudar Sidharta a encontrar as respostas para suas perguntas.

Ele passou os seis anos seguintes, treinando e aprendendo com os mestres, praticando orações, jejuns e a mortificação e outras atividades próprias dos monges. Contudo após estes seis anos, o monge concluiu que ainda não havia aprendido o que deveria aprender para se tornar o Buda. Para que isso vinhe-se acontecer ele teria que alcançar o Bodhi ("a Verdade"). Então ele deixou as montanhas e seguiu viagem novamente. Num dia, Gautama avistou uma árvore e decidiu que seria naquele local que meditaria até alcançar o bodhi, ele só sairia dali quando se tornasse Buda. Contudo o monge teria um último grande desafio a enfrentar, o demônio Mara, o qual estava associado ao pecado e a morte. O qual queria impedir que Sidharta se torna-se o Buda.



Pintura retratando Gautama meditando para alcançar o Bodhi, enquanto o demônio Mara liderava seu exército para atacá-lo. 
Mara num dia anterior sonhou que seria derrotado pelo monge, que nem mesmo o seu grandioso exército com milhares de feras, gigantes e demônios seriam capazes de derrotar um simples homem, contudo ele não desistiu mesmo assim, e na noite seguinte atacou o monge. Ele levou consigo, seu exército de temíveis guerreiros, feras, gigantes e demônios; flechas flamejantes foram atiradas contra o monge que meditava sob a árvore, porém ao chegarem próximo a ele, as flechas se transformavam em flores; o deus tentou que o medo fizesse Sidharta desistir de sua busca, então enviou suas temíveis criaturas para tentar espantá-lo, mas o monge não se retirou; depois o deus conjurou uma enorme mesa, farta em comida, tentando a rendição ao quebrar o jejum de Sidharta, mas isso também não adiantou.


Sidharta sendo ameaçado pelos demônios de Mara, e tentando pelas mulheres. 
Por fim, Mara enviou suas filhas que tentam seduzir o monge, com música, cantoria e danças, porém Sidharta olha para elas e lhe aponta o dedo, dizendo que não passavam de ilusões, então as belas mulheres se revelam como velhas decrépitas. O exército de Mara entra em confusão e foge, o próprio demônio acaba desistindo.

"Só e imóvel sob a árvore, Sidharta vê suas infinitas encarnações anteriores e as de todas as criaturas; abarca com um golpe de vista os inumeráveis mundos do universo, depois, a concatenação de todas as causas e efeitos. Intui ao amanhecer as quatro verdades sagradas. Já não é o príncipe Sidharta, é o Buda". (BORGES, 1977, p. 14).

Aos 36 anos Gautama alcançou a iluminação, tornando-se o Buda.
"Sete dias mais permaneceu Buda sob a árvore sagrada. Os deuses o alimentam, o vestem, queimam incenso, cobrem-no de flores e o adoram. Chove, e um rei das serpentes, um naga, se enrosca sete vezes em torno do corpo do Buda e forma um teto com suas sete cabeças". (BORGES, 1977, p. 15).  
Um naga protege Buda da chuva. 
Os nagas eram serpentes mitológicas que viviam sob a terra, porém nem todos era maus. No oitavo dia, o naga se transformou num brâmane (casta dos sacerdotes) e disse que protegeu Buda do frio e da chuva, Buda agradeceu ao brâmane e depois este se converteu ao Budismo. Depois do sacerdote, um deus e outras divindades também se converteram ao budismo, então o próprio Criador do Universo, Brahma desceu dos céus com seu cortejo e dissera para Buda que era chegada a hora de iniciar sua pregação para salvar os homens. 


Templo Mahabodhi, Bodhgaya na Índia. Local segundo a a tradição budista fica a árvore no qual Gautama alcançou o nirvana e o bodhi, tornando-se Buda. 
Buda passaria os próximos 44 anos viajando pela Índia em pregação. Sobre isso não relatarei devido a extensão dos fatos que envolvem seus vários anos de pregação, contudo citarei mais três fato importantes. Primeiro, ao retornar para Kapilavastu, Buda reencontrara o seu pai, sua esposa e seu filho Rahula. Sua família e a Corte se tornaram seus discípulos, mas foi neste momento que Buda encontraria um traidor. 


Buda reencontra seu filho e familiares. 
Como na história de Jesus Cristo, onde Judas Iscariote traiu Jesus e os apóstolos, Buda também foi traído. O seu primo e discípulo Devadata, cobiçava o posto do Buda, este possuía muita inveja do primo, então pactuou com o príncipe Magadha para assassinar o Buda. 


