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Leandro Vilar

sábado, 19 de agosto de 2017

Para que serve a História?

Hoje na data de 19 de agosto, celebra-se no Brasil, o Dia do Historiador. Para comemorar essa data, redigi esse texto simples, para falar um pouco sobre o que o estudo da História tem a contribuir na nossa formação. Para que serve a História? Talvez você em algum momento da sua vida deve ter feito essa pergunta, ou ouvido falar, ou lido. Talvez você possa até mesmo ter feito essa pergunta a algum historiador ou historiadora, então aguardou uma resposta satisfatória. Mas a bem da verdade, nem sempre dispomos de uma resposta simples, a qual consiga abarcar toda a complexidade que consiste o estudo da História. Provavelmente alguns devem dizer que estudar a História é conhecer o passado. Essa é a sua função, ponto final. Essa resposta é demasiadamente simplista. Ela não está errada, pois uma das funções da história é conhecer os acontecimentos passados. No entanto, o estudo da história não se limita apenas a isso, ele possui um caráter social, que normalmente as pessoas não levam em consideração ou não o associam de imediato. 

Neste texto eu procurei falar um pouco a respeito das funções do estudo histórico. As respostas aqui que foram dadas a pergunta que apresentei no início, dizem respeito a concepção e conclusão de diferentes estudiosos, o que inclui também a mim, pois com base na minha experiência como historiador, deixo algumas contribuições pelas quais enxergo o valor de se estudar a história. Neste caso, para facilitar a leitura, preferi dividir essas funções em eixos temáticos, de maneira que torne mais perceptível essas diferentes contribuições. 

1) Primeira função: Memória

O estudo da História como hoje conhecemos, possui suas raízes na Grécia Antiga. Neste caso, os gregos antigos concebiam um grande valor a memória ao ponto de existir em sua religião e mitologia uma divindade a ela relacionada, chamada Mnemósine. Filha de Urano e Gaia, Mnemósine era uma das titânides, divindades da segunda geração divina. Ela não recebia cultos ou possuía templos, pelo menos, nada se conhece a respeito. No entanto, essa titânide teve nove filhas com Zeus, as quais ficaram conhecidas como as Musas: Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Essas nove deusas que se tornaram patronas das artes, especialmente da música e da poesia, tinham como função cantar os feitos dos deuses, principalmente após a vitória dos olimpianos contra os titãs. (BRANDÃO, 1986, p. 202-203). 

Aqui a ideia de cantar os feitos, não diz respeito apenas ao entretenimento e o enaltecimento, mas também a perpetuação da história. Era através de algumas músicas e poemas que o passado era preservado, era protegido do esquecimento, e com isso, as gerações futuras poderiam ter conhecimento deste. Tal fato se deve a condição de que o alfabeto grego somente surgiu por volta do século VIII a.C, antes disso, toda a tradição grega, sua religião, mitos, história, tradições, cultura etc., era transmitido apenas oralmente. Para que tudo isso não fosse perdido, a memória deveria ser exercitada, para evitar o esquecimento. Caso contrário não seria apenas mitos, poesias e orações que seriam perdidos, mas todo o conhecimento estaria perdido. Daí o apresso dos gregos pela memória e sua divinização. (VERNANT, 1990, p. 136-137). 

Essa ideia de preservar o passado e combater o esquecimento, torna-se ainda mais clara, quando passamos a saber que Clio era a musa da história. E curiosamente a deusa da história era filha da deusa da memória, e sobrinha do deus do tempo, Cronos. Aqui nota-se como os antigos gregos já apresentavam através de seus mitos essa trinca tempo-memória-história. 

No entanto, a memória não tinha apenas essa função de preservar o passado, mas era também entendida como uma forma de sobrevivência e combater a morte. Para os antigos gregos, o esquecimento era uma segunda morte. Nesse ponto Jean-Pierre Vernant (1990, p. 141) comenta que rememorar o passado era visto pelos gregos como uma "fonte de vida", a origem de tudo e todos. Logo, nota-se aqui uma oposição entre memória/vida e esquecimento/morte. 

"Em Hesíodo, essa pesquisa das origens toma um sentido propriamente religioso e confere à obra do poeta o caráter de uma mensagem sagrada. As filhas de Mnemosyne, ao lhe oferecerem o bastão da sabedoria, o skêptron, talhado em loureiro, ensinaram-lhe “a Verdade”. Elas lhe ensinaram o “belo canto” com o qual elas próprias encantam os ouvidos de Zeus, e que fala do começo de tudo. As Musas cantam, com efeito, começando pelo início, o aparecimento do mundo, a gênese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado revelado desse modo é muito mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Ascendendo até ele, a rememoração não procura situar os acontecimentos em um quadro temporal, mas atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual saiu o cosmo e que permite compreender o devir em seu conjunto". (VERNANT, 1990, p. 141).

"Qual é então a função da memória? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol". (VERNANT, 1990, p. 143).

Assim na perspectiva religiosa dos gregos, o morto quando ia ao Hades, ele ainda conservava sua memória, era o resquício de seu passado, sua ligação com a vida, com sua identidade, familiares e amigos. No entanto, se o morto fosse esquecido pela família, significava uma "segunda morte". Quando Aquiles decidiu ir à Guerra de Troia, ele buscava por glória eterna. Dessa forma seu nome ficaria na História. Mesmo após sua morte, seus feitos nunca seriam esquecidos. Aquiles teria uma "memória viva". 

No entanto, essa preocupação com o passado não era algo exclusivo da mitologia e da religião, a sociedade grega também dava grande importância a isso. A memória era essencial para que os costumes, tradições, normas, leis, ritos, conhecimentos etc., continuassem a existir, sendo necessária sua constante transmissão a cada geração de crianças que nascia. 


"A priori, a memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa. Mas Maurice Halbwachs, nos anos 20-30, já havia sublinhado que a memória deve ser entendida também, ou, sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes". (POLLAK, 1989, p. 201). 

Nesse ponto adentramos propriamente a importância do conhecimento histórico, no caso, citamos Heródoto de Halicarnasso (485/484-425/420 a.C) ficou conhecido como o "Pai da História"Em dado momento de sua vida, intrigado em saber a respeito dos povos vizinhos e dos acontecimentos militares das Guerras Médicas ou Guerras Greco-Persas (499-490/480-479 a.C), conflitos entre as cidades-Estados gregas contra o poderoso Império Persa, Heródoto se questionou como aquela guerra teria tido início, como os gregos teriam vencido aquelas batalhas, contra um inimigo várias vezes maior do que eles e mais poderoso? 

Mas além desse motivo de curiosidade, Heródoto alegava em seus livros que se fazia necessário preservar aquela história, para que os gregos futuros soubessem que houve uma época que a rivalidade entre eles foi posta de lado, para se confrontar um inimigo em comum. E mesmo numericamente em menor número e com menos recursos, ainda assim, eles conseguiram vencer a guerra e evitar de que a Grécia fosse conquistada pela Pérsia. (HERÓDOTO, 2006, p. 30). 

Essa preocupação de se preservar a história e o conhecimento no geral, ganhou reforço com o advento da escrita, e posteriormente com o surgimento das bibliotecas, arquivo e musues, os quais se tornaram templos da memória e do conhecimento. (LE GOFF, 1998, p. 426). Locais onde o passado poderia ser protegido do esquecimento, fosse esse ocasionado pela deterioração do tempo, ou motivado pela ignorância humana em querer destruir os escritos. 

Porém, a memória não se limita apenas as pessoas, textos, fotografias e imagens, ela também está presente nos objetos em geral, nos monumentos e nos lugares. Nesse ponto, podemos falar de um conceito de memória mais amplo, e até mesmo falar de patrimônio, o que também expande as noções sobre o passado, a memória coletiva, a tradição, a identidade etc. Para que isso fique mais nítido, apresentarei de forma simples o conceito de monumento, patrimônio e a ideia de "lugar da memória".

“A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (meminí). O verbo monere significa 'fazer recordar', de onde 'avisar', 'iluminar', 'instruir'. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. Quando Cícero fala dos monumenta hujus ordinis [Philippicae, XIV, 41], designa os atos comemorativos, quer dizer, os decretos do senado. Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte. O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos”. (LE GOFF, 1990, p. 536).

Enquanto, o sentido de monumento está mais associado a ideia de uma estátua, mausoléu, lápide ou outra construção que cujo propósito é se homenagear alguém ou algum acontecimento, o conceito de patrimônio é amplo e aplicável para distintas ocasiões, porém, nos interessa aqui o conceito de patrimônio histórico e cultural


"Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilidade e ubiquidade de seu presente, "patrimônio histórico" tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade". (CHOAY, 2001, p. 11).

No caso do patrimônio cultural diz respeito a qualquer forma de manifestação da cultura material (objetos, monumentos, edificações, ruas, praças, pontes etc) e da cultura imaterial (danças, ritos, costumes, músicas, saberes, celebrações, festejos etc.). Neste caso o patrimônio histórico e cultural consistem em formas de salvaguardar a História, no sentido da memória, da tradição, do conhecimento, da identidade. Preservando esses patrimônios, conseguimos manter antigos saberes, gestos e costumes, protegidos do esquecimento.

Quanto aos lugares da memória, normalmente se pensa que se trate de uma biblioteca, arquivo e museu, ou do lugar onde se encontra um monumento. Mas não é bem assim. 

"Além dos acontecimentos e das personagens, podemos finalmente arrolar os lugares. Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico. Pode ser, por exemplo, um lugar de férias na infância, que permaneceu muito forte na memória da pessoa, muito marcante, independentemente da data real em que a vivência se deu. Na memória mais pública, nos aspectos mais públicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memória, que são os lugares de comemoração. Os monumentos aos mortos, por exemplo, podem servir de base a uma relembrança de um período que a pessoa viveu por ela mesma, ou de um período vivido por tabela". (POLLAK, 1989, p. 202). 

Pelo comentário de Pollak percebe-se que os lugares de memória referem-se tanto a nossa memória individual e pessoal, mas a memória coletiva. No caso da memória coletiva consistem em lugares "construídos", como os monumentos, praças, parques, edificações etc., mas como descreveu brilhantemente Simon Schama, esses lugares podem ser a própria natureza. Florestas, campos, montes, colinas, rios, praias etc., lugares que sofreram a intervenção humana, que foram explorados e modificados de alguma forma. Schama menciona conflitos ocorridos no XIX, nas florestas polacas, em confronto com a dominação russa. Posteriormente ele recorda os lugares pelos quais os nazistas invadiram a Polônia, terra de seus avós. Lembremos que a História é o estudo das ações humanas no tempo e no espaço. Em geral focamos no tempo, datando tais acontecimentos, mas esquecemos de considerar os espaços onde isso ocorreu. 

2) Segunda Função: Conhecimento 

A segunda utilidade do saber histórico é o conhecimento. Aqui o abordo no sentido amplo, porém, adiante trarei algumas especificidades as quais a História apresenta serventia. A História nos permite conhecer uma vastidão quase incontável de acontecimentos, dados, fatos, informações etc., que marcam o desenvolvimento das sociedades. Todavia é comum ouvir as pessoas dizerem que não há serventia em se estudar o passado, pois ele já passou, está "morto". Geralmente as pessoas que pensam assim possuem essa opinião advinda de uma péssima formação escolar, na qual o estudo histórico era pautado em decorar datas e nomes, sem se aprofundar na importância da contextualização e crítica de tais acontecimentos; ou a pessoa tem preguiça de estudar, ou prefere manter-se ignorante. 

O historiador Marc Bloch (1886-1944) de forma humorada contava que estudar a História não era estudar o passado, mas estudar ação humana ao longo do tempo e do espaço. Estudar a humanidade vivendo em sociedade, desenvolvendo linguagens, conhecimentos, tecnologias, Estados, culturas etc. Estudar as transformações causadas pelos humanos no meio-ambiente. (BLOCH, 2001, p. 53-56). Tal opinião dita em plena crise da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), época que Bloch estava preso e escrevendo sua Apologia da História, já marcava o rompimento da visão tradicional e positivista de uma história pautada apenas nos "fatos crus e frios" por si só. 

Nesse ponto complemento o comentário de Bloch, com uma observação sagaz do historiador Edward Hallet Carr (1892-1982), o qual em seu livro O que é história? fez um comentário simples sobre o que seria o fato histórico. Neste caso, Carr indagava-se o que seria pertinente no estudo da História, e de certa forma, a serventia dessa informação. Ele cita o exemplo que em 11 de janeiro de 49 a.C, o general Júlio César atravessou o rio Rubicão, com suas legiões. Nesse ponto Carr diz que o método tradicional do ensino de história levaria os alunos a decorarem tal data, como um dos marcos da carreira militar de César. Mas qual seria a importância de saber que César atravessou um rio italiano em 11 de janeiro de 49 a.C? 

Aqui Carr (1996, p. 38-39), chama a atenção em dizer que não é a data por si só que torna algo importante para a História, mas o contexto no qual ela está inserida. O fato histórico não é a data em si, mas o que ele representa num âmbito macro e micro. Logo, entender os motivos que levaram Júlio César a atravessar o Rubicão naquela data? Por que ele decidiu seguir aquele caminho? O que ocorreu posteriormente? Isso sim, são informações úteis. 

Pois ao analisar o contexto no todo, saberemos que César desrespeitou uma ordem direta do Senado Romano ao adentrar a fronteira norte da Itália com suas legiões, ao mesmo tempo, que ele pretendia confrontar seus opositores, inimigos e aqueles que o traíram. A partir de tal acontecimento teremos o embate entre César e Pompeu e posteriormente o início de sua ditadura. Um governo de quatro anos no qual Júlio César empreendeu reformas que ainda hoje se fazem presentes, inclusive sua morte abriu as portas para a ascensão de seu sobrinho-neto, Otaviano, a vir anos depois fundar o Império Romano

Os comentários de Bloch e de Carr foram para elucidar que o conhecimento histórico não se limita ao passado por si só, ou aquela antiguada noção que estudar história é decorar datas e nomes. Pelo contrário, estudar história é compreender um escopo gigantesco de possibilidades: política, guerra, crises, economia, meios de produção, costumes, religiões, ritos, espiritualidade, tecnologia, ciências, artes, vestuário, objetos, relações sociais, relações de poder, classes sociais, legislação, direito, saúde, sexualidade, corpo, gênero, emoções, gostos, comportamento, doenças, meio-ambiente, cidades, o campo, o espaço geográfico etc. Isso é estudar história. É perceber que o conhecimento histórico pode ser útil para os mais distintos fins, embora alguns nem sempre positivos ou benéficos, como veremos. 


“No discurso histórico, o saber histórico torna-se um fator de cultura da interpretação, atua sobre o modo como as condições atuais da vida são experimentadas, interpretadas e, à luz das interpretações, gerenciadas praticamente”. (RÜSEN, 2007, p. 29).


Jörn Rüsen diz que este discurso histórico além de trazer, informar, apresentar e representar o conhecimento histórico e seus saberes; é dever seu ter alguma ligação cultural, alguma utilidade à vida prática como ele diz. É fornecer informações que possam ser utilizadas de alguma forma pelos leitores. Informações estas que levem a mudanças internas e/ou externas.

Heródoto decidiu estudar as Guerras Médicas para poder compreender como elas se iniciaram, quais os motivos que levaram a tais conflitos, como elas se desenvolveram, como a guerra chegou ao fim, e as consequências geradas por tais conflitos. Seguindo o pensamento similar, outro historiador de nome Tucídides (c. 460 - c. 400 a.C) também fez o mesmo, com o seu livro História da Guerra do Peloponeso, conflito ocorrido entre Atenas e Esparta ao longo de 431 a 404 a.C. Seguindo um posicionamento mais político-militar, Tucídides analisou os motivos que levaram a guerra, o seu desenvolvimento, desfecho e consequências iniciais. 

No entanto, o estudo da história não se limita apenas a conhecer sobre seu povo, país e cultura. Enquanto Tucídides se limitou ao contexto da Guerra do Peloponeso, Heródoto em quatro de seus nove livros, escreveu sobre a história e cultura de outros povos, como mencionado. Apesar de ele como homem de seu tempo, apresentar todo o discurso de superioridade grega, e ver os demais povos como bárbaros e civilizadamente atrasados, ainda assim, é notório algumas informações que ele transmite sobre aquelas culturas. Heródoto apresentava o interesse de conhecer outros povos e suas histórias. Na prática o conhecimento deve ser amplo e não limitador. Estudar história deve ser uma forma de levar o indivíduo a conhecer o mundo, e também a conhecer-se a si mesmo. 

Napoleão Bonaparte (1769-1821) na época que era aluno da Academia Militar de Brienne, se interessava particularmente por duas disciplinas, matemática e história. A matemática lhe serviu para os assuntos militares, pois ele formou-se como segundo tenente de artilharia, quando contava apenas 16 anos de idade (RIVOIRE, 1967, p. 4). No caso da história, Napoleão diz que essa serviu para lhe inspirar o "espírito de combate" (MARKHAN, 1963, p. 9). Primeiro para lutar pela independência da Córsega, sua terra natal, que na época estava sob controle da França. Através da história corsa ele procurou motivos para defender essa causa. Mas depois de desentendimentos com os revolucionários corsos, Napoleão decidiu abraçar de vez a nacionalidade francesa, passando a focar-se em tornar a França um império poderoso, restaurar sua glória de tempos passados, mesmo que fosse através da violência e da guerra. Nesse ponto, Napoleão se valeu de seu conhecimento histórico básico para planejar suas ambições. Não obstante, sabe-se que Napoleão chegou a discursar na Academia Francesa e até mesmo conversava sobre história e outros assuntos, enquanto esteve em campanha no Egito e na Itália. 

Mas se por um lado homens como Napoleão usaram o conhecimento histórico para conquistar e guerrear, outros como Abraham Lincoln (1809-1865) o usaram para tentar compreender práticas políticas, sociais, econômicas e culturais de seu país. Quando tinha vinte e poucos anos, Lincoln após ter perdido as eleições para a Assembleia Geral de Illinois, posteriormente decidiu focar nos estudos. Como era um leitor ávido, estudou por conta própria Direito e história, vindo a se formar em advocacia em 1836, aos 27 anos. Depois disso manteve-se como advogado e político. Lincoln desde cedo já defendia o fim da escravidão em todo país, algo que somente conseguiu efetivar em 1865, ano de sua morte. Além disso, ele também defendeu ao longo de sua carreira meios para inserir socialmente os ex-escravos na sociedade americana, pois mesmo alforriados, eles vivenciavam um forte preconceito. Apesar que sua ideias acabaram não recebendo adeptos. (DONALD, 1996, p. 64, 125). 

O conhecimento histórico pode ser usado tanto para fazer o bem ou para fazer o mal, isso dependerá do caráter, princípios, desejos, ambições e sonhos da pessoa. Conhecer a história da nossa cidade, estado, país, povo ou de outras culturas, nos leva a ampliar nossos valores, juízos, ideias, pensamentos, opiniões etc. No entanto, é importante ressalvar que o estudo da história não é algo sempre belo, existem muitos horrores e verdades cruéis, que as vezes alguns se negam a aceitar. 


“A acusação esquece a grande diferença de que nossos tribunais (sejam jurídicos ou morais) são tribunais de hoje, destinados a homens vivos, ativos e perigosos, enquanto que aqueles outros homens já compareceram ao tribunal de seu tempo e não podem ser condenados ou absolvidos duas vezes. Eles não podem ser responsabilizados perante qualquer tribunal, qualquer que seja, apenas por serem homens do passado, que pertencem à paz do passado e como tal só podem ser sujeitos da história e não podem passar por outro julgamento a não ser por aquele que penetre e compreenda o espírito de seu trabalho... Aqueles que, sob a alegação de narrarem história, agitam-se como juízes, condenando aqui e absolvendo lá, porque pensam que esta é a função da história... são geralmente reconhecidos como desprovidos de sentido histórico”. (CARR, 1996, p. 92-93 apud CROCE, 1941, p. 47).

3) Terceira Função: Legitimação

Retornando a concepção cultural dos gregos antigos, mais uma vez, para aquele povo a tradição era algo bastante importante (na prática tal concepção não é exclusiva dos gregos, vários outros povos do mundo prezavam pela manutenção das tradições). Nesse sentido, conhecer o passado através da história, era o meio pelo qual podia se justificar e entender o presente, mas também legitimar a existência de determinadas práticas, condições, benefícios, direitos, costumes, comportamentos, instituições etc. 

Para os gregos a política, a autoridade, o direito de governar, as instituições, o nome dos lugares, as linhagens familiares, os costumes, crenças e ritos, possuíam uma forte justificativa no passado. Conhecer o passado era conhecer a origem do tempo presente. Neste caso, tornou-se notório a atenção que os gregos davam a genealogia divina e de suas famílias. Como forma de se legitimar o poder de uma determinada família, era comum traçar parentesco mesmo que longínquo e incerto, com algum herói ou deus. Pois uma origem divina era algo que sobressaia-se dentro daquela sociedade. De fato, muitos heróis gregos eram de estirpe nobre. (FUNARI, 2002, p. 17). 