Devadata planeja com Magadha, matar o Buda. 
O príncipe enviou 16 arqueiros para matá-lo, mas quando estes se deparam com ele, sua virtude, sua paz, sua alegria e seu amor, fizeram os homens desistirem de matá-lo. Diz-se que os arqueiros largaram as armas e saíram correndo, de tamanha vergonha. Devadata não desistiu, então enviou um elefante ou vários elefantes furiosos para atacá-lo, porém os animais acabaram se ajoelhando diante de Buda. O mesmo tentou outras vezes matar o Iluminado, mas como todas falharam, Devadata acabou sendo tragado por uma fenda e caiu no Inferno onde foi punido por seus pecados. Buda dissera que a inimizade de Devadata advêm de vidas passadas, quando Buda o ajudou, porém ele foi ingrato com esta ajuda, e nunca o perdoou.


Com seus oitenta anos, o deus Mara retornou para persuadir mais uma vez o Buda de desistir de sua pregação, ele diz que o Buda já conseguira muitos discípulos, e conseguiu transmitir seus ensinamentos. Buda em sua gentileza e tranquilidade, disse para que Mara não se preocupa-se, em três meses ele morreria. Mara e outras divindades ficaram alarmados com o que ouviram, já que de acordo com algumas lendas, Buda poderia viver milhares de anos, na verdade ele seria quase imortal. 

Porém Buda, decidiu antecipar sua morte, concebendo o fato de que estava na hora de ele partir, afinal, como o seu cocheiro havia lhe dito há vários anos: "tudo que nasce, morrerá um dia". Então ele decidiu que sua missão estava completa, ele ensinou o que tinha que ensinar, e era hora de partir, para se libertar da samsara (o ciclo das reencarnações). Quando se alcança-se tal estado, passaria-se a viver nos céus, sem a necessidade de reencarnar na Terra novamente por obrigação. Embora que Buda poderia escolher por sua vontade reencarnar. 

Três meses se passaram, Buda, deixara que o peso da velhice lhe acomete-se, então quando estava em visita a cidade de Kusinara, dizem as versões antigas, que o filho de um ferreiro lhe ofereceu um pedaço de porco salgado ou uma trufa, Buda comeu, e começou a se sentir mal, ele já sabia que isso ocorreria, então ele reuniu seu discípulos que estavam por ali, e disse-lhes que logo morreria, todos ficaram alarmados, contudo Buda explicou seus motivos, e depois deixou suas últimas mensagens e ensinamentos. Ele se encontrava sentado debaixo de duas árvores, ao entardecer. Antes de morrer, Buda disse raque futuras discórdias surgiriam, e os homens deveriam enfrentá-las através da fé. Então ele se deitou sobre o lado direito do corpo, enquanto sua cabeça ficava voltada para o Norte, enquanto contemplava o poente. No cair da noite, Buda já estava morto, as árvores floresceram naquele momento, o espírito iluminado havia deixado este corpo e este mundo.



A desencarnação de Buda. 
"O cadáver é queimado nas portas da cidade, enquanto se celebram ritos solenes dignos de um grande rei, rei que Sidharta não quis ser. [...]. Os restos são divididos em três partes: uma para os deuses, que a guardam em túmulos celestiais; outra para os nagas, que a guardam em túmulos subterrâneos; outras para oito reis, que edificam na terra oito monumentos, aos quais acorrerão gerações de peregrinos". (BORGES, 1977, p. 30). 

Contexto histórico

Não existe um consenso sobre a data de nascimento e falecimento de Buda, costuma-se dizer que ele nasceu em 563 a.C e morreu em 483 a.C, contudo alguns historiadores apontam essa data para mais, recuando até o século VII a.C, onde ele teria nascido em 623 a.C e falecido em 543 a.C. Contudo, o período em que Buda viveu foi um período marcado por grandes acontecimentos e por filósofos. Nessa época, viveram na China o famoso filósofo Confúcio (551-479 a.C) e possivelmente o lendário filósofo Lao Tsé (ainda há divergências sobre a veracidade da existência deste homem); na Grécia Antiga, destacam-se alguns filósofos como PitágorasHeráclito, Pârmenides, Tales de Mileto, etc, filósofos pré-socráticos.

Na época que Buda morreu, Roma já era uma República, o Egito era governado pela XXVII Dinastia, após ser conquistado pelos persas; Dario, o Grande governava o vasto Império Persa; O Império Japonês, havia sido criado há poucas décadas, enfim, muitos outros fatos históricos marcam o período que Buda nasceu e viveu, todavia para vocês que acabaram de ler a respeito da origem e da vida deste homem, devem estar pensando que isso não passa de uma mentira, pura fantasia, mas o fato é que devemos antes de julgar, conhecer o acusado.


Na época antiga, a história e o mito não estavam tão separados assim, como nos dias de hoje. Na verdade tal questão perdurou além da Idade Antiga, outro fato, é que era comum enaltecer a realidade, algo que até hoje costuma-se fazer com determinados ídolos. Sendo assim, glorificar ainda mais os feitos e a vida de um homem era algo comum, lembre-se que muitos reis e políticos antigos fizeram isso, Carlos Magno (747-814), fundador do Sacro Império Romano-Germânico, foi homenageado com lendas sobre seus feitos; o imperador Frederico Barbarossa (1122-1190), recontou a sua origem com uma história bem semelhante a de Móises. Alexandre, o Grande, dizia ser filho de Zeus; Júlio César, dizia que era descendente do herói troiano Eneias.


"A verdade, por escandalosa que seja, é que os hindus importam mais as idéias do que as datas e os nomes próprios". (BORGES, 1977, p. 25).


Não obstante, deve ficar claro ao leitor que muitas das lendas e histórias sobre a vida de Buda e seus ensinamentos foram ganhando distintas versões ao longo dos séculos e pelos locais que passava, o budismo começou a crescer e se espalhar de fato, já no primeiro século da era cristã, cerca de quinhentos anos após a morte de Buda, assim houve muita distorção da história dele, algo comum com outras personagens históricas mais antigas. Não é fácil separar história de lenda, sobre os relatos da vida de Buda. 

O Budismo

Irei falar aqui um pouco da filosofia budista, focando alguns dos seus preceitos principais, e depois falarei um pouco de algumas de suas várias vertentes. O budismo nasceu em uma região já profundamente influenciada pelo Hinduísmo, religião ainda hoje predominante na Índia, além de uma gama de sincretismos e credos menores que se espalhavam pelas distintas regiões indianas da época, sendo assim, alguns dos ensinamentos e preceitos pregados por Buda, foram extraídos destas crenças e moldados por ele, alguns destes princípios são a transmigração, a reencarnação, karma, nirvana, samsara, Inferno, Céu, etc. Pelo fato de cada um desses preceitos terem fatos incomuns, preferi relatá-los em apenas um texto.

A transmigração diz respeito a condição da alma reencarnar em um corpo distinto, algo que não apenas o budistas, hinduístas compartilham, mas também os jainistas, além de outras religiões e filosofias, já que alguns filósofos gregos como Platão, Epicuro, Hermotino e Empêdocles falaram acerca desta condição. A transmigração está diretamente ligada ao karma e logo a reencarnação. A palavra karma significa "ato" ou "ação", ele representa a condição que carregamos de nossas vidas passadas, cada crime que cometemos, gera um karma, que se não for corrigido ou pagado, lhe causará problemas na vida seguinte, e assim sucessivamente enquanto o espírito estiver preso na samsara (Roda da Lei). A reencarnação é um meio no qual procura-se expiar os karmas de vidas passadas, a fim de se livrar da samsara, a qual é o ciclo de reencarnações. Quando um espírito consegue expiar todos os seus karmas, ele esta apto a alcançar o nirvana, logo estará livre da samsara e da necessidade de reencarnar para poder realizar sua expiação.

"Para o budista, os conceitos de transmigração e de karma são inseparáveis e há quem os considere como as duas faces de uma mesma moeda". (BORGES, 1977, p. 50.


Necessariamente o karma não é sempre ruim, existe o chamado "karma bom", o qual lhe segue nas vidas seguintes, isso se mostra em pessoas que se revelam pacíficas, benevolentes, bondosas, que possuem algum talento para as artes, para o conhecimento, virtudes, etc. Mas enquanto o karma ruim permanecer, o espírito será obrigado a expiar o peso de sua culpa através de boa ações ou de sofrimentos, neste ponto entra a questão da transmigração. 

Se uma pessoa foi muito má em uma vida, como punição ela pode reencarnar como um animal, como um asura (um tipo de demônio), um preta (espírito enfermo) ou se tornar um ser infernal, onde a alma é banida para os infernos para pagar por seus pecados. Todavia, para o "karma bom" há a possibilidade de transmigra-se para o corpo de um deva, um tipo de divindade menor.

Sobre o karma o historiador austríaco Paul Dessen tivera uma experiência interessante. Em visita a cidade indiana de Jalapur, Dessen realizou suas pesquisas sobre o budismo, quando decidiu interrogar um homem cego que encontrara na rua, ele perguntou para o homem por que ele havia ficado cego, o homem lhe respondeu "Em uma vida passada, cometi algum crime".