Como dito, os gregos não foram os únicos a utilizar a história como fator de legitimação. Na prática todos os povos fizeram isso ou ainda o fazem. Os faraós egípcios defendiam sua autoridade divina através de uma sucessão sagrada, sendo eles deuses-encarnados. Inclusive a prática do incesto real era defendida como maneira de não "contaminar" aquele sangue divino. Na Roma Antiga, o poeta Virgílio (70-19 a.C) se notabilizou por criar a ideia de que os romanos seriam descendentes do troianos, tendo Eneias como herói ancestral. O historiador Tito Lívio (59 a.C-17 d.C) remontava a origem de Rômulo e Remo como sendo descendentes dos troianos e até mesmo do deus Marte

Alguns acontecimentos históricos foram até mesmo usados para se legitimar crimes e atrocidades. Adolf Hitler (1889-1945) tomou o discurso do antissemitismo para propagar suas ideias revolucionárias e autoritárias. Inclusive como justificar sua teoria da "raça ariana" e a prática do Holocausto. O Apartheid (1948-1994) na África do Sul, era a alegação de uma minoria branca de ascendência britânica (pois a África do Sul havia sido até 1910, colônia britânica), que ainda mantinha grande influência e interesses no país, como forma de reconquistar o poder, passando-se a inserir um sistema de segregação que resgatava a desigualdade social e racial vigente nos tempos da escravidão. 

Por outro lado, acontecimentos históricos também foram usados para legitimar a disputa de territórios ou a separação destes. A disputa do Arquipélago das Malvinas entre Argentina e Inglaterra também é pautado em conflitos oriundos lá em 1833. Oficialmente o arquipélago chamado Falklands em inglês, está sob domínio do Reino Unido, porém, o governo argentino ainda não desistiu dessa disputa. A independência do Paquistão, ocorrida em 14 de agosto de 1947, anteriormente território indiano, se deveu principalmente por diferenças culturais e religiosas, devido ao predomínio de uma população muçulmana. Fatores similares também foram usados para se fundar o Estado de Israel em 1948, território ainda hoje conturbado, devido aos conflitos entre extremistas judeus, cristãos e muçulmanos, especialmente no que tange a região histórica da Palestina e seu papel sagrado para essas três religiões. 

Conhecer a história é uma forma de legitimar estas continuidades, mudanças, reformas e até mesmo tradições. Nesse ponto o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) na introdução do livro A invenção das tradições, comentava como situar algo num passado longínquo ainda hoje possui um peso de legitimidade poderoso. Ele cita inicialmente o caso de que algumas tradições da Corte Britânica consideradas pelo senso comum como sendo algo antiquíssimo, na verdade, foram instituídas no século XIX e começo do XX. A ideia de antigo nesse contexto consiste num argumento forte para influenciar a adoção de determinada tradição. Curiosamente alguns movimentos sociais e culturais hoje em dia tendem a procurar algum indicativo mínimo que seja, na História, para tentar legitimar suas causas, mesmo que as vezes esse indicativo não exista, e acaba-se apelando para uma farsa ou distorção histórica. (HOBSBAWM, 2008, p. 9-10). 

O historiador e filósofo Jörn Rüsen (2007, p. 40-44) também comenta que a tradição está diretamente ligada com a memória e a identidade. Para ele a "consciência histórica", ou seja, a noção que o indivíduo possui sobre o tempo histórico (passado e presente), permite que ele tenha ciência de que a tradição é uma forma de manter o passado "vivo e atual", legitimando o presente em distintas situações, assim como, é também meio pelo qual se constitui identidades (algo que voltarei a comentar adiante). 

4) Quarta Função: Exemplos de vida

É provável que alguém já tenha ouvido ou lido  que uma das funções da História seria servir de exemplo, para que assim aprendêssemos com os acertos e erros do passado. De fato essa noção é bastante antiga e se perde no tempo. Em diferentes sociedades as pessoas procuravam eleger referenciais, modelos de comportamento, ação, dedicação, coragem, sabedoria, honra, sucesso, fracasso etc. Elegiam também acontecimentos que deveriam ser guardados na memória coletiva daquela sociedade, para lhes servir de esperança, inspiração ou de recordação de algo ruim e até mesmo de aviso para que aquilo não fosse repetido. 

Entre distintos povos, possuímos histórias orais e escritas sobre homens (histórias de mulheres são bem raras), os quais serviam de bom exemplo ou de mal exemplo, embora que as vezes essa divisão nem sempre era clara. Porém, há uma ressalva aqui a ser feita. Devido ao fato de não haver uma separação nítida entre história, mito e religião, é comum você encontrar obras de teor poético, mitológico e religioso servindo de exemplo para pessoas, mesmo que do ponto de vista da ciência histórica, não haja certeza se tais indivíduos e acontecimentos realmente existiram. Dessa forma, optei em trabalhar com alguns exemplos históricos, ainda que não fossem tão precisos. 

Os gregos foram um dos primeiros a se especializarem no gênero biográfico, escrevendo biografias sobre seus políticos e heróis de guerra. Porém, foram os romanos que popularizaram esse relato, pelo menos, no que se refere ao mundo europeu. Marco Túlio Cícero (106-43 a.C), orador, político, escritor e filósofo romano escreveu em seu livro Da Oratoria, que a História seria uma magistra vitae (mestra da vida), uma fonte de exemplos. 

"Assim, a história seria um cadinho contendo um objetivo pedagógico; ou, nas palavras de um dos antigos, a história deixa-nos livres para repetir sucessos do passado, em vez de incorrer, no presente, nos erros dos antigos. Assim, ao longo de cerca de 2 mil anos, a história teve o papel de uma escola, na qual se podia aprender a ser sábio e prudente sem incorrer em grandes erros". (KOSELLECK, 2006, p. 42). 


“Coletânea de exempla, ela é a ‘mestra da vida’ (magistra vitae). Visando formar o cidadão e esclarecer o político, ela deve também ser capaz de servir para a instrução do ser humano individual. Narrativa das inconstâncias da Fortuna, ela deve ajudar a suportar as reviravoltas de situação, propondo exemplos para imitar ou evitar. Transformando-se, desde então, de bom grado, em história de vidas, ela se mostra atenta a tudo o que não se vê imediatamente, a todos os indícios que Plutarco designa especificamente como os ‘sinais de alma’. Ela serve-se do encadeamento: admiração, emulação e imitação. História filosófica, ou seja, moral, ela é o espelho em que cada um, através dos retratos esboçados e do relato de episódios secundários, pode observar-se com o objetivo de agir em melhores condições e se tornar melhor”. (HARTOG, 2011, p. 178-179).

Apesar de Cícero não ter sido o inaugurador desse pensamento, pois como comentado, essa ideia é bem anterior aos romanos e aos gregos, remontando povos mais antigos como os egípcios, hebreus, babilônios, sumérios, hindus, chineses etc., os romanos procuraram levar isso bem a sério, especialmente no que se refere a escrita de biografias. Naquele caso, a biografia não era apenas uma forma de enaltecer o biografado, ou uma leitura de entretenimento, mas também um "serviço público", ao fornecer a história de pessoas ilustres que teriam a contribuir de forma positiva para a sociedade. No caso, biografar a vida de gente desonesta, depravada, mal caráter também era válido, pois servia de exemplos reprováveis, os quais não deveriam ser seguidos. 

Nesse ponto, destacam-se na história romana dois biógrafos, Plutarco (c. 46-119/120) e Suetônio (69-141). No caso do primeiro, Plutarco é conhecido por sua série de biografias intitulada Vidas Paralelas, onde em cada livro ele colocava dois exemplos de governantes ilustres, um de origem grega e outro de origem romana. A ideia não era confrontar ambos para ver quem foi o melhor, mas mostrar as qualidades e alguns defeitos destes homens renomados. Pelo fato de Plutarco ser de origem grega, mas viver no Império Romano, isso facilitou seu contato com os dois povos. Por mais que suas biografias tenham se tornado famosas em seu tempo, hoje sabe-se que elas não são totalmente precisas. Mas para o contexto da época tinham validade.

No que se refere a Suetônio, esse ficou famoso por escrever a biografia de Júlio César e de 11 imperadores romanos, no livro intitulado A Vida dos Doze Césares. Diferente das biografias de Plutarco, Suetônio ficou conhecido por ser mais sensacionalista, focando seus relatos nas polêmicas relacionadas aos governantes romanos, mesmo que algumas não passassem de boatos maldosos. Enquanto Plutarco procurou exaltar o lado bom dos biografados, Suetônio fez o oposto, focou-se em mostrar o lado podre dos imperadores romanos, para que servissem de exemplo de como não se comportar, agir e viver. 

Essa ideia de história magistra vitae continuou a ser reformulada ao longo da História. O cristianismo católico, ortodoxo e copta a utilizou para enaltecer a vida de Jesus Cristo, a Virgem Maria, os profetas e santos como sendo exemplos de vida para os cristãos. Inclusive é notório entre os católicos e ortodoxos a profusão de hagiografias (biografia dos santos), especialmente na Idade Média e começo da Idade Moderna. Mesmo o cristianismo protestante também aderiu a essa noção de serventia da História, exaltando Cristo, mas também os teólogos reformadores como Lutero e Calvino

Mas para fora do âmbito religioso cristão, outros segmentos da sociedade europeia também criaram suas visões sobre modelos de homens ilustres que deveriam ter suas histórias lidas. Um exemplo diz respeito aos Nove da Fama, um conjunto de nove cavaleiros que se tornaram o ideal do cavaleiro pagão, judeu e cristão. Isso foi algo tão marcante, principalmente pelo fato das histórias sobre estes homens serem mais contadas em músicas, romances e poemas do que em biografias propriamente. Inclusive o próprio Miguel de Cervantes (1547-1616), autor do famoso romance Dom Quixote de La Mancha (1605/1615), uma paródia as histórias de cavalaria, expressou a seguinte frase: "A História é émula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro". 

Mas essa concepção de usar a História como repositório para aprender noções de moralidade, caráter, decisão, opinião, juízo etc., ainda hoje é mantida em vários países do mundo. Nas escolas ainda aprendemos os nomes dos chamados "heróis nacionais", grandes homens (hoje em dia já se acrescentam também mulheres, ainda que sejam poucas) que ajudaram a construir o país. De fato para além dessa utilidade como modelo social, isso também está associado com noções de nacionalismo e patriotismo, algo que comentarei na próxima função. 

“A consciência histórica tem por objetivo, pois, extrair do lastro do passado pontos de vista e perspectivas para a orientação de agir, nos quais tenham espaço a subjetividade dos agentes em sua busca de uma relação livre consigo mesmo e com o seu mundo". (RÜSEN, 2007, p. 33-34). 

5) Quinta Função: Identidade

Identidade não se refere apenas ao documento que você possui para ser identificado pelos autoridades do país em que vive, ou em que está visitando. Aqui aborda-se identidade no sentido das características comportamentais, sociais e culturais pelas quais você apresenta-se perante a sociedade em que você vive e convive. No caso, a forma como você se veste, fala, seus gostos pessoais, opiniões, valores, crenças etc., são reflexos de sua identidade sócio-cultural. Atualmente a filosofia, a história, a antropologia, a sociologia e a psicologia possuem suas definições de identidade. Inclusive elencam-se mais de um tipo, onde podemos falar de identidades pessoal, social, cultural, de gênero, étnica, nacional, regional, territorial etc. (SILVA; SILVA, 2009, p. 202-203).

Devido a complexidade dos conceitos de identidade, optei em abordá-lo de forma mais simples, sendo objetivo. No caso para este estudo, escolhi os conceitos de identidade cultural, étnica e nacional, as quais estão bastante associadas com fatores de ordem histórica. No que se refere a ideia de identidade étnica, essa diz respeito ao indivíduo ver-se como membro de um determinado povo. Não devemos confundir povo necessariamente com a ideia de Nação, pois uma Nação pode ser formada por vários povos. No caso da identidade étnica, o indivíduo se considera pertencente a uma determinada comunidade que compartilha características culturais em comum. Logo podemos falar dos judeus, bosquimanos, zulusindígenas, aborígenescurdos, sámis etc., povos que habitam ao lado de outros povos, mas que acabaram mantendo ao longo da História, uma identidade pessoal. Citemos o caso do Brasil. Neste todo cidadão é brasileiro pela definição da Constituição, porém, existem descendentes de 300 etnias indígenas, os quais se consideram possuindo uma identidade nacional (brasileira), étnica, social, pessoal etc. 

No que se refere a identidade nacional, essa está bastante ligada as ideias de patriotismo e de nacionalismo. Cada Estado-nação possui seus símbolos nacionais definidos, o que normalmente chamamos de patrióticos: bandeiras, hinos, brasões, selos, emblemas, mascotes etc. Além disso, o patriotismo também se vale do apego a terra (pátria), a representatividade esportiva, o amor pelo país e seu povo etc. Por sua vez, o nacionalismo normalmente é confundido com o patriotismo, mas são coisas diferentes. O nacionalismo não diz apenas respeito aos símbolos patrióticos, mas as características identitárias pelas quais um povo se reconhece. No caso o nacionalismo expressa principalmente através das artes, costumes, tradições e outros aspectos sociais e culturais. O nacionalismo inclusive serve de fundamento político, podendo ser utilizado de diferentes formas para embasar ideologias políticas, sociais, econômicas, culturais etc. 

A História entra nesse tema da identidade, pois é através dela que se constrói as bases e argumentos para se sustentar as identidades étnicas, sociais, culturais, nacionais etc. Heródoto em seus livros apresentava características culturais que definiam os gregos e os outros povos. Nesse ponto, um dos conceitos fundamentais para a elaboração de uma identidade é a concepção de unicidade e diferença. No exemplo de Heródoto, ele elencava motivos pelos quais os gregos eram gregos, e não egípcios, persas, citas etc. Para isso ele não apenas definia características em comum da sociedade grega, mas elencava diferenças vistas em outras sociedades, as quais a tornavam possuidoras de outras identidades. 

O patriotismo e o nacionalismo somente são possíveis principalmente por causa da História, pois é através dela que se encontram exemplos, fatos, motivos, costumes, tradições, a memória em si. Não sendo a toa, que em governos ditatoriais é bastante comum a exaltação e até mesmo manipulação histórica do passado, para se criar uma memória gloriosa e forte, para justificar práticas presentes. Dois casos bastante interessantes ocorreram no Nazismo e no Fascismo, ditaduras de extrema-direita, com líderes totalitários e bastante carismáticos os quais desenvolveram uma forte propaganda nacionalista que inculcava entre alguns valores, o expansionismo territorial (lembrando que na época o neocolonialismo ainda estava em vigência, logo Alemanha e Itália invadiram outros países). No caso Hitler concebeu o arianismo e Mussolini resgatou a imagem ideal do Império RomanoJunta-se tudo isso para se fundamentar fatores pelos quais explicam determinadas especificidades socioculturais de um país. 

Inclusive isso é algo bastante sério. Recordemos o caso das Ilhas Malvinas, disputadas desde os século XIX entre argentinos e ingleses. Ou a problemática da Palestina no coração de Israel. Ou movimentos separatistas como dos bascos na Espanha e dos curdos na Síria. Até mesmo a independência do Kosovo e do Sudão do Sul, dois dos países mais novos do mundo, estavam relacionadas a questões de identidade. Aqui nos recordemos do papel da memória e da legitimação concedidos pela História, características que se unem na causa identitária. 


"A identidade como uma construção relacional, ou seja, para existir ela depende de algo fora dela, que é outra identidade. Além disso, precisamos considerar que toda identidade é uma construção histórica: ela não existe sozinha, nem de forma absoluta, e é sempre construída em comparação com outras identidades, pois sempre nos identificamos como o que somos para nos distinguir de outras pessoas". (SILVA; SILVA, 2009, p. 204). 

Mesmo a identidade pessoal também é afetada pela História. O local onde você viveu; as pessoas com as quais conviveu; sua educação familiar, escolar e universitária; seus gostos, suas opiniões, valores, crenças etc., isso eventualmente direta ou indiretamente é influenciado pelas identidades que o cercam, as quais cooperam na sua própria formação. Inclusive é comum em alguns casos, as pessoas indagarem aos mais velhos, ou a professores ou até mesmo a pesquisar nos livros ou na internet a História, para entender porque certos comportamentos, crenças, opiniões, juízos, valores, instituições, costumes, tradições etc., existem ainda. Além do fato, de isso também servir como motivo para que o indivíduo adote determinada identidade ou não. 


"Todo ser humano tem consciência do passado […] em virtude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que interessam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colônias mais inovadoras são povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que já conta com uma longa história. Ser membro de uma comunidade humana é situar-se em relação ao seu passado (ou da comunidade), ainda que para rejeitá-lo. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana". (HOBSBAWN, 1998, p. 22).

6) Sexta Função: Cidadania

A serventia do saber histórico para o desenvolvimento da cidadania nem sempre foi algo regular. Ela tornou-se mais recorrente quando a educação tornou-se algo obrigatório nos Estados, assim como, tornou-se necessário fundamentar políticas nacionalistas para se gerar uma identidade homogênea e patriótica, de forma a evitar revoltas internas, movimentos separatistas, dissidências etc. Por fim, soma-se também a proposta de se educar a população para que evitasse recorrer em comportamentos legalmente reprováveis, que pusessem em risco a convivência em sociedade, ou fomentasse a desordem, a criminalidade e a insurreição contra as instituições governamentais. 

O conceito de cidadania surge também na Grécia Antiga, apesar que sua noção naquele tempo é bem diferente. O conceito atual começou a surgir no século XVIII, tendo algumas revoluções que contribuíram para reforçar isso, como a Revolução America (1776-1783) e a Revolução Francesa (1789-1799) dois acontecimentos marcantes na História, que levaram a se repensar as noções de cidadania ao longo do XIX e posteriormente. 


"A rigor podemos definir cidadania como um complexo de direitos e deveres atribuídos aos indivíduos que integram uma Nação, complexo que abrange direitos políticos, sociais e civis. Cidadania é um conceito histórico que varia no tempo e no espaço. Por exemplo, é bem diferente ser cidadão nos Estados Unidos, na Alemanha e no Brasil. A noção de cidadania está atrelada à participação social e política em um Estado". (SILVA; SILVA, 2009, p. 47). 

Nesse sentido, ser cidadão antes de tudo é pertencer a um Estado-nação, o qual através de sua Constituição e Leis, estabelecerá juridicamente os direitos e deveres de seus cidadãos. No caso, estudar a História ajuda a entender o papel da cidadania, avaliando como essa noção foi sendo formada ao longo do tempo, como ela foi mudando, assim como, também abre espaço para entender as variações políticas, sociais e culturais que afetam diretamente nossos direitos e deveres, como também amplia nossa visão sobre outros países. Pois como citado acima, a forma como um país estabelece o que é ser cidadão, varia. 

Para que um indivíduo possa se efetivar como cidadão na sociedade em que vive, se faz preciso que ele saiba que tipo de sociedade ele habita, como ela se formou, quais são seus preceitos legais, jurídicos, políticos, econômicos, religiosos, sociais e culturais. Quem são o povo ou povos que vivem naquele país, como é a interação entre as classes sociais, os problemas que o país vivencia. Quais são os benefícios de viver naquele Estado. O que a Constituição fala a respeito de ser cidadão, e o que é ser um bom cidadão. 

Aqui apenas para intento de reforçar a ideia, o Estado procura através principalmente da educação escolar (pois corresponde a fase que a pessoa está desenvolvendo sua identidade e caráter), que a criança e o adolescente sejam instruídos a serem pessoas honestas, gentis, trabalhadoras, disciplinadas, respeitadoras, tolerantes, críticas etc. Pelo menos na teoria, a prática é outra história. De qualquer forma, a educação deve proporcionar também valores morais os quais deve-se evitar o crime, o desrespeito, a intolerância, o preconceito, a segregação, a marginalização etc. 

"A compreensão de cidadania em uma perspectiva histórica, como resultado de lutas, confrontos e negociações, e constituída por intermédio de conquistas sociais de direitos, pode servir como referência para a organização dos conteúdos da disciplina histórica. A partir de problemáticas contemporâneas, que envolvem a constituição da cidadania, pode-se selecionar conteúdos significativos para a atual geração. Identificar e selecionar conteúdos significativos são tarefas fundamentais dos professores, uma vez que se constata a evidência de que é impossível ensinar “toda a história da humanidade”, exigindo a escolha de temas que possam responder às problemáticas contundentes vividas pela nossa sociedade, tais como as discriminações étnicas e culturais, a pobreza e o analfabetismo". (PCNEM, 1999, pp. 304-305).

Nesse caso, o estudo histórico faz parte da proposta governamental para o desenvolvimento da educação, não apenas no sentido de fornecer conhecimentos que serão necessários para o desenvolvimento intelectual, assim como, permitir que o cidadão possa futuramente fazer suas escolhas relacionadas ao ensino superior e sua profissão. Porém, a educação escolar também deve fornecer informações referentes a sociedade, a cultura, política, economia, religião, direito etc. 

Nesse ponto, estudar a História contribui para este conhecimento. Não apenas para entender o desenvolvimento histórico do conceito de cidadania, mas entender como ao longo da História, os direitos civis, sociais, jurídicos e humanos foram sendo criados ou renegados. Saber que houveram épocas que as pessoas eram feitas escravas, tratadas como animais ou objetos; a justiça não era bem delineada; a violência imperava; direitos trabalhistas praticamente inexistiam; constituições não existiam; noção de cidadania também era ínfima; o Estado poderia ser tirânico; países não se respeitavam e viviam em guerra; a miséria, o preconceito e a intolerância eram algo comum etc. Isso tudo nos revela como nossos direitos se desenvolveram, como se faz necessário evitar que tais atrocidades e condições voltem a ocorrer no presente. 