Buda dizia que o karma era algo impessoal e único, cada um tem o seu, algo que se assemelha a metáfora da cruz, que carregamos, e que esta cruz não pode ser passada para outro. Assim, tanto os budistas como os hinduístas, afirmam que você pode ajudar o próximo, mas já mais tomar o fardo do outro, é necessário que cada um aprenda por conta própria.


Mas, se até aqui compreendemos que o karma advêm de nossos crimes e pecados, que devemos reencarnar com sequelas ou não a fim de curar nossas almas na próxima vida, qual caminho ou quais caminhos devem ser seguidos? Para isso, Buda criou a Nobre Senda Óctupla, a qual conduz as Quatro Nobres Verdades, se tais verdades forem alcançadas, você alcançará o estado do nirvana, ou estará bem próximo de alcançá-lo, pois Buda dizia que cada um possui uma velocidade de progresso, uns mais rápido e outros mais lento, mas em ambos os casos, devemos todos pregar e realizar boas ações, cooperando para a harmonia, a paz e o amor no mundo.



"Todas as misérias e descontentamentos da vida, ele [Buda] os filia ao egoísmo insaciável. O sofrimento, ensina ele, é devido à ambição do indivíduo, ao tormento do desejo imoderado. Enquanto um homem não vence toda espécie de ambição pessoal, a sua vida é pertubação e o seu fim, tristeza. Há três formas principais que assumem as ambições da vida e todas são más. A primeira é o desejo de satisfazer os sentidos, sensualidade. A segunda é o desejo da imortalidade pessoal. A terceira é o desejo de prosperidade, mundanismo. Tudo isso deve ser vencido - quer dizer, o homem tem de deixar de viver para si mesmo - para que a vida possa ser serena. Mas quando forme, em realidade, vencidos e não mais governarem a vida do homem, quando o pronome da primeira pessoa desparecer dos seus pensamentos íntimos, então, ele atingiu a mais alta sabedoria, o Nirvana, a serenidade da alma. Pois o Nirvana não significava, como muitos pensam erradamente, extinção e aniquilamento, mas a extinção e aniquilamento dos fúteis objetivos pessoais que tornam, inevitavelmente, a vida mesquinha, ou lastimável, ou horrível". (WELLS, 1966, p. 108).

O nirvana é um conceito que possui vários sentidos de compreensão, seja advindos das distintas vertentes do budismo ou de outras filosofias antigas e modernas, mas essencialmente Buda dissera que o nirvana, palavra que pode significar "ser assoprado", "assoprar", "apagar", "ser apagado", é o estado de paz interior, de pureza, de transcendência dos sentidos, das tentações dos sentidos, uma transcendência física, uma separação da existência deste mundo. Quando se olha para o significado deste termo pode parecer algo complicado de se entender, mas Buda dizia que em nós existia uma Sede ou Desejo (algo chamado de Trishna), o qual é representado por uma chama, é esta "chama" que nos impulsiona a procurar nos saciar pelos prazeres dos sentidos, logo, caindo em vícios e pecados, e isso acaba gerando o karma, e todo o ciclo que fora visto anteriormente. 

Então para se libertar do karma e da samsara, deve-se "apagar" esta "chama". Já que toda a felicidade neste mundo é ilusória, e a verdadeira graça esta no céu. Quando Sidharta meditava para alcançar o bodhi, ele alcançou primeiro o nirvana, e com isso ele poderia ter encerrado seu karma na Terra e ido para um dos Céus, mas ele escolheu ficar e ensinar aos outros, tal fato é referido pela expressão "Buda de compaixão".



Buda e alguns discípulos realizando uma prece.
A ideia de compaixão aqui, está relacionada ao amor ao próximo. Buda sabia que possuía um grande dever, e para isso ele decidiu espalhar seus ensinamentos para que as pessoas com estes saberes pudessem se melhorar, e continuar a ensinar e ajudar mais gente. Negar-se a ajudar um irmão ou irmã que esteja com problemas, era está caindo em um dos males que Buda condenava: o egoísmo e o egocentrismo. 

Além disso, o principio de compaixão não pode ser confundido com a ideia de pena, onde julga-se o outro como sendo um "pobre coitado", pelo contrário, você deve ver naquela pessoa, um irmão que necessita de ajuda, seja qual for, e deve ajudá-lo por amor e não por pena ou interesses alheios. 

As Quatro Nobres Verdades: 
  1. O sofrimento: Buda dizia que o sofrimento era algo real e comum. O mundo (Terra) não é o Paraíso. Todos nós estamos sujeitos a alguma forma de sofrimento. 
  2. A origem do sofrimento: O sofrimento pode ser legado do karma, mas também surge da ignorância, da imprudência, da falta de amor das pessoas, do desejo, do pecado, etc.  
  3. A aniquilação do sofrimento: O sofrimento pode ser aniquilado, ele tem um fim, a reencarnação são formas de combater esse ciclo de provações, até que o espírito se aprimore para alcançar o nirvana
  4. O caminho que conduz a aniquilação do sofrimento: Tal caminho era a Senda Óctupla. Buda dizia que deveria-se ter serenidade, coragem e sabedoria para trilhar esse caminho.
Os caminhos da Senda Óctupla: 
  1. Palavra correta
  2. Ação correta 
  3. Meio de vida correto 
  4. Esforço correto 
  5. Plena atenção correta 
  6. Concentração correta 
  7. Correta compreensão 
  8. Correto pensamento 
"Estas normas integram um caminho do meio, equidistante da vida carnal e da vida ascética, dos excessos do rigor e dos excessos da licenciosidade". (BORGES, 1977, p. 56).


Dharmachakra representando o Nobre Caminho Óctuplo.
Se tais preceitos forem seguidos devidamente, o individuo alcançará o nirvana e sua libertação plena. Alcançando-se o nirvana a última etapa é alcançar o bodhi (a verdade) assim, a pessoa se torna um buda. Em algumas vertentes do budismo, as pessoas procuram se tornarem um buda. Contudo, Buda ensinava que não havia essa necessidade de se tornar um buda, bastava alcançar o nirvana, pois essa ânsia em alcançar a iluminação, pode se tornar traiçoeira, levando a elevação do ego. 

Vertentes dos budismo


O budismo ao longo dos séculos tomou vários rumos, que geraram várias seitas e cada uma possuem identidades próprias, contudo estas vertentes estão agrupadas em três grandes eixos, o primeiro diz respeito aos ensinamentos mais antigos, transmitidos pelo próprio Buda, o segundo eixo é chamado de Mahayana e o terceiro, de Vajrayana. Limitarei-me aqui a falar um pouco da Escola Mahayana, da Vajrayna, e a influência do budismo na China, Japão e o Lamaísmo. Lembrando que existem vertentes budistas no Vietnã, Tailândia,  Camboja, Laos, Taiwan, etc.


Mahayana


Segundo algumas histórias, Buda não apenas pregou para os homens e os deuses, mas também para os nagas, demônios e outros seres, e seus ensinamentos foram copilados por alguns monges e sacerdotes (curiosamente, Buda sabia ler e escrever, mas não deixou nada escrito). Então por volta do ano de 150 da era cristã, um monge budista chamado Nagarjuna, diz ter recebido dos nagas, a doutrina pregada pelo Buda a eles, assim surgiu o Mahayana (Grande Veículo). Nesta nova vertente do budismo, passou-se a designar as antigas doutrinas de Hinayana (Pequeno Veículo), Nagarjuna trazia novas propostas e mudanças para os ensinamentos budistas.


"Os dois veículos têm em comum as três características do ser (impermanência ou fugacidade, sofrimento e irrealidade do Eu), as quatro nobres verdades, a transmigração, o carma e o meio-termo. O Mahayana se distingue pelo idealismo absoluto". (BORGES, 1977, p. 67). 

No Mahayana procura-se atenuar as ideias de karma e de "aniquilação" para se alcançar o nirvana, enquanto Buda dizia que cada um deve construir sua própria salvação através dos preceitos da Senda Óctupla, o Mahayna profetiza que a outros meios de se alcançar esta graça, seja através da repetição do nome de Buda, de oferendas, orações, meditação, sacrifícios, etc. Buda não tinha a proposta de criar uma religião, mas mostrar o caminho para a salvação, o mesmo fez Jesus Cristo, sua ideia não era criar uma nova religião, a fé que eles deveriam ter era em Deus. Jesus se mostrava como um caminho para alcançar Deus, algo que é dito na Bíblia.

A Escola Mahayana, procura introduzir para os seus seguidores, meios mais abertos e menos conservadores do que foi proposto pelas escolas antigas, a ponto de chegar a divergências com os velhos preceitos. Para eles, o importante não é alcançar o nirvana em si, mas si o bodhi, as reencarnações seriam um caminho para isso. Até o próprio conceito de nirvana sofre algumas mudanças. 

No Mahayana acredita-se em vários Budas, sendo Siddharta Gautama o maior de todos, contudo profetizou-se que o próximo Buda retornará a este mundo no ano de 4457 da era cristã, com o nome de Maitreya, que significa "o Compromisso", "O Cheio de Amor".