7) Sétima Função: Senso crítico


Assim como as ciências em geral requerem de quem a estudam, a capacidade de criticar suas informações o mesmo é válido para o estudo histórico, embora que em geral as pessoas não tenham o hábito de fazer isso. Tomam os fatos históricos como se fossem dados exatos (salvo alguns casos), onde baseiam-se que o ocorrido naquela data é o ponto final daquele relato. Mas não é bem assim. A história necessita bastante de senso crítico. O historiador Pierre Nora (1993, p. 3) uma vez disse que a "história era a reconstrução problemática e incompleta de algo que já passou". Não é um dado pronto. Apesar de parecer que o seja, principalmente quando estamos a ler um artigo ou livro, não levamos em consideração o esforço para se escrever aquele relato. Nora prossegue dizendo que a "história é uma operação intelectual, laicizante que demanda análise e discurso crítico". 

Infelizmente o número de tolices, anacronismos e falsidades que são ditos hoje, principalmente nas redes sociais, revela como a falta deste senso crítico é agravante. 

O fato de pessoas defenderem teorias ultrapassadas e desmentidas como da "Terra Plana" ou da "Terra Oca". O fato de dizerem que o Nazismo e Fascismo foram ditaduras de esquerda; de dizerem que na América do Sul não houve ditaduras militares, mas foram "regime militares"; de dizerem que o Capitalismo se limita apenas ao livre mercado e sua autonomia gerencial; o fato de dizerem que o Holocausto não existiu; que o Comunismo prega o totalitarismo; que o racismo em países americanos não existe, mas é "vitimismo" dos negros. Isso entre outras sandices são compartilhadas diariamente nas redes sociais. Sem contar o fato de que em muitos casos, as pessoas quando falam de política, dizem defender determinada ideia, que não diz respeito ao seu posicionamento político. 

Já vi gente dizer ser a favor da monarquia, mas ser contrário o centralismo estatal e dizer que isso era invenção do Fascismo. Já vi gente dizer que o Capitalismo só possuía uma característica e é a mesma desde o século XIX, ignorando que a economia e a sociedade mudaram ao longo da História. Já vi gente que diz ser de direita, mas defende o fim do Estado, uma ideal anarquista ou comunista. 

Para evitar que tais erros ainda continuem ser difundidos se faz necessário um estudo profundo dos acontecimentos históricos, mas em geral as pessoas optam pelo caminho mais fácil, além de acabarem sendo ingênuas e/ou tolas os suficiente para acreditar em textos escritos por pessoas inexperientes, despreparadas, sensacionalistas, hipócritas, que acabam tentando deturpar os acontecimentos ou inventam que são os outros que fizeram isso, alegando serem defensores de uma "verdade" que não existe como eles pregam.

Jörn Rüsen (2007, p. 45-47) abordando a questão do papel do raciocínio e da crítica, comenta que cabe ao indivíduo que possui conhecimento histórico, lutar contra injustiças e ameaças. Aqui Rüsen propôs quatro princípios: tradição, regularidade, negação, transformação. Mas essencialmente o que Rüsen quer chamar a atenção é que o sujeito possa criticar o saber histórico e procurar utilizá-lo de forma prática para questionar determinadas tradições que se apresentem incompatíveis com a cultura e sociedade atual; que o sujeito consiga regular as experiências do passado, tirando algum tipo de proveito; que o indivíduo possa se posicionar contrário a arbitrariedades, injustiças, perigos etc., não aceitando que o Estado, instituições, empresas, pessoas etc., tomem determinadas decisões que ameacem os direitos civis, jurídicos, sociais e humanos. Que fomentem discursos preconceituosos, descriminatórios e violentos. Por fim, o indivíduo deve reconhecer que as sociedades e suas culturas mudam, e que determinados acontecimentos problemáticos, desumanos, cruéis etc., não voltem a se repetir. O mundo está em constante transformação, e deve ser guiado sempre para o progresso, não para novos obstáculos e retrocessos.

“Os princípios estão interligados de forma extremamente complexa. Condicionam-se mutuamente e opõem-se ao mesmo tempo. Constituem num conjunto de ligações dinâmicas, cujo formato varia conforme as circunstâncias sob as quais as orientações históricas se tornam necessárias na vida prática”. (RÜSEN, 2007, p. 47).

Todavia, na prática isso custa a acontecer. As pessoas em geral decidem se tornar passivas frente aos problemas de sua cidade, estado e país. Preocupam-se mais em condenar problemas de outras nações, perdendo tempo em discussões vãs, e esquecer que problemas similares estejam ocorrendo no bairro vizinho. Por outro lado, também há casos de pessoas que ainda continuam a defender ideologias racistas, preconceituosas, autoritárias e violentas, as quais mostraram que falharam no passado e estavam erradas. Nota-se aqui como a reflexão da História não ocorre, ou quando ocorre, não foi devidamente feita. 


Considerações finais: 

Após esse texto introdutório, espero que tenha ficado claro algumas das funções do saber histórico. Que os leitores da próxima vez que lerem a respeito da História, estejam mais cientes de seu papel memorialista, legitimador, identitário, cidadão, social, crítico, exemplar etc., Que possam procurar alguma utilidade para este vasto campo do conhecimento. Vocês não precisam ser revolucionários, líderes, militantes para porem em prática algo que aprendeu com a História. 

Vocês podem encontrar outros usos para este saber. Podem se tornar mais críticos, mais sábios, menos alienados. Podem ampliar sua noção sobre o mundo e refletir sobre o que querem da vida. Podem se tornar melhores cidadãos. Podem decidir solucionar problemas, desenvolvendo tecnologias, pesquisas, estudos, projetos, propostas, nos mais distintos campos. Podem tentar corrigir erros que ainda perdurem atualmente, por decisões errôneas, hipócritas, interesseiras ou egoístas tomadas. 
Estudar a História é entender porque nosso presente se comporta dessa maneira, pois ele é o resultado direto e indireto das decisões de várias pessoas. É o resultado de expectativas, desafios, problemas, projetos, consequências, negligências, escolhas, acertos, erros, esperanças, sonhos, frustrações e medos. De fato, o futuro que nós queremos seja para nós mesmos ou nossos descendentes dependerá das ações que hoje estamos fazendo. O que você fez ou deixou de fazer, poderá de alguma forma afetar sua vida, a vida de sua família, da sua comunidade e sociedade em que você vive. 

Referências bibliográficas: 
BLOCH, Marc. A Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. 1. Petrópolis, Vozes, 1986. 3v
CARR, Edward Hallet. Que é história? 3a ed, 7a reimpressão. São Paulo, Paz e Terra, 1996.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo, Estação Liberdade/Editora Unesp, 2001.
DONALD, David Herbert. Lincoln. Simon and Schuster, 1996.
FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo, Editora Contexto, 2002.
HARTOG, François. Evidência da história: o que os historiadores veem. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira e Jaime A. Clasen. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011. (Coleção História e Historiografia - 5).
HERÓDOTO. História. Traduzido por Pierre Henri Larcher. Rio de Janeiro, W. M. Jackson, 1950. (Clássicos da Jackson - vol. XXIII e XXIV). Obra digitalizada para a Editora eBooksBrasil em agosto de 2006.
HOBSBAWM, Eric J. Introdução: a invenção das tradições. In: HOBSBAWM, Eric J; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. 6a ed, tradução de Celina Cardim Cavalcante. São Paulo, Paz e Terra, 2008.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro, Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006. (Capítulo 2: Historia Magistra Vitae: sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento).
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução de Bernardo Leitão [et. al]. Campinas, Editora da Unicamp, 1990. (Coleção Repertórios).
MARKHAN, F. M. H. Napoleão e o despertar da Europa. Tradução de Affonso Blacheyre. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1963.
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POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.
RIVOIRE, Mario. The Life & Times of Napoleon. Itally, Curtis Books, 1967. 
RÜSEN, Jörn. História viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Tradução de Estevão de Rezende Martins. Brasília, editora da UnB, 2007.
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2a ed. São Paulo: Contexto, 2009. 

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. 2a ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990.

Links relacionados: 
O ofício do historiador
História magistra vitae
Heródoto de Halicarnasso - O Pai da História
A fonte histórica e suas possibilidades na pesquisa da História
Uma tipologia dos estudos históricos: uma orientação para a pesquisa histórica

terça-feira, 25 de julho de 2017

Joana d'Arc: de bruxa a santa

Santa Joana d'Arc hoje em dia é uma figura internacionalmente conhecida e até admirada, tendo se tornado a Padroeira da França, em homenagem a sua dedicação e bravura durante os acontecimentos da Guerra dos Cem Anos (1337-1453). A proposta desse texto é contar um pouco a respeito dessa mártir que foi executada pela inquisição episcopal de Ruão, condenada por supostamente ter um pacto diabólico, mas quase cinco séculos depois foi tornada santa pela Igreja Católica Apostólica Romana. Com isso, um dos objetivos desse estudo foi entender pelo que exatamente Joana D'Arc foi acusada no tribunal inquisitorial? Tratava-se de um crime de bruxaria? Ou não passou de uma vingação pessoal ou jogada política?

De camponesa a símbolo de esperança:

Joana d'Arc hoje é lembrada pelas imagens de santa, guerreira, donzela, símbolo nacional da França, mas nem sempre foi assim, além do fato de que por certo tempo, Joana foi mal vista e mal falada, sendo comparada a uma aproveitadora, bruxa, embusteira, mentirosa, ignorante, tola e louca. Por trás de toda a imagem idealizada por pintores e escritores principalmente entre os séculos XVIII e XIX, que concederam muito do imaginário de uma Joana guerreira e donzela, sua história ainda hoje é envolta em algumas lendas e lacunas, as quais para um leitor mais atento podem ser alarmantes, vindo a levá-lo repensar suas ideias que possuía sobre Joana d'Arc. 

Joana (Jeanne no original) nasceu em data incerta, por volta de 1412,  no vilarejo de Domrémy (atualmente Domrémy-la-Pucelle), na província de Lorena. Na época a região não fazia parte da França, mas estava sob domínio do Ducado da Borgonha. Joana era a filha caçula de Jacques Darc e Isabelle Romée Darc, tendo mais quatro irmãos: Jacques, Catherine, Jean e Pierre. Os Darc - posteriormente escrito d'Arc - eram uma família de camponeses com poucas posses. Em geral a população de Domrémy era humilde. (MADDOX, 2012, p. 418). 

Se desconhece muito a respeito da infância de Joana, pois os poucos detalhes que se possuem, provém do seu interrogatório pela inquisição, quando foi indagada a respeito do motivo que a teria levado procurar o delfim (herdeiro do trono) Carlos da França. Na ocasião, Joana contou em alguns de seus depoimentos que por volta de seus 13 anos ela teve sua primeira revelação divina. Joana contou que estava cansada após trabalhar no campo, então sentou-se sob uma árvore, lá ela viu um ser de luz aproximando-se, o qual lhe dirigiu a palavra. Joana disse que se tratava de São Miguel Arcanjo, que vinha lhes dar as boas-vindas e perguntar se ela estava sendo uma boa cristã. Posteriormente, Joana narrou que teve contato com Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida da Antioquia. (BANFIELD, 1988, p. 12). 