Budismo Tântrico


Quanto a Escola Vajrayna, essa já toma um novo caminho em relação a escola Mahayana e o budismo tradicional. O Vajrayna também pode ser chamado de Budismo Tântrico e por outros nomes, este consiste numa vertente esotérica e mágica. A magia sempre foi algo comum na vida no Oriente, e mais ainda na Índia, desde tempos antigos. Assim, passou-se a mesclar as doutrinas mágicas e místicas aos ensinamentos de Buda. Não se sabe ao certo quando esta vertente surgiu, mas sabe-se que ela se divide em dois grandes eixos, chamados de a Mão Direita, que visa o principio masculino do universo, e a Mão esquerda que visa o principio feminino do universo.


No budismo tântrico, seus discípulos estudam através do canto de hinos, conjuros, tratados e descrições de seres místicos, que personificam as forças mágicas e da natureza.

"O budismo tântrico crê que a iluminação somente pode ser obtida por meio de uma doutrina esotérica que o mestre, o guru, ensina oralmente ao discípulo, o chela, e que não podemos encontrar nas escrituras sagradas. As práticas compreendem três métodos: a repetição de fórmulas, os gestos e as danças rituais e a meditação que nos identifica com determinadas divindades". (BORGES, 1977, p. 88).


Por volta do século X, as distintas escolas do budismo tântrico, chegaram ao ponto de deificar o Buda, passando a ter-lo como um deus, algo que no budismo original não se tinha. Além disso, o Tantra da Mão Direita, segue um caminho mais conservador em relação ao Tantra da Mão Esquerda, a qual viabiliza a importância das divindades femininas na doutrina, e o papel da mulher na religião, contudo, na Mão Esquerda diferente da Mão Direita, que diz para impedirmos de cedermos as tentações, a Mão Esquerda diz que certos "prazeres" podem ser consumados com moderação.


Tanto as escolas Mahayana e Vajrayana como o budismo tradicional se espalharam por outros locais da Ásia, neste caso falarei um pouco da China e Japão, mesmo tendo o budismo se espalhado pelo sudeste asiático e pego regiões hoje que pertencem ao Afeganistão e Paquistão.


Budismo na China


Na China, não se sabe ao certo em que ano o budismo foi introduzido na região, alguns historiadores apontam que o budismo fora introduzido na região por volta do século III a.C, por monges peregrinos, outros apontam que a introdução se deu no século I da era cristão, no governo do imperador Ming-Ti da Dinastia Han, o qual governou de 58 a 78. Segundo a tradição, o imperador já havia ouvido falar sobre o Buda, mas não conhecia sua doutrina, então numa noite ele sonhou com um homem iluminado, e acreditou que fosse o Buda, então pediu que trouxessem monges budistas para pregar no império. As escolas budistas chinesas, em sua grande maioria derivam da Escola Mahayana.


Todavia, quando o budismo independente da época que tenha chegado após o século III a.C, se deparou ao chegar em território chinês já com duas filosofias profundamente enraizadas na cultura chinesa, o Confucionismo e o Taoismo. O confucionismo advêm dos ensinamentos do filósofo Confúcio, já mencionado por mim anteriormente, onde sua filosofia priorizava uma conduta ética, moral, honra, lealdade, altruísmo, sabedoria, etc., contudo o Confucionismo não é uma religião, mas uma orientação de vida. Quanto ao Taoismo esse se apresenta tanto como uma filosofia de vida, como também uma religião baseada nos ensinamentos do Tao "Caminho", difundidos pelo filósofo Lao Tsé. 


Monges durante uma cerimônia em um templo em Hangzhou, China. 
Ambas as filosofias tomavam a vida dos chineses, e demorou que as ideias budistas se espalhassem e ganhassem novos adeptos, principalmente devido a alguns fatos, como a reclusão em uma vida monástica, o afastamento da família, algo que as outras filosofias pregavam o contrário. Sendo assim, de início os ensinamentos budistas ficaram restritos a poucos homens das classes baixas que buscavam ou eram enviados para a conversão nos vários templos que começaram a surgir. Mesmo com este significativo número de templos que surgiam ao longo do império, por muitos anos o budismo ficou renegado, houve épocas que os imperadores proibiram a divulgação de textos budistas ou a leitura destes pelas cidades. 