Joana d'Arc, a Predestinação. Gaston Bussière, 1909. Na imagem, a jovem Joana encontra São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida. 
Nos interrogatórios Joana informou que continuou a ouvir essas vozes pelos anos seguintes, embora não entrou em detalhes a respeito do tema das conversas, mas em geral repetia que os santos a exortavam a sempre cumprir com os ensinamentos de Deus, e seguir regularmente a liturgia da Igreja. Por volta de seus 16 anos, São Miguel lhe teria dado a missão de ir encontrar o delfim. Para isso Joana deveria buscar o apoio de um nobre, que permitisse ela ter contato com a corte. O nobre mais importante nas redondezas de Domrémy, era Robert de Baudricourt (c. 1400-1454), governante da cidade de Vaucouleurs

Joana segundo conta em seu depoimento, saiu escondida de casa e conseguiu carona até Vaucouleurs, a fim de encontrar Robert de Baudricourt. Nessa parte da história há poucas informações. Não se sabe exatamente quando Joana chegou a cidade e por quanto tempo ali permaneceu. Todavia, Baudricourt se negou a conhecê-la e ouvir o que ela tinha a falar, pois a considerava uma louca ou fanática. Joana era uma camponesa analfabeta, pobre e com apenas 16 anos de idade, que de repente apareceu na porta da casa de Baudricourt, dizendo que Deus lhe deu a missão para que ajudasse o delfim Carlos a assumir o trono francês e combater os ingleses. 

A história de Joana logo se espalhou pela cidadezinha, e Baudricourt decidiu ouvir o que ela dizia, mas ainda assim, não se convenceu e a mandou embora. Joana acabou voltando para a casa. Porém, o ano de 1428 lhe traria uma nova tentativa. O vilarejo de Domrémy foi invadido pelos borgonheses, sendo saqueado. Na ocasião, sua população havia dias antes partido para refúgio, mas os d'Arc ao retornarem para casa, testemunharam a destruição deixada para trás. Joana a contra-gosto de sua família partiu novamente para Vaucouleurs, indo mais uma vez tentar falar com Baudricourt. (BANFIELD, 1988, p. 18).  

Joana retornou a Vaucouleurs em janeiro de 1429. Não se sabe ao certo como ela conseguiu abrigo e emprego para se manter na cidade. É provável que sua família lhe enviasse algum tipo de recurso, pois sabe-se que seus irmãos e um primo foram visitá-la antes da partida. Tendo voltado a morar em Vaucoulerus, Joana continuou a pregar sua missão e a pedir que o senhor Baudricourt lhe desse ouvidos. A história daquela jovem camponesa começou a se espalhar, e Joana dessa vez decidiu usar o caso de Domrémy a seu favor, alegando que se ela conseguisse encontrar o príncipe e o convencesse a entrar na guerra contra os ingleses e os borgonheses, novas atrocidades como a que ocorreu em Domrémy, não iriam se repetir. 

Algumas pessoas começaram a se simpatizar pela causa da jovem donzela, entre os quais Jean de Metz, escudeiro de Robert de Baudricourt, tornou-se um dos defensores da causa de Joana. Passado algum tempo, a história da camponesa de Domrémy que queria conhecer o delfim da França, chegou até a corte em Chinon. Joana havia se tornado uma figura pública, era referida como uma gentil, alegre, recatada e devota jovem. Não se sabe ao certo quem autorizou Joana a viajar para Chinon, mas dada a autorização, Robert de Baudricourt a acatou, oferecendo homens, entre os quais Jean de Metz e um amigo seu, Bernard de Poulegnytransporte e mantimentos para a viagem. 

No dia 30 de fevereiro de 1429, Joana d'Arc encontrou-se com o delfim Carlos, em seu castelo em Chinon. Segundo os relatos da época, ela se ajoelhou diante do príncipe e lhe disse: "Deus lhe dê longa vida, bom rei". Depois dessa apresentação o príncipe e a camponesa conversaram, não se sabe o que foi dito, pois a própria Joana não deu detalhes sobre aquela conversa, limitando-se a dizer que ela mostrou ao rei toda a sua fé e crença de que Deus havia reservado um futuro promissor para o monarca e o povo da França. Por mais que a devoção de Joana fosse admirável como confirmam aqueles que com ela conviveram, ainda assim, sabe-se historicamente que o príncipe Carlos não concordou de imediato com Joana. (BANFIELD, 1988, p. 21).


Miniatura do século XV, representando Joana e o delfim Carlos de França. 
Na ocasião da visita a Chinon, Orleans estava tomada pelos ingleses, Joana sabendo disso, informou que o rei deveria enviar seu exército para recuperar Orleans, porém a cidade estava cercada por sete fortes ingleses. Os franceses haviam tentado anteriormente, mas perderam, porém, Joana alegava que dessa vez seria diferente, mas para isso, ela teria que ir junto com o exército. Ainda assim o delfim não se convenceu, segundo consta, ele teria cobrado de Joana alguma prova ou sinal divino de que ela estivesse dizendo a verdade. Joana teria respondido que lhe poderia lhe conceder apenas a verdade de sua palavra. 

Com isso, Carlos a enviou para Poitiers, para que fosse "examinada" pelos clérigos a fim de que comprovassem a veracidade de sua fé. Joana passou semanas sendo interrogada e observada pelo bispo e os padres, sendo confrontada com várias perguntas e até mesmo sujeitada a um teste de virgindade, pois corriam boatos de que ela teria seduzido alguns homens para poder conseguir ajuda em permanecer em Vaucouleurs e até mesmo para viajar a Chinon. No fim os clérigos atestaram que ela era sã, realmente era uma cristã devota, mas não tinham certeza se de fato ela dizia que ouviu os santos e que Deus havia lhe dado a missão de ajudar o delfim. (BANFIELD, 1988, p. 23).

Sendo liberada pelos clérigos, Joana retornou a Chinon, dessa vez o delfim estava um pouco mais convencido, então decidiu arriscar enviar um exército a Orléans. Mas diferente do que se ver em alguns romances e filmes, Joana d'Arc não comandava as tropas, pois ela além de ser mulher, não dispunha de experiência na arte da guerra. O fato de uma camponesa que não possuía sangue nobre, dispor do título de cavaleiro, inclusive recebendo armadura e o brasão de armas de um, além de acompanhar o exército, foi algo não apenas inusitado, mas que não agradou parte do comando militar. 


Pintura de 1505, retratando Joana d'Arc vestida como cavaleiro. 
Durante as campanhas que participou, Joana de início não era bem vista pelos militares, ela os repreendia pela jogatina, a bebedeira, a grosseria, a luxúria, pois era comum algumas prostitutas se estabelecerem próximas a acampamentos militares. Por outro lado, os comandantes não davam ouvidos a Joana, a consideravam um estorvo. De fato o papel de Joana em Orléans foi mais simbólico do que de comando. Alguns dos seus companheiros de armas, relatam que Joana era deixada fora dos planos de guerra, pois os comandantes não confiavam na falta de experiência dela e tão pouco estavam seguros em sua fé. (BANFIELD, 1988, p. 25).

Todavia, a medida que os franceses tomavam os fortes dos ingleses, a confiança em Joana foi aumentando, pois ela desde o começo da campanha havia dito que os franceses recuperariam Orléans. O forte de Saint-Loup foi tomado em 4 de maio. Na ocasião Joana chegou depois do começo da batalha, mas teria ficado cavalgando na retaguarda, balançando seu estandarte com a imagem de Cristo e dois anjos, e gritando palavras de motivação. No dia 5 foi a vez do forte Saint-Jean-Le-Blanc ser tomado, no dia seguinte o forte de Les Augustins se rendeu. Os franceses em três dias haviam conquistado três fortificações, algo que não haviam feito em meses de cerco. A crença de que Joana realmente pudesse dar boa sorte ou estivesse falando a verdade se espalhou pelo exército. No entanto, o teste derradeiro ainda estava por vir. 


Mapa do cerco de Orléans, abril de 1429. 
Durante a tomada do forte de Les Tourelles, o qual se revelou a batalha mais difícil daquele cerco, muitos homens morreram e Joana foi ferida. Alguns relatos dizem que ela foi flechada no ombro, outros dizem que ela foi atingida por uma lança. Graças a armadura ela não teve um ferimento mais grave, mas isso obrigou-a ser socorrida por seus escudeiros. A frente de ataque francesa recuou, após a frustração da primeira investida. Les Tourelles resguardava o acesso a ponte que os levaria direto a cidade. Joana conta que devido ao ferimento não ser grave, ela retornou ao campo de batalha após os primeiros-socorros e novamente empunhando sua bandeira exortou os homens para um novo ataque. No final do dia 7 de maio de 1429, Les Tourelles se rendeu. 

A tomada de quatro dos sete fortes ingleses, incluindo o resistente Les Tourelles, levou o exército inglês optar pela retirada. Orléans não deveria custar tanto sangue assim para ser mantida. No dia 8 de maio, os sinos da cidade badalavam celebrando a retirada do exército invasor e saudando o exército francês. Joana havia se tornado um símbolo de esperança. As pessoas cantavam hinos e uma procissão foi realizada para dar boas-vindas ao exército, Joana foi recebida como uma heroína. Posteriormente ela foi chamada de a Donzela de Orléans (La Pucelle d'Orleans). (MADDOX, 2012, p. 429). 


Joana d'Arc e o Cerco de Orléans. Jules Eugène Lenepveu, 1890. 
A fama de Joana d'Arc começou a se espalhar após a vitória em Orléans, tanto entre os franceses, quanto entre seus inimigos, os ingleses e borgonheses. Ao retornar a Chinon, Joana recebeu vários presentes do delfim e de outros nobres, em retribuição a sua motivação e determinação em sempre incentivar os homens a acreditarem no esforço e na vitória. 

A primeira missão de Joana d'Arc estava completa, agora ela partia para a segunda: coroar Carlos como rei da França. Tradicionalmente a coroação dos reis franceses era realizada em Reims, pois o rei Clóvis I do Francos (c. 466-511), foi ali coroado em 496, por São Remígio. Pelo fato de ter sido o primeiro soberano franco a unificar a Frância e a se converter ao cristianismo, tornou-se costume que todos os reis cristãos francos fossem coroados em Reims. Porém, a cidade apesar de estar sob domínio francês, a estrada de Chinon até lá, estava ocupada por tropas inglesas. Joana teria que abrir caminho. (MADDOX, 2012, p. 419). 