Bodhidarma
O budismo na China começou a se transformar a partir do século V, nessa época, várias escolas e seitas já haviam se estabelecido no país, e algumas procuraram mesclar ensinamentos do confucionismo e do taoismo, a fim de tornar a doutrina mais acessível aos costumes chineses. Foi também nesse período que um monge indiano chamado Bodhidarma chegou ao sul da China. Bodhidharma de vertente Mahayna trouxe para o país a tradição Ch'an, a qual ficaria conhecida no Japão pelo nome de Zen. Sua doutrina mesclava os preceito do Mahayana com novos ensinamentos, que incluíam posturas meditativas, chamadas no Japão de zazen. Tais posturas são uma característica desta tradição budista, a qual através da meditação procura-se alcançar o bodhi. Além desse fato, credita-se a Bodhidarma o ensinamento das artes marciais aos monges, e algumas lendas dizem que foi ele quem ensinou os primeiros preceitos do Kung Fu ou Wushu, aos monges shaolin, os quais representam a escola budista chinesa mais conhecida no Ocidente.


Não se sabe quanto tempo Bodhidharma viveu e passou viajando pela China, divulgando seus ensinamentos, mas existe uma lenda na qual diz que ele passou nove anos sentado diante de uma parede, meditando todos os dias, algo que passou a ser chamado de "olhar parede", uma prática divulgada em alguns livros budistas chineses. Ainda hoje o propósito desta prática ainda é incerto, mas tudo indica que era uma forma de se "desligar" deste mundo, a fim de se procurar o caminho para o bodhi.


Lamaísmo


O Lamaísmo ou budismo tibetano surgiu na região montanhosa do Tibete, o qual hoje faz parte do território chinês.


"O lamaísmo é uma curiosa extensão teocrática, hierárquica, política, econômica, social e demonológica do Mahayana". (BORGES, 1977, p. 75).


Diferente de outras escolas budistas, o lamaísmo se mostra como uma religião hierarquizada secular e monástica, até então no budismo tradicional, Buda nunca apresentou hierarquias entre seus discípulos, todos eram iguais, e nunca propôs uma secularização do budismo, algo que ocorreu com o Cristianismo, que acabou gerando a Igreja Apostólica Católica, e após seus vários cismas, as vertentes ortodoxas, protestantes e coptas.

O lamaísmo surgiu no século VII ou VIII, com o monge Padmasambhava, chamado também de Guru Rinpoche. O lamaísmo compartilha algumas características da Escola Varyjuna. Para os tibetanos, Guru Rinpoche foi o segundo Buda, o sucessor de Sidharta Gautama, para outros ele foi mais um dos Budas que viveram no mundo. Todavia, ele foi o fundador da mais antiga escola budista tibetana, a Nyngima


Pintura nepalesa retratando Padmasambhava (Guru Rinpoche).
Hoje existem outras escolas, mas me prenderei a falar essencialmente da organização do lamaísmo que tem como principal figura o Dalai Lama (Grande Rei). Os Dalai Lamas são os líderes religiosos da escola Gelug, e desde o século XIV com a aparição do primeiro Dalai Lama, Gedun Truppa (1391-1414) são os principais representantes do budismo tibetano e de sua política, desde o século XVII. 
Gendun Drup, o primeiro Dalai Lama.
O Dalai Lama, divide sua autoridade com o Panthohen Lama (Glorioso Mestre), ambos formam o poder temporal e espiritual do lamaísmo, algo visto nos papas, principalmente no período medieval. A palavra lama significa "mestre", denotando a hierarquização da religião, mesmo essa possuindo uma vertente popular, apenas os mestres recebem o título de lama. O lamaísmo possui uma série de liturgias, que o diferenciam de outras escolas, liturgias essas que pregam a leitura, o canto e a recitação dos textos litúrgicos, os saddahanas, o conhecimento da música, da pintura, da caligrafia, da escultura, o conhecimento dos antigos ritos místicos e mágicos. Existe uma forte presença demonológica nesta cultura, onde procura-se afastar os demônios e os maus espíritos, algo que também é visto em outras religiões e culturas do Oriente e Ocidente. 

Atual Dalai-Lama
Em algumas escolas do lamaísmo, não admiti-se o karma, para eles o que foi feito de bom e mau aqui será julgado no outro mundo, contudo não significa que não haverá mais reencarnações, independente de karma bom ou ruim. Todavia, no lamaísmo existe uma forte preocupação com a jornada que o morto deve fazer até o seu julgamento, algo não visto em outras escolas. Existe um livro chamado Barde-Thödol (Libertação Pelo Ouvido) o qual representa uma espécie de manual fúnebre no qual deve-se realizar todos os procedimentos fúnebres e as orações para guiar a alma até o Senhor da Morte, onde esta será julgada. Os antigos egípcios possuíam algo do tipo, em seu Livro dos Mortos. Atualmente o décimo quarto Dalai Lama, Tenzin Gytaso, se encontra em exílio do Tibete, devido a perseguição comunista sofrida pelos tibetanos nas décadas anteriores. Todavia, ele ainda é o líder espiritual e político do Tibete.