Três poderosos comandantes ingleses se encontravam no caminho para Reims, o cavaleiro Sir John Fastolf, William de la Pole, o 4o Conde de Suffolk e Lorde John Talbot. Após a vitória em Orléans, a população estava confiante e o exército também, acreditavam que realmente Joana possuía uma aura misteriosa que lhe concedia proteção e sorte na guerra, com isso, Carlos ordenou que suas tropas se preparassem para abrir caminho até Reims, cidade que distava 25 milhas (40 quilômetros). As batalhas se desenrolaram entre 11 a 17 de junho de 1429. Os franceses obtiveram vitórias consecutivas em Jargeau, Meung, Beaugency e Patay. (MADDOX, 2012, p. 432). 

O conde Suffolk e lorde Talbot foram feitos prisioneiros, e durante a batalha de Patay (17 ou 18 de junho), grande parte do exército inglês foi morto e feito prisioneiro. Talbot foi capturado, mas Fastolf conseguiu fugir. Tal feito foi tão grande que lendas surgiram a respeito, pois na época os três comandantes dos franceses, Le Hire, Joana d'Arc e Jean de Xaintralles dispunham de 1.500 homens, mas os ingleses comandados por John Talbot e John Fastolf contavam com 5 mil soldados. Desse total, quase 3 mil foram feitos prisioneiros, enquanto que os franceses tiveram apenas 100 baixas. (BANFIELD, 1988, p. 35). 

Após a vitória em Patay, a coroação de Carlos VII pôde ser realizada na Catedral de Reims. Joana na ocasião trajava vestes militares, uma armadura e ostentava sua bandeira de guerra. Sua segunda missão havia sido cumprida, Carlos havia sido coroado rei da França. Esse era o ponto alto da sua rápida carreira e ascensão. Joana era na época vista como uma heroína. 


Coroação de Carlos VII da França. Jules Eugène Lenepveu, 1890.
Traição e aprisionamento:

Após a coroação do rei, Joana aguardava as ordens para dar continuidade a sua missão, no caso seu terceiro objetivo era reunificar o Reino da França. Para isso ela teria que conquistar uma vitória definitiva sobre os ingleses e os borgonheses que ainda ocupavam o noroeste e norte do país. Mas para a surpresa e insatisfação de Joana, Carlos VII não era dado a guerras, era um líder frágil ainda naquele tempo, e após ser coroado tornou-se acomodado. 

Uma das medidas que o novo monarca decidiu tomar, ocorreu em 3 de agosto de 1429, Carlos VII assinou um armísticio com seu primo, o rei Filipe III de Borgonha. Neste caso, Filipe de Borgonha era um soberano pomposo, extravagante, admirado, firme e mulherengo. Enquanto seu primo Carlos era acomodado, Filipe era mais engajado na guerra e na política, o acordo entre os dois soberanos era vantajoso, ninguém atacava o território oposto, mas as cidades que estavam sob domínio borgonhês ainda permaneciam sob seu controle. Aquilo não agradou Joana, a qual por um mês permaneceu na corte desanimada pelo fato de seu rei não acreditar em sua missão. 

Entretanto, a cidade de Paris, antiga capital francesa, não entrou no acordo do armísticio, com isso, Joana solicitou ao rei que lhe permitisse libertar a cidade. A contragosto, Carlos VII deu a autorização. O ataque a Paris ocorreu entre 7 e 8 de setembro, quando ainda no dia 8, Joana que haviam perdido um de seus pajem, e foi ferida em uma das pernas, recebeu a mensagem que o rei ordenava suspensão do cerco e retorno a Reims. Joana deve ter ficado zangada ou bastante aborrecida, inclusive é também um fato contraditório o por que exatamente o rei decidiu abortar o ataque? Os motivos não são conclusivos, mas talvez tenham ligações políticas. (BANFIELD, 1988, p. 47). 

Ao retornar para a corte, Joana passou os meses seguintes no ócio, tendo saído apenas a campo em novembro, para participar de algumas campanhas para conter pequenas revoltas, mas visivelmente os planos do novo monarca de lutar para restaurar a França, estavam perdidos. Carlos tentou acalmar o descontentamento de Joana, apesar de parecer não querer mais seus serviços, tê-la por perto era manter todo seu simbolismo ainda ativo. Afinal Joana d'Arc havia se tornado de uma mera camponesa de Lorena, na heroína da França. 

Em dezembro de 1429, o rei concedeu a Joana o título de nobre e lhe deu a autorização para portar brasão de armas e o sobrenome de Lys, passando-a a designá-la Joana de Lys. Os irmãos de Joana, Jean e Pierre foram convidados pela irmã a se unir a sua corte, e adotaram o sobrenome de Lys. (MADDOX, 2012, p. 419). Embora que na prática Joana não costumasse a usar o novo sobrenome. Inclusive durante seu interrogatório na prisão, ela se nomeava como Joana d'Arc. 


Brasão de armas de Joana d'Arc

Meses se passaram, e chegando em maio de 1430, Joana decidiu tomar uma medida drástica. Não se sabe ao certo os motivos de ela ter desobedecido o rei Carlos VII, porém, Joana contratou uma tropa de mercenários e convocou alguns de seus amigos. Se o rei não estava disposto a ir à guerra, ela iria por conta própria. A missão era atacar os territórios sob domínio dos borgonheses. A cidade alvo era Compaigne. Segundo uma lenda, Joana e sua tropa, enquanto passavam a Páscoa em Melun, cidade no caminho para Compaigne, lá Joana teria tido uma revelação de um dos santos, que lhe disse que ela seria capturada antes do dia de São João, celebrado na França em 24 de maio. (BANFIELD, 1988, p. 48).

Se Joana teve essa revelação ou não, ainda assim, ela decidiu seguir com sua campanha. No dia 22 de maio eles chegaram a Compagnie, e no dia seguinte ocorreu o conflito contra os borgonheses. A pequena tropa de mercenários de Joana era insuficiente para confrontar o poderio inimigo. Após uma batalha dentro dos muros da cidade, Joana foi derrubada de seu cavalo e feita prisioneira. Era o dia 23 de maio de 1430. Nesse ponto sua história tomou uma reviravolta.

Tradicionalmente os nobres quando eram feitos prisioneiros, isso se devia ao fato de que se pediria um gordo resgate para libertá-lo. Pelo fato de Joana independente de ser um cavaleiro e uma heroína, era antes de tudo uma nobre, logo, ditava a cordialidade cavaleiresca em se acatar o pedido de resgate, porém, o rei Carlos VII negou-se a pagá-lo. Dizem que ele mesmo recebendo críticas de outros nobres e até do povo que admirava Joana, ainda assim, manteve-se insensível ao caso. Os motivos pelos quais o rei negou-se a resgatar Joana, ainda hoje não são totalmente conclusivos. 

Joana d'Arc foi mantida prisioneira dos borgonheses por um ano. Devido a ser uma nobre, foi mantida em prisão domiciliar no castelo de Beaurevoir, sob custódia do duque João de Luxemburgo. Nesse ponto a história da prisão de Joana é mal explicada. Sabe-se que ela foi tratada bem durante o período que permaneceu no castelo de Beaurevoir, porém, o fato de nenhum nobre francês se dispor a pagar o seu resgate é estranho. No fim, o responsável por libertar, mas também por condenar Joana foi Pierre Cauchon, bispo de Beauvais. (MADDOX, 2012, p. 437).

Enquanto a corte francesa não apresentava consenso pela soltura de Joana, pois houve tentativas de pagar o resgate, a corte inglesa decidiu tomar a frente: ofereceram na época 10 mil francos para ter Joana não livre, mas como prisioneira da Inglaterra. A ideia era mandá-la a julgamento, afinal, Joana era inimiga dos ingleses, tendo participado de batalhas que levaram a sua derrota. No caso, o bispo Cauchon também tinha interesse em julgar Joana, pois considerava ela uma farsante e talvez uma bruxa. Joana havia conquistado notoriedade com base na fé, e até mesmo subestimado a autoridade eclesiástica, principalmente durante as semanas que esteve em Poitiers. Com isso, foi acordado que os ingleses receberiam a custódia de Joana, mas ela seria julgada pela inquisição. 

O processo inquisitorial:

Joana foi retirada da custódia do duque de Luxemburgo e enviada para Ruão, capital da Normandia, na época, território francês ocupado pelos ingleses. Ela chegou no começo de dezembro, tendo sido enviada para uma cela suja e escura, sua nova morada pelos meses seguintes. Em 9 de janeiro de 1431 o processo inquisitorial contra Joana foi iniciado. Nessa primeira fase colheu-se provas e testemunhos. Os interrogatórios se iniciaram em 21 de fevereiro. Consistindo em um de sete dias de julgamento, os quais chegavam a levar horas. No caso, um dos inquisidores que a julgaram, foi o próprio bispo Pierre Cauchon, que fez questão de solicitar autorização a inquisição para participar do processo de Joana. Cauchon representava os franceses, do lado dos ingleses estava o cardeal Henrique Beaufort. Apesar de ter havido outros inquisidores, o bispo e o cardeal foram os principais deles. (BANFIELD, 1988, p. 59).

Muito do que se conhece da história de Joana adveio durante estes dias de julgamento, pois os inquisidores lhe indagavam a respeito de sua vida e detalhes sobre as vozes que ouvia, sua viagem a Vaucouleurs, a viagem até Chinon, sua participação nas batalhas, a vida na corte etc. Porém, o que irritava os juízes era o fato de que quando pediram que Joana lhe contasse a respeito das suas conversas que possuía com os santos, ela respondeu que Deus não a havia autorizado revelar a aqueles homens o teor dessas conversas. Joana apenas limitou-se a confirmar suas três missões: libertar Orléans, coroar Carlos VII, unificar a França. 

O fato de Joana negar-se a revelar o teor das conversas que dizia ter com os santos Miguel Arcanjo, Catarina de Alexandria e Margarida de Antioquia irritou os inquisidores, pois consideravam demasia prepotência da ré em desafiar a autoridade eclesiástica e inquisitorial. De fato, uma das acusações feitas a Joana foi o desrespeito a autoridade inquisitorial, algo que na época era considerado uma ofensa que recebia pena. 

Outro fator que pesou contra Joana, que também estava relacionado com as vozes que ela dizia ouvir dos santos, alguns inquisidores acusaram de que na verdade se tratavam de vozes de demônios, pois os santos mortos não se comunicavam com os vivos. No século XV a ideia de que ouvir os mortos, ou ver supostamente anjos ou santos, era considerada ou charlatanice, mentira ou pacto diabólico. 

Desde 1326 a Igreja através da bula Super Illius Specula, associava a feitiçaria com Satanás. Neste caso, boatos advindos inicialmente dos franceses, mas principalmente dos ingleses, sugeriam que as vitórias conquistadas contra eles se deveria ao fato de que supostamente Joana teria usado algum tipo de magia para conseguir tal feito. Apesar de a Caça às Bruxas só ter se iniciado propriamente na segunda metade do século XV, na primeira metade, casos de bruxaria já estavam sendo julgados ocasionalmente. Acreditava-se que uma bruxa era a mulher que renegava a sua fé (apostasia) e fazia um pacto com o Diabo, passando a servi-lo (idolatria), em troca de receber informações, conhecimento e poderes. (VILAR, 2015). 

Nesse sentido, em dados momentos dos interrogatórios de Joana, os inquisidores a indagaram se as vozes que ela ouvia eram mesmo de santos, ou não seriam demônios? Joana em todas as ocasiões negou tal acusação, dizendo que ela era uma cristã e católica devota, que as vozes eram dos santos de Deus. Apenas isso não bastaria para acusa-la de bruxaria, já que ele negava que soubesse magia ou fosse devota de Satã, porém, a condição de ela sempre dizer que conversava diariamente com os santos, intrigava os juízes. Se Deus havia reservado planos para ajudar o povo francês, por que não procurou pelo cardeal, bispos ou algum outro clérigo, mas justo foi escolher uma camponesa analfabeta e pobre, dos cantões da Lorena? 

"De acordo com a teologia da época, os ministros da Igreja recebiam poder e inspiração diretamente de Deus. Assim, para amar e obedecer a Deus era preciso amar e obedecer à Igreja e a seus ministros. A evidência de que Joana colocava sua lealdade a Deus acima da lealdade à Igreja, tornou-se clara desde o primeiro dia do julgamento. Mostrou-se pela primeira vez em sua recusa de prestar juramento para revelar tudo o que suas vozes lhe haviam dito". (BANFIELD, 1988, p. 61).

Joana além de tais acusações, também foi acusada de supostamente ter matado alguns soldados, porém, ela relutou em confirmar isso, dizendo que apesar de usar armadura e ir para o campo de batalha, ela jamais matou alguém. Alguns de seus companheiros de luta confirmaram tal condição. Além disso, até onde se sabe, Joana não recebeu treinamento militar. Outra crítica feita dizia respeito que enquanto esteve presa em Ruão, ela se negou a vestir trajes femininos, usando as vestes masculinas de um pajem, um tipo de serviçal. 

Aqui temos três problemas: um, o fato de ela se recusar a obedecer uma ordem dos juízes; trajar vestes masculinas, que era algo imoral na época, apesar de que ela só usasse armadura no campo de batalha e em alguns festejos, mas normalmente ela trajava vestidos. Joana era conhecida por apreciar o requinte, ela mesmo confirma isso em seu depoimento. O terceiro problema era o fato de que ela era uma nobre, logo, era indecoroso está vestida como uma serviçal, embora Joana nunca rejeitou sua origem humilde, alegando que tal fato não a incomodava. 

Como Joana negava-se a confirmar culpa ou a dar explicações mais satisfatórias, no dia 9 de maio, ela foi ameaçada de ser torturada. No caso, a tortura era utilizada pela inquisição desde o século XIII, embora não fosse aplicada sempre e houvesse normas para seu uso. Mas mesmo sob ameaça de tortura,  Joana negou-se a confessar alguma culpa, pois se declarava inocente. Nas semanas seguintes os inquisidores decidiram torturá-la de outra forma, deixando-a a passar fome e sede na prisão, no intuito de enfraquecê-la. Em alguns casos eles iam até a cela e tentavam tirar-lhe uma confissão. No sistema de julgamento inquisitorial, a sentença de pena somente poderia ser emitida se o réu ou ré confessasse sua culpa. (MADDOX, 2012, p. 438-439). 

Falhado as tentativas de pressioná-la no cárcere, Joana foi levada no dia 24 de maio, até o cemitério de Saint-Ouen, onde foi acusada publicamente diante de várias pessoas, além de ser severamente ofendida. O padre Guillaume Erard proferiu um mordaz sermão contra Joana. Ele se encontrava sobre um palanque usado para enforcar prisioneiros e condenados. De cima do palanque ele acusava Joana e cobrava sua retratação e culpabilidade. Joana resistiu a aquela tortura psicológica por algum tempo, até que acabou cedendo. Ela se retratou, dizendo que abandonava suas vozes e perdia perdão a Deus e a Igreja. Todavia, no dia 28 de maio, Joana voltou atrás e recusou sua retratação. Segundo ela, os santos criticaram sua atitude de ter vacilado naquele momento, em vergonha a estes, ela retirou sua retratação. (MADDOX, 2012, p. 439). 

O fato de Joana ter voltado atrás, era considerado demasiadamente problemático  para ela. Um criminoso que havia confessado a culpa, voltar atrás e dizer que era inocente, era tachado de sem vergonha, canalha, mentiroso etc. Tal fato foi o motivo final para que Joana definitivamente fosse acusada a pena de morte. O bispo Pierre Cauchon leu a sentença final, acusando Joana de heresia grave por mentir sobre a procedência das vozes que dizia ouvir, por ter enganado a muitos, por ter desobedecido e insultado os ministro de Deus e a autoridade da Igreja e da Inquisição; por ter supostamente renunciado a sua fé, e se submeter as tentações demoníacas. (BANFIELD, 1988, p. 74). 

Joana d'Arc foi condenada a pena de morte na fogueira, em 30 de maio de 1431, aos 19 anos de idade. Uma pira foi erguida na velha praça do mercado, no centro de Ruão. Trajada com uma batina branca, veste comum dada aos culpados, e usando uma insígnia na cabeça com a imagem de dois demônios e contendo quatro palavras, que estavam relacionados com os crimes de que era acusada: heresia, relapsa, apóstata e idolatria


Execução de Joana d'Arc. Jules Eugène Lenepveu, 1890. 
Joana foi conduzida até a fogueira, onde foi amarrada ao mastro, teve seu traje embebido em enxofre ou óleo, para queimar mais rápido. Segundo o relato, ela teria solicitado duas cruzes: um crucifixo que foi dado por um dos soldados ingleses que fazia a guarda, e uma cruz que foi segurada por um dos funcionários da inquisição. Sua sentença foi lida e as chamas acesas. Segundo uma lenda, o coração de Joana não teria sido queimado, tendo permanecido intacto, aquilo foi considerado um milagre, uma prova de sua santidade. Outro relato diz que enquanto era queimada viva, ela gritava o nome de Jesus Cristo, pedindo misericórdia para si e para seus algozes. (MADDOX, 2012, p. 440).

Apesar de ter supostamente considerada uma bruxa, a acusação final não lhe sentenciou propriamente pelo crime de bruxaria, inclusive o fato de queimar pessoas vivas era adotado para outros crimes e não apenas o de bruxaria. A própria noção de bruxaria ainda estava em desenvolvimento na década de 1430, apenas na década de 1480 é que ela seria formalizada e oficialmente decretada pela Igreja Católica. (VILAR, 2017). Logo, dizer que Joana d'Arc foi queimada na fogueira por ser uma bruxa, não está correto, já que na sua sentença final não constava tal crime, mas sim o de heresia, como comentado acima. 

Legado: 

A família de Joana passou os anos seguintes tentando provar que o julgamento havia sido arbitrário, que Joana havia sido condenada injustamente. A absolvição dela somente se deu em 1456, quando o papa Calisto III reconheceu que o processo inquisitorial que condenou Joana d'Arc em 1431 havia agido de forma irresponsável e imprudente. Mas embora ela tenha sido inocentada e desculpas tenham sido emitidas aos d'Arc, a má fama de Joana ainda continuou pelos séculos seguintes. No século XIX, motivado pelo Romantismo, Joana volta a ganhar destaque como símbolo nacional francês, fosse através das pinturas ou da literatura, ela volta a encarnar a virgem, a guerreira e a mártir. 

Em 1909 o papa Pio X com base na investigação de três milagres realizados com freiras francesas, Teresa de Santo Agostinho, Julie Guthier e Marie Sagnier, as quais foram curadas de úlceras e cânceres, atribuiu a beatificação a Joana. Em 1920 o papa Bento XV com base em dois outros milagres ocorridos com Thérèse Belin, em Orléans, que foi curada de um grave tipo de tuberculose em 1909, e de Miss Mirandele, que possuía uma ferida profunda no pé, já infeccionada, mas foi curada. Joana d'Arc foi oficialmente feito santa em 16 de maio de 1920, atribuindo-se a data de 30 de maio, dia de sua morte, como seu dia litúrgico. 

Ainda no mesmo ano de 1920, o governo francês celebrou a canonização da santa, atribuindo-lhe o dia 8 de maio como feriado nacional, em memória ao seu valor em lutar pela nação. Posteriormente o feriado também passou a celebrar o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, tornando-se o Dia da Vitória. Joana também passou a vigorar civicamente no panteão dos heróis nacionais da França, inclusive tornando-se padroeira do país. 

NOTA: Margaret Joan Maddox (2012, p. 418) comenta que em documentos medievais e modernos encontram-se diversas variações de grafia e até de pronúncia quanto ao sobrenome da família de Joana. Maddox cita as variações de Dart, Day, Dai, Darx, Dars, Tarc, Tard etc. Assim como, diz que a atual grafia vigente, d'Arc se popularizou no XIX.
NOTA 2: Joana d'Arc ao longo dos séculos foi tema de pinturas, poemas, contos, canções, filmes, livros, jogos, séries etc. Em geral a maioria da produção artística a partir do XIX, exalta seu lado heroico e devoto, porém, antes do XIX, temos poemas, canções e escritos a degradando, acusando-o de farsante, louca, bruxa etc. 
NOTA 3: Foram produzidos alguns filmes sobre a santa, entre os quais se destacam: A paixão de Joana d'Arc (1928), Joana d'Arc (1948), e Joana d'Arc de Luc Besson (1999). Ainda no ano de 1999 também foi lançado um filme para a televisão. 
NOTA 4: Em Age of Empires 2 (1999) existe uma campanha baseada na história de Joana. A santa também é tema de outros jogos como War and Warriors: Joana of Arc (2004) e  Jeanne D'Arc (2007). 
NOTA 5: O famoso escritor brasileiro Érico Veríssimo (1905-1975) escreveu uma biografia romanceada sobre Joana. A obra publicada em 1935 adaptava a história da santa mártir para o público infanto-juvenil. 
NOTA 6: A vida de Joana também foi romanceada pelo famoso escritor americano Mark Twain (1835-1910) em sua novela Personal Recollections of Joan of Arc (1896). 

Referências bibliográficas: 
BANFIELD, Susan. Joana d'Arc. São Paulo, Nova Cultural, 1988. (Coleção Grandes Líderes). 
MADDOX, Margaret Joan. Joan of Arc (ca. 1412-1431). In: MATHESON, Lister M. (ed). Icons of the  Middles Ages: rules, writers, rebels, and saints, vol 2. Santa Barbara, CA, Greenwood Icons, 2012. p. 417-450. 2v

Referência da internet:
VILAR, Leandro. A Caça às Bruxas. Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2017/05/a-caca-as-bruxas-xv-xviii.html. 2017