Zen Budismo

O chamado Zen budismo tem sua origem da tradição Ch'an, trazida para China por Bodhidharma, como dito anteriormente. No século VI esta tradição chegou ao Japão e ganhou o nome de Zen, posteriormente outras escolas budistas também chegaram ao país. O Zen budismo também foi introduzido em Taiwan e na Coreia, além de outros países. Um fato importante de se compreender sobre o Zen, diz respeito a busca do bodhi, chamado nesta tradição de satori.


De acordo com uma história, Bodhidharma foi interrogado pelo seu aluno Shen-Kuan, o qual havia dito para o mestre que não conseguia compreender os seus ensinamentos, que sua mente estava confusa e sem tranquilidade. Bodhidharma quebrou seu silêncio meditativo e lhe disse: "Mostre-me tua mente e te darei a paz", o discípulo respondeu: "Quando busco minha mente, não dou com ela". Bodhidharma sorriu e lhe disse: "Já estás em paz". Se recordarmos do principio do nirvana dito anteriormente, veremos que o monge Shen-Kuan, não estava longe de alcançar o nirvana e o satori.

Para se alcançar o satori é comum no Zen, utilizar-se do kean, o qual seria uma pergunta sem respostas lógicas. Todavia, de acordo com os ensinamentos do Zen, cada pessoa tem seu próprio tempo para alcançar ou não o satori, isso pode levar meses, anos ou décadas, o satori as vezes é representado pela metáfora de um relâmpago, o qual de forma tão sublime e de repente, ele acontece, assim é quando você alcança o satori

Claro que existem, outros meios de se alcançar o satori, como através da meditação, de exercícios físicos e mentais, já que o zen ensina as artes da pintura, poesia, música, caligrafia, da arquitetura, dos jardins, artes marciais, do arco e flecha, e existem histórias de métodos bem mais severos, que danificavam o corpo. Além destas artes e da meditação, o Zen também prega preceitos de etiqueta, cordialidade, respeito, educação, tradição, características vistas nas cerimônias do chá


Foto de um jardim de um templo zen no Japão. Os templos zen são conhecidos por seus belos jardins, os quais personificam a aproximação do ser humano com a natureza. 
"Para o Zen, os atos mais comuns podem ser executados com um sentido religioso e devem enaltecer a nossa vida". (BORGES, 1977, p. 98).

NOTA: Na China, por volta dos século XV e XVI foi escrito o conto A Jornada para o Oeste, no qual narra a viagem de um monge chinês para a Índia, a fim de resgatar pergaminhos budistas. Na jornada o monge terá que enfrentar muitos perigos e inimigos, então ele é auxiliado por um cavalo, um porco e pelo rei-macaco Sun Wukong. Tais histórias são bem populares no Oriente, e aqui no Ocidente, o que mais se aproxima desta história é a adaptação criada por Akira Toriyama, na série Dragon Ball. Onde Sun Wukong é conhecido pelo nome japonês de Son Goku
NOTA 2: Os templos budistas japoneses são conhecidos pelos seus belos e intrigantes jardins, o mais famoso é o do templo de Ryoan-Ji em Quioto.
NOTA 3: Os mais antigos templos shaolin existem há mais de mil anos. Desde então monges vem sendo treinados.
NOTA 4: O personagem Shaka, Cavaleiro de Ouro de Virgem da série Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya), segue uma doutrina budista, fato este que ele sempre aparece meditando, e tendo os olhos fechados para este mundo. Além disso, seus poderes fazem referências a conceitos budistas.  
NOTA 5: Quando o Dalai Lama morre, ele reencarna em uma criança, geralmente da classe baixa e camponesa. Então seus seguidores investigam todas as crianças que nasceram naquele momento, para identificar o próximo Dalai Lama.
NOTA 6: Os conceitos de reencarnação e karma também são compartilhados com o Espiritismo e a Teosofia.
NOTA 7: No hinduísmo Sidharta Gautama é considerado como tendo sido um dos avatares do deus Vishnu, sendo o penúltimo avatar do deus, já que os hindus aguardam a vinda do último avatar chamado Kalki.  
NOTA 8: As estátuas do chamado "Buda gordo" na realidade não são representações do Buda, mas são estátuas do deus japonês Hotei, um dos Sete Deuses da Sorte, ligados a prosperidade, a saúde, a felicidade, bom humor, a caridade, generosidade, etc. 

Referências Bibliográficas:
BORGES, José Luiz. Buda. Tradução de Alicia Jurado, São Paulo, Difel, 1977. Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 4, São Paulo, Nova Cultural, 1998.

WELLS, H. G. História Universal - volume II. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966. (Capitulo XXIV, pp. 101-110).